domingo, 27 de fevereiro de 2011

O motivo de um projecto

-Vamos agora falar de coisas boas – diz a minha filha, na esplanada do café, sob um sol reparador.
Mostrei o costumado interesse pelos seus entusiasmos docentes. E logo ela explicou que a professora encarregada da educação sexual de uma turma sua de 11º ano já dera seis das doze horas impostas pelo Ministério, a partir deste ano, e esgotara o tema, recusando-se a continuar. Apelara para um sucessor, mas como ninguém se oferecera, provavelmente no receio da superioridade discente humilhante nesse capítulo de sexologia, a minha filha, com a alegria própria dos esforçados, lembrara aos colegas que poderia ser ela a prosseguir, retomando os temas (contidos no seu programa de Português) em algumas das suas anomalias a que a literatura de todos os tempos dera o necessário relevo - o incesto, o adultério - sendo que a homossexualidade e a pedofilia não estavam ainda grandemente registadas nas literaturas clássicas, tirando o Petrónio e o Marquês de Sade do nosso horizonte mais recuado.
Quanto ao tema do adultério, consciente ou inconsciente, pediu aos alunos que o explorassem no Auto da Índia, na própria Inês Pereira que não se eximira a tornar “cuco” o seu Pero Marques das segundas núpcias, n’ “Os Maias” - os arrebatamentos da condessa Gouvarinho - e provavelmente teriam mesmo ouvido sobre os desvarios da Luísa com o seu Primo Basílio… Quanto à pobre Madalena de Vilhena, do “Frei Luís de Sousa” poderiam sempre recordar o papel do destino na condução das tramas humanas e, eventualmente, relacioná-lo com a própria biografia de Garrett. O tema do incesto seria analisado nos irmãos de “Os Maias”, referido o da “Tragédia da Rua das Flores” entre filho e mãe …
O motivo de um projecto
E veio à baila o Rei Seleuco, a Fedra, o Édipo… Contei do meu livro emprestado para sempre – “La Machine Infernale” de Cocteau - que retomava o tema sofocliano, e logo a minha filha sugeriu que seria um bom título para o seu projecto, a máquina infernal significando esse mesmo destino a que os homens estão infalivelmente sujeitos, embora haja quem contrarie esses dizeres, na assunção dos seus actos, como o Orestes, em “As Moscas” de Sartre.
Temas apaixonantes, de facto, e eu logo alinhei, propondo-lhe, como elementos enriquecedores para os seus alunos, breves sínteses e excertos das ditas peças, como textos de apoio, talvez mais ordenados do que os que poderiam encontrar na Internet. Aceitou e propôs-me que os transcrevesse no blogue, onde poderiam ser úteis a quem quisesse pegar nesses temas, para lhes dar forma dramática, mais ou menos jocosa, como contava que os seus alunos fariam, ou para temas de debate ou expositivos…
Como o mundo do estudo pode ajudar a mocidade a ser mais criativa e alegre, como parece que o são os alunos daquela sua turma empenhada!
Eis os textos que ela lhes foi distribuindo, que não pretendem substituir-se a outras consultas, entre as quais, naturalmente, as da Internet. Textos que tive que separar, em postagens sucessivas -O Rei Édipo, Fedra, El-Rei Seleuco.

“Édipo Rei”, tragédia de Sófocles (Síntese, excertos):

(Uma tragédia – com exposição, conflito e desenlace, como estrutura interna - cuja trama se faz em perspectiva temporal de recuo, num suspense contínuo, de indícios ou pistas adensando-se, em flashbacks progressivos, do presente para o passado, gradualmente esclarecedor e incriminatório, mostrando o homem joguete das forças superiores do destino).
Personagens:
Édipo, um Sacerdote, Creonte, Coro dos Velhos Tebanos, Tirésias, o adivinho cego, Jocasta, um Mensageiro, um Servidor de Laios, um Mensageiro do Palácio
Uma praça, em Tebas, diante do palácio dos Labdacis

Exposição:
Prólogo
Édipo
aparece diante da assembleia suplicante dos Tebanos, para perguntar por que motivo estão reunidos com ramos e lamentações e espalhando incenso, diante do seu palácio.
O Sacerdote, ministro de Zeus, responde que a cidade, “sacudida pela tormenta, perece nas sementes da terra, nos gados, nos ventres das mães. Uma chaga caída do céu abrasa a cidade, é a Peste maldita.” Édipo já em tempos livrara Tebas, matando a Esfinge, devoradora de jovens. A assembleia suplicava uma nova intervenção de Édipo, para livrar a cidade da peste.
Édipo responde que, ninguém estando mais preocupado do que ele, já mandara o seu cunhado Creonte (irmão de Jocasta) ao santuário de Pythô (jogos Píticos) para que Apolo informe sobre o que ele deverá fazer.
Creonte chega e informa sobre o motivo da peste:
«Direi pois, a mensagem do deus; é sem equívoco; Febo encarrega-nos de extirpar da nossa terra a nódoa que ela alimenta; se a deixarmos crescer, ela tornar-se-á incurável.
Édipo: Por que purificação? De que espécie é a nódoa?
Creonte: É preciso banir os assassinos, ou resgatar o crime pelo crime, porque é sangue que põe a febre na cidade.
Édipo: De que crime quer o deus falar?
Creonte: Príncipe, Laios governava este país outrora, foi a ele que tu sucedeste.
Édipo: Disseram-mo, com efeito; mas eu não conheci Laios pessoalmente.
Creonte: Ele foi morto, e o deus manda-nos punir hoje sem rodeios os seus assassinos.
Édipo: Mas onde estão eles? E onde encontrar o rasto de um crime antigo? É muito difícil.
Creonte: Na própria terra, declarou o deus. O que se procura, pode-se encontrar; o que se negligencia escapa-nos.
Édipo: Foi na sua casa, no campo, ou fora das fronteiras que Laios encontrou a morte? »
Creonte responde que Laios, que fora consultar o oráculo ao estrangeiro, não voltara e que só um acompanhante regressara, dizendo que os assaltantes eram em quantidade, mas que o problema da Esfinge, “com os seus cantos insidiosos”, impedira os do palácio, na altura, de procurar resolver o enigma. Édipo dispõe-se a encarregar-se da questão:
“Pois bem, este mistério, eu o decifrarei… no meu próprio interesse abolirei esta mancha: quem quer que seja o assassino de Laios, ele já me condenou; prestar assistência ao defunto, é, pois, defender-me a mim mesmo" (ironia trágica).
Canto do Coro, invocando os Deuses, para dissipar o flagelo.

Conflito (quatro episódios seguintes):
Primeiro Episódio:
Édipo
faz ameaças contra o provável assassino de Laios, exortando os Tebanos a jamais lhe dar guarida e censurando-os por não terem resolvido o mistério do assassínio quando este fora perpetrado … “E eu, que sucedo a esse rei, eu que tenho como esposa a sua esposa e que teria os seus filhos como filhos se a sua raça tivesse prosperado – mas a fortuna, até nisso lhe foi adversa – em nome de todos estes laços, combaterei pela sua causa como se ele fosse meu pai; … "
O Corifeu incita-o a procurar Tirésias, o adivinho, e indica-lhe um primeiro indício: “Laios teria sido morto por viajantes”. Tirésias aparece e recusa-se a revelar o seu segredo (2º indício): “Vós sois todos insensatos. Nunca revelarei o que sei, porque não quero desvendar o teu infortúnio”. Édipo irrita-se contra ele: “…. Suspeito-te de ter concebido o crime e de o ter cometido….” Irritado, Tirésias faz-lhe a primeira acusação: “E eu ordeno-te, em virtude do édito que promulgaste, que nunca mais dirijas a palavra nem a estes nem a mim, porque de ti provém a mancha que contamina esta terra”! Zanga de Édipo, Tirésias precisa a acusação: “Declaro que tu estás, sem o saber, ligado a um nó infame com aqueles que mais amas no mundo e que não suspeitas a extensão da tua desgraça”. Discurso indignado e ameaçador de Édipo.
Tirésias:Já que me acusaste por ser cego, dir-te-ei eu isto: tu que tens os teus olhos, não vês nem em que abismo caíste, nem onde moras, nem de quem partilhas a vida. Sabes de quem nasceste? Dos teus, mortos e vivos, tu és inimigo sem o saber. E em breve, aproximando-se pé ante pé, terrível, e ferindo-te alternadamente pelo teu pai e pela tua mãe, a Maldição ligada ao teu sangue expulsar-te-á da tua terra. Então tu que tens tão boa vista, ficarás na noite…..” “Antes da noite receberás o dia e perdê-lo-ás”.
Édipo:Tu abusas dos enigmas e da obscuridade!”
Tirésias:Não és tu excelente a resolver os enigmas?” (….) “Declaro-te isto: o assassino de Laios que procuras desde esta manhã em grande estrondo de proclamações ameaçadoras está aqui; julgam-no estrangeiro, mas em breve descobrir-se-á que ele nasceu em Tebas por sua desgraça; perderá os seus olhos, as suas riquezas; cego, mendigo, guiando os seus passos com um cajado, errará de terra em terra estrangeira; será revelado como irmão e pai dos seus próprios filhos, e da que o gerou, filho e marido, e do seu pai rival incestuoso e assassino. Entra no teu palácio e reflecte em tudo isso…”
Canto do Coro, sofrendo pelas acusações contra Édipo, que já fora o salvador de Tebas.

Segundo Episódio
Diálogo violento entre Creonte e Édipo, aquele acusado por este de ter armado uma intriga contra ele e que é expulso do palácio, apesar da intervenção de Jocasta e do Coro.
«… Jocasta: Infelizes! Porquê esta querela insensata? Quando a pátria está tão doente, não corais, atiçando ódios entre vós? Édipo, volta ao palácio; Creonte, volta para tua casa. E não enveneneis mais miseráveis disputas».
Expulso Creonte, Jocasta, contrariada, embora, pelo Coro, quer saber de Édipo o motivo da sua cólera. Édipo explica-lhe que Creonte o acusara de ter morto Laios, em complot com Tirésias.
Jocasta explica-lhe que deve ficar tranquilo, pois Laios, outrora, fora informado por um oráculo que “ele devia morrer pela mão de um filho que ele teria de mim. E afinal foram salteadores que o assassinaram em país estrangeiro, na junção de dois caminhos (indício). Aliás, três dias após o seu nascimento, Laios tinha-lhe ligado os pés e mandara-o largar sobre uma montanha deserta. É claro que Apolo não cumpriu o seu oráculo: a criança não foi o assassino de seu pai… apesar das profecias que lhe tinham traçado o destino.» E aconselha-o a ficar tranquilo.
“Édipo: É estranho como, ao escutar-te, minha mulher, sinto o espírito perturbado, inquieto.»
Desejando Jocasta conhecer o motivo disso, Édipo prossegue: “Ouvi bem que Laios foi assassinado na junção de duas estradas?» Jocasta confirma e Édipo: «Em que região isso se passou?» Jocasta responde que na Fócida, na junção da estrada de Delfos com a de Daulis,… pouco antes de Édipo ter tomado o poder.
Édipo: “Ó Zeus, que premeditaste fazer sobre mim?». Pergunta o aspecto de Laios, Jocasta responde-lhe: “era alto; começava a embranquecer; não era muito diferente de ti». Exclamações de horror de Édipo, novas perguntas ansiosas a Jocasta, sobre o número de homens e o meio de transporte, o Servidor, único sobrevivente, fizera o relato, segundo Jocasta. E mudara de terra, ao encontrar Édipo reinando em Tebas. Édipo pede a Jocasta que o mande chamar, e, mais tranquilo, conta a sua própria história: Era filho de Políbio e de Mérope, reis de Corinto, um dia, num festim, alguém embriagado tratara-o como filho adoptado; os pais negaram mas, consultado o oráculo, Febo informou-o de “toda a espécie de horrores: eu unir-me-ia à minha mãe… seria o assassino de meu pai! » Assim, Édipo fugiu de Corinto, e, no sítio da junção das duas estradas matara um velho que o agredira e a sua comitiva. Infeliz se chama, se for ele o assassino de Laios, deverá deixar os seus e não poderá voltar a Corinto, sob pena de matar seu pai Políbio e casar com a mãe. Jocasta acalma o seu receio, insistindo na predição do oráculo, de Laios morrer às mãos do próprio filho o que era impossível, já que o filho morrera primeiro. Ambos se retiram para o palácio.
Canto do Coro, sobre a esterilidade dos oráculos.

Terceiro Episódio
Jocasta
vai oferecer aos deuses coroas e perfumes, informando os notáveis da terra sobre a loucura dos receios actuais de Édipo. Chega o Mensageiro de Corinto, com novidades: o rei de Corinto, Políbio, morrera e seu filho Édipo era chamado para governar Corinto. Édipo, chamado por Jocasta, é informado e regozija-se por não se ter cumprido o oráculo. Seu pai morrera de velhice e não às suas mãos. Quanto ao incesto, com sua mãe Mérope, diz Jocasta a Édipo: “A ameaça do incesto não deve assustar-te: mais do que um mortal partilhou em sonhos o leito da sua mãe”, embora Édipo continue receoso. Informado do motivo dos receios, o Mensageiro explica que não existe tal perigo, visto que os reis de Corinto não eram os verdadeiros pais de Édipo, que Édipo o recebera ele, Mensageiro, das mãos de um pastor da casa de Laios. Os pés inchados de Édipo eram prova do que dizia, e por isso os reis de Corinto lhe deram esse nome (Édipo = pés inchados), ao recebê-lo das mãos do Mensageiro, para o adoptarem. O Corifeu identifica o pastor que levou Édipo para o monte com o mesmo Servidor da comitiva de Laios, agora procurado.
Jocasta, apercebendo-se do crime cometido - (Anagnórise) - quer dissuadir Édipo de procurar mais esclarecimentos sobre o seu nascimento.
Desgraçado! Possas tu nunca vir a saber quem és!”
«Édipo: O pastor vem ou não? Quanto a ela, deixem-na tirar vaidade da sua rica família!»
«Jocasta: Oh! Desgraçado, desgraçado! É o único nome que me resta para te chamar! O único nome, desde agora!»
O Corifeu avisa Édipo do desespero de Jocasta, ao retirar-se, sintoma de maus presságios, levianamente, Édipo insiste em conhecer as suas origens, impaciente porque o tal pastor não chega.
Canto do Coro tentando adivinhar a origem de Édipo.

Quarto Episódio
Confrontação entre Édipo, o Mensageiro e o Pastor/Servidor sobre a identidade de Édipo. Ameaçado por Édipo, se se calasse, o Pastor decide-se a contar tudo o que sabe sobre Édipo: fora-lhe entregue por Jocasta para ser morto, receosa por um oráculo que vaticinara que aquele mataria o pai e casaria com a mãe; por piedade, entregara-o ao Mensageiro, outrora pastor de Corinto…
«Édipo: Oh!... Oh!... Como tudo é claro, agora!... Ó luz do dia, possa eu, nesta hora, voltar para ti os meus últimos olhares! Assim, eu mesmo me descobri: filho indesejável, esposo contra-natura, assassino contra-natura!»
Canto do Coro, sobre a inanidade da glória humana, e de piedade pelo herói Édipo.

(Desenlace):
Último Episódio
Um Mensageiro do Palácio
vem anunciar que Jocasta está morta
O Coro: "A desditosa! Como é que isso aconteceu?
"O Mensageiro do Palácio: Ela suicidou-se. … Louca de horror, atravessou o vestíbulo e correu para o seu quarto arrancando os cabelos aos punhados. Ela entra, afasta violentamente os batentes da porta atrás dela; chama por Laios, seu defunto esposo, recorda o passado, essa semente de que ele deveria morrer e que a tornaria mãe de uma progenitura maculada. A desgraçada gemia sobre o leito onde tinha concebido sucessivamente um marido do seu marido e filhos do seu filho. Como morreu, não sei com rigor, porque Édipo se precipitava aos uivos e não foi mais ela, desde então, foi ele, cujo desespero prendeu os nossos olhares. Ele corre aqui e além, pede-nos uma espada; quer saber onde encontrará a sua mulher, ou antes, ai de nós! a sua mãe, que o trouxe no ventre e que ele fecundou! No meio do seu furor, algum deus, sem dúvida, descobre-lha, pois nenhum de nós intervém. Soltando gritos aterradores, e como se alguém o guiasse, ele lança-se para a porta, abre os batentes, irrompe no quarto, e nós avistamos a sua mulher enforcada numa écharpe cujo nó lhe estrangulava a garganta. A esta visão, com rugidos horríveis, o desgraçado príncipe desfaz o nó e o cadáver tomba. Era horrível de ver, mas o que se seguiu aterrou-nos. Édipo arranca os alfinetes dourados que adornavam as vestes da morta, leva-os às suas pálpebras, crava os globos dos seus olhos. E grita que os seus olhos não verão mais a sua miséria e não verão mais o seu crime e que a noite lhes furtará aqueles que ele jamais deveria ver, e que eles não reconhecerão mais aqueles que ele não quer mais reconhecer. Enquanto exalava as suas queixas, ele erguia as pálpebras e espetava, espetava sem descanso… O sangue saído das pupilas corria-lhe sobre o queixo, não gota a gota, não, mas jorrava em chuva escura, aos borbotões sanguinolentos. E é a obra de ambos que rebenta, não a desgraça de um só, mas os males enredados dos esposos. A sua antiga prosperidade, autêntica prosperidade, hoje não passava de aflição, desordem, morte, vergonha, de todos os males que têm nome, nem um falta à chamada. "
O Corifeu: "Neste momento o infeliz tem um momento de tréguas?"
O Mensageiro do Palácio: «Ele grita que abram as portas, para mostrarem aos filhos de Cadmos o parricida, o filho que… em suma, horrores que não ouso repetir. Ele diz que ele próprio se vai banir, que ele não quer mais ficar entre estas paredes, amaldiçoado pela sua própria maldição. Mas precisa dum apoio e de um guia, porque a sua desgraça ultrapassa as forças humanas.»
Diálogo de lamentação horrorizada entre o Corifeu e Édipo, apelo de Édipo ao Coro para que o expulsem – «Expulsai para bem longe daqui, expulsai depressa, expulsai, meus amigos, este flagelo, este maldito entre os malditos, e de todos os mortais o mais odiado pelos deuses.»
Diálogo entre Édipo e o ponderado Creonte sobre o destino de Édipo, sobre o futuro dos filhos de Édipo, de enternecimento de Édipo sobre as suas filhas, apelo final do Corifeu aos Tebanos, para que contemplem um homem há pouco tão poderoso, agora o mais infeliz dos mortais.

“Fedra” de Jean Racine

Trata-se de uma tragédia (psicológica) sobre um tema colhido em Eurípedes, (tragediógrafo grego, conjuntamente com Ésquilo e Sófocles) sobre a paixão pecaminosa de Fedra, (casada com Teseu), pelo seu enteado Hipólito, (filho daquele), maltratado sempre por Fedra, como forma capciosa e virtuosa de ocultação do seu sentimento de amor por ele.
Tragédia em 5 actos, com as seguintes personagens:
Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas.
Fedra, mulher de Teseu, filha de Minos e de Pasiphaé, irmã de Ariana, abandonada por Teseu depois de lhe ter dado o fio condutor que o libertou do labirinto de Creta, após ter morto o Minotauro).
Hipólito, filho de Teseu e de Antíope, rainha das Amazonas.
Aricia, princesa do sangue real de Atenas, amada por Hipólito.
Enone, ama e confidente de Fedra.
Teramène, aio de Hipólito.
Isménia, confidente de Aricia.
Panope, mulher do séquito de Fedra.
Guardas.
A cena passa-se em Trezena, cidade do Peloponeso.

Acto I:
Cena I
: Hipólito e Teramène dialogam sobre a decisão de Hipólito de partir em busca do pai, há muito em aventuras pelo mundo. Hipólito dispõe-se a despedir-se de Fedra, apesar da severidade desta para com ele.
Cena II: Enone conta que a rainha Fedra tem um desgosto íntimo que a vai destruindo. Hipólito decide não se despedir de Fedra.
Cena III: Diálogo de Fedra e Enone, sobre o sofrimento daquela, e o seu desejo de renunciar à vida, silenciando o motivo, inicialmente - paixão por Hipólito - mas denunciando-o por fim:
………..
Fedra: Céus! Que lhe direi eu, e por onde começar?
Enone: Com esses vãos receios, deixai de me ofender.
Fedra: Ó ódio de Vénus! Ó cólera fatal!
Que lançaste a minha mãe em tal desvario de amor!
(*)
* (Vénus inspirou a Pasiphaé um amor insensato por um touro branco de quem esta teve o Minotauro).
Enone: Esqueçamo-lo, Senhora; e que para sempre
Um eterno silêncio esconda essa lembrança.
Fedra: Ariane, minha irmã, de quanto amor ferido
Vós morrestes nas margens onde abandonada fostes!
(*)
* (Na ilha de Naxos, por Teseu)
Enone: Que fazeis, Senhora? E que dor mortal
Vos anima hoje contra a vossa família?
Fedra: Visto que Vénus o manda, deste sangue deplorável
Sou a última a morrer e a mais miserável.
Enone: Amais alguém?
Fedra: Do amor tenho todo o furor.
Enone: Por quem?
Fedra: Tu vais ouvir o cúmulo do horror.
Amo… Eu tremo, eu estremeço a este nome fatal.
Amo…
Enone: Quem?
Fedra: Conheces esse filho da Amazona,
Esse príncipe tanto tempo por mim rejeitado?
Enone: Hipólito? Deuses grandes!
Fedra: Tu o disseste.
Enone: Justo céu! Todo o meu sangue gela nas minhas veias.
Ó desespero! Ó crime! Ó raça deplorável!.....
Fedra: O meu mal vem de mais longe. Apenas ao filho de Egeu
Sob as leis do himeneu eu me ligara,
A minha felicidade parecia que se firmara;
Atenas mostrou-me o meu soberbo inimigo.
Vi-o, corei, empalideci à vista dele
Na minha alma perdida, uma perturbação se ergueu;
Os meus olhos não viam, eu não podia falar;
Senti todo o meu corpo tremer e arder….
A minha mão sobre os altares em vão queimava incenso:
Quando a minha boca implorava o nome da Deusa
(Vénus)
Era Hipólito que eu adorava…..
Em todo o lugar eu o evitava. Ó cúmulo da miséria!
Os meus olhos nos traços de seu pai o encontravam.
Contra mim própria ousei revoltar-me;
Forcei o meu coração a persegui-lo.
Para banir o inimigo que eu idolatrava
De uma injusta madrasta a severidade afectei …..

Cena IV: Panone vem informar que Teseu morreu.
Cena V: Enone convence Fedra sobre a legitimidade actual dos seus amores, com a morte de Teseu.

Acto II:
Cena I:
Diálogo entre Aricia e Ismena sobre a morte de Teseu e a perspectiva do amor de Hipólito por Aricia.
Cena II: Hipólito confirma o seu amor por Aricia, em inflamada declaração, oferecendo-lhe a liberdade, considerando-a tão possível herdeira do trono, quanto ele próprio e o filho de Fedra.
Cena III: Teramène informa que Fedra procura Hipólito.
Cena IV: Hipólito pressiona Teramène para a partida, que o liberte de um diálogo importuno.
Cena V: Fedra pede a protecção de Hipólito para o seu próprio filho e pouco a pouco revela-lhe os motivos da sua aspereza para com ele, que escondia uma imensa paixão:

“….Hipólito: “Vejo do vosso amor o efeito prodigioso.
Por muito morto que esteja, Teseu vive nos vossos olhos;
Sempre do amor por ele a vossa alma está abrasada.”
Fedra: Sim, Príncipe, eu ardo por Teseu
Amo-o, não como o viram os infernos….
Mas jovem, encantador, arrastando atrás de si todos os corações,
Tal como eu vos vejo a vós.
Ele tinha o vosso porte, os vossos olhos, a vossa fala
Esse nobre pudor coloria o seu rosto….”
Cena VI: Teramène informa Hipólito que o filho de Fedra foi escolhido para rei de Atenas e conta-lhe sobre o boato que dá conta que o seu pai está vivo.

Acto III:
Cena I:
O remorso de se ter declarado a um indiferente Hipólito, a vergonha e o medo, no diálogo entre Fedra e Enone.
Cena II: Fedra dirige-se a Vénus, horrorizada consigo própria, raivosa contra o indiferente Hipólito.
Cena III: Diálogo entre Fedra e Enone, que avisa Fedra do regresso de Teseu. Fedra decide morrer – de vergonha, de receio de que Hipólito conte ao pai dos seus amores desonrosos:
«… Fedra: O meu esposo está vivo, Enone, isso me basta.
Eu fiz a indigna confissão dum amor que o ultraja;
Ele vive: nada mais quero saber.
Enone: O quê?
Fedra: Eu tinha-te dito; mas não quiseste ouvir.
Sobre os meus justos remorsos as tuas lágrimas foram prevalecer.
Esta manhã eu morria digna de ser chorada;
Segui os teus conselhos, morro desonrada.»
Cena IV: Teseu dirige-se efusivamente para Fedra, mas é repelido por esta.
Cena V: Desgosto e estranheza de Teseu, Hipólito decide partir, sem acusar Fedra, Teseu procura Fedra, para saber a verdade.
Cena VI: Hipólito confidencia a Teramène todos os seus receios, mas considerando-se inocente, vai procurar convencer o pai do seu amor por ele.
Acto IV:
Cena I:
Enganado por Enone que falseou a verdade, atribuindo a Hipólito o amor por Fedra, Teseu ruge ameaças contra seu filho.
Cena II: Hipólito indigna-se contra as acusações do pai e informa-o do seu amor por Aricia.
…«Hipólito: Vós falais-me sempre de incesto e de adultério?
Eu calo-me. Todavia, Fedra sai de uma mãe,
Fedra é dum sangue, Senhor, bem o sabeis,
De todos esses horrores mais cheio do que o meu.
Teseu: O quê? A tua raiva aos meus olhos perde toda a contenção?
Pela última vez, sai da minha vista:
Sai, traidor. Não esperes que um pai furioso
Te faça arrancar com opróbio a estes lugares.»

Cena III: Raiva e desgosto de Teseu contra seu filho que ele sabe que vai morrer, às mãos de Neptuno.
Cena IV: Fedra tenta convencer Teseu a poupar o filho, mas é informada dos amores deste por Aricia.
Cena V: Dor, raiva e ciúme no monólogo de Fedra, contra Hipólito, que ama outra.
Cena VI: Diálogo com Enone, a quem expulsa, porque a orientou mal:
Fedra: «Os teus pedidos fizeram-me esquecer o meu dever.
Eu evitava Hipólito e tu fizeste-mo ver.
Com que direito te encarregaste disso?
Porque é que a tua boca ímpia
Acusando-o, ousou denegrir a sua vida?
Ele morrerá, talvez, e o voto sacrílego
Dum pai exaltado, será realizado.
Eu não te escuto mais. Vai-te, monstro execrável:
Vai, deixa-me o cuidado do meu destino deplorável….»

Acto V
Cena I:
Aricia aconselha Hipólito a defender-se das acusações do pai, Hipólito, nobremente, recusa levar o opróbio ao leito do pai, acusando Fedra. Incita Aricia a fugir com ele, esta responde que não é fácil deixar a tutela de Teseu, mas promete ir ter com ele.
Cena II: Teseu pede aos deuses o esclarecimento da verdade, Aricia pede a Isménia que prepare tudo para partirem.
Cena III: Diálogo entre Teseu e Aricia sobre Hipólito, Aricia defende Hipólito, deixa a dúvida no espírito de Teseu.
Cena IV: Teseu lamenta-se pela sorte do filho, que ele condenou, pede para ver Enone, para ser esclarecido sobre a verdade.
Cena V: Panope esclarece o Rei de que Enone se lançou ao mar, conta-lhe das marcas de sofrimento e insensatez de Fedra, querendo matar-se, e pede-lhe socorro.
Cena VI: Teramène informa da morte de Hipólito por um monstro marinho. Exclamações de dor de Teseu. Téramène conta a chegada e morte de Aricia, junto do amado.
Cena VII: Teseu dirige ironias raivosas contra Fedra, esta explica como tudo se passou, antes de morrer com o veneno que tomara. Teseu dispõe-se a chorar e a honrar o seu filho amado.
…«Fedra: Os momentos são-me preciosos, escutai, Teseu.
Fui eu que sobre esse filho casto e respeitoso
Ousei lançar um olhar profano, incestuoso.
O céu pôs em meu peito um amor funesto;
A detestável Enone conduziu tudo o resto….»