sexta-feira, 29 de abril de 2011

Perguntem a Mendes

Eu acabara de ver, no canal Memória, um filme da Agatha Christie, sobre mais um mistério criminal decifrado pela esperta Miss Marple, a quem a vida folgada de solteirona, na aldeia St. Mary Mead – e chamo a atenção para esse facto, a vida matrimonial geralmente de menor competência na questão do folguedo – mas também a sua inteligência e a sua curiosidade habituaram a descodificar os vários ângulos da humana natureza com que ajudou, por analogia comportamental, os detectives seus amigos encarregados dos crimes acontecidos, a descobrirem o criminoso.
Era meia noite, noite de sombria previsão da tempestade que, neste momento, assola o nosso litoral atlântico, com violentos coriscos e trovões.
No Canal TVI24 Marques Mendes apresentava, em fúria grande e sonorosa, a sua tese de que, contrariamente à explicação também sonorosa de José Sócrates sobre o poiso de Teixeira dos Santos no dia 25 de Abril a trabalhar com a troika para bem da nossa Nação, isso se tratava de inqualificável mentira – só mais uma – do PM, pois Teixeira dos Santos não trabalhara, de facto, no dia dos Cravos, fora visto, muito simplesmente e sem troika, na sua casa de Vila Nova de Cerveira, bem distante, lá no Minho. E explicava Marques Mendes, com figurada tuba canora e belicosa, que a razão por que o Ministro Teixeira não comemorara o 25 de Abril em Belém, com os demais barões assinalados, fora apenas por uma razão política, de incompatibilidade entre o Ministro do Estado e das Finanças e o próprio Engenheiro Sócrates.
E Marques Mendes depreendia com isso como Sócrates estava só, sem Teixeira, sugerindo que assim ia também, tal como o outro, emborcando a sua cicuta, mas mais devagarinho, para a vomitar depois sobre nós outros.
E a voz de Mendes alastrava, lembrando, ponderando, concluindo. Miss Marple sempre se insinuou discretamente, encaminhando o pensamento dos amigos que pediam ajuda à sua argúcia. Mendes impunha categoricamente.
Mendes sabe, Mendes impõe. Também com argúcia.
E assim nós, que vivemos em dúvidas perenes, para sabermos o que aconteceu realmente ao nosso Ministro das Finanças, como o que aconteceu mesmo a todo este nosso país, deveremos fazer a pergunta que fez um certo moribundo, acordando momentaneamente do seu desmaio, a um Bobby que o encontrou, no livro de Agatha Christie “Why didn’t they ask Evans? – “Porque não perguntaram a Evans? ”
Mendes tem as respostas todas, perguntemos a Mendes.
Porque não perguntamos nós a Mendes?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Finuras, figuras, amarguras

Eu nunca conheci nenhum finlandês, a não ser esse que figura no tablado literário português, o oco diplomata Steinbroken, hirto respeitador dos convencionalismos aristocráticos, sem deslizes nem extravagâncias comprometedoras, segundo a pena de Eça, e que tão bem é parafraseado neste texto epistolar de Francisco Seixas da Costa, que me chegou por e-mail.
Texto revelador de um sentido crítico bem pertinente, acrescido do conhecimento histórico do nosso presente comprometido com, simultaneamente, uma capacidade de explorar, com humor, tipos humanos como esse, de perene universalidade, embora não sei se identificador da idiossincrasia diplomática desse país. Por outro lado, também permanece a dúvida sobre se tal universalidade atingiu o povo finlandês, ou se o romance queirosiano “Os Maias” é só para consumo interno de uma ínfima parte do povo português, que, afinal, também o não reconhece na sua totalidade, por escassez livresca.
Mas, excluindo os enfeites literários da sua epístola, o que conta, no caso presente, são os maquiavelismos finlandeses bem ilustrados por Seixas da Costa, aquando da entrada do país nórdico na União Europeia, em 1995, juntamente com a Suécia e a Áustria, segundo me informa a Internet.
Hoje a Finlândia prepara-se para boicotar o auxílio económico a Portugal, apesar de, segundo nos comunica o texto de Seixas da Costa, anos antes ter reconhecido o espírito de solidariedade portuguesa no seu apoio à sua própria entrada na U.E.
Leiamos, pois, a espirituosa carta deste “João da Ega” – não propriamente o iconoclasta da ficção queirosiana, mas um seu bom seguidor, na ironia e no “sentimentalismo romântico” que em si mesmo se reconhecerão, no epílogo da obra, os inseparáveis amigos Ega e Carlos:
Carta ao embaixador finlandês
"Caro Steinbroken
Por estes dias, recordo as noitadas em que nos cruzávamos nos salões dos Maias, no Ramalhete, às Janelas Verdes, nas tertúlias que o José Maria retratou no livro a que deu o nome daquela família.
Lembro-me da generosidade com que você, diplomata finlandês, era recebido naquele cenáculo, onde, com carinho lusitano mas cosmopolita, entre mesas de whist ou numa ronda de bilhar, ou ouvindo-o a si como "barítono plenipotenciário", procurávamos atenuar a sua nórdica solidão.
Muita água passou sob as pontes. Você regressou aos gelos da sua Finlândia, eu por aqui fiquei, com a escassa fortuna que Celorico me deixou.
Há uns anos, caro Steinbroken, você escreveu-me para Lisboa, dizendo do agrado com que vira Portugal apoiar, com entusiasmo, a entrada do seu país na União Europeia. Elogiou o facto de, ao contrário de outros, não termos achado que a "finlandização" havia sido um imperdoável pecado histórico de agnosticismo estratégico, um genérico triste da "realpolitik". E recordar-se-á de eu lhe ter respondido, na volta do correio, que, conhecendo-o a si, nunca o tivera por seguidor do "better red than dead".
Noutra ocasião, você veio bater-me epistolarmente à porta, pedindo que deixasse cair uma palavra nas Necessidades, com vista a evitar que Portugal cedesse a um compreensível egoísmo, por mor dos fundos estruturais, a ponto de poder criar obstáculos aos Estados bálticos, “primos” da Escandinávia, que queriam então aceder à NATO e à União Europeia. A resposta da nossa diplomacia foi, reconheça, soberba: embora o alargamento fosse um passo que tinha em Portugal um dos países mais prejudicados, adoptávamos uma visão solidária da Europa, pelo que entendíamos que um mínimo de respeito histórico nos obrigava a acolher aqueles Estados no nosso seio. Da caixa de vodka que você me mandou, com um cartão catita, a agradecer a diligência, ainda me resta uma botelha.
Pensava partilhá-la consigo, Steinbroken, numa sua próxima vinda a Portugal, à cata de sol e de olho nos corpos morenos, Chiado abaixo. Passaríamos pelo Grémio, jantaríamos no Tavares e iríamos degustar o resto dos álcoois no meu terraço, Tejo à vista. Eu contar-lhe-ia a poética aventura eleitoral do Alencar, a carreira como banqueiro da besta do Dâmaso, o folhetim da venda da “Corneta do Diabo” à Prisa, a colaboração do Cruges com os “Deolinda”, a agitação do Gouvarinho e de outros tantos, nas lides que levam às Cortes.
Mas, agora, o que me chega? Que você foi ouvido, num dos últimos dias, passeando sob as árvores onde o verde já brota, ali na Promenade, no centro de Helsínquia, recém-saído do spa do vizinho Kämp, de braço dado com um alemão, com tiradas muito pouco simpáticas sobre Portugal e os portugueses. E que dizia você? Que, afinal, o compromisso político que a Finlândia havia dado à estabilidade do euro, que servira para a Grécia e para a Irlanda, poderia já não valer para Portugal. Ao seu lado, o alemão ecoava coisas parecidas, quiçá esquecido que o meu país, como todos os outros parceiros europeus, andou anos a pagar elevadas taxas de juro, para liquidar a fatura da reunificação da Alemanha, que hoje é, como sempre foi, o grande beneficiário do mercado interno europeu.
É triste, caro Steinbroken, é muito triste que a frieza do vosso egoísmo lhes faça esquecer que a solidariedade é uma estrada de dois sentidos. Aqui, por Portugal, estamos a atravessar uma conjuntura difícil. Outras já tivemos, todas ultrapassámos. Mais recentemente, cometemos alguns erros, revelámos fragilidades que a crise sublinhou. Pensávamos poder contar com os amigos. Ao longo dos tempos, aprendemos a ser gratos a quem nos ajuda, a ser-lhes leais quando de nós necessitam. Não somos rancorosos, porque alimentar ressentimentos mesquinhos não está na nossa maneira de ser. E sabe porquê? Porque, na vida internacional, mantemos alguns sólidos valores, os mesmos que nos permitiram sobreviver nove séculos como país, um dos mais antigos do mundo, sabia?
A vossa atitude, a vossa quebra de solidariedade, porque revela o conceito instrumental que têm da Europa, para utilizar uma frase que você repetia, entre outras platitudes árticas, pelas noites do Ramalhete, “c’est très grave, c'est excessivement grave…”.
Receba um abraço, ainda amigo, orgulhosamente (quase) mediterrânico do
João da Ega
Postado por Francisco Seixas da Costa
Read more: http://duas-ou-tres.blogspot.com/2011/04/carta-um-diplomata-finlandes_19.html#ixzz1K4pkXkOr”

Não, Steinbroken não vai acatar as inconvenientes declarações de Ega/Costa, retrocedendo caminho, num apoio camarada a este país. Na realidade, ele passeia-se, actualmente, pelas ruas de uma Grécia também em apuros económicos, mas anteriores aos nossos próprios apuros, que nos fizeram estender a mão aos parceiros europeus, como já o fizera a Grécia, ainda em época da solidariedade finlandesa.
Seria, para ele, “excessivement grave”. Quanto a nós, povo português, já estamos habituados aos excessos graves.
De “décalage” entre as classes. A alta e a baixa, a média com tendência a desaparecer. No caos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

E o povo atira-se

Eu achava de bom tom debruçarmo-nos sobre os vários discursos dos vários presidentes democratas, ia mesmo disposta a explorar o epíteto “foleiro” atribuído a Cavaco Silva por um tal fulano Lello que também aparece caracterizado na Internet como “deputado e carregador de malas de José Sócrates”, mas a minha amiga não foi nisso, por não os ter ouvido, achando que nada acrescentariam ao status, e eu fiquei frustrada, porque achara que eles tinham sido bastante palavrosos, segundo o nosso costume palavreiro e que seriam escutados com unção pelos respectivos grupos de usufruintes da palavra, incluindo as respectivas esposas e familiares, e desisti, até de desdenhar da má criação do tal carregador, que tem forçosamente que ser entroncado, para poder carregar com todo o peso da bagagem socrática.
Realmente, a minha amiga hoje vinha cheia de pruridos anti-aristocráticos, que muito me custou ouvir, até porque se não fossem esses nobres que semearam beleza e palácios ao longo da história, graças ao seu poder económico aliado ao gosto do requinte, esta Terra não seria mais que um grosseiro espojar de alarvidades, de bestialidades, de espaços ligados à nossa materialidade, tais os sítios onde se come e bebe e onde se vende o que se come e o que se bebe e outras realidades mais consentâneas com a nossa natureza de instintos que Zola apelidou de “bête humaine”, expressão bem da nossa repugnância idealista.
Foi a propósito do casamento do príncipe William. Disse ela:
- É rei? É rainha? É princesa? E o povo atira-se ao chão. Aquilo é uma afronta danada. A gente vê e nem quer acreditar. Ali é que eu acredito que é perigoso vir para a rua. Mas as ruas vão estar apinhadas. Como é que o Menino Jesus encara a realeza, ele que foi tão pobrezinho? Porquê? Porquê? Que coisa mais extraordinária!
Falei noutros casos, dos que foram punidos, o pobre do Xá da Pérsia, o pobre do Ceausescu, mas considerei que o Menino Jesus não tivera nada a ver com o sucedido, ele que era mais dos nossos lados. A minha amiga, indiferente à interrupção, prosseguiu, violenta:
- Mas a Inglaterra também está com uma crise gravíssima. Não lhes ficava tão bem pôr limites? Tanto dinheiro que há para gastar com a realeza! Tanta ostentação como a destes! Acho que é demais chegar ao século XXI e o povo a arrastar-se, a esganar-se… E dizem que são civilizados!
Suspirei também, na ânsia íntima - que estas coisas não são para divulgarmos - que uma parte daqueles rios de dinheiro desviasse o seu curso sobre nós. Oh! Como nos esganaríamos para os sorver!
Sonhos.