terça-feira, 31 de maio de 2011

O que vale é que a gente não exporta

Desta vez fui eu que estranhei que a minha amiga, que tudo mostra saber de notícias e de escândalos – termos que neste momento passaram a ser sinónimos - não tivesse ouvido a trágica notícia da morte de catorze alemães causada pela ingestão de pepinos espanhóis.
Eu vira as imagens e notara que os pepinos eram muito compridos e estreitos, pendurados nos pepineiros espanhóis. Comentei que achava os nossos pepinos mais normais, pequenos, à medida das nossas posses, e a minha amiga, impressionada com as mortes germânicas, acrescentou:
- Olha, o que vale é que a gente não exporta!
Eu defendi patrioticamente os nossos pepinos, como produto sem bactérias venenosas, tratadas no rico sol nacional, que, mesmo que os exportássemos, eu tinha a certeza de que não causariam mossa na saúde de nenhum alemão. E fora, provavelmente, porque a U. E. nos impedira de os exportarmos por falta de tamanho e trato adequados, por meio de pesticidas, de preço incomportável nas nossas pepineiras, que usamos os nossos pepinos só para consumo nacional, e sem percalços para a nossa saúde, apesar das ditas pepineiras, que até temos em excesso, dentre as diversas coisas em excesso que produzimos, no nosso fértil solo nacional, banhado de luz e cor.
Mas a minha amiga observou amedrontada:
- Olha, está uma pessoa muito bem a conversar, e daqui a pouco está morta, porque comeu pepinos espanhóis!
E prosseguiu muito derrotista:
- Eu estou convencida é que a gente não come nada que nos faça bem!
Eu vi naquilo a mania dela das elegâncias e censurei-a com preceito, não direi que sem algum despeito, por não lhe chegar aos calcanhares na silhueta, mas ela concluiu melancólica:
- Eu tenho um medo da salada! É tudo perigoso.
Não percebi bem a que salada se referia. Que a minha amiga às vezes baralha.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um exemplo turco

Creio que a primeira vez que ouvi falar dos Turcos, foi por alturas do estudo da Idade Média na História Universal, lá pelo meu 4º ano do Liceu, já que no 3º nos debruçáramos sobre as Antiguidades Oriental e Clássica, antecedidas da Pré-História, que nos punha a decorar antas, cacos, machados de pedra e outros artefactos museológicos para reverenciarmos.
Foi a respeito das cruzadas que, suponho, se falou em turcos seljúcidas, nome arrevesado que guardei na memória religiosamente. Parece que os turcos eram façanhudos e um dia mesmo, tomaram Constantinopla, cidade fundada por Constantino, o liberalizador do cristianismo no Império Romano, transformando-a em Istambul, ela que já fora também Bizâncio, à mercê dos conquistadores, muitos séculos antes de Cristo. Aprendi que, com a tomada de Constantinopla, em 1453, se punha fim, não só à Média Idade, iniciando-se a Idade Moderna, como também ao Império Romano do Oriente, o que aceitei desportivamente, como dado adquirido, conquanto vexatório para a nobre casta romana, na altura já muito baralhada por conta das hordas invasoras miscigenatórias, marco diferenciador todavia, mais tarde contestado com o feito de Colombo a marcar o começo da nova Idade, por alturas de 1492, feito mais considerável do que o dos turcos, tanto mais que viria a render bons lucros ao nosso ficcionista do suspense, José Rodrigues dos Santos com o seu "Codex 632”. Pelo menos a piscadela de olho com que termina o relato televisivo das notícias diárias prova que é um homem das Américas e do suspense.
Mas a força turca só em Eça a topei verdadeiramente, na discussão no jantar no Hotel Central (Cap. VI d’"Os Maias”), a propósito duma tirada de Ega sobre a cobardia portuguesa, que Dâmaso acabara de demonstrar ao afirmar que, se as coisas se pusessem feias em Portugal, em caso de invasão espanhola, ele pirava-se para Paris criteriosamente:
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!...(…)
“- Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
- Abaixo o traidor!
Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos Turcos – sem disciplina mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:
- Não senhor… Ninguém há-de fugir, e há-de se morrer bem.”

Eça, como fora à inauguração do canal do Suez, provavelmente passeara-se por locais da Turquia e passara mesmo pela Anatólia donde terá descido ao Egipto, daí a referência do Cohen provinda da experiência queirosiana a respeito da valentia turca, para paralelo nacionalista desvanecedor, mau grado a carismática falta de disciplina que mantemos briosamente.
Os meus conhecimentos mais recentes reportam-se a uma empregada que tive, Valentina de registo, moldava de nacionalidade, que muito sofreu porque uma das filhas se enamorou de um turco por cá, o que veio enriquecer a minha cultura sobre a idiossincrasia dos Otomanos, que a Valentina muito detestava, talvez por diferença de religião, ou de estruturação económica inferiorizante do seu país, o que até a levou a procurar o nosso, na altura ainda com posses para o domínio das generosidades e o preenchimento das vagas do desleixo nacional.
Mas uma colega, viajante estival, trouxe-me em tempos um livro de história e arte – Turquie - berceau de la civilisation – que, com as belas imagens e os textos, deu para acompanhar melhor os passeios do Dr. Salles da Fonseca, que nos vai enriquecendo com os descritivos das suas viagens pela Anatólia, com as observações de confronto nacional.
E não resisto a transcrever alguns passos do seu terceiro texto – “Anatólia 3” – que bem descreve um povo trabalhador e organizado, que tanto aposta na cultura agrária como na cultura intelectual, preservando os monumentos do seu passado, no respeito pela sua história, como pelo seu povo em cuja cultura investe, de forma bem mais eficiente do que é a nossa:


“Cidadão de país com um modelo de desenvolvimento comprovadamente caduco, a minha admiração foi total com o que vi ao longo dos cerca de mil quilómetros que percorremos entre Antália – capital da «Riviera» turca – e lonjuras tais como Kusadasi e Izmir, ribeirinhas do Egeu. E como andámos para lá e para cá à procura de teatros e mais teatros tanto gregos como romanos percorrendo auto-estradas e outros caminhos mais próprios de funâmbulos, tenho a certeza de que vi de tudo e não apenas o que a propaganda nos quereria mostrar.
Mas também sei o que não vi: miséria, bairros de lata, pedintes, gandulos, florestas ardidas, campos abandonados ou graffitis. Nada disso vi e se o não vi pelos sítios que cruzei, é porque não há disso na Turquia.
O que mais me espantou foi a pujança da economia agrícola com os terrenos aproveitados até aos limites do razoável. Se ao longo de vales férteis, de aluvião, a estrada se desviava ligeiramente do sopé das montanhas periféricas, o terreno entre a estrada e as primeiras pedras da encosta estava sempre agricultado. Sem exagero, posso dizer que não vi um metro quadrado de terreno agrícola por cultivar.
Para um português atento a esse tipo de situações no seu próprio país, dá que pensar. E é claro como a água limpa que quando entramos numa cidade ao longo dessas estradas, pululam as empresas industriais e comerciais de apoio à actividade agrícola. Para quem não acredita no velho princípio de que a agricultura é a mãe dos outros Sectores económicos (indústria e serviços), vá de passeio à Anatólia e deixe-se de outras ideias, as peregrinas que nos atiraram para o actual buraco.
O resultado não espanta: a Turquia tem uma Balança Alimentar largamente superavitária, uma Balança Comercial positiva (tem que importar petróleo) e uma Balança de Transacções Correntes igualmente positiva pois, lembremo-nos, ainda há muitos turcos emigrados cujas remessas assumem uma grande importância. Tomando em conta uma política monetária algo contida, duas Liras Turcas valem um Euro. Ou seja, a Turquia é um país de moeda relativamente séria.
Outra coisa que me espantou: a raridade de lenços nas cabeças femininas.
Das estatísticas oficiais extraiu o nosso guia, o Senhor Ata, que a população turca ronda actualmente os 75 milhões de pessoas, das quais cerca de 25 milhões são da etnia curda. Cerca de 6,5 milhões (8,7% da população total) vão semanalmente à mesquita e 2,5 milhões (3,3%) fazem-no diariamente. O Ramadão é, contudo, seguido pela generalidade da população que não come nem bebe enquanto o Sol se encontra acima do horizonte. Fora disso, bebem álcool como qualquer europeu e o vinho tinto tem mesmo uma qualidade aceitável.
Quando estávamos à espera que o fim-de-semana turco fosse à 6ª feira como nos outros países maioritariamente muçulmanos, ficámos a saber que desde a implantação da República em 1923, os turcos descansam ao Sábado e ao Domingo.
Apesar da relativamente fraca influência da religião muçulmana na população, a paisagem exibe a presença de mesquitas em todas as aldeias, vilas e cidades. Curiosidade: os minaretes são todos iguais (apenas varia a decoração exterior) pelo que admito serem produzidos em série. Perguntei – mas não obtive resposta – se não seria pela justaposição de grandes manilhas em cimento. O remate superior, em bico, é também modelo único.
Mas a cena política turca está especialmente activa com o Partido no Governo a promover a islamização e com o Partido herdeiro de Atatürk (laicizante) na oposição. Os ocidentalizados (muçulmanos, de outras confissões ou agnósticos) estão nervosos com aquilo que consideram a demagogia do actual primeiro-ministro e depositam uma confiança final no Exército. Reconheçamos que na perspectiva democrática, há outros horizontes mais límpidos...”

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Fossa

A fábula de Esopo “A Gaivota e o Milhafre”
Não tem qualquer parecença
Com a canção da Ermelinda
De apelido Duarte
Que foi quase uma doença
Em tempos cá instalada
Na terra que começou
A ser paulatinamente
Despojada,
Por via do que cantou
A Duarte,
Da gaivota que voava
Em liberdade.
Com ela nos comparámos,
Na canção,
Gaivota de novidade,
De ambição,
De ingratidão,
De negação
Do antigamente,
Para a corrupção
Presente
Continuamente.
Voadores,
Mas para o fundo do poço,
Precursores
Dos tempos em que estamos -
- No fosso.
Diz o seguinte
A fábula de Esopo:

Uma Gaivota um peixe comera.
Rasgada a goela, a Gaivota morrera.
Na praia estendida,
Um milhafre a avistara
Que logo exclamou:
Mereceste o que te aconteceu,
Pois nascida pássaro,
No mar a vida passavas,
E não cuidavas
No que te sucederia
E sucedeu.
Também aqueles que as suas próprias ocupações
Decidem abandonar
Para das que não lhes competem
Irem tratar
Muito justamente vão cair
Numa desgraça qualquer
De dimensão maior.”

Um pavor!
É o que nos vai suceder
Por andarmos a mergulhar,
Gaivotas esfomeadas,
Num mar de discórdia
E de mixórdia
Sem misericórdia
E a engolir
Peixes que nos vão rasgar
As goelas
Por serem maiores do que elas.
Que nas nossas estreitas goelas
Não cabem tantas balelas
Dos moralistas milhafres,
Mas vamos assim secando
Esvaindo-nos, morrendo,
Porque os milhafres são muitos,
Rondando, torneando, volteando
Aconselhando
Enquanto vão mastigando,
Nada deixando
A não ser promessas, frases
De carroça,
Para o fosso.
Nossa!