Os Franceses tiveram, nos seus muitos autores,
Entre os melhores,
Um La Fontaine que, com as suas fábulas,
De recorte excelente,
Conselhos lhes deu
Que os ensinou,
E os moderou,
E os fez ponderar
No valor do pensar,
Para o seu dirigente
Poder governar.
É certo que também nós, Portugueses,
Nos podemos gabar
De, num Sá de Miranda, Ferreira ou Camões,
E mais escritores,
Podermos colher
Ensinamentos preciosos
E estimulantes,
Que não prezamos
Por sermos indiferentes.
Auto-suficientes.
Impertinentes.
Questão de educação,
Mais do que de outra qualquer razão.
Já veremos qual foi o ensinamento excelente
Que nos traz a fábula “A cabeça e a cauda da serpente”:
«A serpente tem duas partes distintas
Do género humano inimigas -
Cabeça e Cauda; e ambas adquiriram um nome famoso
Entre as Parcas cruéis.
Tanto que entre elas, outrora,
Surgiram debates sem roque nem rei,
Sobre o seu andamento reptante:
A Cabeça tinha marchado sempre à frente
Da Cauda, e esta ao Céu se queixou,
Como sempre lhe agradou:
E disse-lhe: “Faço inúmeras léguas.
Julgará ela que eu queira andar assim
Como serva humilde de sua Alteza,
Como quem se não preza?
Ambas do mesmo sangue,
Tratai-nos do mesmo modo!
Também eu tenho, como ela,
Um veneno pronto e poderoso.
Enfim, eis o meu pedido,
Cabe-vos ordenar
Que seja eu a preceder
A Cabeça minha irmã,
Na forma de rastejar,
Conduzi-la-ei tão bem
Que ninguém
Se vai queixar.”
O Céu satisfez tal desejo, sem pejo
E mesmo com cruel bondade.
Muitas vezes a complacência tem efeitos
De grande insanidade.
Deveria ser surdo aos cegos desejos.
Mas não foi. E a nova guia,
Que não via, de dia,
Mais claro que num forno,
Tropeçava ora num mármore,
Ora num passante, ou numa árvore.
Direita às ondas do Estígio
Ela levou a sua irmã.
Infelizes os Estados
No seu erro caídos!
Serão perdidos.»
E eis aqui a nossa imagem
Trazida pela democracia,
Ou pela “Grândola morena”,
De que é o povo que ordena,
O povo – as bases, a cauda da serpente –
Com os seus direitos equivalentes
Aos da cabeça dirigente.
O nosso rei actual
Como já o anterior,
Tem uma dívida a pagar
Que exige que vá trabalhar
Para a dívida resgatar,
E simultaneamente,
Para dar trabalho a muita gente.
O novo governante tudo promete,
E talvez ele possa cumprir,
Para o país não falir.
Mas o povo, indiferente,
Como a cauda da serpente,
Vai malhando contra as coisas,
Fazendo greves, destruindo
O pouco que há para destruir,
Indiferente aos compromissos
Assumidos,
E ao país em vias de extinção,
Que não tardará a penetrar
No Estígio da sua perdição.
Porque os demais partidos
Vão instigando, manipulando,
Deseducando
O povo incompetente,
Que, como a Cauda da serpente,
Decide que tem igual direito,
De governar.
Nada a fazer.
Leiamos, para provar
Que tal como os Franceses
Os Portugueses
Poderiam ter aprendido
Se tivessem estudado,
- Pois não lhes faltaram professores
Bons orientadores -
O que disse Sá de Miranda
A respeito deste tema
Da necessidade da Cabeça
Para melhor dirigir:
“Um rei ao reino convém;
Vemos que alumia o mundo;
Um sol, um Deus o sustém;
Certa a queda e o fim tem
O reino onde há rei segundo.
Não, ao sabor das orelhas,
Arenga cuidada e branda;
Abastem as razões velhas:
A cabeça os membros manda:
Seu rei seguem as abelhas.
A seu tempo o rei perdoa;
A tempo o ferro é mezinha:
Forças e condição boa
Deram ao leão coroa
Da sua grei montesina”.
Infelizmente,
Dos avisos não somos seguidores
Nem da ordem respeitadores,
A não ser a dos manipuladores
Que do povo se pretendem salvadores
E o país vão conduzindo, parolamente
E impunemente,
Para o Estígio.
Como a Cauda da serpente.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
sexta-feira, 3 de junho de 2011
E então a Junta?
Raramente conseguimos silenciar facetas dos eventos diários nacionais, na nossa bica fofoqueira, sobretudo as que nos ferem mais as sensibilidades educadas em valores que as mudanças políticas e sociais foram eliminando gradativamente.
Hoje falou-se da esperteza de Passos Coelho que, quando as sondagens o aproximavam de Sócrates, se mantinha modestamente pouco exigente nos pedidos de votos, aceitando a maioria com o CDS-PP para governar a nação. Nessa altura era Paulo Portas que parecia inchado, os seus companheiros de partido, e ele próprio, falando já em elevá-lo a primeiro ministro, facto que intimamente me deslumbrava, achando que, como pessoa inteligente e já longamente amadurecida nas tramas da política, com uma seriedade moral que, tal como a de seu irmão Miguel Portas parece credível, além de não se furtar ao estudo e trabalho que um cargo de tanta responsabilidade política exige, ele teria todo o direito de assumir tal cargo, desde que fosse responsável o dirigente do PSD, pondo a salvação da Nação acima das suas vaidades e ambições pessoais, que terão o seu tempo de realização, Passos Coelho não parecendo, no seu discurso moralista, sem grande precisão ainda nos dados ideológicos e pontuais - que adquirirá, certamente, com a experiência – não parecendo, digo, preparado ainda para assumir tantas responsabilidades de um país desgovernado, que tem dívidas a saldar e que tem de desenvolver difíceis meios para o conseguir.
Parecia-me que a Portas – a ambos os Portas - não faltavam as capacidades destacadas outrora por um grande poeta nosso como imprescindíveis – “honesto estudo, longa experiência, engenho” – a que acrescento a tal “seriedade” – indispensáveis para levar a empreitada da salvação do país a bom porto. Por isso, a seu tempo, se falara em Junta de Salvação Nacional.
Mas o povo parece ter mudado de parecer, ter aberto finalmente os olhos a respeito da governação que desgraçou o país, e se prepara para eleger Passos Coelho.
E Passos Coelho, mais confiante na vitória e menos humilde na ambição, já não pede só a maioria – a dois – quer a maioria absoluta, quer o bolo todo para ele, tal como Sócrates, aparentemente para ter sozinho a glória da salvação nacional – ou pessoal - sem Junta a atrapalhar.
Como sempre, o “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, a provar que nem a experiência da desgraça, trazida por uma governação de tanto dolo, de tanto engano, modera os triunfadores actuais, num pensamento mais cordato, menos ambicioso, de real empenhamento para salvar um pequeno país de vetusta idade e de ampla história.
Que é dela, a Junta, que unisse no mesmo barco pessoas dos diferentes partidos, que desejam, de facto, salvar a pátria portuguesa, Jerónimos, Louçãs, os irmãos Portas , os bons do PS, do PSD, a Heloísa Apolónia…
Que é dela, da Junta?
E só o provérbio nos acode, do gato escondido com o rabo de fora. Que é, como quem diz, as garras.
Hoje falou-se da esperteza de Passos Coelho que, quando as sondagens o aproximavam de Sócrates, se mantinha modestamente pouco exigente nos pedidos de votos, aceitando a maioria com o CDS-PP para governar a nação. Nessa altura era Paulo Portas que parecia inchado, os seus companheiros de partido, e ele próprio, falando já em elevá-lo a primeiro ministro, facto que intimamente me deslumbrava, achando que, como pessoa inteligente e já longamente amadurecida nas tramas da política, com uma seriedade moral que, tal como a de seu irmão Miguel Portas parece credível, além de não se furtar ao estudo e trabalho que um cargo de tanta responsabilidade política exige, ele teria todo o direito de assumir tal cargo, desde que fosse responsável o dirigente do PSD, pondo a salvação da Nação acima das suas vaidades e ambições pessoais, que terão o seu tempo de realização, Passos Coelho não parecendo, no seu discurso moralista, sem grande precisão ainda nos dados ideológicos e pontuais - que adquirirá, certamente, com a experiência – não parecendo, digo, preparado ainda para assumir tantas responsabilidades de um país desgovernado, que tem dívidas a saldar e que tem de desenvolver difíceis meios para o conseguir.
Parecia-me que a Portas – a ambos os Portas - não faltavam as capacidades destacadas outrora por um grande poeta nosso como imprescindíveis – “honesto estudo, longa experiência, engenho” – a que acrescento a tal “seriedade” – indispensáveis para levar a empreitada da salvação do país a bom porto. Por isso, a seu tempo, se falara em Junta de Salvação Nacional.
Mas o povo parece ter mudado de parecer, ter aberto finalmente os olhos a respeito da governação que desgraçou o país, e se prepara para eleger Passos Coelho.
E Passos Coelho, mais confiante na vitória e menos humilde na ambição, já não pede só a maioria – a dois – quer a maioria absoluta, quer o bolo todo para ele, tal como Sócrates, aparentemente para ter sozinho a glória da salvação nacional – ou pessoal - sem Junta a atrapalhar.
Como sempre, o “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, a provar que nem a experiência da desgraça, trazida por uma governação de tanto dolo, de tanto engano, modera os triunfadores actuais, num pensamento mais cordato, menos ambicioso, de real empenhamento para salvar um pequeno país de vetusta idade e de ampla história.
Que é dela, a Junta, que unisse no mesmo barco pessoas dos diferentes partidos, que desejam, de facto, salvar a pátria portuguesa, Jerónimos, Louçãs, os irmãos Portas , os bons do PS, do PSD, a Heloísa Apolónia…
Que é dela, da Junta?
E só o provérbio nos acode, do gato escondido com o rabo de fora. Que é, como quem diz, as garras.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Corridas
- Ferreira Leite disse que não estava ali para escolher um primeiro ministro, mas sim para correr com este. Ela foi muito franca. Eu tenho a impressão de que toda a gente ficou espantada. Ninguém esperava que ela fosse dizer aquilo. Ela até pediu desculpa ao Passos Coelho. Evidentemente que lhe deu um grande apoio. Ela disse isso tudo, não era preciso dizer mais nada. Que ele tem apoio dela, tem.
Aí, eu rebati. Achei que não tinha tanto apoio assim, que se eu fosse o Passos Coelho até me sentiria enxofrado com a deselegância de ouvir dizer na minha cara que ela não vinha para me eleger ministro mas para correr com o outro, se possível fosse, até da oposição.
Foi muito brutal quanto a mim, Manuela Ferreira Leite, mas viu-se que tem fibra, ao mostrar-se tão sincera diante de tantas pessoas, não só relativamente a José Sócrates, que, aliás, há muito o tem revelado, mas agora relativamente a este moço em ascensão, não sei se pela mão de algum poderoso do seu partido. Que as promoções são coisa da nossa natureza, desde que possa, e por isso até se diz que Sócrates fez uma data delas, à sorrelfa.
O Passos Coelho ouviu educadamente, sorrindo, já que ele aparenta ser educado e saber ouvir, pelo menos agora, enquanto está a pedir que o escolham, mas não sei se quando for ministro não votará a Manuela Ferreira Leite ao ostracismo, para castigo da brutalidade verbal desta antes de ele ser aquilo a que aspira, brutalidade reveladora de que há aspectos na personalidade de Passos Coelho que ela aceita mal, inteligente como é, tal como outros do seu partido, como Pacheco Pereira, o que eu acho mal, agora que precisamos de unir esforços, mesmo que não seja tão para bem da Nação como se desejaria, porque há muitas lacunas, por todo o lado.
Era, de facto, preciso que todos se unissem e guiassem o Passos Coelho, em vez de o agredirem, pois ele diz-se honesto, que é do que se precisa por cá. Para que não se deixe corromper pelo fascínio do poder ter, coisa que mais tem acompanhado os governantes daqui, de há trinta e tal anos para cá, como lepra que nos vai roendo, carcomendo, desfigurando, desfibrando , desfeando, golpeando, sem parança.
Eu preferia, todavia, que, em vez de ostracizar Ferreira Leite futuramente, para castigo do seu atrevimento discursivo, ele a escolhesse para um bom cargo ministerial, que a fizesse tomar conta da nossa nau, carregada não de ouro, canela, marfim, e menos de florete de espadachim, por falta de mosqueteiros, mas carregada de dívidas difíceis de saldar, se não escolherem alguém decente que cumpra os compromissos e saiba como fazê-lo, preferivelmente sem tanto desfalque sobre o povo.
Mas reconheço que tais desejos não passam de pobres miragens que logo se desvanecerão, segundo a minha amiga que insiste na sua frustração e que continuou no seu comentário:
- Ninguém quer largar o tacho, e a maior parte das pessoas não examina o cancro da governação de mentira. Agora, quando os economistas falam, assustam a gente até à quinta casinha. Eles dizem o pior, dizem o que nós nunca tínhamos ouvido. Aquela minha amiga, que nunca falou destas coisas disse-me : “Mas olha lá, a gente vai parar onde?” Ora, mas aquelas almoçaradas… Eu se fosse ao Passos Coelho, fazia exactamente o contrário do Sócrates, que arrebanha o povo e oferece umas prendas. Ofereceu aos miúdos uma mochila com comida lá dentro.
Eu ainda comentei que isso da mochila era uma coisa mais palpável do que a promessa dos duzentos euros no banco para os dezoito anos dos nascituros de agora, e que até podia servir para os recolher do banco, nessa altura, ou os dos filhos deles, mas a minha amiga cortou-me a palavra, que ela é que lê estas notícias dos escândalos de aliciamento e trapaça:
- São todos iguais. Menos o Portas. Também não tem estatuto. Comeu sardinhas. O povo deve pensar assim: “Se eles comem à fartazana, a gente também tem direito.” Dá vontade de dizer: “Já basta tanto arraial!”
Mas eu redargui que o arraial nos estava no sangue. E assim o fado, também já muitas vezes o frisei.
Aí, eu rebati. Achei que não tinha tanto apoio assim, que se eu fosse o Passos Coelho até me sentiria enxofrado com a deselegância de ouvir dizer na minha cara que ela não vinha para me eleger ministro mas para correr com o outro, se possível fosse, até da oposição.
Foi muito brutal quanto a mim, Manuela Ferreira Leite, mas viu-se que tem fibra, ao mostrar-se tão sincera diante de tantas pessoas, não só relativamente a José Sócrates, que, aliás, há muito o tem revelado, mas agora relativamente a este moço em ascensão, não sei se pela mão de algum poderoso do seu partido. Que as promoções são coisa da nossa natureza, desde que possa, e por isso até se diz que Sócrates fez uma data delas, à sorrelfa.
O Passos Coelho ouviu educadamente, sorrindo, já que ele aparenta ser educado e saber ouvir, pelo menos agora, enquanto está a pedir que o escolham, mas não sei se quando for ministro não votará a Manuela Ferreira Leite ao ostracismo, para castigo da brutalidade verbal desta antes de ele ser aquilo a que aspira, brutalidade reveladora de que há aspectos na personalidade de Passos Coelho que ela aceita mal, inteligente como é, tal como outros do seu partido, como Pacheco Pereira, o que eu acho mal, agora que precisamos de unir esforços, mesmo que não seja tão para bem da Nação como se desejaria, porque há muitas lacunas, por todo o lado.
Era, de facto, preciso que todos se unissem e guiassem o Passos Coelho, em vez de o agredirem, pois ele diz-se honesto, que é do que se precisa por cá. Para que não se deixe corromper pelo fascínio do poder ter, coisa que mais tem acompanhado os governantes daqui, de há trinta e tal anos para cá, como lepra que nos vai roendo, carcomendo, desfigurando, desfibrando , desfeando, golpeando, sem parança.
Eu preferia, todavia, que, em vez de ostracizar Ferreira Leite futuramente, para castigo do seu atrevimento discursivo, ele a escolhesse para um bom cargo ministerial, que a fizesse tomar conta da nossa nau, carregada não de ouro, canela, marfim, e menos de florete de espadachim, por falta de mosqueteiros, mas carregada de dívidas difíceis de saldar, se não escolherem alguém decente que cumpra os compromissos e saiba como fazê-lo, preferivelmente sem tanto desfalque sobre o povo.
Mas reconheço que tais desejos não passam de pobres miragens que logo se desvanecerão, segundo a minha amiga que insiste na sua frustração e que continuou no seu comentário:
- Ninguém quer largar o tacho, e a maior parte das pessoas não examina o cancro da governação de mentira. Agora, quando os economistas falam, assustam a gente até à quinta casinha. Eles dizem o pior, dizem o que nós nunca tínhamos ouvido. Aquela minha amiga, que nunca falou destas coisas disse-me : “Mas olha lá, a gente vai parar onde?” Ora, mas aquelas almoçaradas… Eu se fosse ao Passos Coelho, fazia exactamente o contrário do Sócrates, que arrebanha o povo e oferece umas prendas. Ofereceu aos miúdos uma mochila com comida lá dentro.
Eu ainda comentei que isso da mochila era uma coisa mais palpável do que a promessa dos duzentos euros no banco para os dezoito anos dos nascituros de agora, e que até podia servir para os recolher do banco, nessa altura, ou os dos filhos deles, mas a minha amiga cortou-me a palavra, que ela é que lê estas notícias dos escândalos de aliciamento e trapaça:
- São todos iguais. Menos o Portas. Também não tem estatuto. Comeu sardinhas. O povo deve pensar assim: “Se eles comem à fartazana, a gente também tem direito.” Dá vontade de dizer: “Já basta tanto arraial!”
Mas eu redargui que o arraial nos estava no sangue. E assim o fado, também já muitas vezes o frisei.
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