sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Susto

- E aqueles papéis cortados à tesourada? Quem é que os vai decifrar agora?
Julguei que se referisse a alguma telenovela das minhas infidelidades, tendo começado por ser adepta fervorosa da brasileira nos tempos da sua introdução cá, e acabado numa indiferença de enfastiamento:
- Não dei por nada.
- Do Sócrates. Os incriminatórios. Como é que uma pessoa vai acreditar nas gentes por cá, e na Justiça? E descobrir os enigmas das trapaças governativas? Às tantas, estes homens como o Passos Coelho apanham um susto tão grande que fogem a sete pés às responsabilidades que assumiram.
- Credo! Então para que concorreu? Ele está bem lançado! Vai pôr as coisas nos eixos. Não viu ontem em Bruxelas? No grupo da Senhora Merkel, até talvez seu novo protegido, como a Esfinge protegeu o Édipo, dando-lhe conta do segredo do seu enigma... Que a gente precisa de ser bem vista pela senhora Merkel, nossa esfinge preferida… Ainda bem que ele é jovem e bem-apessoado. Sempre é uma forma de ultrapassar os vexames da pedincha, com um exterior agradável, à falta de uma autoridade mais prestigiante.
- Acredita que ele vai conseguir?
- Ele prometeu seriedade nas contas, trabalho no Verão, rigor nas medidas… Sangue, suor e lágrimas. As lágrimas para a gente. E os feriados para ficarmos mais felizes.
- Viu aquela medida de extinção dos governadores civis? Mas são esses que têm reformas milionárias!
- Ah! Mas não são os únicos!
– declarei com experimentada convicção.
Antes que a minha amiga se alargasse em exaltações desnecessárias, chegou outra nossa amiga, que se lançou nos costumados queixumes sobre a sua saúde.
E retomámos as tristezas dos considerandos sobre o tempo que galopa. Num susto. Porque para o enigma do Além não há esfinge que valha à criatura que de manhã se move com quatro pés, ao meio dia com dois e à tarde com três. E que até às vezes se extingue sozinha em casa, abraçada à sua vida vazia. Mas não de susto.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O estado da Justiça

É de Esopo a fábula seguinte
Que tem como lugar de acção
Um Tribunal
O qual,
Embora fosse destinado
A cumprir a Justiça,
Como premissa universal
Do seu ideal,
Se mostrou desleixado
Permitindo
A crueldade e a injustiça
Como premissa
Realmente impertinente
Da sua presença:

«A andorinha e a serpente»
«Uma andorinha o seu ninho deixara,
Momentaneamente,
O qual ela fabricara
No beiral dum Tribunal.
Uma serpente até aí rastejando
Logo engolira
Os passarinhos
Que no seu lar dormiam
Muito quentinhos.
Quando voltou
A andorinha,
E encontrou
Vazio o ninho
Pôs-se a soluçar
Perdidamente,
Como quem

Muita dor sente.
Uma outra andorinha,
Sua vizinha,
Com muito amor
E amargura,

Foi consolá-la
E adverti-la
De que não só ela fora

Que seus filhos perdera.
-“Sem dúvida - respondeu esta -
Mas eu não estou a deplorar
Só dos meus filhos a morte,

Sua triste sorte,
Mas por ver espezinhar a Justiça,
No próprio lugar
Onde ela se devera
Praticar!”

A fábula mostra que a desgraça
Ataca as suas vítimas com mais rudeza,
Quando provém de quem
Não se esperaria tal crueza.»

É assim também,
Ao que se diz,
Com a nossa Justiça
À portuguesa:
Espera-se, espera-se,
E desespera-se
Porque ela falha
As mais das vezes,
Aos portugueses,
Em demoras, vícios,
Em atropelamentos
Em artifícios,
Adiamentos,
Protelamentos,
Em custas malucas,
Tão excessivas,
Em corrupção, em danação,
Em indiferença
Cruel e rude
Pela Justiça
Ideal, real,
Como deve ser
A do Tribunal.
Esperemos que mude.
Com a mudança.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Zaratustra falava assim

Já tínhamos comentado o escândalo do sangue colhido para salvar vidas humanas, metade do qual desperdiçado, incinerado, por falhas no armazenamento, e a minha amiga exaltou-se ao seu jeito exacerbado, comentando sobre os milhões que representava a importação de sangue. Também se falou nos copianços dos candidatos a juízes, nos seus exames de cruzes. E no alcance negativo das greves na Tap sobre a economia da nação…
E falou-se no texto de Pezarat Correia, que, no rastro de Ana Gomes, que ele muito admira, ao que afirmou, acusa Paulo Portas porque mentiu deliberadamente há uns anos, sobre o pretenso armamento iraquiano, após uma sua visita aos Estados Unidos. Ana Gomes limitara-se a referir os submarinos, e mais umas observações de delírio provocatório comparativo, sobre Strauss-Kahn, Correia acrescentou a questão do armamento no Iraque, inquestionável segundo Portas, que provocara a guerra que destruiria o ditador Hussein. Um mentiroso deliberado não podia, pois, ser eleito ministro, segundo Correia, indignado e esquecido.
Esquecido de que também ele mentira ao jurar defender a pátria antes dos cravos de Abril, atraiçoando as suas juras anteriores com os tais cravos. Esquecido igualmente de que o governo do Ex-Primeiro Ministro fora assente sobre alicerces de mentira e dolo e assim vivera, seis longos anos. Matando, é certo, princípios e sobrevivência, mas Pezarat fora dos que se safara, que ganhara com a sua acção de incumprimento, fora dos que sobrevivera, protegido pelo sistema, como muitos dos companheiros da destruição, convinha-lhe continuar.
Não, não lhe convinha mesmo mudar de rumo, esquecido da multiplicação dos sem abrigo, do aumento dos desempregados, do débito pátrio crescente. Um novo governo nascera, mas era preciso deitá-lo abaixo à partida, com a saliência das Gomes e dos Correias deste nosso mundo ilimitado, na pequenez de princípios.
Ia começar tudo de novo, mau grado as promessas de Passos Coelho de que não iria contra-atacar. Mas são muitos os Pezarats, são muitas as Anas das nossas pequenas saliências.
E nós assim falámos dessas e doutras coisas neste país de coisinhas. Como Zaratustra - Zoroastro nos meus tempos do liceu - falámos do Bem e do Mal, mais visível, todavia, o Mal, por cá.
Transcrevo, da Internet, princípios piedosos do Zend-Avesta que ainda hoje nos serviriam, se quiséssemos segui-los:
«Zaratustra propõe que o homem encontre o seu lugar no planeta de forma harmoniosa, buscando o equilíbrio com o meio (natural e social), respeitando e protegendo terra, água, ar, fogo e a comunidade. O cultivo de mente, palavras e acções boas é de livre escolha: o indivíduo deve decidir perante as circunstâncias que se apresentam em determinado facto. A boa deliberação, ou seja, uma boa reflexão a respeito de cada acção faz surgir uma responsabilidade social para colaborar com o projecto que Deus propôs ao mundo. Os seres humanos, portanto, possuem livre-arbítrio e são livres para pecar ou para praticar boas acções. Mas serão recompensados ou punidos na vida futura conforme a sua conduta.
Os principais mandamentos são: falar a verdade, cumprir com o prometido e não contrair dívidas. O homem deve tratar o outro da mesma forma que deseja ser tratado. Por isso, a regra de ouro do Mazdeísmo é: "Age como gostarias que agissem contigo".
Entre as condutas proibidas destacavam-se a gula, o orgulho, a indolência, a cobiça, a ira, a luxúria, o adultério, o aborto, a calúnia e a dissipação. Cobrar juros a um integrante da religião era considerado o pior dos pecados. Reprovava-se duramente o acúmulo de riquezas.
As virtudes como justiça, rectidão, cooperação, verdade e bondade, surgem com o princípio organizador de Deus Ascha, que só se pode manifestar com o esforço individual de cultivar a Tríplice Bondade. Esta prática do Bem leva ao bem-estar individual e, consequentemente, colectivo. A comunidade somente pode surgir quando o indivíduo se vê como autónomo, e desse modo pode descobrir o outro como pessoa. O ego é valorizado como fonte para o reconhecimento do próximo. Cultivado de forma sadia, o ego torna-se forte e poderoso para o homem observar a si próprio como membro da comunidade e capaz de contribuir para o bom relacionamento harmonioso com os outros seres.
Por isso, eram incentivadas as virtudes económicas e políticas, entre elas a diligência, o respeito aos contratos, a obediência aos governantes, a procriação de uma prole numerosa e o cultivo da terra, como está expresso na frase: "Aquele que semeia o grão, semeia santidade". Havia também outras virtudes ou recomendações de Ahura Mazda: os homens devem ser fiéis, amar e auxiliar uns aos outros, amparar o pobre e ser hospitaleiros.
A doutrina original de Zaratustra opunha-se ao ascetismo. Era proibido infligir sofrimento a si, jejuar e mesmo suportar dores excessivas, visto o facto de essas práticas prejudicarem a alma e o corpo, e impedirem os seres humanos de exercerem os deveres de cultivar a terra e de procriar. Essas prescrições fomentavam a temperança e não a abstinência. Assim, as exortações e interdições destinavam-se a proporcionar aos homens uma boa conduta, além de reprimir os maus impulsos.
As revelações e profecias de Zaratustra estão contidas nos Gathas, cinco hinos que formam a mais antiga parte do livro do Mazdeísmo, o Avesta. Os Gathas datam do final do segundo milénio a.C….. Originalmente, esses hinos eram transmitidos oralmente. Grande parte do Avesta original foi destruída, com a invasão de Alexandre Magno e com o domínio posterior do Islamismo. As escrituras sagradas do Mazdeísmo, o Avesta ou Zend-Avesta, como se tornaram mais conhecidas no ocidente, significam "comentário sobre o conhecimento".
O Zoroastrismo é uma das religiões mais antigas e de mais longa duração da humanidade. O seu monoteísmo influenciou as doutrinas judaica, Cristãs e Islâmicas... Como já mencionado, a base da doutrina de Zaratustra é o dualismo Bem-Mal. O cerne da religião consiste em evitar o mal por intermédio de uma distinção rigorosa entre Bem e Mal. Além disso, é necessário cultivar a sabedoria e a virtude…»
Abençoada Internet!