terça-feira, 30 de agosto de 2011

Missal

Foi a minha neta Ana que me ofereceu o livro pelos anos, com recomendações: era indispensável o conhecimento d’ Os Lusíadas, da Ilíada, Odisseia, Eneida, da Bíblia e do Santo Graal da busca de Deus, e mais uns quantos famosos, em que perpassava o Paraíso Perdido de Milton - que eu docilmente procurei na Internet - para se poder penetrar na floresta densa do livro e do seu autor, tão vastamente premiado e tão universalmente já traduzido.
Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M. Tavares, jovem de 41 anos, de admiráveis qualidades de pensamento, como fio condutor de uma intriga sem intriga, que vai ziguezagueando, em busca da Índia, ou do sentido da vida, ora em reflexão sardónica, ora em reflexão de uma sensibilidade vivida que nos deixam boquiabertos pela inteligência da percepção revelada, aparentemente incompatível com tão juvenil idade, lembrando Rimbaud, lembrando Mozart, o nosso Cesário, embora mais velho do que todos eles, provocador como eles, genial em destreza mental, implicando multiplicidade de leituras e de vivências.
Uma Viagem à Índia”, um livro para ler e reler. Pela sabedoria que emana, os conceitos disseminados sem tréguas, da aventura simbólica, de uma simbólica personagem – Bloom – português de Lisboa, viajante de avião, por Londres, onde sofre uma aventura policial, Paris, onde Bloom “passeia e vê coisas que o fazem pensar noutras coisas” e onde pousa para contar a sua aventura a um Jean M., cuja identificação poderemos extrapolar, em confronto com “Os Lusíadas”, como sendo o Rei de Melinde, como narratário directo do Gama/Bloom, este, por seu turno, narratário muitas vezes do próprio narrador, num complexo entrecruzar de intervenientes directos e de pistas de acção ou de excursos.
Porque se trata de uma epopeia, arbitrariamente e ludicamente assim designada, estruturalmente imitando “Os Lusíadas”, em igual número de cantos, repartidos em igual número de estrofes, também arbitrariamente assim designadas, na sua sequência prosística ora narrativa ora conceptual, sem ritmo nem rima, quebra-cabeças de astúcia argumentativa, com imagens e paradoxos de uma extraordinária densidade e engenho criativo, caixinha de surpresas a cada passo revelada, lâmpada de Aladino ou “abre-te Sésamo” propiciadores de riquezas de maravilha, no emaranhado de informações da modernidade contemporânea, ocidental e indiana, em que, na concisão do pensamento, o elo de ligação preferencial da acção sem intriga, no simbolismo dos dados verbais, foram os dados narrativos d’ Os Lusíadas.
Mas, contrariamente ao sentido da epopeia clássica, que narra feitos de heróis individuais, ou da epopeia camoniana, que narra feitos heróicos de um povo - o Gama figurando como personagem sem mola interior, manipulada pelas intrigas dos deuses oponentes ou defensores da sua chegada à Índia - “Uma Viagem à Índia” apresenta antes, como personagem central, um ser comum, (simbólico embora), apanhado nas malhas da vida moderna, de sofisticação e corrupção e ansiedades e aspirações, em busca de um sentido existencial em que não crê, procurando uma Índia de fuga e esquecimento de um crime que aparentemente cometeu – “Tem agora pressa, um morto atrás de si / e na sua cabeça uma linha imaginária / para a qual se deve dirigir. / Sabe que deve correr sempre, sem parar, / mas não o suficiente para alcançar o objectivo. / Eis a história. Acabou.” (I-14).
A viagem marítima lusíada que se inicia “in media res” na estrofe 19 do canto I, - “Já no largo oceano navegavam / As inquietas ondas apartando; / Os ventos brandamente respiravam…” - é referida, na estrofe 15 do livro de Gonçalo Tavares, em relação aos ventos: “Mas a natureza também aparece, e muito, / nesta viagem. / O vento, por exemplo, que poderá parecer elemento neutro, / que distribui os ligeiros incómodos por ricos / e pobres, / mas na verdade é apenas hábil: / nos fracos provoca frio e nos fortes é leve brisa que / acalma o calor excessivo.” e, na estrofe 16: “Aos palácios chega pela ventoinha domesticada, / enquanto sobre casas frágeis / se abate robusto como a tempestade. / O vento (de certos países) / maltrata a cabeça de quem acabou de cair e / massaja os pezinhos de quem está no topo. / O vento, meu caro Bloom, não é um elemento da natureza / em que possas sonhar.”
Quanto à referência ao mar, eis a estrofe 20: “Atravessa as águas também, excelente amigo Bloom, / quebra o mar em dois. / O mar é um mamífero, / o barco, o punhal do sacrifício. / Porque como todos os animais / o mar só é arrogante / até encontrar o seu dono. / Falamos do mar, mas talvez / seja a terra e o céu que exigem ser descritos. / Bloom, Bloom, Bloom.”
E o consílio dos deuses das estrofes 20-41 é, em “Uma Viagem à Índia”, transposto para um discurso aparentemente corriqueiro, cheio de advertência política e cívica: “Poderás acusar os deuses de serem possuidores / de uma técnica de governo muito particular, / que no fundo se poderá resumir dizendo: / Tudo deixa acontecer até ao fim. / Não poderás, pois, Bloom, / atribuir demasiada complexidade a este modo alto / de fechar os olhos, baixar os braços / e repousar as pernas. São os deuses, Bloom, / não são o teu assunto.” (estr., 21).
Os deuses actuam / como se não existissem, e assim / não existem de facto, com extrema eficácia. / É verdade que entre os deuses / existe uma hierarquia, / exactamente como entre os brutos / numa carpintaria / ou entre os carregadores de mercadorias de certos portos da Europa, "(estr. 22)
e o mais forte de entre os deuses, / sendo dextro, necessita pelo menos / dessa mão livre para agir. / Hierarquias existem, pois, nas flores, / nas ervas daninhas e no divino. / Da bondade ou da maldade poderás fazer / gráficos de competência, atribuir medalhas; / disparar mais balas a um que a outro.” (estr. 23)
“No fundo, a organização do universo / é um assunto de galões militares, / e o informe assusta (precisamente) / porque não sabemos se havemos de lhe dar ordens / ou obedecer. / Mas falemos ainda, Bloom, da ironia que muito / aplicaremos. / De que forma a catástrofe/ traz perturbações ao velho método / de aplicar uma distância ao mundo?” (estr. 24) …
E a leitura prossegue, no espanto de uma sucessividade de conceitos, em que a ironia desmistificadora na aparente banalidade dos dizeres compactua com uma sabedoria que desliza do princípio ao fim, e os temas da viagem do Gama são “virados do avesso” de uma forma extremamente irreverente e original.
Dificilmente num texto que se pretende breve, caberiam mais amplas referências a um livro de tão grande riqueza conceptual .
Finalizamos com a tradução, no canto III d’ Os Lusíadas, da apresentação do Gama ao Rei de Melinde, do seu país, após o percurso europeu: “Eis aqui, quase cume da cabeça / Da Europa toda, o Reino Lusitano / Onde a terra se acaba e o mar começa / E onde Febo repousa no Oceano (III 20) … e “Esta é a ditosa pátria minha amada / À qual se o céu me dá que eu sem perigo / Torne, com esta empresa já acabada / Acabe-se esta luz ali comigo” (III, 21), com o respectivo paralelo em Gonçalo Tavares, e o sentido ironicamente desmistificador e crítico da sua mensagem, até mesmo chocarreiro, contrastando com o sentido exaltante do discurso heróico camoniano:
Estrofe 20: “Chego, pois, ou a minha voz em meu nome, / chego, dizia, finalmente, ao sítio de onde parti: / Portugal, Lisboa, Rua Actor Isidoro, nº 31, 1º direito. / É um bairro simpático, / com uma mercearia em cada esquina. / Mesmo estando no centro da cidade, barulhenta / e com fumos de carros, / se tens maçãs e laranjas na tua rua / então estás praticamente no campo.”
Estrofe 21: Estrofe 22: “Ausência de indústrias e de fábricas significativas, / Eis a higiene de um país como o nosso. / E quando não há chaminés importantes / até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos. / Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país. Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar. / E a coisa assim quase dá certo.”
“Gostava de um dia regressar a Lisboa, claro, / mas já com a alegria reencontrada / e com uma mulher. (…)”.
Um amplo livro, missal que se pode ir estudando, vagarosamente, e saboreando, em cada partícula do seu discurso caricatural, dissonante, à maneira de certas composições musicais atonais contemporâneas, ou da própria pintura modernista de vários quadrantes - expressionismo, cubismo, simbolismo, o próprio impressionismo nele se impondo, na sua explosão de luz e cor.

sábado, 27 de agosto de 2011

“Querido, mudei a casa”

Basílio Horta admirei
Quando parecia defender
Políticas que eu amei.
Mas Basílio Horta mudou,
E eu não consigo entender
O seu actual arreganho
De não querer
Ver o esforço tamanho
De um Governo de um Partido
A que ele já pertenceu.

Mas de facto,
Ao longo da minha vida
Pude admirar a perícia
Com que muitos sem malícia
E antes com devoção -
Outros dirão
Por comodismo ou esperteza -
Praticam a vileza
De mudar
De política posição
Conforme lhes venha à cabeça
A distinção
Entre o melhor e o pior
Para a sua própria defesa.
Já La Fontaine o informou,
Que também ele vibrou
Com desmandos tais
Dos mortais,
E por isso o descreveu
Nos seus animais:

«O morcego e as duas doninhas»
«Um morcego de cabeça abaixada
Foi dar
Ao ninho duma doninha;
Quando esta ali chegou e o viu,
Encolerizada,
Correu para o devorar
Com toda a gana que tinha.
“O quê? Você ousa – disse ela -
Aos meus olhos aparecer
Desse jeito
E sem mais aquela,
Quando a sua raça mais não tem feito
Do que me prejudicar!
Não é você um rato? Diga-o sem ficção!
Sim, é, ou não serei eu doninha!”
“ Perdoe-me, rogou o pobre,
Não é a minha profissão,
Por vida minha!
Rato, eu! Os vilões ter-me-ão
Descrito assim, ai de mim!
Graças ao autor do universo,
A quem rezo sempre o terço,
Sou um pássaro; veja as minhas asas:
Vivam os seres singulares
Que fendem os ares!”
Valeu o seu argumento
Como de muito tento,
E a liberdade lhe foi dada
Pela doninha amansada.
Dois dias depois, o nosso morcego
Estouvado,
Cegamente vai cair
Na casa doutra Doninha
Dos pássaros, inimiga.
Ei-lo novamente em perigo grado,
Porque a Dama,
“De focinho pontiagudo
Que fossa através de tudo
Num perpétuo movimento”,
De espanto,
Estava disposta a comê-lo,
Por de pássaro se tratar
Segundo o seu entendimento.
Mais uma vez ofendido,
O morcego protestou
Contra o ultraje imerecido:
“Eu? Passar por tal? Que bobagem!
O que define o pássaro? É a plumagem.
Eu sou um rato: Vivam os ratos!
Que Júpiter confunda os gatos!”
Com mais este hábil argumento
Duas vezes salvou a sua vida
O morcego bento!”

Vários se acham que, dando de barato
Mudar de texto,
Mudar de fato,
Aos perigos, tal como ele, fazem frente.
Diz o prudente, segundo o contexto:
Viva o Rei! Viva o Presidente!”

É esta a moralidade
Da fábula de La Fontaine,
Como da nossa realidade.
Nem é preciso explicar
Ou aprofundar.
O “Salve-se quem puder”
Tem sempre actualidade.
E assim vamos vivendo,
Admirando.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

“Pessoas de bem”

Vê-se que a minha amiga anda imensamente céptica a respeito dos valores humanos, embora nenhuma de nós tenha sido tão fustigada assim pela falta de solidariedade humana. Muito menos ela, que recebe e faz contínuos telefonemas às suas amigas do outrora zambeziano da sua saudade. A verdade é que constantemente a ouço exclamar que os cães são as melhores pessoas de bem.
E hoje resolvi contar-lhe uma história de grandeza de alma de cães, que uma vizinha minha me contou dos seus. Tivera dois – o BartoK e o Shubert – dois cães que foram envelhecendo, ora livres, na estrada aberta, ora presos nas grades do jardim. E um dia veio o Sebastião, um bonito e grande cão branco, que, inicialmente, fez rejuvenescer Shubert, no seu carinho brincalhão pelo cão velho. Mas este foi perdendo forças, foi cegando, e o final chegou. Pois o Bartok e o Sebastião, acompanharam o amigo na sua decrepitude, lambendo-lhe os olhos, o pequeno Bartok dormindo encostado a ele, como sempre fizera, jamais os dois mais novos comendo ou bebendo da gamela comum, sem darem respeitosa prioridade a Shubert.
E mais uma vez a minha amiga largou o comentário sobre as melhores pessoas de bem que são os cães. Todas nós, de resto, temos histórias de gestos de amor desse grande amigo, e também de gatos.
Lembro a minha Blacky, que morreu há uns dois meses. Eu não me atrevia a ir vê-la, mas disseram-me que já tinha morrido e algum tempo depois fui levar-lhe as minhas lágrimas, chamando-a baixinho: Blackinha! E a Blacky miou o seu adeus de despedida, que esperara a visita da dona cobarde para finalmente sossegar.