quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Leucemia

Chegou-me por e-mail o estudo que transcrevo, pleno de informação (in)conveniente, reconhecida e profusamente já expendida por tantos dos nossos cérebros esclarecidos ou menos alienáveis pelas razões que impelem tantos outros a segui-las - de oportunismo, de cobardia, de interesse - os tais da transumância, na erudita expressão de Pacheco Pereira.
Um texto que poderia esclarecer melhor todo um povo, pouco preocupado, todavia, com esclarecimentos que ultrapassem a defesa dos hábitos alimentares das nossas gorduras, ou os hábitos consumistas das nossas misérias espirituais ou afectivas.
Todo ele é importante, e até mesmo os nossos ex-lavradores e os nossos ex-pescadores o poderiam reconhecer na sua exactidão. Se o lessem. Se soubessem ler. Apenas faltou a referência aos Magalhães do nosso ensino de brinquedo, como uma das aplicações dos empréstimos obtidos. Talvez seja um texto antigo, nada perdendo, contudo em actualidade.
Ei-lo:

«O conhecido sociólogo e filosofo francês Jaques Amaury, professor na Universidade de Estrasburgo, publicou recentemente um estudo sobre “A crise Portuguesa”, onde elenca alguns caminhos tendentes a solucioná-la.
“Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história que terá que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões e consequentes convulsões sociais.Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e adaptação às exigências da união.Foi o país onde mais a CE investiu “per capita” e o que menos proveito retirou. Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu na qualidade da educação, vendeu ou privatizou a esmo actividades primordiais e património que poderiam hoje ser um sustentáculo.Os dinheiros foram encaminhados para auto estradas, estádios de futebol, constituição de centenas de instituições público-privadas, fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros a empresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento a agricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderem as embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou a próximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classes superiores da administração publica, o tácito desinteresse da Justiça, frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças no que respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandes negócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmente persecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos penetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionam essencialmente como agências de emprego que admitem os mais corruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativas permaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário. Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores, assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas dispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um factor de peso nos problemas do país.[Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica, entre o PS (Partido Socialista) que está no Governo e o PSD (Partido Social Democrata), de direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder, que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado. Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mas com telhados de vidro e linguagem publica, diametralmente oposta ao que os seus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade. À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior, mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendações ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como a população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio. Mais à esquerda, o PC (Partido comunista) vilipendiado pela comunicação social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão inspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das realidades actuais.]Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos. Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação, ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse fulcral e determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, no secundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação. Ora e aqui está o grande problema deste pequeno país; as TVs as Rádios e os Jornais, são na sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, à industria e comercio, à banca e com infiltrações accionistas de vários países. Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar uma alimentação saudável, mas apenas os pratos que o “chefe” recomenda.Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entre ricos e pobres. A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e Tv oficiais, está dominada por elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos sociais democratas, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. A selecção dos gestores, dos directores e dos principais jornalistas é feita exclusivamente por via partidária. Os jovens jornalistas, são condicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos a prazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamento dos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôr em prática, está a chegar ao fim. A deserção destes, foi notória. Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por isso, “non gratas” pelo establishment, onde possam dar luz a novas ideias e à realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfano que apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas recomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da prática da apregoada democracia.Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, a fugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais célere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganhar consciência e lucidez sobre os seus desígnios.»

Um texto para meditar. Como muitos outros que outros escreveram. Aponta caminhos, na sua crítica sagaz. Inutilmente. Um país que não progride e pelo contrário, regride na educação, é um país definitivamente arrumado.
Um país estagnado.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

“Eu quero ser Primeiro-Ministro”

- O Rebelo de Sousa diz que é igualzinho. Não mudou nada.
- Nada!
-Ele, o Seguro, diz que quando for Primeiro-Ministro fará assim, fará assado. Eu quero ser Primeiro-Ministro, é o que o Seguro diz, é o que todos os Seguros querem.
- E até os menos Seguros. Pois! O déjà entendu, o déjà vu de sempre. “Le style c’est l’homme”, disse um tal Buffon. No nosso caso, “c’est la nation-même”. Qualquer um que queira ir para lá, para o Governo, é assim que dirá: “Eu quero ser Primeiro-Ministro”. E logo os do Governo ironizam contra as pretensões dos tais, esquecidos do que com eles se passara, os da oposição aliam-se, prontos para atacar quando estes lá chegarem. De momento, atacam os que lá estão.
- Só conversa! -
proclama a minha amiga, completamente céptica. - Ninguém tem soluções. Ninguém, ninguém, ninguém! Se houvesse solução, estava o País salvo!
- O que é um facto, é que eu acreditava na seriedade deles. Mas já vi que o discurso do Vítor Gaspar, que aliás nada teve nunca de vitorioso nem de generoso, mas que inicialmente se me afigurou competente, de uma subtileza de seriedade contrastante com a volubilidade farfalhuda dos habituais, não se tem mostrado nada esclarecedor, feito de promessas adiadas, sem explicitação dos motivos sobre o prometido início da nossa ascensão lá para os anos 13 ou 14, em absurdo contraste com o peso brutal sobre as bolsas – as habituais – dos menos dotados, economicamente falando, e as desgraças ascensionais dos que perdem empregos ou os não conseguem adquirir…
- E ninguém conseguiria fazer melhor.
- Não! Mau grado as promessas dos Seguros, candidatos ministeriais que gingam na sua seriedade matreira, a chamar amigos… E tem amigos. Todos os que, esquecendo a situação vilipendiosa a que fomos reduzidos por efeitos, também, da muita desgovernação corrupta anterior, criticam acerrimamente a governação actual, ignorando as contingências internas e as pressões exteriores resultantes de tudo isso e do facto de sermos como somos – dum modo geral pouco escrupulosos.
- Muita sorte ainda se o FMI não nos abandonar…
- Parece que ainda não abandonou.
- Rezemos para que não abandone.
- Oremus!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A fome

«Esfomeado, um lobo, ao descobrir
Uma ovelha no campo estendida,
Com terror do lobo desfalecida,
Aproximou-se para a tranquilizar.
Bastava que ela apresentasse
Três razões verdadeiras
Para que ele a não comesse
Deixá-la-ia partir
Com boas maneiras,
Sem a molestar.
A ovelha, confiante,
E sem nenhum carinho,
Afirmou primeiramente
Que teria dispensado perfeitamente
Encontrar o lobo no seu caminho.
Em segundo lugar,
No caso de isso se verificar,
Alegria sentiria
Se o encontrasse ceguinho;
Em terceiro lugar, já enfastiada
Por ser obrigada a pensar,
Exclamou muito zangada:
- “Pudésseis vós rebentar,
Lobos abomináveis,
Que nos fazeis guerra tramada,
A nós, gente inocente,
Que contra vós não fizemos nada
De inconveniente!”
O Lobo admitiu nobremente
Que a ovelha não mentira
Na sua argumentação
Feita tão singelamente,
Com cabeça e coração,
E deixou-a, com honestidade,
Partir em liberdade.
A fábula mostra quanto a verdade
Até sobre o inimigo tem efeito.»

Passaram muitos anos, todavia,
Desde que Esopo escreveu
Esta fábula tão velha
D’ “O Lobo e a Ovelha”
Em que a verdade era garantia
Mesmo que não houvesse filantropia.
Hoje em dia,
Os lobos estão cada vez mais distantes
Da verdadeira cortesia
Cada vez mais uivantes
Como os da fábula aquiliniana,
Fazendo orelhas moucas
Às verdades das ovelhas
Cada vez mais loucas,
Servindo de pasto aos lobos,
Que vão impondo, esfolando sem perdão,
Enquanto elas vão balindo em vão.