segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A “Competividade” do Ministro da Economia

Ouvi há pouco Álvaro dos Santos Pereira a explicar o seu plano de austeridade com a rapidez e a seriedade necessárias para se não entender nada, pelo menos as pessoas leigas ou pouco habituadas às maroscas das explicações rápidas dos inteligentes eruditos para os mais habituados à erudição. E às maroscas.
Despachou-se o ministro, deixando no ar a última pergunta do jornalista, como é hábito já ancestral entre os nossos governantes que, com esse desprezo, demonstram a distanciação do seu posicionamento governativo relativamente às bases, que simpaticamente atendiam durante as eleições. Mas frisou por várias vezes a “competividade” do meu repúdio linguístico, que o jornalista repudiou também, ao resumir o discurso do sr. Ministro, usando correctamente a palavra “competitividade”, como resultante do adjectivo “competitivo” e não “competivo”. Sem haplologia, que é uma palavra também erudita, mas de um nível que já a ninguém interessa, nem a nenhum Governo, que todos eles concordam com as síncopes do novo acordo ortográfico.
O sr. Ministro usou competividade com haplologia, suprimindo a sílaba repetida, como já se fez outrora em bon(da)doso, ido(lo)latria, habili(da)doso, o Sr. Ministro que me desculpe a lição que ele não vai ler, que tem mais que cortar, e por isso lição inútil mesmo para muitos outros, deputados, ministros, etc, que não há meio de corrigirem a sua desprezada língua, nem mesmo por “acordos” com os povos de expressão lusófona que talvez usem correctamente a pronúncia da palavra plural, mantendo o o tónico fechado, sabedores do processo de metafonia justificativo de outros oo abertos, como em ovos, jogos, fogos, povos, o que não acontece em piolhos. Nem em acordos, maçadoramente o repito, que já o disse mesmo antes da assinatura do acordo ortográfico, omisso nestes casos, não exceptuando os acordos fechados das suas novas regras, mais fincadas nos cc ou pp não pronunciáveis e por isso suprimíveis, na nossa euforia modernística adepta dos cortes. Mesmo nas pobrezinhas das “amídalas” sofredoras.
Mas hoje enviaram-me mais um e-mail sobre o corte do subsídio de Natal que, segundo o texto, é apenas uma extorsão, pois há muito representava apenas uma reposição do que pertencia a cada trabalhador, se recebesse à semana, como os ingleses. Diz o e-mail:


«Os trabalhadores ingleses recebem os salários semanalmente! Mas há sempre uma razão para as coisas e os trabalhadores ingleses, membros de uma sociedade MAIS crítica do que a nossa, não fazem nada por acaso!



… "Fala-se agora que o governo pode vir a não pagar aos funcionários públicos o 13º mês ou subsídio de natal. Se o fizerem, é uma roubalheira sobre outra roubalheira.
O 13º mês é uma das mais escandalosas de todas as mentiras dos donos do poder, quer se intitulem "capitalistas" ou "socialistas", e é justamente aquela em que os trabalhadores mais acreditam. Eis aqui uma modesta demonstração aritmética de como foi fácil enganar os trabalhadores.
Suponhamos que você ganha €700,00 por mês. Multiplicando-se esse salário por 12 meses, você recebe um total de €8.400,00 por um ano de doze meses. €700,00 X 12 = € 8.400,00
Em Dezembro, o generoso governo manda então pagar-lhe o conhecido 13º Mês: € 8.400,00 (Salário anual) + €700,00 (13º salário) = € 9.100,00 (Salário anual + o 13ºMês).»



Na realidade, o ano não tem 48 semanas exactas mas 52 semanas, diferença de quatro semanas que perfaz um mês, o tal 13º que nos é dado como generoso subsídio e não representa senão a reposição do que nos é tirado durante o ano.
E agora vai ser extorquido a favor da “competividade” das nossas empresas.
Mas não é assim que se remodelam as empresas, Sr. Ministro! Destruindo a língua da pátria onde as empresas desejam competir.
A língua é fundamental, numa sociedade que se preze.
Só que me parece que o desprezo governativo pela língua é paralelo ao desprezo governativo pela sociedade.

sábado, 29 de outubro de 2011

No primeiro aninho do Sebastião

Mandou-me o meu filho Ricardo um e-mail com imagens de uma Lourenço Marques airosa, de um antigamente que deixou saudades, ao som da canção de Tudela “Adeus, cidade, é tanta a mágoa que eu tenho, que já em mim não contenho a chama desta saudade…”
Era uma bela cidade, a cidade onde nasci, onde nasceram três dos meus filhos, - o João, o Artur, o Luís - os dois mais velhos – o Ricardo e a Paula - nascidos cá, mas enraizados lá, na liberdade de um viver de harmonia, não traído ainda pelo pesadelo de vícios e violências que a destruição da ordem viria executar.
Uma cidade bonita, esquadriada, esta que tanta saudade deixou no Ricardo, cidade que os portugueses construíram, juntamente com as outras terras desse Moçambique, dessas outras terras dos descobrimentos antigos, que portugueses modernos desaproveitaram e dispensaram sem cerimónia.
Tudela descreve-a em várias outras bonitas canções, como no refrão desta: “Lourenço Marques, minha flor, meu derriço, o teu nome não sei que faz, só sei que traz feitiço.” “Lourenço Marques, meu amor, meu enlevo, boa sorte a que tu me dás, é a que traz o trevo”. “Lourenço Marques, quem te deixa, cidade, que veneno não sei que dá, só sei que traz saudade”.
Trata-se de poesia, é certo. A verdade é que Tudela preferiu sempre o continente, mau grado as lindas canções do seu repertório referentes a Moçambique, e que a Internet acompanha com imagens bonitas desse agora país livre.
Mas recebi um outro e-mail de João Sena, com imagens mais sombrias de uma terra por nós abandonada, com o seguinte comentário: “Recordando Moçambique - É triste a degradação daquilo que foi um Paraíso !!!”
Também João Sena sente saudade, como outros muitos portugueses que por lá viveram. Uma vida intensa de trabalho, seja em que sítio for, não permite recuos no tempo embrenhados em sentimentos de perda. Em mim, a saudade foi substituída pela rejeição do que considerei vileza inenarrável, pela inadaptação ao brutal radicalismo de uma afronta à pátria que me habituei a amar.
Os meus filhos Artur e Luís eram meninos de quatro e dois anos, em 74, não sentem apego à terra natal, embora a lisura de princípios os leve a considerar talvez, que não valia a pena tanto desmando traiçoeiro.
Na escola já não estudaram a história da exaltação e glória dos antepassados.
O meu netinho mais novo – Sebastião, que passa hoje o seu primeiro aninho – menos ainda sentirá curiosidade pela terra do seu papá, que também só a recorda por tradição.
Mas num contexto de globalização e sobretudo num de destruição pátria como esta que atravessamos, não será de admirar que uma nova História pátria apresente os surtos de emigração, de fuga, em busca de lugares que os bisavós povoaram.
Não é, para mim, uma visão radiosa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Faz parte

«"NINGUÉM ESTÁ IMUNE AOS SACRIFÍCIOS», disse ele. SE ASSIM NÃO FOSSE, COMO SERIA O SÉQUITO ESCOLHIDO!!!!! “ (notícia do Público de 23/09/11) O Cavaco na sua visita discreta aos Açores de 5 dias levou 30 acompanhantes, entre os quais:
- sua esposa
- o chefe da casa civil e sua esposa
- 4 assessores
- 2 consultores
- 1 médico pessoal
- 1 enfermeira
- 2 bagageiros???
- 2 fotógrafos oficiais
- 1 mordomo
- 12 agentes de segurança e à chegada disse "Ninguém está imune aos sacrifícios". Convém lembrar que quando o príncipe Carlos e a sua mulher Camila visitaram oficialmente Portugal, chovia e seguravam nos seus próprios guarda-chuvas. O nosso Presidente e mulher - na mesma ocasião tinham alguém que lhes segurava o guarda-chuva...
(Esta lista foi dada aos jornalistas, não pensem que isto é gozo!)»

Nós já tínhamos comentado, quando vimos Cavaco acompanhado pela sua camarilha, numa das ilhas – talvez das Flores - sem povo a aplaudir, ou sequer só a assistir, em passeio que nos pareceu humilhante, pelo menos a mim que me prezo de sentimentos de compaixão, inexistentes na minha amiga quando se trata do nosso Presidente, plácido e flácido joguete dos seus oportunismos assaloiados.
Mas também pusemos na mesa – do nosso café - a hipótese de ele, como está escamado com o César dos Açores, desejar aparecer-lhe assim, com a sua camarilha, para impressionar e mostrar que ele ainda manda ali, rivalidades que quadram muito bem à nossa musculatura de fragilidades.
Mas o texto acima chegou-me por e-mail e eu vejo aí toda a extensão dessa nossa firmeza de propósitos, damazozinhos que a ninguém admitem desconsiderações e o demonstram soberbamente, como no caso presente, de palanque, para ofuscar.
Carlos e a esposa não se coíbem de segurar no guarda-chuva? É que a democracia deles já estava delineada na Magna Carta. A nossa cartilha está na infância, tem atrás de si séculos de distinções sociais. Não íamos mudar do pé para a mão. A César – não o dos Açores – o que é de César. A chuva de César… outros que a aparem. De preferência com reverência.