sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quem ensinou quem?

Um e-mail, parece que já não muito recente, significativo de um poderoso retrato de um país a saque.
Resta perguntar: Quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo? Foram os governantes que iniciaram o processo ou aqueles provieram de uma “massa” fraudulenta uniforme que permitiu o seu surgimento, em círculo vicioso para sempre inultrapassável por razões temperamentais específicas?
É certo que o Tribunal de Contas só teve dúvidas e apontou-as, segundo o e-mail, mas será que já foi esclarecido? Será que foram lapsos por malandrice? Será que pertencem à rede da corrupção que nos envolve?
Será que o novo Governo vai deixar no silêncio tais casos gritantes? Será que não vai incitar a magistratura a seguir a via da verdadeira Justiça, que implica isenção, eficiência, honestidade?
Será que é essa a estrada cheia de desvios que desejamos para os nossos sucessores?
Será que o sangue da vergonha já só acode às faces dos embriagados?
Dizem que a esperança é a última coisa a desaparecer em nós.
Assim seja! Amen!

Eis o e-mail recebido:

«Agora com o FMI é que vamos ver os "podres" a aparecer e a exalar mau cheiro...Isto foi tirado do Tribunal de Contas... Será por isso que nos estão a obrigar a apertar o cinto? Fica-se sem palavras!


AQUI ESTÃO ALGUNS EXEMPLOS DE DÚVIDAS QUE O TRIBUNAL DE CONTAS ENCONTROU NAS DESPESAS PÚBLICAS...


1. ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO ALENTEJO, I. P.
Aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00 €
Eu não sei a quanto está o metro cúbico de material de escritório mas ou estes armários/mesas/cadeiras são de ouro sólido ou então não estou a ver onde é que 6 peças de mobiliário de escritório custam quase 100 000€. Alguém me elucida sobre esta questão?


2. MATOSINHOS HABIT - MH
Reparação de porta de entrada do edifício: 142.320,00 €
Alguém sabe de que é feita esta porta que custa mais do que uma casa?


3. UNIVERSIDADE DO ALGARVE - ESC. SUP. TECNOLOGIA - PROJECTO TEMPUS
Viagem aérea Faro/Zagreb e regresso a Faro, para 1 pessoa no período de 3 a 6 de Dezembro de 2008: 33.745,00 €
Segundo o site da TAP a viagem mais cara que se encontra entre Faro-Zagreb-Faro em classe executiva é de cerca de 1700€. Dá uma pequena diferença de 32 000 €. Como é que é possível???


4. MUNICÍPIO DE LAGOA
6 Kit de mala Piaggio Fly para as motorizadas do sector de águas: 106.596,00 €
Pelo vistos fazer uma "Reforma de Montada" nas motorizadas do Município de Lagoa fica algo para o caro!


5. MUNICÍPIO DE ÍLHAVO
Fornecimento de 3 Computadores, 1 impressora de talões, 9 auscultadores, 2 leitores ópticos: 380.666,00 €
Estes computadores devem ser mesmo especiais para terem custado cerca de 100 000€ cada... Já para não falar nos restantes acessórios.


6. MUNICÍPIO DE LAGOA
Aquisição de fardamento para a fiscalização municipal: 391.970,00 €
Eu não sei o que a Polícia Municipal de Lagoa veste, mas pelos vistos deve ser Alta Costura.


7. CÂMARA MUNICIPAL DE LOURES
VINHO TINTO E BRANCO: 652.300,00 €
Alguém me explica porque é que a Câmara Municipal de Loures precisa de mais de meio milhão de Euros em Vinho Tinto e Branco????


8. MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA
AQUISIÇÃO DE VIATURA LIGEIRO DE MERCADORIAS: 1.236.000,00 €
Neste contrato ficamos a saber que uma viatura ligeira de mercadorias da Renault custa cerca de 1 milhão de Euros. Impressionante...


9. CÂMARA MUNICIPAL DE SINES
Aluguer de tenda para inauguração do Museu do Castelo de Sines: 1.236.500,00 €
É interessante perceber que uma tenda custa mais ou menos o mesmo que um ligeiro de mercadorias da Renault e muito mais que uma boa casa...
E eu que estava a ser tão injusto com o município de Vale de Cambra...


10. MUNICÍPIO DE VALE DE CAMBRA
AQUISIÇÃO DE VIATURA DE 16 LUGARES PARA TRANSPORTE DE CRIANÇAS: 2.922.000,00 €
E mais uma pérola do Município de Vale de Cambra: uma viatura de 16 lugares para transportar crianças custa cerca de 3 milhões de Euros. Upsss, outra vez o município de Vale de Cambra...


11. MUNICÍPIO DE BEJA
Fornecimento de 1 fotocopiadora, "Multifuncional do tipo IRC3080I", para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €
Este contrato público é um dos mais vergonhosos que se encontra neste site. Uma fotocopiadora que custa normalmente 7,698.42€ foi comprada por mais de 6,5 milhões de Euros. E ninguém vai preso por porcarias como esta?

COMO É POSSÍVEL NÃO ESTARMOS EM CRISE? COMO DIZ PASSOS COELHO, É DIFÍCIL CORTAR NAS DESPESAS PÚBLICAS... NOTA-SE... ACABÁMOS DE VER ALGUNS EXEMPLOS...»

As parvoiçadas da nossa deseducação

Os dois artigos que seguem, de dois professores, chegaram-me por e-mail. Traduzem experiências vividas, gritos de alma de quem se afunda e vê afundar-se toda uma nação, com as deficientes e mal esclarecidas políticas de Educação que, acrescentadas de uma há muito acentuada deficiência de educação familiar, tornam o ensino português uma pobre forja de indisciplina, desatenção, desvairamento na inadaptação a princípios de exigência e responsabilização, desinteresse pelo saber, apesar dos meios que as tecnologias poderiam proporcionar com o mundo de informação de que dispõem, mas que são causa, a maior parte das vezes, da fuga, pelo excesso de lúdico que proporcionam, à concentração do espírito, à inapetência pelo trabalho mental, à dispersão por campos de futilidade, quando não de desvio, de violência, de desregramento de que as nossas escolas são palco.
Escolas que já não são escolas mas agrupamentos escolares, mistura desordenada de criaturas de idade vária, espaços de ruído, de violência, de agressão, onde, definitivamente, não é possível um ensino eficaz, em “contentores”, forjados à pressa, a fazer de salas, onde a água da chuva obriga ao afastamento das mesas e cadeiras e o frio do inverno vai penetrar em tradição do nosso envilecimento.
O Governo fecha os olhos, incapaz de soluções, num ensino cada vez mais farfalhudo de monstruosas reuniões e burocracias forjadas no governo anterior, destruidor de energias, protelando as esperadas regras de imposição de disciplina, fundamentais dentro de honestos princípios de trabalho eficaz.
O artigo de Manuel António Pina – «O “essencial” e é um pau» - não me parece, todavia, tão fidedigno assim, quando ouço, por exemplo, que o estudo da gramática se faz por um chorrilho monstruoso de designações lembrando a velha escolástica com os seus silogismos ostentatórios de um rebuscamento mental parolo, a exigir consulta psiquiátrica. Aí, sim, vejo a pretensão idiota de transformar os alunos e os professores em cobaias de experiências governativas ditadas pelo pretensiosismo desses “bichos-caretas” fazedores de vaidosos programas só “para inglês ver”. Com tais preciosismos, dificilmente os alunos passarão da fase do “ler, escrever e contar”, nisso estou de acordo com Manuel Pina.
O artigo de Luís Moura traduz os problemas económicos causados pela difusão dos tais Magalhães do nosso ensino de sucata, com repercussões sobre as carreiras docentes “congeladas” na sua progressão. Vê-se que a mágoa é grande, mas o efeito sobre os nossos jovens, de embrutecimento e inércia, pela obsessão lúdica e desmotivação pela aprendizagem, é superior em perversão, quanto a mim, à “paragem” temporária na carreira docente, porque com reflexos sociais de vastíssima amplitude.
Mas a não haver rápida reforma que ponha definitivamente cobro a tanta “parvoiçada”, como já diria Verney, não sairemos desta cepa torta da nossa mediocridade cada vez mais triste.

Os textos de “Opinião”:

O "essencial" e é um pau -Artigo de Manuel António Pina
«A afirmação do actual ministro da Educação de que o "princípio geral" que presidirá à "sua" reforma curricular do ensino básico e secundário é o de que "é necessário concentrar nas disciplinas essenciais" constitui todo um programa ideológico.
Deixando de lado o obsessão de todo o bicho-careta que chega a ministro da Educação em Portugal em "reformar" mais uma vez os curricula escolares, tornando o ensino num laboratório de experiências educativas e os alunos em cobaias que se usam e deitam fora na próxima "reforma", tudo com os resultados que se conhecem, a opção por um ensino público limitado a "disciplinas essenciais" segue fielmente a rota ideológica do "saber ler, escrever e contar" de Salazar.
Falta apurar o que o ministro entenderá por "essencial", mas outras medidas que tem tomado, como triplicar o valor dos cortes na Educação pública previsto no acordo com a "troika" enquanto financiava generosamente os colégios privados, levam a crer que o programa de empobrecimento anunciado por Passos Coelho é mais vasto do que parece. E que, além do empobrecimento económico das classes médias e mais desfavorecidas, está simultaneamente em curso o seu empobrecimento educativo.
Para a imensa maioria que não tem meios para pôr os filhos em colégios privados (que, no entanto, financia com os seus impostos), o "essencial" basta. Mão-de-obra menos instruída é mão-de-obra mais barata. E menos problemática.»

«E é só a Parque Escolar?» - Artigo de Luís Moura
«No consulado de Maria de Lurdes Rodrigues adjudicaram-se centenas de milhares de computadores portáteis em mais um negócio ruinoso para o estado e milionário para os operadores de telecomunicações móveis com os programas “e-escolas” e “e-escolinhas”, vulgo Magalhães. Quem pagou a factura? Coincidência ou não, imediatamente antes, os professores viram congeladas as suas progressões. Não é lícito perguntar se o dinheiro poupado em remunerações foi desviado para os Magalhães?
Garantido o direito a um computador portátil grátis, ou a preço simbólico, a cada aluno e professor, era a vez das escolas. De norte a sul, os estabelecimentos de ensino de todo o país ficaram, de repente, a abarrotar com material informático e periféricos novinhos em folha com dezenas, se não centenas de milhar de computadores, milhares de quadros interactivos e projectores de vídeo, muitos dos quais nunca foram usados e alguns nem sequer instalados até hoje. Tudo isto, mais uma parafernália de routers, cabos, ligações sem fios e quejandos.
Mau grado a torrente tecnológica, os professores tentam aceder à internet na sala de aula e a maior parte das vezes não conseguem porque o acesso é ‘wireless’ e funciona muito mal. Sabendo nós que o material informático fica obsoleto rapidamente, bem podemos concluir que, em muitos casos, o último grito da tecnologia não passa de tralha que vai acabar na sucata sem nunca ter sido usada.
Na escola onde presto serviço, uma secundária, só as casas de banho não têm projector de vídeo, tal a quantidade fornecida pelo ME. Mesmo assim, há uns quantos de reserva, uma vez que já não há salas disponíveis para os aplicar. Não sei se o mesmo se passa nas outras escolas, mas imagino.
Se em média o custo de cada computador de secretária for de 250 €, o de cada monitor 100 €, o de cada projector de vídeo for de 250 € e o de cada quadro interactivo for de 500 €, é só fazer as contas, como dizia o primeiro ministro Guterres. Este foi o (não resisto a usar um vocábulo todo modernaço) paradigma do governo ps, e não só para a educação. Onde é que poderíamos estar agora se não na bancarrota?
Por fim, cito uma frase da Ilíada de Homero, que se aplica ao primeiro ministro Passos Coelho a propósito do que ele tem dito e do que ele tem feito: «…assim falou Aquiles de pés velozes: “(…) Como os portões do Hades me é odioso aquele homem que esconde uma coisa na mente, mas diz outra.” (...)». São precisos sacrifícios para sair deste chiqueiro? Façamo-los. Mas que se diga a verdade e que ninguém fique de fora.»

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Uma página de “O Barbeiro de Sevilha”

O Conde Almaviva está postado numa rua de Sevilha, à espreita de uma rapariga – Rosina - que costuma aparecer não à janela como a nossa carochinha mas atrás da gelosia daqueles discretos tempos de predomínio masculino. Encontra Fígaro, seu antigo criado, e interroga-o sobre a sua vida, ao que Fígaro responde sobre as suas experiências de letrado, num mundo fértil em intriga – Madrid no século XVIII – em nada diferente dos espaços de intriga destes tempos, diz-se que até por cá, entre os nossos, mesmo sem corte:
Fígaro: «- Vendo em Madrid que a república das letras era a dos lobos, sempre armados uns contra os outros, e que, entregues ao desprezo aonde este risível encarniçamento os conduz, todos os insectos, os mosquitos, os primos, os críticos, os “maringouins”, os invejosos, os jornalistas, os livreiros, os censores, e tudo o que se atira à pele dos infelizes homens de letras, acabavam de destroçar e de sugar a pouca substância que lhes restava; cansado de escrever, aborrecido comigo, desgostoso dos homens, cravado de dívidas e com pouco dinheiro; por fim convencido de que o útil provento colhido na barbearia é preferível às honras vãs da caneta, deixei Madrid; e, com a minha bagagem a tiracolo, percorrendo filosoficamente as duas Castelas, a Mancha, a Estremadura, a Serra Morena, a Andaluzia; acolhido numa cidade, prisioneiro noutra, e em toda a parte superior aos acontecimentos; louvado por estes, criticado por aqueles; optimista na maré boa, suportando a maré baixa; troçando dos parvos, arrostando os maus; rindo da minha miséria e fazendo a barba a toda a gente; vedes-me enfim estabelecido em Sevilha, e prestes a servir de novo Vossa Excelência em tudo o que for do seu agrado ordenar-me.
O Conde: Quem te deu uma filosofia tão alegre?
Fígaro: O hábito da desgraça. Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser forçado a chorar.»


Vem o texto mal a propósito de um texto de Vasco Graça Moura – “Andrajosamente Sós”, colhido no DN deste Dia dos Mortos, apelidados de Fiéis Defuntos, provavelmente os únicos a guardarem fidelidade nesta época de hipocrisias – como sugestão para um maior optimismo que cubra a visão quase direi obscena que VGM se encarrega de nos transpor, indiferente aos que vão lutando por quebrar tal malefício, aliás, de longa data previsto, até mesmo pela minha amiga e por mim que a vou carinhosamente acompanhando nas discussões sobre as desgraças nacionais, embora ultimamente nos abstenhamos mais disso, por mero derrotismo.
Alguns passos desse decisivo texto de VGM:


«Portugal deixou de ter condições morais, sociais, culturais, económicas e políticas para ser independente. É compelido a ir a reboque, a acatar o que lhe é imposto de fora, a dar o corpo ao manifesto, a arquejar sob a carga fiscal.
A população vai ficar agrupada em magotes de macambúzias criaturas à deriva. É uma gente desgovernada que perdeu toda e qualquer noção dos valores e da sua própria história, cuja ligação à língua que fala e à sua própria tradição cultural se tornou um desconchavo inqualificável, cujas qualificações não prestam para nada, cuja economia está destruída, cuja qualidade de vida, já de si escassa, se foi para não voltar. O Estado sustentava-lhe a maior parte dos vícios e agora deixa de poder fazê-lo.
« … Se as coisas chegarem a um certo extremo, o Governo não terá força para fazer acatar as medidas que anuncia.»



E depois de pontuar a falta de convicção governativa na actuação contra as forças armadas e as policiais, conclui:
«…E se houver muitas fitas nestas áreas, que ninguém tenha dúvidas: A Europa fechará a torneira de vez.»



Aponta seguidamente a pantominice de um PS dividido entre enjeitar as suas responsabilidades na crise e o seu dever de cooperação com o Governo no cumprimento das responsabilidades que partilhou relativamente às imposições da troika.



«… Os partidos radicais vociferam a torto e a direito….»


Não se lhes dá a destruição do país, nunca se lhes deu, por isso propõem greves. Com autoridade e seriedade hipócrita.



«… Entretanto, na Europa prepara-se um escanzelado federalismo financeiro da zona euro, comandado pela Alemanha, sem atender aos outros aspectos estruturantes de um sistema federal…»



Estes têm a ver com as divergências culturais, económicas, sociais, muitas vezes conflituais entre os Estados vizinhos, e, apesar da matriz cristã comum, tal não impedirá o desastre final da zona euro:
«… Será a alavanca alemã a comandar as operações, a ditar a política financeira, a política económica e a política externa, a sobrepor-se às veleidades nacionais dos Estados membros. A França voltará a encolher-se. A Inglaterra assobia para o lado. A Espanha e a Itália ficam a olhar. Até a Grécia dirá que não é… a Grécia. A história repete-se. Ficaremos andrajosamente sós. Quando a Europa puxa o autoclismo, a independência e a soberania de Portugal vão pelo cano abaixo.»



Lembrei-me do texto d’ «O Barbeiro de Sevilha» para aconselhar alegremente a todos os que atravessam crises económicas, como o Fígaro atravessou, a tornarem-se barbeiros como ele, mesmo nas nossas terras portuguesas, para colherem alguns proventos.


Mas como as navalhas de barba já não são tão necessárias hoje, ultrapassadas pelas giletes de uso individual, adopto, todavia, idêntica filosofia do Fígaro, que é talvez, a filosofia da nobre Alemanha, mandando-nos a todos, antes, cavar batatas.