terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Final de ano

Às vezes falamos dos programas televisivos, mas eu deixo escapar muitos de diversão, que a minha amiga descreve com a volubilidade e o visualismo suficientes para deles ficar inteirada. O meu estado de espírito de pânico e stress fazem-me optar por programas mais elucidativos sobre a evolução do nosso mundo em que a ameaça do aquecimento não é a menos despicienda neste afundamento gradual.
Mais uma vez, a Quadratura do Círculo – um programa de gente portuguesa que nos enche as medidas, por ser erudito e com a malícia educada de quem sabe escutar, embora discorde, por motivos ideológicos, partidários, ou de sensibilidade. Pacheco Pereira inegavelmente o mais letrado, fundamentando as suas asserções com um rigor não isento de subjectividade, num pensamento cujo desenvolvimento escorre maravilhando os leigos, mas cujas capciosidades não escapam à argúcia dos companheiros, como, aliás, sucede com cada um dos intervenientes aquando da sua própria participação, em que são habilmente interpretados e por vezes desmascarados pelos opositores. Lobo Xavier encanta, pela justeza de princípios aliada a uma experiência de vida em que são perceptíveis o estudo e o trabalho. Também António Costa se revela como uma personalidade firme e enérgica, a quem os anos de acção governativa contribuíram para um saber de dificuldades e de impasses, mantendo uma estimável lealdade pelo antigo chefe de fila. Três bons argumentadores, numa hora de antologia que nos eleva o sentimento pátrio, num programa perfeitamente moderado por Carlos Andrade, que nele se apaga para fazer sobressair os seus três comentadores, sem, contudo, deixar de intervir com o propósito pertinente das suas questões.
Também escutamos O Eixo do Mal, um programa arejado pela graça e irreverência, embora por vezes nos deixe um amargo de boca pela parcialidade nítida dos intelectuais de esquerda nos seus pontos de vista agressivos, um Pedro Marques Lopes balançando-se incomodamente entre a pretensão de defender o partido governativo e a de seguir subservientemente os seus parceiros intelectuais, Luís Pedro Nunes o único que parece isento, mau grado a desconexão dos seus comentários jocosos que o tornam o bufão da corte, mas o de sentimentos mais justos e adequados à tragédia destes tempos, considerando o aperto de um governo que se vê forçado a propor reformas de escândalo por motivos óbvios de uma conjuntura por outros criada, o que os comparsas intelectuais preferem ignorar. Uma mulher nele sobressai – Clara Ferreira Alves - pela manipulação elegante do discurso sábio e aparentemente sensível, mas prejudicado pela demasiada presunção, no seu pedestal de unilateral desdém.
Outros programas políticos nos acodem, de Marcelo Rebelo de Sousa, programa corrido, de quem tem sempre a última palavra, uma palavra chã, simpática e sem contestatários, o de Nuno Rogeiro querendo brilhar nas entrevistas a personalidades gradas do mundo, outros sobre as políticas económicas com comentaristas manipulando os seus discursos de acordo com as suas ideologias políticas ou as suas sensibilidades, que nos fazem aderir ou repudiar, estes últimos quando soam a disco partido de pseudo defesa dos desprotegidos, quais cavaleiros andantes, sem os ademanes aristocráticos, contudo, dos Dom Quixotes de antanho, porque seguidores virtuosos das democracias igualitárias.
São personagens que nos acompanham, que merecem que os evoquemos no réveillon que se aproxima, pelos esclarecimentos que transmitem, companheiros do dia-a-dia das angústias que vamos vivendo, como nunca sonháramos possível.
Mas também queremos acreditar num Governo que parece sério e trabalhador. E nas suas promessas de solução do pesadelo. Assim o quisessem todos e não trabalhassem insensatamente para a completa paralisia.
Falta-nos uma “Edelweiss” simbólica que nos despertasse cada dia para o pensamento de uma alma pátria forever. Entre nós, já nem o rosmaninho abunda, destruído pela auto-estrada.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Homenagem sentida

Falámos, a minha amiga e eu, naquele capitão do partido socialista que olha triste e compostinho, numa vista à miss Piggy, pálpebras descaídas sobre umas pupilas que reflectem a compaixão pelo mundo – o mundo português, esmagado pela onda drástica de extirpações sem dó nem piedade nas finanças de cada um - e que deglute com verdadeiro prazer os seus próprios discursos exaltados contra tais ignomínias, que uma próxima subida ao poder faria imediatamente esquecer, já de olho aceso.
A minha amiga, embora concorde com o discurso da exaltação anti-esburgadora, que é como quem diz esbulhadora, dos novos governantes, explicita preferencialmente a matreirice de quem fala para ganhar eleições e que por isso se assume como o salvador da nação, mastigando os discursos da piedade e da condenação, a uma plateia que o vai escutando cremos que sem grande convicção.
Seguro é mais um menino, bem vestidinho e aprumado. E triste, naturalmente. Não que lhe falte o alimento a ele, mas sofre por todos aqueles a quem o alimento falta. Sobretudo se por culpa de um Governo tão diabolicamente indiferente ao esmagamento do povo. Governo, é certo, assustado pela dimensão de uma dívida que, todavia, nem os sacrifícios impostos vão solucionar, por muito prolongados no tempo que forem. E Seguro sabe-o bem, mas olha triste, num olhar filtrante e compenetrado, enquanto expende os argumentos da exaltação contra a injustiça social que o demarcam do partido do Governo.
Mas há dias ouvi a um comentarista que, apesar da dureza das medidas governativas, as sondagens apontam para nova vitória dos partidos do Governo, e comentámos sobre o crescimento de um povo que, apesar dos discursos dos dirigentes políticos contrários, prefere o discurso honesto, embora duro, dos governantes, sentindo quanto se aplicam, nas suas tentativas de desemaranhar a teia, para lhe encontrar um fio condutor aceitável.
Já lá vai o tempo das largas multidões vociferantes. Embora manipuladas hoje pelos mesmos, ou outros idênticos, cabecilhas, que jogam preferencialmente na destruição e na confusão, num inegável espírito virtuoso de compaixão, não só aquelas reduziram de tamanho, como as suas vozes baixaram, dentro do esquema educado que o novo Governo criou.
Por isso nós nos congratulámos sentidamente ao prestarmos homenagem ao povo de que somos parte empenhada.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Discos partidos

Disse a minha amiga a respeito daquele risonho jovem da bancada socialista, Pedro Santos, que afirmou estar-se marimbando para a dívida à Europa, e que não a devíamos pagar, no rasto do pai Sócrates. Certamente, todavia, sem os estudos que este se esforça por adquirir nas universidades por onde passa, com o conforto preciso.
- Quando estes fazem parte do conjunto, que gente é esta? Que qualidades é que esta gente tem para fazer parte dum partido? E os partidos também estão entregues a gente assim!
Eu embirro com a displicência contida no colectivo depreciativo “esta gente”, que suponho foi buscar ao salero megalómano da Clara do Eixo, e assim lho expressei. Mas ela estava encolerizada, lançada nas suas memórias de véspera:
- Eu digo uma coisa: entreguem os governos às mulheres.
Não cheguei a soltar um “Credo!” assustado, na antevisão da inflação de sensibilidades, ao lembrar-me das vozes apaixonadas e esganiçadas das nossas parlamentares de esquerda, e logo me recompus pensando nas vozes serenamente inteligentes das nossas parlamentares de direita e o trabalho consciencioso de algumas ministras. E fiquei na dúvida, pois também confio no Passos Coelho e os seus homens, que se estão a revelar com inteligência, honestidade, serenidade e firmeza, na actual conjuntura, mas, de resto, a minha amiga nem me deu tempo a abrir a boca:
- Eu ontem ouvi uma advogada, uma rapariguinha nova, num caso de crianças e de pais separados, no programa da Fátima Lopes. Um caso alarmante! Um pai que começa por difamar o novo companheiro da mãe no espírito das filhitas, aquando das suas visitas ao pai, e acaba escondendo-as, impedindo-as de irem à escola, de comunicarem com a mãe, acusando o sujeito, com quem as crianças se davam bem, de intenções pedófilas, sujeitando as crianças a observações médicas para provar a honra do homem e o direito à posse das crianças pela mãe. E depois disso voltaram para o pai, e nem a polícia acode à pobre mãe, e a nossa Justiça não anda, nem desanda.
A minha amiga estava indignada:
- E é isto no século XXI! Aquelas crianças ficam traumatizadas para o resto das suas vidas!
Lembrei-me de um texto que escrevera nos idos de setenta, a respeito da Justiça protectora dos homens, vá-se lá saber porquê, e discriminatória relativamente às mulheres, apesar dos direitos de protecção social destas e das crianças, consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, e desenvolvidos sucessivamente em outros organismos legislativos.
Foi este o texto, extraído de “Prosas Alegres e Não”:
«PERGUNTAS MINUCIOSAS»
«Quando se põe uma pergunta com brilho, os espíritos das pessoas em geral deslumbram-se. As casas onde se fazem mais perguntas deste género, além das escolas, onde a maior parte das vezes, por natural timidez, elas ficam sem resposta, são os tribunais onde, pelo contrário, cada pergunta recebe duas e mais respostas, todas demonstrativas da infinita variedade das interpretações humanas.
É por esse facto, certamente, que em alguns casos onde a maioria preferiria reserva, se usa de uma desmedida prolixidade, para que se admire a argúcia nos interrogatórios a que se expõem as pessoas visadas.
É, por exemplo, o caso da legitimação dos filhos a que determinados papás de facto, pretendem furtar-se por direito. As felizes mães – felizes porque em muito destaque então – são sujeitas a um interrogatório em forma, em sala onde entra quem quer, ouve e observa quem quer e mesmo quem não quer, embora estes últimos em minoria, dada a natural e sempre fecunda curiosidade humana.
Certas mães recusam-se a responder, entendendo que para se provar a legitimidade de um filho há pormenores escusáveis.
Mas essas mães estão erradas. Porque tudo interessa a quem interroga. Para formar a tese sobre a possível filiação da criança, factos, detalhes, atitudes, caracteres, romance naturalista em suma, tem um interesse infinito.
Quantos mais argumentos encadeados sabiamente, mais o caso terá probabilidades de êxito, e a criança em questão terá então o seu pai, após a perfeita humilhação da sua mãe.
Chama-se dialéctica a esta arte feliz dos argumentos e para isso não houve outro como o nosso Padre Vieira – embora sobre outros motivos que também deram que falar. Mudam-se os tempos, e como já não temos índios nem cristãos-novos a defender, usamos a dialéctica a defender as crianças, o que é sempre uma atitude de enternecer, conquanto os meios usados o sejam menos, segundo alguns pensadores severos.
Cristo mandou que as criancinhas se chegassem a Ele, é certo, mas também obstou a que a Madalena levasse pedradas. Possivelmente só o primeiro gesto de Cristo é conhecido, ignorando-se o das pedradas.
É por se ignorar isso, com certeza, que alguns interrogatórios se fazem tão minuciosamente.»

A mulher conquistou direitos e as crianças também. Aparentemente. Porque, talvez por falta de meios mediáticos, talvez por convencionalismos inibitórios, talvez porque, apesar de tudo a Justiça funcionasse melhor, em todo o caso dantes não se punham tanto estes graves problemas de violência doméstica, de pedofilia, de monstruosidades incestuosas, como actualmente.
Mas o que se espanta é que neste ano 2011, a terminar, a Justiça não acorra célere, para salvar estas duas crianças raptadas pelo pai vingativo, entregando-as à mãe, permitindo os traumas hediondos que estão a sofrer, longe da mãe, da escola, da luz. Resta-nos pedir um milagre do Menino Jesus neste seu Natal.