O mito das duas irmãs amicíssimas
– Procne e Filomela –
E de Tereu, casado com aquela,
Mas que violou esta por amor dela,
E lhe arrancou a língua para que ela,
Tagarela,
Não contasse àquela a esparrela
Com que este a desgraçara
- Pobrezinha dela! -
E que afinal redundaria na transformação
- E Deus nos livre de tal mistificação! -
Das duas irmãzinhas
Tão amiguinhas,
Em avezinhas
- Um rouxinol e uma andorinha –,
Está sugerido na fábula que segue,
Do La Fontaine,
“O Milhafre e o Rouxinol”.
Mas também se suspeita que Tereu
Foi feito poupa, por culpa sua,
Da incontida paixão,
Pela bela Filomela,
Já anteriormente, aliás,
Castigado pela esposa Procne
Que lhe cozinhou o filho
E o fez comê-lo,
- Pobre rapaz! -
Num horroroso acto de canibalismo
Ou talvez antes por ancestral
Desumano e vingativo
Maquiavelismo
Próprio do homem
Seja velho ou jovem,
O que já Medeia,
Em vingança rude e feia,
Fizera ao seu Jasão,
E como Santo António atacara
Nos seus peixes comilões,
De repugnante piscifagia,
Que é como quem diz antropofagia,
Segundo Vieira bem lembrou
Naquele tal seu Sermão
Barroco de construção
E, se não, de concepção
Como é nossa condição.
Vejamos a alegoria:
«O Milhafre e o Rouxinol»
«Depois que um Milhafre, ladrão de forte presença
Espalhou o alarme em toda a vizinhança,
Fazendo gritar contra ele os meninos da aldeia,
Um Rouxinol caiu desgraçadamente
Nas amarras das suas garras.
Suplicou-lhe a vida, o arauto da primavera:
“- Pois bem, comer o quê em quem não tem
Senão o trinado som? Quimera bem bera!
Para não lhe chamar burra.
Escutai antes a minha canção:
Contar-vos-ei de Tereu e da sua ciumeira.”
“- Quem é esse Tereu? Será uma iguaria,
Dos milhafres fantasia?”
“- Nada disso; foi um rei cujo violento amor
Me fez sofrer o seu criminoso ardor.
Vou cantar-vos uma canção tão bela
Que vos enleará. O meu canto de truz
A todos apraz.»
Então, lhe replica o Milhafre, sem pejo nenhum:
“- Na verdade, chegámos ao ponto do conto:
Quando estou em jejum,
Vens falar-me em música, pobre Filomela?!
“- Assim falo eu aos reis!”
“- Quando um rei te apanhar, maravilhas lhe recitarás.
De um milhafre, só risos receberás.
Ventre esfomeado não tem orelhas,
Dizem as velhas.»
E assim foi
Que o milhafre previdente
O papou como soe:
Gostosamente.
Mas os nossos milhafres roazes
São bons rapazes.
Não comem rouxinóis
Nem andorinhas de arribação
Porque são
Estômagos exigentes,
Em almas sensíveis e crentes:
Não comem tudo o que lhes vem à mão.
Escolhem os pratos
Como escolhem os fatos:
Com requinte e muita atenção,
Discrição, perversão,
Merecendo de todos
A consideração
Que dá o saber fazer,
Com o saber dizer,
Dissimular, esconder,
Subtrair para somar,
E até mesmo guardar
Em paraísos fiscais
O que lhes sobra dos restos mortais
Dos animais
Que comeram por cá.
Espertos como não há
Que é outra a música deles!
E brutais,
Tais os nossos Imortais.
Afinal, normais,
No carnaval,
Deste nosso ancestral
Paul.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
“Ninguém enche o Pavilhão Atlântico”
1ºde Janeiro de 2012: O encantamento da música de Johann Strauss, em mais um Concerto de Ano Novo pela Orquestra Filarmónica de Viena, de manhã na RTP, revisitado à tarde no 2º Canal pela Eurovisão, em ondas de beleza, elegância, euforia e competência dos músicos, cantores, bailarinos, tão expressivamente dirigido pelo maestro – Mariss Janson, - para o mundo inteiro.
Em simultâneo, a íntima decepção de que nenhum dos canais, que tão principescamente pagam aos seus apresentadores e animadores de televisão, alguns bem à custa do erário público, apresente programas não direi de idêntica dimensão feérica, índice de uma cultura estratificada por séculos de real humanismo, mas que contribuíssem para elevar o nível dos interesses culturais de um povo como o nosso, educado na desordem disciplinar e na apatia intelectual dela consequente. E o desejo de que a apresentação de espectáculos de música clássica, de peças de teatro clássicas retirados dos palcos nacionais também fizesse parte dos objectivos de ilustração, dos directores das programações televisivas.
Mas lembramos positivamente o último programa “Reencontros” de João Maria Tudela, (transmitido em retrospectiva por Júlio Isidro, no TV Memória no final de ano 2011) de entrevista a duas figuras nacionais de alto gabarito vocal – Carlos Guilherme e Luís Andrade, este último também responsável por programas de qualidade na RTP - e que contaram sobre alguns dos seus êxitos no estrangeiro, e mesmo cá, os três revelando uma severa consciência crítica sobre a fisionomia cultural de uma nação como a nossa, madrasta dos artistas a quem a idade vai arrumando na prateleira do esquecimento, excepção feita ao excelente animador cultural Júlio Isidro que por si só, e à imitação do que se faz nas televisões do mundo, vai não só chamando a atenção para esses, quer em entrevistas quer trazendo-os novamente à ribalta, desenterrando os programas em que se revelavam, como comentando comparativamente as deficiências e os êxitos dos espectáculos televisivos portugueses, num revivalismo de bom recorte comunicativo.
Falei à minha amiga hoje no maravilhoso programa austríaco e ela concordou a respeito das nossas carências clássicas. E logo referiu um outro programa nosso, que meteu uma orquestrazinha bem aprumada de um cantor nosso bem sucedido:
- Ninguém enche o Pavilhão Atlântico como o Tony Carreira. Tem uma família bonita, de gente que se ama, que serve de exemplo. Um espectáculo bem organizado, admiro aquela organização. Raparigas bonitas a tocar violino. Ele deve pagar bem à sua orquestra, deve gastar muito dinheiro. Aquilo é muita gente. Aquelas vozes fabulosas que a gente conhece não têm a mínima hipótese.
E congratulámo-nos com os êxitos de Tony Carreira, de orquestra bem à nossa medida. No Pavilhão Atlântico, sem espelhos nem tectos pintados. Sem as tais ondas de beleza disciplinada, mas com ondas de uma ternura piegas à nossa medida também, que somos sensíveis.
Para o ano, se lá chegarmos, esperemos que sim, somos confiantes, teremos mais Strauss pela Orquestra Filarmónica de Viena de Áustria.
Em simultâneo, a íntima decepção de que nenhum dos canais, que tão principescamente pagam aos seus apresentadores e animadores de televisão, alguns bem à custa do erário público, apresente programas não direi de idêntica dimensão feérica, índice de uma cultura estratificada por séculos de real humanismo, mas que contribuíssem para elevar o nível dos interesses culturais de um povo como o nosso, educado na desordem disciplinar e na apatia intelectual dela consequente. E o desejo de que a apresentação de espectáculos de música clássica, de peças de teatro clássicas retirados dos palcos nacionais também fizesse parte dos objectivos de ilustração, dos directores das programações televisivas.
Mas lembramos positivamente o último programa “Reencontros” de João Maria Tudela, (transmitido em retrospectiva por Júlio Isidro, no TV Memória no final de ano 2011) de entrevista a duas figuras nacionais de alto gabarito vocal – Carlos Guilherme e Luís Andrade, este último também responsável por programas de qualidade na RTP - e que contaram sobre alguns dos seus êxitos no estrangeiro, e mesmo cá, os três revelando uma severa consciência crítica sobre a fisionomia cultural de uma nação como a nossa, madrasta dos artistas a quem a idade vai arrumando na prateleira do esquecimento, excepção feita ao excelente animador cultural Júlio Isidro que por si só, e à imitação do que se faz nas televisões do mundo, vai não só chamando a atenção para esses, quer em entrevistas quer trazendo-os novamente à ribalta, desenterrando os programas em que se revelavam, como comentando comparativamente as deficiências e os êxitos dos espectáculos televisivos portugueses, num revivalismo de bom recorte comunicativo.
Falei à minha amiga hoje no maravilhoso programa austríaco e ela concordou a respeito das nossas carências clássicas. E logo referiu um outro programa nosso, que meteu uma orquestrazinha bem aprumada de um cantor nosso bem sucedido:
- Ninguém enche o Pavilhão Atlântico como o Tony Carreira. Tem uma família bonita, de gente que se ama, que serve de exemplo. Um espectáculo bem organizado, admiro aquela organização. Raparigas bonitas a tocar violino. Ele deve pagar bem à sua orquestra, deve gastar muito dinheiro. Aquilo é muita gente. Aquelas vozes fabulosas que a gente conhece não têm a mínima hipótese.
E congratulámo-nos com os êxitos de Tony Carreira, de orquestra bem à nossa medida. No Pavilhão Atlântico, sem espelhos nem tectos pintados. Sem as tais ondas de beleza disciplinada, mas com ondas de uma ternura piegas à nossa medida também, que somos sensíveis.
Para o ano, se lá chegarmos, esperemos que sim, somos confiantes, teremos mais Strauss pela Orquestra Filarmónica de Viena de Áustria.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Tempo de Aquilino
(Como resposta ao comentário do Tenente Coronel Adriano Miranda Lima sobre o nosso “status” de corrupção impune)
Aquilino Ribeiro, um escritor de forte estilo, de fortes palavras, de fortes experiências vividas, no seu combate literário de acusador de um regime que o acusou a ele. E as suas personagens populares são podadas à sua maneira, gente forte que se não verga, lobos que uivam na sua luta em medo mas em liberdade, simbolizados pelo velho pai de Manuel Louvadeus, Teotónio Louvadeus, de rija têmpera, vivendo num casebre da Rochambana, na serra dos Milhafres onde uivam os lobos com quem ele se entende e se confunde, quando manobrado por sentimentos de ódio e de vingança.
É o assunto de “Quando os Lobos Uivam”, gente da terra serrana que vai opor-se aos representantes do Governo que lhe expropria os terrenos baldios para plantar pinhais, terrenos donde esse povo de miséria conseguira extrair o seu sustento, cavando-o, fertilizando-o, semeando-o.
Vale a pena relê-lo, conquanto a história em si revele antes uma intencionalidade crítica de ataque ao mísero primitivismo de um povo e à ditadura vigente, no esquematismo do seu enredo em torno de Manuel Louvadeus, de regresso do Brasil, para onde emigrara, para a sua aldeia na serra dos Milhafres, em breve feito prisioneiro ao participar, embora cordatamente – o que não abonaria a seu favor, num tribunal de subserviência aos ferozes ditames políticos e policiais de então - na luta dos serranos contra as tropas do Governo, pretexto para um desfiar analítico de vários representantes de uma justiça cavilosa, facilmente vulnerável e ditatorialmente impondo as normas de uma jurisprudência pervertida pela unilateralidade política – “o poder sempre a tiritar as maleitas da autoridade, distribuindo, às cegas, pancadaria do cobarde. Ora, tratava-se de meia dúzia de parranas, arrebanhados a esmo na sarrafusca da serra dos Milhafres, para o Moloch da justiça ter seu pábulo ou iludir a fome, pouco se importando que pagasse o justo pelo pecador. E, modo de completarem o ramalhete subversivo, haviam-lhes adjungido um feixe de operários de Riba do Pisco, acusados pelos patrões multimilionários de terem, à ordem de Moscovo, pregado a rebelião, tomando como pretexto um bacalhau podre que lhes fora servido na cantina obrigatória e de que morreram envenenados uns tantos deles.”
(E não é que - ressalvando as importâncias da actualidade enriquecida - parece um excerto premonitório das discursatas acusadoras do presidente Chaves da Venezuela, sobre lúgubres tentativas norte americanas de disseminar o cancro por alguns nobres presidentes do vasto mundo terráqueo, que dele sofreram ou sofrem?)
São espantosos de descritivo sarcástico os retratos dos vários representantes da estrutura judicial desde os corregedores e o desembargador “homens no pendor da vida, fartos de roçar as calças nas cadeiras curuis, julgadores mecanizados à força de baldear processos para trás das costas”, sendo, embora, bons chefes de família, a um dos adjuntos que “reunia em si o tipo do magarefe, alto, membrudo, encarniçado de tez, e até no manejo do cutelo quando se tratava de aplicar a lei…” ou o outro assessor que “passava por ser o zero absoluto. Escorregadio e silencioso como o congro. Chegara à corregedoria pela insignificância, à parte a zumbaia. Pálido, seco, e de olhos gelatinosos. Solteirão e misógino. Prezava a disciplina na secretaria e a compostura na audiência. Réu que se mostrasse incivil ou cuja atitude não fosse de cortesia plena, avaliada pela maneira como se sentava, como abria a boca ou bocejava, como falava, como ria, apanhava a grossa talhada…. Em contrapartida, réu que lhe aparecesse com submissão de penitente, embora com a humildade do velhaco, só não seria absolvido se tivesse violado alguma freira ou fosse apanhado a surripiar algum bolo para matar a fome. Porque se, por um lado, era um catolicão até à medula, por outro, não admitia que se fosse pelintra. A propriedade para ele, homem com uma pequena reserva nos bancos e uma quintalória em Óis, representava a primeira instituição humana, criadora e dignificadora da personalidade, frase que lera algures e invocava a cada passo.”
Segue-se o Juiz em comissão: “De alta categoria, estrela e beta e pé calçado. Nascera para aterrador. Os advogados temiam-no quanto o detestavam. Igualmente os colegas, que davam jeitos do estimar e no fundo do peito tinham-lhe azar de morte...” E o retrato agressivo do juiz prossegue, à imagem – (exceptuada a leveza da ironia queirosiana) - do de um conde de Abranhos oportunista, que casa por conveniência e se move nos bastidores da alta sociedade, maneira comum das ascensões no Portugal de sempre.
Recordo este livro de Aquilino, que comprei para oferecer, no dia em que saiu, em 1958, e que seria retirado das bancas no mesmo dia, tendo-me acompanhado sempre a mágoa de o não ter comprado para mim.
Lembra-me “Le Silence de la Mer” de Vercors, como protesto contra a opressão. Mas enquanto este se lê dum fôlego, na densidade dos seus caracteres e na trama linear de uma acção com o desfecho trágico das histórias de amor contrariado pela oposição familiar ou política, “Quando os Lobos uivam” é um romance sem grande dimensão psicológica, num discurso riquíssimo manipulado com mão de mestre por um narrador omnisciente que move os cordelinhos da acção pelos vários lugares da acção – quer ela se passe na aldeia, quer no sertão brasileiro, quer na audiência em tribunal, quer na serra, ponto fulcral dos crimes de fogo posto e de morte de um traidor pelo velho Teotónio, serra onde, como epílogo da luta popular, “Nasceram menos anhos e cabritos (na serra dos Milhafres) e alargaram-se mais nos cotovelos e rótulas os rasgões da miséria ancestral, mas o Estado todo-poderoso, absoluto, levou a sua avante”… e onde “os povos tiritavam encardidos de pobreza e barbárie, incrustados nas suas orlas. Mas que importavam as vicissitudes dos velhos aglomerados e que fossem dignos de lástima os netos dos iberos e dos turdetanos?”
A intencionalidade crítica do regime ditatorial impõe-se, de um escritor amante da liberdade, cuja experiência de vida, aliada ao conhecimento da linguagem vernácula e da alma popular, transformam a acção épica em assombrosa denúncia de um país desde sempre atrasado, quer entre as classes populares, quer entre as classes mais desenvoltas economicamente, país cuja mediocridade de desajustamentos sociais e sórdida incultura cobre de manto infelizmente sem fantasia, a nudez forte dessa sua verdade eterna.
O comentário do Tenente-Coronel Adriano Lima a um texto do Dr. Salles da Fonseca “Ano Novo, Vida Nova”, ao lembrar a necessidade da luta contra a adversidade ou contra a corrupção instalada no nosso país, lembra a necessidade da Justiça para um combate eficaz contra essa corrupção:
«…Prefiro pensar que melhor será fincarmos os pés na terra chã e endurecer o coração para exigir justiça para com os autores dos desmandos de que todos estamos a sofrer as consequências. Fazer sentar no banco dos réus todos esses que se pactuaram para delapidar o tesouro público e deixar-nos de mãos estendidas como autênticos deserdados da sorte. Neste país, fazem-se manifestações para tudo e mais alguma coisa, menos para aquilo que, em nossa opinião, mais justifica uma forte e empenhada reivindicação nacional. Justiça, pedir Justiça. O povo deve vir para a rua em massa para simplesmente pedir Justiça. Justiça para os criminosos que metem as mãos nos nossos bolsos mercê das manigâncias da economia paralela. Justiça para todos esses salafrários que ainda ontem eram pouco mais que uns zés-ninguéns e hoje guardam em cofres inacessíveis os milhões que jorram neste país desde há mais de 20 anos. É preciso desmantelar de uma vez por todas as redes ardilosamente montadas entre políticos, escritórios de advogados e empresários sem escrúpulos para se apropriarem dos recursos que nos foram destinados para melhorarmos a vida colectiva. Sim, os sacrifícios e as privações que vamos sofrer são absolutamente necessários. Mas serão inúteis se continuarmos a viver nesta triste e lamentável passividade, em que, quais carneiros, recusamos a reivindicar Justiça. De facto, mesmo que venhamos a acertar as contas do orçamento e o controlo da dívida, nada, mas rigorosamente nada, fará progredir as nossas vidinhas se não houver uma atitude séria e enérgica pautada pela constância e continuidade, e não pelo imediatismo, e pautada por um alto critério de responsabilidade individual e colectiva, e não pelo porreirismo desculpabilizante que parece ser a nossa sina desde há séculos.»
Há muito que sabemos quanto a Justiça portuguesa está manietada, no volume e morosidade dos processos judiciais, na tortuosidade das suas ligações aos poderes económico e governativo.
Foi este apelo do Tenente-Coronel Adriano Lima a manifestações de rua pedindo o julgamento de tantos “salafrários” destruidores da Nação que me recordou o livro de Aquilino, não só pela parte da intervenção popular defendendo os seus direitos, como pelas tortuosidades nele referidas de julgamentos e julgadores.
Hoje em dia as manifestações de rua já não surtem efeito, dada a nossa dependência económica que o Dr. Salles da Fonseca tão bem esquematiza no seu texto.
Aquilino Ribeiro, um escritor de forte estilo, de fortes palavras, de fortes experiências vividas, no seu combate literário de acusador de um regime que o acusou a ele. E as suas personagens populares são podadas à sua maneira, gente forte que se não verga, lobos que uivam na sua luta em medo mas em liberdade, simbolizados pelo velho pai de Manuel Louvadeus, Teotónio Louvadeus, de rija têmpera, vivendo num casebre da Rochambana, na serra dos Milhafres onde uivam os lobos com quem ele se entende e se confunde, quando manobrado por sentimentos de ódio e de vingança.
É o assunto de “Quando os Lobos Uivam”, gente da terra serrana que vai opor-se aos representantes do Governo que lhe expropria os terrenos baldios para plantar pinhais, terrenos donde esse povo de miséria conseguira extrair o seu sustento, cavando-o, fertilizando-o, semeando-o.
Vale a pena relê-lo, conquanto a história em si revele antes uma intencionalidade crítica de ataque ao mísero primitivismo de um povo e à ditadura vigente, no esquematismo do seu enredo em torno de Manuel Louvadeus, de regresso do Brasil, para onde emigrara, para a sua aldeia na serra dos Milhafres, em breve feito prisioneiro ao participar, embora cordatamente – o que não abonaria a seu favor, num tribunal de subserviência aos ferozes ditames políticos e policiais de então - na luta dos serranos contra as tropas do Governo, pretexto para um desfiar analítico de vários representantes de uma justiça cavilosa, facilmente vulnerável e ditatorialmente impondo as normas de uma jurisprudência pervertida pela unilateralidade política – “o poder sempre a tiritar as maleitas da autoridade, distribuindo, às cegas, pancadaria do cobarde. Ora, tratava-se de meia dúzia de parranas, arrebanhados a esmo na sarrafusca da serra dos Milhafres, para o Moloch da justiça ter seu pábulo ou iludir a fome, pouco se importando que pagasse o justo pelo pecador. E, modo de completarem o ramalhete subversivo, haviam-lhes adjungido um feixe de operários de Riba do Pisco, acusados pelos patrões multimilionários de terem, à ordem de Moscovo, pregado a rebelião, tomando como pretexto um bacalhau podre que lhes fora servido na cantina obrigatória e de que morreram envenenados uns tantos deles.”
(E não é que - ressalvando as importâncias da actualidade enriquecida - parece um excerto premonitório das discursatas acusadoras do presidente Chaves da Venezuela, sobre lúgubres tentativas norte americanas de disseminar o cancro por alguns nobres presidentes do vasto mundo terráqueo, que dele sofreram ou sofrem?)
São espantosos de descritivo sarcástico os retratos dos vários representantes da estrutura judicial desde os corregedores e o desembargador “homens no pendor da vida, fartos de roçar as calças nas cadeiras curuis, julgadores mecanizados à força de baldear processos para trás das costas”, sendo, embora, bons chefes de família, a um dos adjuntos que “reunia em si o tipo do magarefe, alto, membrudo, encarniçado de tez, e até no manejo do cutelo quando se tratava de aplicar a lei…” ou o outro assessor que “passava por ser o zero absoluto. Escorregadio e silencioso como o congro. Chegara à corregedoria pela insignificância, à parte a zumbaia. Pálido, seco, e de olhos gelatinosos. Solteirão e misógino. Prezava a disciplina na secretaria e a compostura na audiência. Réu que se mostrasse incivil ou cuja atitude não fosse de cortesia plena, avaliada pela maneira como se sentava, como abria a boca ou bocejava, como falava, como ria, apanhava a grossa talhada…. Em contrapartida, réu que lhe aparecesse com submissão de penitente, embora com a humildade do velhaco, só não seria absolvido se tivesse violado alguma freira ou fosse apanhado a surripiar algum bolo para matar a fome. Porque se, por um lado, era um catolicão até à medula, por outro, não admitia que se fosse pelintra. A propriedade para ele, homem com uma pequena reserva nos bancos e uma quintalória em Óis, representava a primeira instituição humana, criadora e dignificadora da personalidade, frase que lera algures e invocava a cada passo.”
Segue-se o Juiz em comissão: “De alta categoria, estrela e beta e pé calçado. Nascera para aterrador. Os advogados temiam-no quanto o detestavam. Igualmente os colegas, que davam jeitos do estimar e no fundo do peito tinham-lhe azar de morte...” E o retrato agressivo do juiz prossegue, à imagem – (exceptuada a leveza da ironia queirosiana) - do de um conde de Abranhos oportunista, que casa por conveniência e se move nos bastidores da alta sociedade, maneira comum das ascensões no Portugal de sempre.
Recordo este livro de Aquilino, que comprei para oferecer, no dia em que saiu, em 1958, e que seria retirado das bancas no mesmo dia, tendo-me acompanhado sempre a mágoa de o não ter comprado para mim.
Lembra-me “Le Silence de la Mer” de Vercors, como protesto contra a opressão. Mas enquanto este se lê dum fôlego, na densidade dos seus caracteres e na trama linear de uma acção com o desfecho trágico das histórias de amor contrariado pela oposição familiar ou política, “Quando os Lobos uivam” é um romance sem grande dimensão psicológica, num discurso riquíssimo manipulado com mão de mestre por um narrador omnisciente que move os cordelinhos da acção pelos vários lugares da acção – quer ela se passe na aldeia, quer no sertão brasileiro, quer na audiência em tribunal, quer na serra, ponto fulcral dos crimes de fogo posto e de morte de um traidor pelo velho Teotónio, serra onde, como epílogo da luta popular, “Nasceram menos anhos e cabritos (na serra dos Milhafres) e alargaram-se mais nos cotovelos e rótulas os rasgões da miséria ancestral, mas o Estado todo-poderoso, absoluto, levou a sua avante”… e onde “os povos tiritavam encardidos de pobreza e barbárie, incrustados nas suas orlas. Mas que importavam as vicissitudes dos velhos aglomerados e que fossem dignos de lástima os netos dos iberos e dos turdetanos?”
A intencionalidade crítica do regime ditatorial impõe-se, de um escritor amante da liberdade, cuja experiência de vida, aliada ao conhecimento da linguagem vernácula e da alma popular, transformam a acção épica em assombrosa denúncia de um país desde sempre atrasado, quer entre as classes populares, quer entre as classes mais desenvoltas economicamente, país cuja mediocridade de desajustamentos sociais e sórdida incultura cobre de manto infelizmente sem fantasia, a nudez forte dessa sua verdade eterna.
O comentário do Tenente-Coronel Adriano Lima a um texto do Dr. Salles da Fonseca “Ano Novo, Vida Nova”, ao lembrar a necessidade da luta contra a adversidade ou contra a corrupção instalada no nosso país, lembra a necessidade da Justiça para um combate eficaz contra essa corrupção:
«…Prefiro pensar que melhor será fincarmos os pés na terra chã e endurecer o coração para exigir justiça para com os autores dos desmandos de que todos estamos a sofrer as consequências. Fazer sentar no banco dos réus todos esses que se pactuaram para delapidar o tesouro público e deixar-nos de mãos estendidas como autênticos deserdados da sorte. Neste país, fazem-se manifestações para tudo e mais alguma coisa, menos para aquilo que, em nossa opinião, mais justifica uma forte e empenhada reivindicação nacional. Justiça, pedir Justiça. O povo deve vir para a rua em massa para simplesmente pedir Justiça. Justiça para os criminosos que metem as mãos nos nossos bolsos mercê das manigâncias da economia paralela. Justiça para todos esses salafrários que ainda ontem eram pouco mais que uns zés-ninguéns e hoje guardam em cofres inacessíveis os milhões que jorram neste país desde há mais de 20 anos. É preciso desmantelar de uma vez por todas as redes ardilosamente montadas entre políticos, escritórios de advogados e empresários sem escrúpulos para se apropriarem dos recursos que nos foram destinados para melhorarmos a vida colectiva. Sim, os sacrifícios e as privações que vamos sofrer são absolutamente necessários. Mas serão inúteis se continuarmos a viver nesta triste e lamentável passividade, em que, quais carneiros, recusamos a reivindicar Justiça. De facto, mesmo que venhamos a acertar as contas do orçamento e o controlo da dívida, nada, mas rigorosamente nada, fará progredir as nossas vidinhas se não houver uma atitude séria e enérgica pautada pela constância e continuidade, e não pelo imediatismo, e pautada por um alto critério de responsabilidade individual e colectiva, e não pelo porreirismo desculpabilizante que parece ser a nossa sina desde há séculos.»
Há muito que sabemos quanto a Justiça portuguesa está manietada, no volume e morosidade dos processos judiciais, na tortuosidade das suas ligações aos poderes económico e governativo.
Foi este apelo do Tenente-Coronel Adriano Lima a manifestações de rua pedindo o julgamento de tantos “salafrários” destruidores da Nação que me recordou o livro de Aquilino, não só pela parte da intervenção popular defendendo os seus direitos, como pelas tortuosidades nele referidas de julgamentos e julgadores.
Hoje em dia as manifestações de rua já não surtem efeito, dada a nossa dependência económica que o Dr. Salles da Fonseca tão bem esquematiza no seu texto.
Quanto a julgadores ou a julgamentos, a evolução em nada desmerece o passado aquiliniano, já não pelo defeito da omnipotência governativa, mas anquilosada a Justiça nos torpores da burocracia e no inextricável de uma rede de corrupção poderosa, que as liberalidades democráticas favoreceram, tendo como ponto de partida o súbito caudal de dinheiros concedidos como empréstimo, e por nenhum governo acautelados em gestão de decência.
Teremos que confiar nos propósitos reformadores dos novos governantes. Confiemos. Ou, parafraseando Salles da Fonseca, “Continuemos”.
Teremos que confiar nos propósitos reformadores dos novos governantes. Confiemos. Ou, parafraseando Salles da Fonseca, “Continuemos”.
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