quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

“Custe o que custar”

- Aos outros! – indignou-se a minha amiga, que saiu finalmente à rua após uma semana de quarentena, por conta duma tosse renitente e que por isso lhe provoca estas propensões atrabiliárias contras as anomalias da nossa vivência nacional propensas ao azedume.


Porque há quem diga que é pura “mitomania” governativa pretender saldar a dívida de um empréstimo, numa paranóia de honestidade, sem criar riqueza, reduzindo à pobreza e à paragem no trabalho e na exportação, e ao surto da fuga dos capitais e de empresas para sítios de maior equilíbrio financeiro, etc., etc., empréstimo que possibilitou as escroquerias aliadas a uma generalizada feira de vaidades de um povo mal habituado ao dinheiro fácil e que se deixou deslumbrar pelo inesperado bodo, em compromissos de aquisições de bens materiais que se despenham, nesta hora, no caminho da insolvência dum país ao qual más políticas anteriores revelaram uma abundância irrisória e desencaminhadora.
E assim, continuou:
- Estes estão na rua, ao frio.
- Nanja nós! - defendi-me eu, avessa a invasões de lamúria na nossa privacidade, mas a minha amiga ignorou a interrupção:
- Vamos pagar a dívida. Vamos pagar a dívida, mas arrancado ao desgraçado que a vai pagar. Acredito que a pagarão…
- Mas há quem discorde disso! – explico eu, muito pessimista, por conta dos prospectores dos truques económicos da nossa governação tão drástica como pouco explícita.
Mas ambas tínhamos ouvido o banqueiro optimista, em entrevista da noite anterior, a explicar que a banca estava de boa saúde e quisemos crê-lo, nestas flutuações entre o medo e a confiança que nos têm arrastado ultimamente, contudo a minha amiga não se deixou entusiasmar tanto:
- O mundo começou a afundar desde o que foi roubado por ele e pelos comparsas. E não é a Europa, é o mundo inteiro…
- Menos a China! - garanto, com a confiança no país que nos vem dar a mão, embora cortando-nos as pernas, ao que se diz…
- É! É isso! A China sobe… Quem é que há-de subir senão a China? Mas o Brasil também…
- Mas no Brasil há muita corrupção!
A minha amiga é de ideias fixas, no capítulo da justiça:
- Esta mulher Dilma já pôs na rua cinco ou seis ministros… Aquele país não havia de ser rico porquê? Qual é a matéria de que é feito o ser humano, que, quando enriquece o faz unilateralmente?
E assim nos íamos afastando do ponto de partida da nossa conversa inicial, a frase brutal de Passos Coelho, pronunciada com grande salero, e que me trouxe à memória, comovidamente, o fado da nossa Amália, trocando, evidentemente de destinatário, não o homem amado mas o amado país merecedor das nossas lágrimas de dedicação patriótica, inspirada na força anímica do discurso do nosso PM:

“Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias de chorar,
Por uma lágrima tua
- Que alegria! – me deixaria matar
.”

É claro que a letra seria alterada de acordo com o nosso arroubo patriótico:

Se eu soubesse que morrendo
Com teu “custe o que custar”
Eu salvaria a nação,
Mesmo sem lágrima tua
Com alegria, deixar-me-ia matar.

E no fado se finou a nossa conversa comezinha.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Em busca dum tempo nunca vivido

O mundo dos sentimentos íntimos, de par com a extraordinária capacidade de os descrever – nos amores, medos, raivas, inquietações, ciúmes – e a presença dos seres que amou – a mãe, a avó, “non plus ultra” da distinção e beleza de uma burguesia defensora dos princípios éticos, os amigos, as amadas, jovens e mulheres distintas na aristocracia que frequentou, e juntamente as evocações dos momentos vividos, as figuras, os odores, os sabores, os gestos, os caracteres, os sentimentos, configurados num tempo não cronológico mas durativo, despoletando um descritivo rigoroso e apaixonado, brilhante de convívios e ternuras, de uma França que para sempre permaneceria a pátria intelectual da admiração e do amor do mundo inteiro. Tal o universo em síntese do livro “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust.
Não se trata dos discursos apaixonados de um Rousseau, um Lamartine ou tantos outros que traduziram os sentimentos nublados das lágrimas românticas e saudosistas pela amada perdida, em recolhimento espiritual e em meio de dolente ou sombria natureza com eles convergente. Pelo contrário, Proust, mostra-se extremamente arguto, ao pôr a nu os sentimentos do seu universo de personagens, recolhidas do seu passado, a que a memória deu amplitude, e favorecido, não só pelo desenvolvimento dos estudos da psicanálise, como por uma infância e adolescência demasiado protegidas, na preocupação materna pela sua doença crónica de asmático. Eram mundos diversos, vidas livrescas diferentes, que marcaram as respectivas épocas de acordo com os parâmetros da evolução social.
Entre nós também hoje há quem analise e se analise na fogosidade das paixões, pondo a nu descritivos que pendem mais sobre pormenores de erotismo, a espiritualidade dando lugar à sacralização da “besta humana”, numa vulgaridade de discurso tantas vezes grosseira e mesmo animalesca que o cinema, aliás, favorece.
É certo que há quem escape a esta ordem da obrigatoriedade da pornografia, e eleja, para valores de mais ampla universalidade, feita das experiências e reflexões pessoais, as temáticas humanas centradas tanto no ego como no que está para além dele e que é descodificado com extrema argúcia. É o caso de Pedro Mexia, de Gonçalo M. Tavares.
Mas aquele mundo do requinte e luminosidade que nos é trazido por Proust, não existe para nós, habituados a uma literatura passional de sofrimento, violência e miséria bem choradinhos com que Camilo nos marcaria, no seu estilo profuso em rico vocabulário colhido nos clássicos e com enredos sobre figuras aparentemente extraídas de consulta documental, a que acrescentaria a exacerbação moralista dos seus comentários apaixonadamente críticos, tantas vezes satíricos.
Não, conforme se diz que não temos bossa dramática, também não temos uma literatura romanesca tão expressivamente elegante como a que nos é revelada por Proust e tantos outros escritores da narrativa e da dramaturgia francesas.
Um universo cultural que não temos, a não ser por núcleos esporádicos e fechados, seria fundamental para tal criatividade, e mesmo as sociedades pseudo-elegantes ou pseudo-literárias do romance queirosiano não deixam de revelar a mediocridade, a frivolidade ou a avidez financeira ou de notoriedade das figuras repetidas ao longo da sua ficção. Ressalvamos em parte a “Peregrinação Interior” de Alçada Baptista, no seu memorialismo de sensível recorte humorístico, mas a que não é alheia a crítica social.
Porque hoje aqui vivemos numa época de remendos, tentando consertar o caos criado pelos génios que trabalharam obscuramente no seu próprio proveito, e só tardiamente se deu por isso, pelo que escaparam à justiça, fumando charuto.
Não, a nossa intelectualidade fica-se pela poesia de alguns. A maralha entretém-se a referir as suas misérias. Aos jornalistas ou às vizinhas apiedadas.
É o nosso mundo. Mundo que sempre tivemos. Como uma bandeira emporcalhada.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Babel sem Sião

Enviei um comentário ao texto que segue, publicado no “A Bem da Nação”, com dúvidas sobre se o Dr. Salles da Fonseca o iria publicar, já que o tema do “A. O.”, fazendo-me “perder a tramontana”, talvez ele o não quisesse postar. Respondeu-me o Dr. Salles, figura de blogueur temerário, que, em vez de o publicar nessa qualidade de comentário, o iria colocar como texto principal e que me não preocupasse com o tamanho “pois o que interessa é a dimensão”.
Resolvi, pois, publicá-lo também no meu blogue, mas com relevo para o texto que o motivou, que, ao que sei, se passeia anonimamente pela Internet, o que me penaliza, pois o seu autor não tem que se esconder mas que assumir a sua preocupação e a sua veia humorística.
É, pois, com orgulho por um compatriota sagaz que transcrevo o seu texto:

«E VIVÓ ACORDO»

«Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia. De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as onsoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.
Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim. São muitos anos de convívio.Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância.
Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora: - não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas.
O que é ser proativo? Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.
Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato. Caíram hifenes e entraram RRR's que andavam errantes. É uma união de facto, e para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família.
Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa (^^^) chapéu. E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião.
Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham. As palavras transformam-nos.
Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar. Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSS...?!?! ?
Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós?
Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal fabetos afroamaricanos fassão com que a nova ortografia imponha se bué depréça! »
Recebido por e-mail, Autor não identificado

Segue-se o comentário que o Dr. Salles elegeu como texto, apesar do pequeno tamanho:

Já pela minha vida passaram várias reformas ortográficas, os êstes e as estrêlas acentuados, creio que já escrevi mãi com i. Mãe passou a escrever-se com e na sequência de outros ditongos nasais de idêntica forma - (em cães, pães) - resultantes de uma etimologia latina (-anes). O que estava mal era o ãi, que não existe. No novo acordo, pelo contrário, a etimologia latina deixou de interessar, escreve-se como se quiser, afinal, conforme se pronunciam ou não determinados sons, não há uma uniformidade de critérios, não sei como será para se ensinar ortografia, num caldo linguístico de puro desrespeito até por uma Europa novilatina que não se dá a esses afãs de renegar a sua escrita, como nós. Uma bandalheira própria de um povo abandalhado, muito justamente na cauda.”


Mas, tal como aquele extraordinário poeta que se sentou à beira do Tigre e do Eufrates, “sobollos rios que vão por Babilónia” em recordações penosas, vejo-nos a nós, aqui neste canto ocidental, também com rios diversos vistos comodamente na Internet, que, por razões prosaicas e de menor engenho, espalhamos, miserabile dictu, “Tristes palavras ao vento”.