quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma questão “fascinanta”


Chegou-me por email o texto que segue e não resisto a transcrevê-lo. Tem a ver com um certo feminismo pouco esclarecido e o autor do texto entende que o seu contributo pode ajudar a dissipar o erro. Mas um país que adopta regras para a sua ortografia libertas de preocupação latinista não se vai incomodar com os fundamentos latinistas do seu autor .

«Uma aula de português muito pertinente»

«Aqui vai uma explicação muito pertinente para uma questão actual:

A jornalista Pilar del Rio costuma explicar, com um ar de catedrática no assunto, que dantes não havia mulheres presidentes e por isso é que não existia a palavra presidenta... Daí que ela diga insistentemente que é Presidenta da Fundação José Saramago e se refira a Assunção Esteves como Presidenta da Assembleia da República.

Ainda nesta semana, escutei Helena Roseta dizer : «Presidenta!», retorquindo o comentário de um jornalista da SIC Notícias, muito segura da sua afirmação...

A propósito desta questão recebi o texto que se segue e que reencaminho:

Uma belíssima aula de português.

Foi elaborada para acabar de uma vez por todas com toda e qualquer dúvida se temos presidente ou presidente.»

«A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um "BASTA" no assunto?

No português existem os particípios activos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio activo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante... Qual é o particípio activo do verbo ser? O particípio activo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.

Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a acção que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.

Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".

Um bom exemplo do erro grosseiro seria:

"A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".

«Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação...»


Apresso-me, pois, a repassar. Só que não creio que surta qualquer efeito, sobretudo se o objectivo for esse, de defender a língua portuguesa. Para mais, a construção do texto é brasileira, daí que o não corrija.

O que julgo é que as presidentas o desejam ser por modéstia, comparando-se com as governantas dos palacetes senhoriais. É que estas já são muito antigas e nunca ninguém lhes pôs em dúvida a biformidade. Eram elas, geralmente, que detinham as chaves da casa, e sobretudo da despensa.

Nos tempos que correm, uma boa despensa é imprescindível, razão pela qual as presidentas desejem a tal afinidade com as governantas. Tudo por uma questão de chaves.

terça-feira, 6 de março de 2012

Já está tudo organizado


- Se aquele Putin é um homem civilizado, como é que ele se permite umas eleições assim aldrabadas? O raio do ser humano está cada vez mais estranho e cruel. Pois não é aquilo uma ditadura? As pessoas correm o risco de perder o emprego se não forem votar. O jornalista nosso correspondente, que é russo, o disse: “Eu vou dizer isto porque é verdade. As pessoas perdem o emprego se não forem votar.” Como é que um homem que se considera uma pessoa civilizada ganha à custa do autoritarismo mais condenável?

A minha amiga estava, de facto, indignada. Eu achei que havia autoritarismos piores, os que usam a metralhadora para se imporem, por exemplo, mas lembrei uma história contada pelo meu pai, em Lourenço Marques. Tinha um colega original, que vivia só, e um dia, na altura das eleições, com um partido único mas exigente de participação dos funcionários, como na Rússia, escreveu no seu boletim de voto, votação que, felizmente, era em regime de anonimato: “Eu  e o meu moleque votamos em…” Suponho que na União Nacional. Só me recordo que o meu pai ria maliciosamente com a sua história, o que traduzo agora como não aceitação de um regime manipulador, onde as injustiças e as vilezas se praticavam igualmente, embora de forma mais controlada que agora. O que significa que as ditaduras são de qualquer tempo, mesmo as do povo, dos guerrilheiros, dos governantes ou dos ricos corruptos.

Mas em casa, havia um novo jornal, O Público, que hoje, por comemorar os seus vinte anos foi oferecido. José Gil foi o seu Director neste dia, e são vários os seus textos analíticos sobre o estado da Nação, com a qualidade do filósofo conceituado deste nosso século XXI e a originalidade da proposta do Director real do Público, que proporcionou tão expressivos textos, e não só de José Gil.

Não resisto a transcrever o texto sobre o estado da Educação, que subscrevo na íntegra. Também acreditei em Nuno Crato, também me decepcionou, silenciado num cantinho invisível, com pequeninas reformas que não correspondem às promessas e às críticas da sua verbosidade  oral e escrita anterior:

«Uma política educativa tem que partir de alguns destes dados - (evolução da taxa de escolarização, estimativa das horas necessárias para a preparação das aulas dos docentes, competências exigidas aos alunos, consciência dos responsáveis pelas políticas educativas,  etc.) – mesmo quando eles não podem ser quantificados. Por exemplo, se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições, podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria – e já não têm. Têm cada vez cada vez menos férias, cada vez menos tempo para ser pessoas. Uma das questões que coloco é se os responsáveis políticos se dão conta da especificidade da profissão docente. A relação professor-aluno é extremamente intensa, delicada, forte, vital e específica. Vital para criar qualificação no trabalho e consciência democrática. É preciso fazer ressaltar esse factor que não está a ser pensado. A avaliação das competências tem de ter em conta um elemento inavaliável, inquantificável em que se funda a criatividade da educação.

Os ministros da Educação já foram professores, mas, uma vez ministros, têm outros imperativos – e há um imperativo economicista enorme em Portugal. A ideia que, infelizmente, estou cada vez mais a formar do ministro da Educação Nuno Crato é que ele está a esquecer tudo o que escreveu, está a esquecer tudo o que ele próprio pensou. E muitos professores estão a sair, a pedir a reforma antecipada, desgostosos com o ensino, com a escola e consigo mesmos. Estão-se a ir embora. E a política da Educação a degenerar.»

Tudo tão deprimente! Tão cada vez mais na mesma em termos de se encontrar um caminho que arrancasse este país do atoleiro em que se afunda.

Não, não é mais possível. São necessários bons professores, tanto quanto são necessárias políticas de Educação que os incentivem a serem de facto bons professores. É necessário tempo para o serem, não para gastarem horas mergulhados em reuniões de puro convívio, quantas vezes inútil e vazio. E um professor que não se prepara devidamente e vai mesmo mais além, transforma as suas aulas em “bagunçada” sem interesse e os alunos vão embrutecendo, defendidos além disso por políticas que lhes dão uma liberdade desorientada.

Sim, Putin será ditador. Mas caminha para algum lado, não creio que as suas escolas deslizem caricatamente como as nossas para o zero da exigência humanista. Os Jogos Olímpicos e outros bem revelam os êxitos medalhados de uma cultura de rigor.

Nuno Crato foi também decepção para mim. Mas talvez não tenha culpa, instrumento de um poder sem recursos outros que não sejam os da mesura bem comportadinha num país mal comportado, que enredou a sua própria língua nas malhas da idiotia.


sábado, 3 de março de 2012

“Aquilo foi arrumado pelo Tribunal”


A minha amiga hoje apareceu cansada, a falar em números: os das mortes nestas duas últimas semanas, indignada por ninguém justificar tão espantosa mortandade que uma gripe colectiva tem originado, sobretudo na população mais idosa. A minha amiga acha que tais números de catástrofe são já consequência da crise, da má nutrição, da falta de dinheiro para debelar o frio, de todos os condicionalismos a que o governo do “custe o que custar” reduziu uma população desde sempre considerada na base da velha pirâmide, cujo vértice cimeiro não é já Deus, nem o rei, mas o grupo dos capitalistas corruptos, que se capitalizaram por artimanhas que os fizeram alcandorar-se no topo, por deficiente aliança entre governo e justiça.

E falou-se no crime, na violência no país dos brandos costumes que há muito deixou de o ser. Aliás, eu nunca achara que o fosse. Porque um país onde reina uma desigualdade social gritante, o que tem é costumes de subserviência, por não ter crescido mentalmente a população iletrada, cujos números assustadores nos envergonharão creio que por longo tempo ainda.

Mas aquilo a que temos ultimamente assistido é algo de estranho, que víamos nos filmes ou conhecemos nas notícias do estrangeiro. Uma agressividade inusitada, assaltos a lojas, com mortes, roubos, saques, assassínios até entre familiares, raptos, crimes de estarrecer.

E a minha amiga conta, a voz alterada pela indignação:

- Agora é matar, matar, matar. Histórias de fazer eco. Sabe o que fez um marido ciumento? Foi atrás do carro da mulher, espatifou-lhe o carro, fê-la sair dele e esfaqueou-a. Foi contado no programa da Júlia Pinheiro, a mulher falou do hospital, onde está internada. Porque aqui dá-se este caso: o fulano não foi preso. Como é que um gajo daqueles vem cá para fora? Que raio de justiça é a nossa que permite que ande um criminoso à solta, a aguardar julgamento?

Citou ainda o caso do rapazinho de dezassete anos que apareceu morto, as pernas queimadas, um crime de violência extrema.

- A violência é tão grande que deixa a polícia espantada. Não, aqui já não é diferente do que se passa lá fora.

E referiu o caso do Paco Bandeira, inicialmente defendido pela última namorada, que agora veio desmentir em Tribunal as suas afirmações anteriores sobre a inocência dele. Afinal, ela própria teve medo dele e separou-se. E o irmão da primeira mulher, que veio reabrir o processo, por não se tratar de suicídio mas de homicídio cometido por Paco. Nada pudera fazer antes em defesa da irmã, dado o prestígio daquele, numa justiça afável com o criminoso ilustre, sobre o qual, cada vez mais, aparecem testemunhas acusadoras.

- Aquilo foi arrumado pelo Tribunal, concluiu. Como é que o Tribunal arruma este assunto? O Tribunal não quer saber de nada?

Respondi que o Tribunal, tal como nós, só atendia à “A ternura dos quarenta”, um excelente meio de autodefesa. E lembrei ainda o tempo em que, em África, nós escutávamos constantemente a canção  que nos seduzia os ouvidos confiantes e que desde o 25 de Abril fora silenciada:
“Lá longe, onde o sol castiga mais, não há suspiros nem ais, há coragem e valor…”

Achámos que talvez a sua cabeça tivesse ficado, de facto, mais castigada do que ele cantara, na sua voz saudosa, de entoações perfeitamente originais. E considerámos ainda quanto o lirismo tem de enganador.

Referimos, a propósito, o provérbio que, tal como a nós, motivou a injustiça da Justiça: “Bem prega frei Tomás. Olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz.”
A Justiça limitou-se a olhar o que ele diz.