segunda-feira, 9 de julho de 2012

Acabar com os ovos


Eu já tinha industriado a minha amiga de um pecadilho de gula apenso ao clã familiar da minha infância, de gostarmos – a minha mãe, a minha irmã e eu – dos ovos estrelados com açúcar, o que francamente a desmotivou de pegar em outros episódios da sua crítica à mísera actualidade, repugnada que ficou, que é pessoa de comedimento na questão das doçuras e assim mo explicitou.

A propósito, pois, de ovos estrelados, referi-lhe o episódio de “A Capital” do Eça, em que Artur Corvelo, saído da província, e querendo lançar-se no mundo literário da capital, lê aos seus comensais, intelectuais da praça, angariados pelo parasita Melchior, partes de uma sua peça de teatro, numa cena grotesca de gente indiferente e esfomeada, que vai comentando e rosnando entre dentes contra a maçada de uma leitura sobre ambientes e figuras de uma realidade e um enredo sediços. A cena gaguejada do “estrelados só ovos” provocou muita gargalhada de intenção maldosa, destruidora dos efeitos restantes da intriga, entre a gente deserta por começar a comer. Não resisti a levar-lhe essa parte da cena do capítulo IV (É Artur Corvelo que fala):

«- O que lhes vou agora ler, é quando o Poeta faz, em casa da duquesa, o elogio da poesia… E enfim, verão… É numa soirée:

«O CONDE DE S. SALVADOR

«- Leu os “Céus Estrelados”, marquesa?

«A MARQUESA DE ALVARENGA (despeitada)

«- Até acho impertinente que mo pergunte, Conde! Uma pessoa do meu nascimento e da minha educação, não toca nem com luvas…

«O VISCONDE de FREIXAL (gaguejando)

«- A ma-arquesa e-em que-estões de es-es-trelados só-ó o-vos!

Todos riram. Muito bem! Muito bem! O Meirinho afectava torcer-se…»

Uma cena caricatural, que culmina com a longa notícia bajuladora do jornal, que tudo refere subservientemente acerca das altas personalidades que participaram no sarau literário, e do distinto menu, escamoteando o nome do seu patrocinador e autor da obra lida, e mais uma vez reveladora do conhecimento humano e dos ambientes pedantes e simultaneamente pirosos e mesquinhos da sociedade lisboeta, e das dificuldades para se singrar no mundo da literatura, que Eça tão bem conheceu.

Mas dias depois, a minha amiga, que é uma alma sensível e escuta todos os programas dos canais sensíveis aos interesses do nosso público e mesmo aqueles expressivos do nosso bem-estar material, como sejam alguns da Sic e da TVI de muita alegria, cujo dinheirão para os elevados cachets não mergulha na mísera bolsa dos portugueses, ao que eu logo opus que não devemos generalizar tanto a questão miserabilista, e ela logo arremeteu contra o “Prós e Contras”, como exemplo de programa de muita extensão horária, e de largo dispêndio de palavras e de pessoas, conquanto sem resultados práticos para o país, apesar dos esforços denodados da Fátima Campos Ferreira, a não ser a tal canalização do dinheiro dos impostos para efeitos retributivos, o que muito enerva a minha amiga, mesmo que eu ache que às vezes se colhe esperança nele, no que ela não acredita, por entender, como Pacheco Pereira, que o programa é de encomenda pró-governo, tão passista agora, como antes fora socratista, por a RTP ser um canal ligado ao poder.

Ora, entre os programas que a afectaram na sua piedade, conta-se uma entrevista a um industrial de ovos sobre a imposição europeia de alterar as condições dos espaços de criação dos ovos, o que, por falta da verba necessária, exigiria dos industriais ovícolas a matança de milhões de galinhas. E, além dos preços dos ovos aumentarem, também de exportador, Portugal passaria a ser importador de ovos.

O industrial estava desolado, era mais um a ter que despedir trabalhadores, ele próprio provavelmente ficando sem trabalho, “coitadas das pessoas!”, no que eu contestei a minha amiga, para a distrair das suas penas, que são minhas também, fartas que estamos das notas negativas a um governo que tem construído a sua teoria de salvação do país assente no sacrifício de alguns e que não se resolve a cobrar dos que enriqueceram ilicitamente.

E a minha amiga explica que “o dinheiro está todo lá. Agora mandar vir vai dar um trabalhão. Então não está provado que está roubado até à quinta casinha?”

Falámos nas passeatas do presidente e dos ministros pelo mundo além, ao que parece com objectivos de desenvolvimentos comerciais, mas ponderámos que já muitas passeatas dessas se fizeram antes, e o resultado fora, como agora iria ser, de rombo no erário público para divertimento do pessoal governativo viajante aéreo. E nem sequer em viagem para comercializar os ovos da hecatombe anunciada, como mais um retalho do país a saldo.

Não. Os ovos estarão reservados para as balas da nossa garantia de continuidade. A ministra Assunção Cristas garante estar em cima do acontecimento, alguma solução há-de ter na manga. Com açúcar é que não é.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Confronto de bricabraques


Lemos num breve estudo apenso ao livro da colecção “Classiques Larousse”, “Le Cousin Pons” de Balzac, que a moda do bricabraque se iniciou, em França, no século XIX, que já Victor Hugo corria os antiquários com a sua amada Juliette Drouet, mas que foi Balzac que erigiu um monumento literário à arte do bibelot, com a criação da personagem Pons, do seu romance “Le Cousin Pons”, revelador de um conhecimento balzaquiano invulgar na arte da marcenaria, mas mais superficial relativamente à pintura e escultura.
É o cousin Pons, personagem ridícula, na sua fealdade, tímida delicadeza de pobre e no seu vestuário fora de moda, primo de uns figurões de uma nobreza recente, os Camusot de Marville, novos-ricos desdenhosos que lhe oferecem os seus finos repastos e simultaneamente o desconsideram, a este parente pobre, vivendo da sua música e gastando os seus magros proventos na aquisição de antiguidades, a sua grande paixão, juntamente com a do pecado da gula, que o torna dependente dessa família pedante, de cuja filha é professor de música. Uma ofensa destes o faz ausentar-se por algum tempo do seu convívio, compensado com a presença do seu grande amigo e companheiro, o alemão Schmuckre, professor de piano no teatro onde Pons igualmente trabalha depois das suas aulas particulares, e uma alma boa, que o aconselha a viver como ele “de pão e queijo, na sua casa, em vez de ir comer jantares que lhe faziam pagar tão caro”, mas breve verifica que o estômago de Pons ultrapassa, em exigência, as suas próprias delicadezas e susceptibilidades do coração e da alma. Logo, com ternura, tenta aliciá-lo, consolando-o nos seus desgostos e aumentando o requinte das iguarias, por intermédio da porteira da casa onde vivem, Mme Cibot, inicialmente maternal e prestável com os dois velhotes de alma cândida, mas, com a descoberta da fortuna de Pons em objectos de bricabraque adquiridos ao longo de uma vida de devaneio pelas ruas de Paris no intervalo dos seus escassos e mal remunerados trabalhos, revelando-se tão gananciosa como o resto da trupe de familiares e outros figurões que vão surgindo com a revelação gradual do significado financeiro dessa colecção – um revendedor, um coleccionador, um médico, um advogado, toda a casta de escroques ávidos que triunfarão, em maquinação poderosa, com a morte de Pons e de Schmuckre, a quem aquele tinha deixado o usufruto da colecção, legada ao Museu do Louvre e ao Estado francês, testamento, entretanto, sonegado pelo advogado Fraisier. A colecção de Pons – a verdadeira heroína desta história, segundo o seu narrador, pois despoletará as paixões e as malfeitorias sórdidas de personagens da cena francesa escrupulosamente e poderosamente escalpelizada por Balzac ao longo das várias obras da sua “Comédie Humaine” – virá parar à família Camusot de Marville que tanto desprezara o seu parente pobre.
Eça de Queirós, na obra “Os Maias”, seguirá Balzac na referência ao interesse pelo bricabraque de uma das suas personagens intelectualmente mais sedutoras – o inglês Craft, fleumático mas sensível, cuja casa nos Olivais virá a desempenhar um papel importante na trama desenrolada – local dos amores escondidos, por falsa crença de adultério, e que se revelarão incestuosos, dos dois protagonistas Carlos e Maria Eduarda, inconscientes do laço familiar que os une.
Contra um cenário e um estilo minuciosos em pormenor e intenção crítica de Balzac, destacam-se as cenas leves, de caricatura e humor, ou de doçura e tristeza, de Eça, numa acção que se vai desdobrando com personagens gradualmente impostas, com o delinear de um enredo de suspense, em que o fatalismo é a chave manipuladora.
É assim a apresentação de Craft a Carlos feita pelo esfuziante Ega, na véspera do jantar no Hotel Central (Cap. VI), e após a partida daquele:
« - É das melhores coisas que tem Lisboa. Vais-te morrer por ele… E que casa que ele tem nos Olivais, que sublime bricabraque!»
E é no dia seguinte que tem lugar o novo encontro de Carlos com Craft, em cena aparentemente inócua, embora cheia de graça no seu diálogo e no discurso semidirecto definidores de caracteres – o retrato do tio Abraão salientando-se na sua subserviência de vigarista, de repetidos salamaleques, e doce linguagem mesureira, carregada de diminutivos - mas contendo já a ironia trágica que aparenta esta obra com a tragédia sofocliana, pelas maquinações do destino nela contidas, em particular “O Rei Édipo”, com a novidade da informação de que Craft se iria desfazer da sua colecção de bricabraque, os fios da intriga trágica urdindo-se insinuantemente:
«Nessa tarde, às seis horas, Carlos, ao descer a Rua do Alecrim para o Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bricabraque do tio Abraão.
Entrou. O velho judeu, que estava mostrando a Craft uma falsa faiança do Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
Depois, numa linguagem exótica, misturada de inglês, pediu ao seu bom senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu beautiful gentleman, que se dignasse examinar uma maravilhazinha que lhe tinha reservada; e o seu muito generous gentleman tinha só a voltar os olhos, a maravilhazinha estava ali ao lado, numa cadeira. Era o retrato duma espanhola, apanhado a fortes brochadelas de primeira impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de cor-de-rosa murcho, uma face gasta de velha garça, picada das bexigas, caiada, ressudando vício, com um sorriso bestial que prometia tudo.
Carlos, tranquilamente, ofereceu dez tostões. Carlos pasmou de uma tal prodigalidade, e o bom Abraão, num riso mudo que lhe abria entre a barba grisalha uma grande boca de um só dente, saboreou muito a chalaça dos seus ricos senhores”. Dez tostõezinhos! Se o quadrinho tivesse por baixo o nomezinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha esse nomezinho bendito… Ainda assim valia dez notazinhas de vinte mil réis…
- Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma!
E saíram, deixando o velho intrujão à porta, curvado em dois, com as mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos fidalgos…
- Não tem uma única coisa boa, este velho Abraão – disse Carlos.
- Tem a filha - disse o Craft.
Carlos achava-a bonita mas horrivelmente suja. Então a propósito de Abraão, falou a Craft dessas belas colecções dos Olivais, que o Ega, apesar do desdém que afectava pelo bibelot e pelo móvel de arte, lhe descrevera como sublimes.

Craft encolheu os ombros.
- O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se pode chamar ao que eu tenho uma colecção. É um bricabraque de acaso… De que, de resto, me vou desfazer!
Isto surpreendeu Carlos. Compreendera pelas palavras de Ega ser essa colecção formada com amor, no laborioso decurso dos anos, orgulho e cuidado de uma existência de homem…
Craft sorriu daquela legenda. A verdade era que só em 1872 ele começara a interessar-se pelo bricabraque; chegava então da América do Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, acumulara-o nessa casa dos Olivais, alugada então por fantasia, uma manhã que aquele pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera pitoresco, sob o sol de Abril….»
É a colecção de Craft que Carlos comprará a Craft, alugando-lhe a casa dos Olivais por um ano, para Maria Eduarda e a filhita. (cap. XII).
No capítulo XIII tem lugar o descritivo dos Olivais e do seu recheio artístico, na primeira visita de Maria Eduarda, com várias figuras sinistras – os amores adúlteros, se não incestuosos de Vénus e Marte, desmaiando na “trama de lã” de uma tapeçaria, um “painel antigo, defumado … onde apenas se distinguia uma cabeça degolada, lívida, gelada no seu sangue, dentro de um prato de cobre (a cabeça de S. João Baptista).” Um armário com dois faunos discordantes dos outros motivos cinzelados, o génio tutelar da casa “um ídolo japonês de bronze, um deus bestial, nu, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso….”
Descritivo simbólico, na sua hediondez, de uma paixão tão espiritual, enquanto não é decifrado o segredo que uma fatal carta materna trazida por um fatal agente inconsciente do seu papel –  o tio de Dâmaso, Sr. Guimarães – provando que se trata, na realidade, de uma paixão criminosa.
Balzac tratara o tema do bricabraque de uma forma dinâmica e realista, mostrando como ele despoletara as paixões ambiciosas dos seres sem escrúpulos, não deixando, todavia, de reclamar para a colecção Pons, simbolicamente, o papel de heroína principal.
N’ “Os Maias”, a simbologia da colecção de Craft, tão magnificamente descrita, tem a ver antes com uma arte romanesca filiada em escolas várias – realismo, romantismo, classicismo. Uma arte que recua no tempo. Uma arte quer avança no tempo.
Uma arte perene de perfeição. De um escritor português. De um livro dificilmente superado, a nível mundial, por nenhum outro, quer em graça e ironia, quer em sentido crítico, quer em descritivo humano, quer em descritivo paisagístico, quer em riqueza de estilo, quer em arquitectura formal…: “OS MAIAS” de EÇA DE QUEIRÓS.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Croquis


Escreveu Esopo,
Bom conhecedor dos animais
E dos significados
Das suas acções reais,
De aplicação aos humanos mortais:

«O morcego, a silva e a gaivota»

«Um morcego, uma silva e uma gaivota
Tinham-se associado
Para num negócio se lançarem,
Sem nenhuma artimanha de batota.
O morcego obteve os capitais
Para investir numa sociedade
De qualidade,
A silva fabricou trajes especiais,
A gaivota comprou o cobre para o negócio,
Como terceiro sócio,
Antes de no veleiro embarcarem.
Mas uma tempestade rebentou
Que o navio virou.
Os três sócios até à margem nadaram
Mas toda a carga perderam,
Que se tramaram.
E foi assim que desde então,
Sem nenhuma excepção,
A gaivota mergulha nas profundezas,
À procura do cobre das suas despesas;
O morcego, com receio dos credores
Não aparece de dia mas de noite
Em busca dos comeres;
E a silva, infatigavelmente,
Prende as vestes dos viandantes
À procura das que perdeu para sempre.
A fábula mostra que quando uma questão
Nos toca de perto,
Voltamos sempre ao lugar
Do ponto da confusão
Para procurar
Resolvê-la com acerto.»

Isto disse Esopo,
Mas o que costumamos nós dizer,
Por nos ser mais comum,
É que “o criminoso
Volta sempre ao local do crime”,
Sem receio algum.
Que é como quem diz,
Que os negócios são como um team
Entre os amigos do coração
Que bem podem resultar em trambolhão,
Não para eles mas para o país.
Mas eles todos atingem a margem,
Com muita sabedoria e coragem,
Mesmo que o resto vá para o fundo.
É o nosso mundo.
Não o dos negócios ocasionais
Que metem morcego, silva e gaivota
Sem qualquer artimanha de batota
O que não passa, aliás, de treta.
O nosso mundo de negócios fulcrais
É sempre de vitória com batota,
Para os principais,
Quer tenham ou não frota.
Para outros, a derrota.
A gota.
A bota rota.
A boca torta.
A bolsa oca.
A moca.