domingo, 12 de agosto de 2012

Faz primavera


Afinal, a tão conhecida asserção
De que uma andorinha
Sozinha
Não faz a primavera
Ou mesmo o verão,
Que além de provérbio
Também virou canção,
Já Esopo a explorou
E outros antigos, que por ela
Pela andorinha ágil e bela
Que poisa à janela
Da casa amarela
Ou branca ou azul
De qualquer Cinderela,
A citou na sua fábula,
Sem balela, 

«O jovem pródigo e a andorinha»
«Um filho pródigo de nome António,
Que por acaso não era campónio,
Nem, valha a verdade, possidónio,
Tinha comido
Todo o seu património.
Não tinha mais que um casaco vestido
Quando avistou uma andorinha
Sozinha
Que aparecia fora da estação.
Adepto da opinião
Contrária à que afirma
Que uma andorinha sozinha
Não faz a primavera,
Julgou que a primavera
Já era
Só porque vira
A andorinha sozinha,
E que o seu casaco, por útil que fora,
Agora, na primavera,
Preciso não era.
Tratou de o vender
Para poder comer.
Mas pouco depois,
Como o inverno retomara
E ele gelava de uma maneira dura,
À procura
De alimento que lhe mitigasse a secura,
O jovem tropeçou no cadáver da andorinha
Inteiriçada de frio, coitadinha!
«Miserável! Disse-lhe ele,
Cheio de fel,
Causaste a tua perda e a minha!»
A fábula mostra
Que tudo o que vem fora da estação
É um risco de paixão
Que não tem salvação.»

Isso era a opinião de Esopo,
Mas o que se costuma agora dizer,
Para explicar a questão
Da primavera ou verão
Não assinalados por uma só andorinha
Desprezadinha,
É que às vezes essa é bastante
Para formar rede de gente
Em qualquer estação

Que se ocupa de questão pujante
Com resultado excelente
E sem risco extravagante
Para a parceria envolvente.
É como uma peste que lavra
Pelo restante da gente,
Que não faz parte da rede
Mas que vive a sua sede
De uma forma que fede.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Tudo perfeito


- Aquilo é tudo perfeito. Custa a crer a precisão daquilo tudo! Ena pá! Esta é que é a notícia do século! Uma notícia fabulosa!

Adivinhei logo que se tratava da colocação em Marte do robô-sonda Curiosity, que andou aos pulos antes de parar, protegido por airbags, e que provocou uma explosão de alegria nos cientistas e controladores americanos, assim que ela começou a enviar as imagens de Marte.

            A minha amiga não se calava com a notícia, pois é ferrenha nestas coisas de descobertas que sirvam o nosso conforto, embora eu por enquanto não consiga descortinar tais efeitos de progresso, a não ser a confirmação da inexistência de marcianos, que poderiam actuar como focos alienígenos de crise e guerra, para horror nosso, já massacrados com os focos próprios terráqueos. A menos que se descobrissem pedras preciosas ou outras coisas compensadoras, perspectiva que nos tornou ainda mais animadas.

Também pusemos a hipótese de construir em Marte, futuramente, o sítio de escoamento das escórias terrestres, mas a minha amiga mostrou-se reservada no capítulo das escórias, porque sabe quanto a reciclagem pode servir para limpar o nosso planeta e já andamos a fazê-la, sobretudo através dos incêndios purificadores. Para ela, as viagens a Marte dentro de vinte anos – não estaremos cá para ver – serão provavelmente os bem fornidos de matéria pagante a praticá-las, embora sem certezas quanto a esse dado, por causa da dívida reinante que os não isenta da responsabilidade nela.

A minha amiga, que admira sem rebuço o povo americano, que tanto tem contribuído para os prazeres espirituais e materiais do nosso mundo, não se cansava de falar na sonda, ainda que eu estranhasse que ela não referisse os custos estrondosos de empreendimentos destes, numa Terra em crise, mesmo nos potentes Estados Unidos.

Mas o nosso feito nacional conta, sobretudo para mim, mais do que a sonda em Marte e satélites, porque sou francamente mais patriota do que a minha amiga, que tem um génio forte, admirador dos fortes e desprezador dos fracos. Nos meus complexos de inferioridade patriótica, por não fazermos parte dos medalhados olímpicos, quando o fomos, finalmente, não em nau ou caravela mas em sofisticada canoa, por intermédio dos canoístas Emanuel Silva e Fernando Pimenta com a sua prata que nos projectou finalmente para a lista dos medalhados, dei o mesmo suspiro de alívio dos demais portugueses que já fazem, segundo leio, projectos para nos tornarmos em potência canoeira.

Fernando Pessa diria «E esta, heim?!», lembrando provavelmente o Dâmasozinho avesso a desconsiderações. La Fontaine e os outros mitógrafos ancestrais lembrariam a questão da rã e do boi.

Os inchaços fazem parte do nosso caminho de perfeição. Daí que a fé nos não abandone de também a atingirmos, de olhão sempre.




segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Esta não parte um dente


Não, a “engrenagem” que a minha mãe há dias aplicou, nas suas saídas de emergência, de uma prontidão de raciocínio que me põem boquiaberta, nada tem a ver com a que utilizamos, a minha amiga e eu, para condenar aquilo a que muitas outras vezes apelidamos de rede, graças aos muitos nós da sua coesão de intimidade, outras vezes teia, ambas úteis para pesca ou para caça, com maior ou menor viscosidade ou lubrificação. Ou as engrenagens sociais de uniões e separações entre os sexos ou do mesmo sexo, os sentimentos na sua base, a corrupção como directriz, ou a pura libertinagem… E outras muitas formas de engrenagens ao acaso dos noticiários.

               Também não tem a ver com a de Sartre, de “mãos sujas” que entram em manigâncias de governação cuja engrenagem, com revoluções como pano de fundo, ou com motivos económicos de dependência estrangeira – no caso de “L’Engrenage”, a exploração petrolífera estrangeira num qualquer país da América latina, impedindo a nacionalização dos poços de petróleo, qualquer que seja o governante que obteve o seu posto graças a promessas de libertação que se revelarão falaciosas e conduzirão o novo chefe pelos caminhos do anterior, com as mesmas consequências de fuzilamento, do anterior…

            O que a minha mãe me disse num dos meus responsos de irritação provocados por um mimo seu que excede toda a paciência, creio mesmo que das mais angélicas - o que não é decididamente o meu caso – foi taxativamente “Olha que isto é uma engrenagem que não parte um dente.”

            Uma frase empolgante, que admirei nobremente, preparando-me para assumir as consequências futuras da minha zanga presente. Rainha airosa e recalcitrante, a minha mãe conhece do mundo e da vida, nos seus aspectos de rodagem temporal que, ao que lhe parece, não perdoa desmandos. “Quem as faz, paga-as”, diria eu sem preconceito artístico. A minha mãe escolheu a engrenagem para metáfora, de roda dentada para melhor actuação.

Não quero ficar atrás de tanta elegância literária. Cito, assim, o “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate” da minha contrição.