sábado, 6 de outubro de 2012

De cangalhas


No caderninho de apontamentos  aonde inscrevo as tiradas da minha amiga, quando ela está pelos ajustes, escreveu a minha filha Paula as últimas palavras da Conferência de Antero no “Casino Lisbonense”, “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”: “O Cristianismo foi a Revolução do Mundo antigo. A Revolução não é mais que o Cristianismo do mundo moderno” .(Antero de Quental antes dos tiros).

Já, entretanto, excitadas, nós alvitráramos a respeito do desrespeito da bandeira desfraldada às avessas, aquando das comemorações do 5 de Outubro, em frente da Câmara de Lisboa, o que ambas considerámos propositado e punível, a merecer cadeia, mas a minha amiga, que ouve e lê as notícias, explicou que o nosso ponto de vista era isolado, pois ninguém pusera essa hipótese, preferindo achincalhar o Governo ou propor simbolismos adequados e preferiu ironizar sobre a distância a ser mantida entre a Câmara e os populares, que o cordão policial providenciava. Mas eu mal reparara, e referi antes uma cantora lírica que se desunhara a cantar na praça o seu protesto e mansamente a minha amiga esclareceu:

- Ela sabe que eles não têm hipótese, estão a sofrer na pele os efeitos da crise. Há um ou outro com coragem. Uma mulher que tem uma cultura, uma vida de estudo, e não vê nada nem ninguém que a apoie.

- É que podiam levá-los à praça pública,- apoiei - pô-los a cantar e pagar-lhes. Era um prazer ouvir dantes o Carlos Guilherme, a Helena Vieira às vezes, e temos vozes magníficas de cantores líricos no Conservatório, sem saída. Só estimulamos os cantores pop, ou de fado, ou as danças regionais, em televisão. Creio que é a isso, e os comeres e o artesanato que aqui chamamos serviço público. Além das investigações de carácter pessoal, médico, policial, etc. Não temos direito a mais, a não ser no Canal 2, que às vezes apresenta programas de interesse cultural, mas com fraca assistência, pelos vistos.

E exaltávamos as qualidades de Margarida Marante, retirada definitivamente das suas lides e sofrimentos terrenos, e referíamos as pequices bem sucedidas dos espertos como Soares que continua pavoneando-se irrisoriamente perante as curvaturas vertebrais das homenagens jornalísticas, e falávamos no discurso traiçoeiro de Marques Mendes e outros, quando, entretanto, a Paula chegou, para a sua bica pingada.

Mostrei-lhe o escrito sobre Antero, e ri-me do que ela escrevera a seguir, por brincadeira  - “A. Q. antes dos tiros” – creio que movida por uma qualquer ânsia explosiva que se nos colou a todas ultimamente, mas esclarecemos logo que a data das “Conferências do Casino” – 1871 – se situava pelo menos 20 anos antes do tiro do seu suicídio, embora a minha filha relativizasse essa questão do tempo como de menor valia.

E passámos à referência ao texto, que aponta como causas da decadência peninsular nos séculos XVII, XVIII e XIX – (os séculos anteriores marcados por um conceito de liberdade social que de certo modo irmanava as classes num esforço comum de defesa territorial, e que teve o seu apogeu nos séculos XV e XVI) - a governação absolutista, favorecedora das desigualdades sociais e arruinando as liberdades locais, a Inquisição e o ensino jesuítico hermético e intolerante, condicionantes sociais e culturais, segundo imposições da Contra-Reforma, resultante da separação das Igrejas, no Concílio de Trento, a colonização distante e ruinosa - contrariamente aos demais países europeus, seguidores da Reforma, que, embora de governos igualmente absolutos, não descuravam a formação cultural dos seus povos, abertos ao desenvolvimento e progresso culturais num espírito de mais amplas e inteligentes liberdades  religiosas.

Sim, a nossa posição na cauda dos povos europeus continua impávida e serena, observável nos discursos falaciosos dos críticos, cujas doutrinas se movem nos pequenos saberes das suas demagogias insistentes ou dos seus interesses próprios, ou no palrar das populações de indignação orientada, mau grado o comedimento triste dos que mais têm razões para protestar, ninguém parando para pensar em colaborar num espírito de salvação nacional.

Voltando às conclusões de Antero - “O Cristianismo foi a Revolução do Mundo antigo. A Revolução não é mais que o Cristianismo do mundo moderno”, elas poderão significar uma diferente dimensão definidora de Cristianismo e Revolução – o Cristianismo no Mundo Antigo revolucionando espaços e tempos num cada vez mais amplo sentido universal e imorredoiro, a Revolução preconizada pelos espíritos revolucionários da Geração de Setenta, de elevar Portugal a uma pretensa irmanação cultural com os  povos da Europa constituindo uma pura parcela desse Cristianismo de transfiguração, confinado aos espaços que então compunham esse país, que eles desejavam saído do véu de atraso que o encardia.

Duvido que a frase se possa aplicar aos tempos de hoje, tanta a vil matéria que presidiu ao espírito da nossa Revolução de Abril, que nos fez chegar aqui, hoje . ontem - virando a bandeira da República às avessas.

 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A posição faz o ladrão


A seguinte fábula de Esopo
Sobre um cabrito e um lobo
Fora do estatuto normal
- O cabrito agasalhado, em lugar de amedrontado,
 O lobo a ver navios, todo abespinhado
Em vez de ameaçador
E de ar superior,
Representa um estado geral
Do nosso status social
Em que arrogância e cobardia
Se unem em harmonia
Sem qualquer alergia.
Vejamos a alegoria:

O cabrito abrigado e o lobo

«Um cabrito que numa casa se abrigava,
Um lobo injuriava
Que por ali estava a passar.
“Olha lá, ó seu palerma!
- O lobo lhe diz com calma -
Não és tu que me estás a insultar,
Mas a posição em que te encontras,
Nessa caverna protegida e erma,
Que te permite falar.”
A fábula mostra que muitas vezes
O desprezo manifestado em altas vozes
 Resulta de circunstâncias ocasionais
Anormais,
Mais do que dos poderes próprios
Individuais.»


Esopo o disse e nós aqui estamos,
Cabritos cobardes e espertalhões,
Protegidos pelas leis da democracia

Ameaçando, recalcitrando
Boicotando,
Os nossos agravos manifestando
Greves fazendo, os ouvidos fechando
E as consciências,
Só porque achamos
Que o Governo não governa
E cada vez mais nos enterra
Aliado que está a um compromisso
De pagar monstruosa dívida e que por isso
Revela extrema fraqueza
Que nos convém acentuar,
Ao aliar-se com a riqueza
Que só ela nos pode ajudar.
Mas as sabidas verdades
Convém-nos escamotear,
Hipocritamente fingindo ignorar
A conjuntura que nos pôs neste lugar,
Que só uma honesta gestão e sem demagogia,
Do lobo em má posição, mas com determinação,
Poderá  resolver com consciência
Embora alguma inclemência.
Que Deus nos dê paciência,
E que o lobo prossiga o seu caminho
Sem se esquecer do carinho.

 

 

 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

“Aumentam os seguranças”


Falámos no bonito gesto da Adriana, acariciando a couraça do polícia Sérgio, imagem de ternura e deslumbramento que tanta emoção e entusiasmo despertou no país, devidamente registado nas vozes dos políticos, na escrita dos jornais, nas referências da Internet, como nosso “casus belli” a merecer digna epopeia nos nossos tempos conturbados.

Até me lembrou, por contraste, o gesto do Astianaxezinho, no canto VI da Ilíada, quando viu o elmo de crista de crinas de cavalo do seu papá Heitor, e se pôs a chorar de susto, o que forçou Heitor a pôr o elmo no chão para beijar o filho, juntamente com a atribulada Andrómaca que tanto apelou para que o marido não fosse combater contra Aquiles, que já lhe tinha matado o pai e os sete irmãos e que iria sem dúvida fazer o mesmo ao marido, o que teve como efeito a resposta comovida de Heitor, mandando-a, com imensa ternura, para os seus lavores de tear e roca, que a ele competia defender marcialmente Tróia e os troianos, como grande herói que era e sabedor dos seus deveres.

Mas o gesto da nossa gentil Adriana de carícia à couraça do nosso gentil polícia Sérgio, e fixado em notável foto que marcará na nossa história pátria, sem que, hélas! surja um épico disposto a eternizá-lo, apesar de estar nele bem expresso “o peito - embora couraçado - ilustre lusitano”, para o possível canto épico, em “som alto e sublimado” já que a nossa era das glórias foi ultrapassada e só nos resta a crise, recorda bem, esse gesto gentil, sem dúvida, o da esposa de Heitor, acariciando o marido com a mão, na tentativa infrutífera de o demover do combate com Aquiles.

 Adriana também acaricia a couraça de Sérgio, num gesto de terna sensualidade, de quem apela para que deixe o dever que lhe impôs o Governo, de defender a ordem, e que desça à praça e mesmo a ela que é tão bela, para defender a manifestação popular dos que preferem o pão e mandar abaixo a governação.

Estávamos nós nestas amenas referências aos acontecimentos vividos e mesmo repetidos na história e na arte intemporais, quando chega a minha filha Paula, com a experiência dos seus agravos, sem gestos de doçura mas de crença nos malogros:

-“Vamos para a rua p´rás manifs e agora pagamos-lhes as seguranças!”

E ei-la com a minha amiga em altissonantes referências ao governo de ministros, assessores, consultores de imagens, secretários de Estado  etc., cada qual protegido por abundância de seguranças, exemplo visível de gorduras estatais não desaparecidas, enquanto os trabalhadores perdem o seu emprego ou são espoliados no seu ordenado e o mal estar do desemprego e da fome vai alastrando.

Mas a brutalidade da dívida nacional e a imposição de a pagar não passam na boca dos críticos nem dos manifestantes, como motivo de moderação.

Venham então os seguranças, no cavalo da nossa “Tróia” a destruir. E juntem-se aos guerreiros da praça pública, com as suas armaduras das carícias.