terça-feira, 9 de outubro de 2012

“Bom Londres é Portugal”


Hoje veio à baila um texto de Clara Ferreira Alves sobre a arrogância de António Borges – o “pistoleiro Borges” segundo a “Pluma Caprichosa”  – o qual se atreveu a condenar os empresários portugueses que contestaram o TSU primitivamente decretado pelo Governo, e que aquele apelidou de ignorantes, enquanto puxava dos seus pergaminhos de professor universitário galardoado em várias universidades estrangeiras, para os reprovar logo no primeiro ano, caso tivessem tido o privilégio de serem seus alunos.

Clara F. Alves insurge-se com a habitual veemência, respondendo com o seu saber, impregnado de muita leitura, reflexão e viagem, zurzindo no pistoleiro Borges que compara ao “cow boy fora de lei” do filme de título “Duelo de Fogo” em horrível tradução portuguesa, segundo Clara, pretexto para esta uma vez mais zurzir na ignorância portuguesa, e nos artifícios de que Borges se serviu para explorar a passividade dessa ignorância em que nos movemos todos, excepto Borges.

Não comento o texto de Clara F. Alves, suficientemente erudito e vilipendioso, tanto para Borges, “pistoleiro ao serviço do dinheiro”, como para os protectores de Borges, entre os quais Relvas, como para os portugueses genericamente envolvidos no apodo, incluindo, por ironia, desta vez, a própria Clara, e vê-se bem o seu desvanecimento, ao colocar-se do lado dos portugueses que “não estão do lado do dinheiro”, embora sejam  “todos uns ignorantes, como Vexa sabe”. São muitos os cargos de topo de Borges, apesar de não “trabalhar duro para viver”, pois possui o tal dom da ubiquidade extensível a tantos no nosso país, que lhes permite assistir em simultâneo a vários cargos poderosos, colhendo neles auspiciosos proventos, sem esforço energético de maior.

Um texto suficientemente documentado e deprimente, esta Pluma de 5 de Outubro. Mas há muito que os outros que nos conhecem – ingleses, franceses, alemães… – a maioria por serviços prestados nos tempos da emigração – as mulheres, em serviços domésticos, os homens em trabalhos fabris, nos apodam arrogantemente de povo inculto, que eles desprezam, pela docilidade bovina e sem mais horizontes do que os do ganho do seu pão com o suor do rosto, como, aliás, já Jeová decretara, com a expulsão.

Eça inúmeras vezes o escreveu também, nos seus livros – bem arredado ainda dos tempos do êxodo  salazarista - desancando na sociedade encardida e reles, os com mais autoridade nos destinos do país ou no posicionamento social, de um convencionalismo burguês e tacanho definitivamente merecedor do riso com que ele os zurziu, no propósito de modernização cultural,  como era o da brilhante Geração de Setenta.

É dos anos 77, da sua estada como cônsul em Inglaterra, que datam as suas “Cartas de Inglaterra” que envia para o Jornal do Porto, e em que os dons de observação, enriquecido nas leituras das obras literárias e dos jornais ingleses, já vão despontando em comentários ora sérios ora humorísticos de percuciente  finura.

Entre essas cartas, extraio da crónica  Brasil e Portugal” observações sobre o povo português (e o povo brasileiro) que mostram esse velho ferrete de atraso e ignorância que nos acompanhou ao longo da nossa história nacional, e que não perdemos a ocasião de fazer sentir - os pistoleiros como Borges, (que nunca escreveu obra, segundo Clara e a Internet), para alardear os seus pergaminhos, e que sempre usaram a bota para calcar e explorar o suor dos que até trabalham para eles, dantes, como servos da gleba, agora, com os seus impostos, ou com a redução dos seus vencimentos, que eles propõem com a TSU do seu desvanecimento; os outros, os que escreveram obra e dela se orgulham, querendo demarcar-se, apontando as diferenças, ou puramente tentando elevar o brio da nação pelo incitamento ao estudo, que distingue o ser humano como ser racional. Outros há que se limitam a aprofundar os seus trabalhos a favor da sua nação, sem propósitos críticos, mas apenas sociais e didácticos, provenientes do seu empenhamento cultural, e eles são muitos, neste país pequeno, que tanto lhes deve e deve ser grato por isso.

Mas Eça foi dos que sofreu com o atraso milenar do povo português, e este artigo “Brasil e Portugal” assim o faz sentir, a propósito de um artigo saído na imprensa londrina sobre o Brasil. Eça colhe o artigo do Times, que rompe inicialmente em loas e estranhezas sobre um vasto império de um diminuto povo e admiração pela vastidão dos espaços brasileiros:

… «E todavia esta admiração do Times pelo gigante é misturada a um certo patrocínio familiar, de ser superior, - que é a atitude ordinária da Inglaterra e da imprensa inglesa para com as nações que não têm duzentos couraçados, um Shakespeare, um Bank of England e a instituição do roas-beef… Neste caso do Brasil, o tom de protecção é raiado de simpatia…»

….« “Quando o Brasil quebrou os seus laços familiares, não tinha a esquecer feias memórias – de tirania e rapacidade; nem teve de suprimir genericamente todos os vestígios dum mau passado” (Times). Com efeito, pobres de nós! Nunca fomos decerto para o Brasil senão amos amáveis e timoratos.

« Estávamos para com ele naquela melancólica situação de um velho fidalgo, solteirão arrasado, desdentado e trôpego, que treme e se baba diante de uma governanta bonita e forte. Nós verdadeiramente é que éramos a colónia: e era com atrozes sustos do coração que, entre uma Salve-Rainha e um Lausperenne, estendíamos para lá a mão à esmola…»

Todo um vasto razoado apoiado no discurso do Times, que frisa o bom comportamento de um Brasil obediente aos parâmetros difundidos pelo país “educador” (o que Eça contesta ironizando), e se distingue dos congéneres sul americanos de formação castelhana:

«Da origem donde o Brasil deriva a sua actividade, deriva também (o que não é menos importante) o respeito pela opinião da Europa. O vadio das ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Aires,   nutre um soberano desprezo pelos juízos que a Europa possa formar das suas tragicomédias políticas… Não tem consciência de coisa alguma, a não ser do seu “sangue castelhano”… Sente decerto o inconveniente de ser expulso do crédito e das bolsas da Europa… Mas avalia esta circunstância apenas pelos embaraços momentâneos que ela lhe traz. O financeiro brasileiro, porém, esse presta uma tão respeitosa atenção ao temperamento das bolsas de Paris e Londres, como ao da mesma praça do Rio de Janeiro…”

…. «Somos o que se pode dizer um “povo de bem, um povo boa pessoa”. E a nação vista de fora e de longe, tem aquele ar honesto de uma pacata casa de província, silenciosa e caiada, onde se pressente uma família comedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias dentro de uma meia… A Europa reconhece isto: e todavia olha para nós com um desdém manifesto. Porquê? Porque nos considera uma nação de medíocres: digamos francamente a dura palavra – porque nos considera uma “raça de estúpidos”. Este mesmo Times, este oráculo augusto, já escreveu que Portugal era, intelectualmente, tão caduco, tão casmurro, tão fóssil, que se tornara um país bom para se lhe passar ao largo muito ao largo e “atirar-lhe pedras” (textual).

«O Dayly Telegraph já discutiu em artigo de fundo este problema: Se seria possível sondar a espessura da ignorância lusitana! Tais observações, além de descorteses, são decerto perversas: Mas a verdade é que, numa época tão intelectual, tão crítica, tão científica como a nossa, não se ganha admiração universal, ou se seja nação ou indivíduo, só com ter propósito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e obedecer, de fronte curva, aos editais do governo civil. São qualidades excelentes, mas insuficientes. Requer-se mais: requer-se a forte cultura, a fecunda elevação de espírito, a fina educação do gosto, a base científica e a ponta de ideal que em França, na Inglaterra, na Alemanha, inspiram na ordem intelectual a triunfante marcha para a frente; e nas nações de faculdades menos criadoras, na pequena Holanda ou na pequena Suécia, produzem esse conjunto eminente de sábias instituições, que são, na ordem social, a realização das formas superiores do pensamento. ….»

Um texto a ler na íntegra, que traduz um pensamento negativo sobre o nosso país e poderia servir de estímulo de orientação, pelo exemplo dos outros que se apontam, nas suas vitalidades e consciência de orientação.

Para que um dia os que hoje emigram, como em todo o tempo fizeram, na busca do que no seu país não encontram, sintam que este país vale a pena, e que a frase de um escudeiro do Mestre de Avis – Álvaro Vasquez de Góis – ao Mestre - que pensava partir para Londres, em fuga do Rei de Castela, prestes a chegar, e da cólera da rainha D. Leonor Teles, por lhe ter morto o Andeiro, e no objectivo de servir o rei inglês e obter com isso glória - a frase do escudeiro, lembrando-lhe que nenhuma melhor cidade haveria para colher glória do que a de Lisboa, cujos moradores estavam preparados para morrerem por ele, servisse para igualmente os demover da evasão e convidar à defesa das suas vidas no seu próprio país.

Talvez que nele surgissem, finalmente, ínclitas gerações de jovens com garra, não para darem novos mundos ao mundo, mas para criarem elas próprias, no seu país, um mundo novo de cultura e bem-estar social que o irmanassem com os outros onde os homens sabem construir com inteligência e seriedade. 

De resto, já está a acontecer, o regresso dos filhos e netos de emigrantes que transportam para cá a riqueza das suas culturas.                                                                                      

 

 

 

sábado, 6 de outubro de 2012

De cangalhas


No caderninho de apontamentos  aonde inscrevo as tiradas da minha amiga, quando ela está pelos ajustes, escreveu a minha filha Paula as últimas palavras da Conferência de Antero no “Casino Lisbonense”, “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”: “O Cristianismo foi a Revolução do Mundo antigo. A Revolução não é mais que o Cristianismo do mundo moderno” .(Antero de Quental antes dos tiros).

Já, entretanto, excitadas, nós alvitráramos a respeito do desrespeito da bandeira desfraldada às avessas, aquando das comemorações do 5 de Outubro, em frente da Câmara de Lisboa, o que ambas considerámos propositado e punível, a merecer cadeia, mas a minha amiga, que ouve e lê as notícias, explicou que o nosso ponto de vista era isolado, pois ninguém pusera essa hipótese, preferindo achincalhar o Governo ou propor simbolismos adequados e preferiu ironizar sobre a distância a ser mantida entre a Câmara e os populares, que o cordão policial providenciava. Mas eu mal reparara, e referi antes uma cantora lírica que se desunhara a cantar na praça o seu protesto e mansamente a minha amiga esclareceu:

- Ela sabe que eles não têm hipótese, estão a sofrer na pele os efeitos da crise. Há um ou outro com coragem. Uma mulher que tem uma cultura, uma vida de estudo, e não vê nada nem ninguém que a apoie.

- É que podiam levá-los à praça pública,- apoiei - pô-los a cantar e pagar-lhes. Era um prazer ouvir dantes o Carlos Guilherme, a Helena Vieira às vezes, e temos vozes magníficas de cantores líricos no Conservatório, sem saída. Só estimulamos os cantores pop, ou de fado, ou as danças regionais, em televisão. Creio que é a isso, e os comeres e o artesanato que aqui chamamos serviço público. Além das investigações de carácter pessoal, médico, policial, etc. Não temos direito a mais, a não ser no Canal 2, que às vezes apresenta programas de interesse cultural, mas com fraca assistência, pelos vistos.

E exaltávamos as qualidades de Margarida Marante, retirada definitivamente das suas lides e sofrimentos terrenos, e referíamos as pequices bem sucedidas dos espertos como Soares que continua pavoneando-se irrisoriamente perante as curvaturas vertebrais das homenagens jornalísticas, e falávamos no discurso traiçoeiro de Marques Mendes e outros, quando, entretanto, a Paula chegou, para a sua bica pingada.

Mostrei-lhe o escrito sobre Antero, e ri-me do que ela escrevera a seguir, por brincadeira  - “A. Q. antes dos tiros” – creio que movida por uma qualquer ânsia explosiva que se nos colou a todas ultimamente, mas esclarecemos logo que a data das “Conferências do Casino” – 1871 – se situava pelo menos 20 anos antes do tiro do seu suicídio, embora a minha filha relativizasse essa questão do tempo como de menor valia.

E passámos à referência ao texto, que aponta como causas da decadência peninsular nos séculos XVII, XVIII e XIX – (os séculos anteriores marcados por um conceito de liberdade social que de certo modo irmanava as classes num esforço comum de defesa territorial, e que teve o seu apogeu nos séculos XV e XVI) - a governação absolutista, favorecedora das desigualdades sociais e arruinando as liberdades locais, a Inquisição e o ensino jesuítico hermético e intolerante, condicionantes sociais e culturais, segundo imposições da Contra-Reforma, resultante da separação das Igrejas, no Concílio de Trento, a colonização distante e ruinosa - contrariamente aos demais países europeus, seguidores da Reforma, que, embora de governos igualmente absolutos, não descuravam a formação cultural dos seus povos, abertos ao desenvolvimento e progresso culturais num espírito de mais amplas e inteligentes liberdades  religiosas.

Sim, a nossa posição na cauda dos povos europeus continua impávida e serena, observável nos discursos falaciosos dos críticos, cujas doutrinas se movem nos pequenos saberes das suas demagogias insistentes ou dos seus interesses próprios, ou no palrar das populações de indignação orientada, mau grado o comedimento triste dos que mais têm razões para protestar, ninguém parando para pensar em colaborar num espírito de salvação nacional.

Voltando às conclusões de Antero - “O Cristianismo foi a Revolução do Mundo antigo. A Revolução não é mais que o Cristianismo do mundo moderno”, elas poderão significar uma diferente dimensão definidora de Cristianismo e Revolução – o Cristianismo no Mundo Antigo revolucionando espaços e tempos num cada vez mais amplo sentido universal e imorredoiro, a Revolução preconizada pelos espíritos revolucionários da Geração de Setenta, de elevar Portugal a uma pretensa irmanação cultural com os  povos da Europa constituindo uma pura parcela desse Cristianismo de transfiguração, confinado aos espaços que então compunham esse país, que eles desejavam saído do véu de atraso que o encardia.

Duvido que a frase se possa aplicar aos tempos de hoje, tanta a vil matéria que presidiu ao espírito da nossa Revolução de Abril, que nos fez chegar aqui, hoje . ontem - virando a bandeira da República às avessas.

 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A posição faz o ladrão


A seguinte fábula de Esopo
Sobre um cabrito e um lobo
Fora do estatuto normal
- O cabrito agasalhado, em lugar de amedrontado,
 O lobo a ver navios, todo abespinhado
Em vez de ameaçador
E de ar superior,
Representa um estado geral
Do nosso status social
Em que arrogância e cobardia
Se unem em harmonia
Sem qualquer alergia.
Vejamos a alegoria:

O cabrito abrigado e o lobo

«Um cabrito que numa casa se abrigava,
Um lobo injuriava
Que por ali estava a passar.
“Olha lá, ó seu palerma!
- O lobo lhe diz com calma -
Não és tu que me estás a insultar,
Mas a posição em que te encontras,
Nessa caverna protegida e erma,
Que te permite falar.”
A fábula mostra que muitas vezes
O desprezo manifestado em altas vozes
 Resulta de circunstâncias ocasionais
Anormais,
Mais do que dos poderes próprios
Individuais.»


Esopo o disse e nós aqui estamos,
Cabritos cobardes e espertalhões,
Protegidos pelas leis da democracia

Ameaçando, recalcitrando
Boicotando,
Os nossos agravos manifestando
Greves fazendo, os ouvidos fechando
E as consciências,
Só porque achamos
Que o Governo não governa
E cada vez mais nos enterra
Aliado que está a um compromisso
De pagar monstruosa dívida e que por isso
Revela extrema fraqueza
Que nos convém acentuar,
Ao aliar-se com a riqueza
Que só ela nos pode ajudar.
Mas as sabidas verdades
Convém-nos escamotear,
Hipocritamente fingindo ignorar
A conjuntura que nos pôs neste lugar,
Que só uma honesta gestão e sem demagogia,
Do lobo em má posição, mas com determinação,
Poderá  resolver com consciência
Embora alguma inclemência.
Que Deus nos dê paciência,
E que o lobo prossiga o seu caminho
Sem se esquecer do carinho.