domingo, 2 de dezembro de 2012

Retratos de família em factos de “fotogenia”:


Foi só preciso copiar da Internet:

«O Dinheiro»

«O dinheiro é tão bonito, / Tão bonito, o maganão! / Tem tanta graça, o maldito, / Tem tanto chiste, o ladrão! / O falar, fala de um modo... / Todo ele, aquele todo... / E elas acham-no tão guapo! / Velhinha ou moça que veja, / Por mais esquiva que seja, / Tlim! / Papo.
«E a cegueira da justiça / Como ele a tira num ai! / Sem lhe tocar com a pinça; / E só dizer-lhe: «Aí vai...» / Operação melindrosa, / Que não é lá qualquer coisa; / Catarata, tome conta! / Pois não faz mais do que isto, / Diz-me um juiz que o tem visto: / Tlim! / Pronta.
Nessas espécies de exames / Que a gente faz em rapaz, / São milagres aos enxames / O que aquele demo faz! / Sem saber nem patavina / De gramática latina, / Quer-se um rapaz dali fora? / Vai ele com tais falinhas, / Tais gaifonas, tais coisinhas... / Tlim! / Ora...
Aquela fisionomia / É lábia que o demo tem! / Mas numa secretaria / Aí é que é vê-lo bem! / Quando ele de grande gala, / Entra o ministro na sala, / Aproveita a ocasião: / «Conhece este amigo antigo?» / — Oh, meu tão antigo amigo! / (Tlim!) / Pois não!»
João de Deus, in 'Campo de Flores'

 

Chegou por email o texto seguinte, suficientemente claro e esclarecedor:

 

«Para além do que a gente já sabe do que pensa a presidente Isabel Jonet sobre os pobres...

Donativos para a Luta contra a Fome é muito triste... mas é bom todos saberem, pois NADA É O QUE PARECE !
Ora vejam :
Decorreu mais uma ação, louvável, do programa da luta contra a fome mas... façam o vosso juízo ! A recolha em hipermercados, segundo os telejornais, foram 2.644 toneladas, ou sejam ......... 2.644.000 Kilos. Se cada pessoa adquiriu no hipermercado 1 produto para doar e se esse produto custou, digamos, 0.50 € (cinquenta cêntimos), reparem então que:
2.644.000 kg x 0,50 € dão 1.322.000,00 € (1 milhão, trezentos e vinte e dois mil euros), total pago nas caixas dos hipermercados.
Quanto e quem ganhou ? ? ? : - o Estado: 304.000,00 € ( 23% iva )  - o Hipermercado: 396.600,00 € (margem de lucro de +/- 30% ).
Nunca tinham reparado, tal como eu, quem é que mais engorda com estas campanhas... Devo dizer que não deixo de louvar a acção da recolha e o meu respeito pelos milhares de voluntários.
MAIS.... É triste, mas é bom saber...
- Porque é que os madeirenses, no meio das suas desgraças, só receberam 2 milhões de euros da solidariedade nacional, quando o que foi doado eram 2 milhões e 880 mil ?
Querem saber para onde foi esta "pequena" parcela de 880.000,00 € ? A campanha a favor das vítimas do temporal na Madeira através de chamadas telefónicas é um insulto à boa-fé da gente generosa e um assalto à mão-armada. Pelas televisões a promoção reza assim : Preço da chamada 0,60 € + IVA. São 0,72 € por casa chamada, custo total ....
O que por má-fé não se diz é que o donativo que deverá chegar ( ? ) ao beneficiário madeirense é de apenas 0,50 € . Assim oferecemos 0,50 € a quem carece, mas cobram-nos 0,72 €, sejam mais 0,22 €, sejam mais 30%.
Quem ficou com esta diferença ? 1º - a PT com 0,10 € (17%) isto é a diferença dos 0,50 €para os 0,60 €. 2º -o Estado com 0,12 €(20%) referente ao IVA sobre 0,60 €.
Numa campanha de solidariedade, a aplicação de uma margem de lucro pela PT e da incidência do IVA pelo Estado são o retrato da baixa moral a que tudo isto chegou.
A RTP anunciou com imensa satisfação que o montante doado atingiu os 2.000.000,00 € . Esqueceram-se de dizer que os generosos pagaram a mais 44%, ou seja, pagaram mais 880.000,00 € divididos entre a PT (400.000,00 € para a ajuda dos salários dos administradores) e o Estado (480.000,00 € são para pagar as pensões milionários dos ex-presidentes de república, dos ex-deputados e outros parasitas deste país e para auxílio do reequilíbrio das contas públicas e aos trafulhas que por lá andam).
A PT cobra comissão de quase 20% num acto de solidariedade ! O Estado faz incidir IVA sobre um produto da mais pura generosidade ! ! !
ISTO É UMA TOTAL FALTA DE VERGONHA, SOB A CAPA DA SOLIDARIEDADE. É BOM QUE O POVO SAIBA QUE ATÉ  NA CONFIANÇA SOMOS ROUBADOS.
ISTO É UM TRISTE ESBULHO À BOLSA E AO ESPÍRITO DE SOLIDARIEDADE DO POVO PORTUGUÊS
Pelo menos. DENUNCIEM . Alguém disse uma vez, esta célebre frase: " O que me preocupa não é o grito dos maus`. É o silêncio dos bons . "»




E Sophia que tão bem canta e conta, em síntese de fotogenia:


Camões e a tença

Irás ao paço. Irás pedir que a tença / Seja paga na data combinada. / Este país te mata lentamente / País que tu chamaste e não responde / País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram / Calúnias desamor inveja ardente / E sempre os inimigos sobejaram / A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram / Porque estavam curvados e dobrados / Pela paciência cuja mão de cinza / Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente / Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.






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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

“Avalon sem bruma”


No Público de 25 de Novembro, Vasco Pulido Valente, no seu artigo de Opinião “A pérfida Albion” evoca os argumentos de Eduardo Lourenço para abominar a Inglaterra, movido por enérgico ressentimento contra os promotores da decadência da França ,“sua pátria de eleição”,  uma Inglaterra desde sempre ávida de dominar o mundo, segundo os argumentos históricos que percorre na sua mensagem. Pulido Valente, em todo o caso, faz depender a recusa inglesa em abdicar da sua moeda, já não de uma velha e orgulhosa ambição dominadora, mas da “soberania absoluta do Parlamento, como princípio constitutivo da nação inglesa” e cujo abandono poria “em risco a sociedade e o Estado”.
Um texto de valor histórico que transcrevo na íntegra, como retrato de um passado que também nos diz respeito, através de uma aliança com a Inglaterra que se traduziu, é certo, em descendência real com ascendente no mundo, nomeadamente pelo  papel do Infante D. Henrique no conhecimento da Terra, mas que, se alguma vez nos prestou auxílio, foi por interesse próprio, como exemplo, o combate ao expansionismo napoleónico, em posição de arrogante e desdenhosa superioridade governativa e bélica, num tempo de carência de governo português, “a banhos” no Brasil.

«Eduardo Lourenço é com certeza em Portugal inteiro o intelectual mais francês. Não admira que, perante a desagregação da “Europa” sofra hoje com a relativa imunidade da Inglaterra, coisa que não ocorreria à nossa atávica e resignada miséria. Mas que resolva ressuscitar o mito da “pérfida Albion”, embora na sua prosa majestática, só se explica pela decadência da sua pátria de eleição. Eduardo Lourenço descobriu agora que o fracasso da União – que se tornou um “monstro”, um “Frankenstein” em que muitos países se não reconhecem – foi o resultado de um “desígnio no seu género messiânico” da Inglaterra; e que, enquanto ela tiver “força e poder financeiro”, nada que se pareça com o “sonho” de Jean Monet verá a luz do dia. Era este também, segundo parece, o “voto” da senhora Thatcher.
Thatcher ou não, Eduardo Lourenço fala da Inglaterra que realmente existe como se ela continuasse a ser a Inglaterra de Palmerstron e da rainha Vitória e o Império Britânico (uma criação tardia de Disraeli) continuasse a dominar o mundo como o Império Romano que ela, em teoria, aspirava a imitar. Pior ainda, para Eduardo Lourenço, a derrota de Waterloo acabou com a rivalidade da França, a derrota de Hitler (e de Guilherme II, que ele por boas razões não lembra), acabou com a rivalidade da Alemanha, e a implosão da URSS com a da Rússia, e a Inglaterra ficou sozinha em campo, livre de exercer a sua maléfica influência. Uma influência que se exerceu à partida através da BBC e depois do cinema americano e de uma historiografia moderna, que é “essencialmente de matriz anglo-saxónica” e “expressão da sua vontade de poder”.
Se por acaso compreendi alguma coisa da prédica confusa e, em parte, errada e arbitrária de Eduardo Lourenço, ele detesta a distância “fria” cada vez maior que a Inglaterra estabelece (e, de resto, sempre estabeleceu) entre si própria e a Europa. Mas não há qualquer dúvida que ele não percebe a origem e a necessidade dessa distância. Não se trata, como ele julga, de uma nostalgia do Império ou sequer do exercício de uma hegemonia actual. Do que se trata, mais modestamente, é da relutância em abdicar da soberania inglesa a favor de uma democracia não-eleita e de um bando de políticos que nada representam. A soberania absoluta do Parlamento é o princípio constitutivo da nação (um ponto que nenhum francês será jamais capaz de meter na cabeça) e o menor abandono, a menor cedência põe em risco a sociedade e o Estado. A “Europa”, em que a democracia nasceu ontem, não se importa, por exemplo, de abandonar a sua moeda a estranhos. A Inglaterra não consentiu, ou consentiria, essa vergonhosa demissão de uma autoridade crucial sobre o seu destino. E, se outros consentiram, que paguem em silêncio o “Frankenstein”, que tão pressurosamente criaram.»
Este retrato de um povo inteligente e astuto, na sua ilha imperial e imperiosa, de que tantos apontam o cinismo de actuações hipócritas no mundo, mascaradas sob uma falsa civilidade, eu própria já em tempos anotei, em texto de raivas incontidas num mundo que se desagregava: Escrito nos anos 70, pertence à III Parte (“Mais Pedras de Sal”) do III Livro  (“Lusos 74”) da obra “Cravos Roxos – Croniquetas Verde-Rubras”, publicado em 1981 pela Santelmo:

«Ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente”

«Ultimamente tenho-me lembrado muito dos versos do Guerra Junqueiro supracitados tantas vezes referidos pelo meu paizinho com um gosto que sempre me surpreendeu, pois acho indispensável delicadeza em todos os nossos actos ou palavras, especialmente no caso de tratarmos com pessoas ou com nações de um nível económico-sócio-cultural superior ao nosso e nesse ponto não devemos ter veleidades de comparação com a Inglaterra, muito mais no norte do que nós.
Chamar hoje em dia, como no tempo de Guerra Junqueiro, bêbada à Inglaterra, é por outro lado uma pura descortesia, em contradição com o decréscimo de exportações sofrido presentemente pelo nosso vinho do Porto, facto esse notório de sobriedade e abstinência que anulam irremediavelmente os dizeres excitados do Junqueiro, declamados pelo meu paizinho com honrado vigor.
Quanto às minhas preferências literárias, sempre me seduziu mais, no caso do Junqueiro, “A Moleirinha” com o seu “toc toc toc” onomatopaico tão sugestivo do compasso de trote que não devemos pretender ultrapassar nunca em ambições galopantes e anti socialistas, ou mesmo os versos “Minha mãe, minha mãe, ai que saudade imensa / Do tempo em que eu ajoelhava orando ao pé de ti”  expressivos de recordações que eu própria bem poderia ter também vivido se não houvesse malbaratado o tempo da infância em jogos e correrias fúteis. Contudo, no capítulo das interjeições em “ai” prefiro optar pelos versos de Pessoa “Ai que prazer / Não cumprir um dever” porque muito cedo se me ofereceu a ocasião de averiguar a sua universalidade.
Quanto ao cinismo da Inglaterra, o Guerra Junqueiro estava evidentemente escamado por causa da questão do mapa cor de rosa, quando a Inglaterra nos refutou a ocupação de parte da África em cor de rosa no mapa, mas de facto não vejo cinismo nisso e apenas um fenómeno de atracção pela cor, comum a diversos seres.
O que me trouxe, todavia, à mente os versos de Junqueiro foi a notícia de que a Inglaterra não apoiaria a Rodésia nas suas pretensões ao governo unitário branco, visto que a maioria ali é preta, e por conseguinte com mais direitos. Constatei assim um acréscimo de concepções humanitárias em relação ao passado colonial inglês, passado sem tantos escrúpulos puritanos, e certamente ansioso por se remir disso.
Já o abandono dos Estados Unidos no caso de Angola (e mesmo de Moçambique) me surpreendeu, mas atribuí-o a uma ampla generosidade para com a Rússia, que tanto tem demonstrado a sua necessidade de se ampliar, e  incluí a questão dentro de um justificativo de ordem bíblica, digno do apreço de Cristo e portanto do meu também, como sua afeiçoada.
Quanto à Inglaterra, sinto-me perplexa, pois não descortino qualquer solução bíblica para justificação da sua aversão pelos irmãos brancos da região cor de rosa no ex-mapa, e só vejo nisso repúdio actual pela cor dantes defendida com supremacia incontestável, apesar dos versos apostrofantes do Guerra Junqueiro.
A menos que seja um jogo, não propriamente para inglês ver, mas sim para enganar o resto do mundo fazendo-o crer no seu colaboracionismo com os pretos maioritários africanos, de acordo com esse resto do mundo também hipocritamente colaboracionista, mas na realidade ajudando à socapa os brancos minoritários de origem inglesa das terras do sul de África.
Se assim fosse, o Guerra Junqueiro teria toda a razão no primeiro epíteto, embora nenhuma no segundo, pelo menos, segundo já observámos, se nos reportarmos aos tempos presentes.
Mas o cinismo é moeda tão corrente em todo o mundo que bem podemos usá-la também, como a Inglaterra e os diversos governos, nas nossas transacções domésticas, à falta de outra moeda. »

Finalizo com os versos de Guerra Junqueiro, que a Internet transcreve parcialmente, do seu livro “Finis Patriae”, que o meu Pai guardava na sua estante, alguns dos quais costumava citar, impelido na rajada patriótica do discurso virulento, com laivos surrealistas e reminiscências escatológicas de sabor apocalíptico, bem em sintonia com a nossa idiossincrasia de vertente exaltadamente saudosista:

«Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,
Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?
Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
A mortalha de Cristo em tangas d'algodão.

Teus apóstolos vão, prostituta devassa,
Com o fim de levar os negros para o céu,
Desde o Zaire ao Zambeze e desde o Cabo ao Niassa,
Baptizando a Impiedade em Jordões de cachaça,
Mostrando-lhe o teu Deus na tua hóstia - o guinéu!

A tua bíblia! o teu Cristo!... A tua bíblia é uma agenda
Em que a virtude heróica a cifras se reduz.
E o teu Cristo londrino é um Deus de compra e venda,
Deus que ressuscitou para abrir uma tenda
De cortiça, carvão, álcool e panos crus!

Pela estrada da história, ó milhafre daninho,
Vai um povo seguindo o seu norte polar,
E tu és o ladrão que lhe sais ao caminho,
Com a manha do lobo e a coragem do vinho,
A roubar-lhe os anéis para o deixar passar!

Quando espreitas o fraco apontas a clavina,
Quando avistas o forte envergas a libré...
A tua mão ora pede esmola ora assassina...
Teu orgulho, covarde é, meu Bayard d'esquina,
Como um tigre de rastro e um capacho de pé!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Hão-de um dia as nações, como hienas dementes,
Teu império rasgar em feroz convulsão...
E no torvo halali, dando saltos ardentes,
Com a baba da raiva esfervendo entre os dentes,
A bramir, levará cada qual o seu quinhão!

E tu ficarás só na tua ilha normanda
Com teus barões feudais e teus mendigos nus:
Devorará teu peito um cancro aceso, a Irlanda,
E a tua carne hás-de vê-la, ó meretriz nefanda,
Lodo amassado em sangue, oiro amassado em pus!

E assim como brutais monstros de pesadelo
No soturno porão de uma nau sem ninguém,
Entre nuvens de fogo e temporais de gelo,
De bombordo a estibordo a rolar num novelo,
Desabando e rugindo, aos montões, num vaivém,

Se estrangulam febris, roucos, dilacerantes,
As pupilas a arder em brasas infernais,
Panteras contra leões, ursos contra elefantes,
Cobras em redemoinho a silvar dardejantes,
Búfalos escornando os tigres e os chacais;

Assim vós, assim vós, duma raça assassina,
Sobre essa nau de pedra onde o mar vai bater,
Vos estrangulareis numa carnificina
De que só ficará, sob a densa neblina,
Num pântano de sangue uma Gomorra a arder!

Milhões, milhões, milhões de bocas esfaimadas
Hão-de dilacerar-te o corpo com furor,
E a pedra a dinamite e a carne a punhaladas
Hão-de tombar no mesmo escombro ensanguentadas,
Em baques de hecatombe e blasfémias de dor!...

Hão-de os lords rolar em postas no Tamisa!
Há-de o corpo de um rei dar um banquete a um cão!
Teu solo há-de tremer como uma pitonisa,
E a canalha sem lei, sem Deus e sem camisa
Abrirá teu bandulho infecto, ó Deus Milhão!

Bancos, docas, prisões, arsenais, monumentos,
Tudo rebentará em cacos pelo ar!...
E ao soturno fragor de teus finais lamentos
Responderão - ladrando! as cóleras dos ventos!
Responderão - cuspindo! os vagalhões do mar
      Fevereiro de 1890

Não tinha razão, Guerra Junqueiro, no seu rugir impotente de visão apocalíptica: A libra mantém o seu esplendor e a língua permanece intacta na sua expansão universal, o Eurotúnel não fez mais que encaminhar em novas rotas o poderio de uma nação ávida que sempre se afirmou ardilosamente nobre e cavalheiresca, fazendo alastrar à socapa os artifícios bélicos ou hipócritas da sua dominação superior. Não haverá cacos nem finais lamentos da impávida Albion ante as respostas anímicas dos ventos ou dos vagalhões marítimos, segundo Junqueiro.
A menos que se esfrangalhem as nações do resto de uma Europa a que ela preside na distância da sua posição cimeira, oculta na névoa da sua fortaleza polida e indiferente.
 Porque uma Europa destroçada, corpo carcomido, igualmente atingirá essa cabeça cimeira (cotovelo direito, para Pessoa), pois, sem a participação  daquela, a “pérfida Albion” também ficará exangue.

 

 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Paráfrase com analepse / prolepse familiar


Tempo de António Nobre
O Sono de João
O João dorme... (Ó Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os outros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...

O João dorme... O inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o mundo,
Pode afogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! Que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar...

E os anos irão passando.

Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas:
Morrerá sem o sentir,
Isto é deixa de dormir...
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar...

António Nobre, in 'Só'
 
Tempo do tio Otto
(Para o seu Livro de Grelados, finais de cinquenta. Desejando-lhe, “de profundis” as melhoras, em 2012)

O João dorme e a Maria,
Indo-lhe o sono velar
Ordena à cotovia
Que fale mais devagar
Para o João poder dormir,
Pois para sofrer e chorar
Os olhos nem deve abrir.
Este menino tão grande
Ficou tal o Joãozinho,
Pois por mais que a gente mande,
Que abra os olhos para a vida,
Como um pobre passarinho
Que procura a luz dos céus,
Ele procura guarida
E o amparo junto aos seus.
E com maternal ternura
Por este grande menino,
Que apesar da altura
Ficou sempre pequenino
Tudo diz à cotovia
Da história do Joãozinho
Que cante um pouco baixinho
Porque melhor valeria
- Mas enfim não é certeza
Deixar dormir o menino
Enquanto brilhar acesa
A vela do seu destino.

Para o tio Otto, ainda nos anos sessenta, brilhante estudante de Medicina, desejando que a Medicina o cure, em 2012:
E o João, lentamente,
Despertou.
Então
Reparou
Num mundo que aos seus pés se abria.
Era um mundo sofredor,
Que apelava a abnegação
E sacudia
Toda a incúria ou desamor.
Conscienciosamente
O João
Trabalhou.
Para aliviar a dor do mundo
Considerou
Um curso insuficiente.
Era preciso alcançar
Legar cimeiro.
E afincadamente
O João estudou
Conseguindo ser
Primeiro.
Já não vem longe a aura
Que coroará o esforço
Despendido.
Em breve o fim
Pretendido
Surgirá.
E a vida plena
Que seguirá
Dirá então
Se tal esforço
Valeu a pena.
Finalmente,
Aquele Joãozinho ensonado
Que não devia
Ser acordado pela cotovia,
Fora enterrado
Com cuidado
Por um Otto sapiente
Que em atitude sentida
Não mais queria
Os olhos
Fechados
Na vida…

Tempo do João:
 (Com muitos parabéns, em 2012. Desejando-te, “de profundis”, as bênçãos dos céus sobre o teu “porvir”).

Arreda-te daqui, Maria,
Não digas à cotovia
Que fale mais devagar:
O João deve acordar.

O João já acordou
E gosta bem de viver,
No encanto do viver
Preservando as amizades,
Os amores, as lealdades,
Os seus gostos, as liberdades,
Sem muito saber viver,
Que a vida é cheia de manhas
De buracos, de patranhas…
Mas não te direi como o “Só”:
 
“Não acordes para o mundo
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é.”
 
O que é preciso é saber ver,
E remar contra a maré,
Procurando enfrentar
O mundo com força e fé.
Com sabedoria
Com alegria
Com empatia,
Sem hipocrisia…
Sem a inocência
Do “João” do “Só”
Mas sem a suficiência
Dos muitos joões
Que pululam por  cá,
Vandalizando
Impunemente
O pouco que há…