segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Os obreiros do futuro


Eu acabava de contar à minha amiga a seguinte conversa com a minha mãe, pelas quatro ou cinco da madrugada, depois de bastas vezes ter sido por ela acordada, nessa noite para esquecer, nos seus pânicos e inseguranças sobre a hora da partida, com as minhas prontas e quantas vezes iradas mostras de cansaço e sono:

- Tu assim não duras muitos anos. A esse ritmo. Vai dormir!
- Só se tu me deixares. Não me acordes.
- Só se for por uma coisa boa.

A minha amiga riu e admirou a pronta resposta da minha mãe, o que eu não deixei de corroborar, apesar de notar a serena perfidiazinha do discurso materno penalizado, distanciando-se da sua inteira responsabilidade no meu fim à vista.

Chegou a minha filha Paula que trouxe a notícia do grave escândalo, que a minha amiga também escutara na TVI, na reportagem de Ana Leal.

Ao que parece, o grupo de colégios privados GPS, ligados ao poder político, recebera dos cofres estatais 81 milhões de euros nos últimos dois anos e meio. E enquanto as escolas públicas tinham um número diminuto de turmas, que por isso eram superlotadas, dadas as aulas nas condições mais ineficazes, o Orçamento do Estado preparando-se para cortar na Educação, na Saúde, etc., favorecera inexplicavelmente os tais colégios GPS – 26, surgidos de governos anteriores – com verbas desconformes, que a corajosa reportagem de Ana Leal denunciara, entrevistando responsáveis, daqueles que se foram enchendo nos escândalos sucessivos de governações endividantes, num país impunemente a saque.

A minha filha insurgia-se, acompanhada na ladainha da indignação pela minha amiga, uma vez mais nos debruçámos sobre os cortes nos vencimentos e subsídios favorecedores das trafulhices com raízes fundas nos diversos governos de uma democracia criada exprès para esses e seus acólitos.

Realmente, não temos escapatória, os escândalos brotam continuamente, como tortulhos em dias de invernia, e não há segadora que ceife o mal pela raiz, que as raízes se vão espetando mais e mais profundamente nos terrenos, numa época em que a inocência parece extinguir-se, sem retorno.

A inocência que transparece nos últimos versos de que tomei nota já há uns tempos, nas diversões solitárias da minha mãe:

Meu filho, respeita os ninhos!
Pensa na pena que tem
A pobrezita da mãe,
Quando se vê sem filhinhos.  

            “Respeita os ninhos”: fórmula educativa ligada a sentimentalismos ultrapassados. Há  muito já que acordámos para “uma coisa boa”, não a subentendida no sagaz dito da minha mãe, envolvendo qualquer nova feliz, mas a onomatopeia “Tlim! Papo!” dos versos de João de Deus, responsável pela marcha do nosso progresso em desordem.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Rios, penedos, Heraclito para alguns gostos


«Sozinha no bosque / Com meus pensamentos, / Calei as saudades, / Dei trégua a tormentos.
Olhei para a lua, / Que as sombras rasgava, / Nas trémulas águas / Seus raios soltava.
Naquela torrente / Que vai despedida / Encontro, assustada, / A imagem da vida.
Do peito, em que as dores / Já iam cessar, / Revoa a tristeza / E torno a penar.»
Foi a marquesa de Alorna a autora dos versos supracitados,  versos de solidão e de tristeza, que boas razões teve para ser triste, versos de contemplação do rio e do conceito heraclitiano de equiparação do seu fluir com o curso efémero da vida, e o consequente renovar subjectivo da tristeza pelo sentido da imagem clássica, que Ricardo Reis concretizou, numa doutrina de epicurismo tristemente céptico se não mesmo estóico: «Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.»
Muitos usaram a imagem do rio para outros efeitos artísticos, o próprio Júlio Dinis não deixou de o animizar na voz graciosa da Clara e do Pedro no início dos seus  amores: “Ó rio das águas claras / que vais correndo p’r’ó mar / não rias das minhas penas / tem pena do meu penar.…”. A Menina e Moça, muito tempo antes, na água do rio (“daquele monte”) que perto dela fazia um “tamalavez de corrente”, onde iria cair o rouxinol morto, depois de tanto trinar, referira o obstáculo que causava à água um “penedo que no meio dela estava” a qual “se partia para um e outro lado murmurando”, o que logo a fizera concluir sobre a analogia dos entraves que se vão oferecendo aos seres, mesmo os “sem entendimento”, em texto simbólico que vale a pena transcrever: «E estava ali aprendendo tomar algum conforto no meu mal: que assi aquele penedo estava ali anojando aquela água que queria ir seu caminho, como as minhas desaventuras noutro tempo soíam fazer a tudo o que mais queria, que agora já não quero nada. E crecia-me daquilo um pesar; porque a cabo do penedo, tornava a água a juntar-se e ir seu caminho sem estrondo algum, mas antes parecia que corria ali mais depressa que pela outra parte; e dizia eu que seria aquilo por se apartar mais asinha daquele penedo, imigo de seu curso natural, que como por força ali estava.»
Alberto Caeiro contrapôs, com simplicidade intencional e ironia, o rio Tejo e o da sua aldeia, em termos de dimensão e importância:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

«O Tejo tem grandes navios / E navega nele ainda, / Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, / A memória das naus.
«O Tejo desce de Espanha / E o Tejo entra no mar em Portugal. / Toda a gente sabe isso. / Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia / E para onde ele vai / E donde ele vem. /E por isso, porque pertence a menos gente, / É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. / Para além do Tejo há a América / E a fortuna daqueles que a encontram. / Ninguém nunca pensou no que há para além / Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. / Quem está ao pé dele está só ao pé dele.»
Foi a minha mãe que motivou gratas evocações de leituras próprias desse “rio da vida”, que tão variadas facetas toma no seu fluir. Tem estado doente, receámos por ela, como o próprio médico. Perdeu o canto, perdeu a referência “massacrante” aos seus tempos de rapariga, deixou de contar histórias, persignou-se e benzeu-se e chorou com mais afinco, no terror da partida. Há dias, estava eu sentada ao pé dela, em aproximação assustada, saiu-se com a quadra seguinte, que pronunciou lentamente, numa autopiedade de voz trémula que captei e logo me irmanou na partilha e compreensão do seu sofrimento, fazendo-a repetir, para anotar pressurosamente:

«Já não tenho pai nem mãe
Nem neste mundo parentes
Sou filha das tristes ervas
Neta das águas correntes.»
               Era mais uma quadra que fora buscar aos arcanos da sua memória a caminho do centésimo sexto aniversário, retomando assim o fluxo das recordações, e com essas de novo a esperança na sua continuação neste mundo, com muita pena de si, contudo, sem família, panteisticamente achada nas coisas da natureza,  conforme os versos traduziam, e que tão em consonância estão com a nossa condição de seres em pendência de crise, explícita no nosso fado, que já a Menina e Moça tão sentidamente explorou.
               Neta das águas correntes”, dizia a quadra, sem, contudo, referir nenhum penedo adverso, como aquele do “Livro das Saudades” de Bernardim Ribeiro, que “estava ali anojando aquela água que queria ir seu caminho”.
            Mas ainda hoje, sim, os “penedos” continuam a entravar o curso natural de uma governação que queira prosseguir dentro do caminho justo. São muitos, os penedos. Não sei se a água continuará a fluir.
Que flua para a minha mãe mais uns tempos ainda, sequem, embora, as tristes ervas.


 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Retratos de família em factos de “fotogenia”:


Foi só preciso copiar da Internet:

«O Dinheiro»

«O dinheiro é tão bonito, / Tão bonito, o maganão! / Tem tanta graça, o maldito, / Tem tanto chiste, o ladrão! / O falar, fala de um modo... / Todo ele, aquele todo... / E elas acham-no tão guapo! / Velhinha ou moça que veja, / Por mais esquiva que seja, / Tlim! / Papo.
«E a cegueira da justiça / Como ele a tira num ai! / Sem lhe tocar com a pinça; / E só dizer-lhe: «Aí vai...» / Operação melindrosa, / Que não é lá qualquer coisa; / Catarata, tome conta! / Pois não faz mais do que isto, / Diz-me um juiz que o tem visto: / Tlim! / Pronta.
Nessas espécies de exames / Que a gente faz em rapaz, / São milagres aos enxames / O que aquele demo faz! / Sem saber nem patavina / De gramática latina, / Quer-se um rapaz dali fora? / Vai ele com tais falinhas, / Tais gaifonas, tais coisinhas... / Tlim! / Ora...
Aquela fisionomia / É lábia que o demo tem! / Mas numa secretaria / Aí é que é vê-lo bem! / Quando ele de grande gala, / Entra o ministro na sala, / Aproveita a ocasião: / «Conhece este amigo antigo?» / — Oh, meu tão antigo amigo! / (Tlim!) / Pois não!»
João de Deus, in 'Campo de Flores'

 

Chegou por email o texto seguinte, suficientemente claro e esclarecedor:

 

«Para além do que a gente já sabe do que pensa a presidente Isabel Jonet sobre os pobres...

Donativos para a Luta contra a Fome é muito triste... mas é bom todos saberem, pois NADA É O QUE PARECE !
Ora vejam :
Decorreu mais uma ação, louvável, do programa da luta contra a fome mas... façam o vosso juízo ! A recolha em hipermercados, segundo os telejornais, foram 2.644 toneladas, ou sejam ......... 2.644.000 Kilos. Se cada pessoa adquiriu no hipermercado 1 produto para doar e se esse produto custou, digamos, 0.50 € (cinquenta cêntimos), reparem então que:
2.644.000 kg x 0,50 € dão 1.322.000,00 € (1 milhão, trezentos e vinte e dois mil euros), total pago nas caixas dos hipermercados.
Quanto e quem ganhou ? ? ? : - o Estado: 304.000,00 € ( 23% iva )  - o Hipermercado: 396.600,00 € (margem de lucro de +/- 30% ).
Nunca tinham reparado, tal como eu, quem é que mais engorda com estas campanhas... Devo dizer que não deixo de louvar a acção da recolha e o meu respeito pelos milhares de voluntários.
MAIS.... É triste, mas é bom saber...
- Porque é que os madeirenses, no meio das suas desgraças, só receberam 2 milhões de euros da solidariedade nacional, quando o que foi doado eram 2 milhões e 880 mil ?
Querem saber para onde foi esta "pequena" parcela de 880.000,00 € ? A campanha a favor das vítimas do temporal na Madeira através de chamadas telefónicas é um insulto à boa-fé da gente generosa e um assalto à mão-armada. Pelas televisões a promoção reza assim : Preço da chamada 0,60 € + IVA. São 0,72 € por casa chamada, custo total ....
O que por má-fé não se diz é que o donativo que deverá chegar ( ? ) ao beneficiário madeirense é de apenas 0,50 € . Assim oferecemos 0,50 € a quem carece, mas cobram-nos 0,72 €, sejam mais 0,22 €, sejam mais 30%.
Quem ficou com esta diferença ? 1º - a PT com 0,10 € (17%) isto é a diferença dos 0,50 €para os 0,60 €. 2º -o Estado com 0,12 €(20%) referente ao IVA sobre 0,60 €.
Numa campanha de solidariedade, a aplicação de uma margem de lucro pela PT e da incidência do IVA pelo Estado são o retrato da baixa moral a que tudo isto chegou.
A RTP anunciou com imensa satisfação que o montante doado atingiu os 2.000.000,00 € . Esqueceram-se de dizer que os generosos pagaram a mais 44%, ou seja, pagaram mais 880.000,00 € divididos entre a PT (400.000,00 € para a ajuda dos salários dos administradores) e o Estado (480.000,00 € são para pagar as pensões milionários dos ex-presidentes de república, dos ex-deputados e outros parasitas deste país e para auxílio do reequilíbrio das contas públicas e aos trafulhas que por lá andam).
A PT cobra comissão de quase 20% num acto de solidariedade ! O Estado faz incidir IVA sobre um produto da mais pura generosidade ! ! !
ISTO É UMA TOTAL FALTA DE VERGONHA, SOB A CAPA DA SOLIDARIEDADE. É BOM QUE O POVO SAIBA QUE ATÉ  NA CONFIANÇA SOMOS ROUBADOS.
ISTO É UM TRISTE ESBULHO À BOLSA E AO ESPÍRITO DE SOLIDARIEDADE DO POVO PORTUGUÊS
Pelo menos. DENUNCIEM . Alguém disse uma vez, esta célebre frase: " O que me preocupa não é o grito dos maus`. É o silêncio dos bons . "»




E Sophia que tão bem canta e conta, em síntese de fotogenia:


Camões e a tença

Irás ao paço. Irás pedir que a tença / Seja paga na data combinada. / Este país te mata lentamente / País que tu chamaste e não responde / País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram / Calúnias desamor inveja ardente / E sempre os inimigos sobejaram / A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram / Porque estavam curvados e dobrados / Pela paciência cuja mão de cinza / Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente / Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.






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