quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Festa da Vida



Um artigo muito curioso - CULTURA DA MUDANÇA ENTRE SONHO E LIBERDADE - de António da Cunha Duarte Justo, publicado no «A Bem da Nação», e realmente assustador. De muitas dessas realidades nos vamos apercebendo diariamente, delas aproveitando – quantos benefícios provoca a tecnologia a tantos níveis, de que a medicina é uma das principais usufrutuárias, ao serviço do bem-estar humano! Assustadora a alienação das crianças e muitos adultos, é certo, nos seus jogos de destreza digital nos tais aparelhos que as desviam de outros jogos de natureza física ou mesmo de interesse mental e social, mas que indiscutivelmente contribuem para uma ginástica manual e por consequência também mental que a mim, leiga, me deixam maravilhada. E o Estado fornece os campos para a ginástica  e a natação, além de que as escolas também vão providenciando, e os pais atentos colaborando. Apesar, pois, de um futuro previsível de terror pela alienação humana invadida pelas realizações e fantasias do progresso, os genes que formaram os primitivos seres e os tornaram mais e mais desenvoltos, vão-se mantendo em equilíbrio de forças, a liberdade e a democracia permitindo a coexistência das variantes, os alertadores de opinião contribuindo para o equilíbrio, os conceitos bíblicos e outros sobre o Bem e o Mal continuando a vigorar como maior ou menor solidez, as divergências e as similitudes entre uns e outros tornando mais viva a festa da vida, permitindo mesmo que o passado retorne nos seus escritos que a própria internet faculta e a televisão e outros meios de comunicação propiciam. Quanto à mudança, é tema antigo, por tantos apontado, que Camões estilizou:

 

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.»

Quinta-feira, 6 de Agosto de 2015

CULTURA DA MUDANÇA ENTRE SONHO E LIBERDADE 

 A alta tecnologia promete sonho mas consome liberdade .Tudo e todos têm de mudar.

Encontramo-nos num processo de desenvolvimento em que o pensar linear será substituído pelo global e em que consequentemente as visões da realidade a-perspectiva substituirão paulatinamente as actuais visões e equacionamentos lineares da realidade.

Passaremos do tenho razão para o temos razão, atendendo à consciencialização da complementaridade dos diferentes biótopos da natureza, da complementaridade dos diferentes biótopos culturais e da complementaridade dos diferentes sistemas de pensamento e à fragilidade da formação da opinião regulada por monopólios globais. A estratégia que se encontra por trás desta mundivisão aproxima também a linguagem e metáforas de mitos e religiões às expressões e concepções científicas.

Iphone, automóveis com propulsão própria, drones usados no comércio como serviço de entrega, robôs inteligentes, etc. parecem substituir cada vez mais o Homem reduzindo-o ao papel de espectador. A alta tecnologia promete o sonho à custa da liberdade. O exercício do pensamento passa para os computadores e a força revolucionária parece ter passado para a técnica e o trabalho manual é cada vez mais substituído pela produção mecânica. Tudo isto está a provocar uma mudança radical das nossas impostações éticas, da nossa maneira de pensar e agir. É o que se observa e sente hoje que nos encontramos em pleno epicentro da revolução Vale do Cilício: uma revolução que quer tornar possível a felicidade individual realizada através dos padrões de grandes monopólios anónimos à margem de democracias, das culturas e das religiões. Aristóteles diria hoje em termos portugueses: ”nem tanto ao mar nem tanto à terra”.

Aos industriais e aos barões do petróleo sucederam-se os Bancos e os Gestores de fundos Hedge. Actualmente encontra-se em via de realização a era da revolução digital – com os génios dos computadores e das altas tecnologias.

Antes os líderes contentavam-se com o poder da riqueza depois passou-se ao poder do dinheiro. Hoje os líderes do mundo (protótipo Silicon Valley na Califórnia) querem mais; aspiram a determinar não só o que consumimos mas também a maneira como consumismos e como vivemos juntando na mesma mão (ou organização) o ideário, a economia, a ideologia e a produção numa Agenda bem definida. A nova ideologia-praxia é tentadora porque sabe empregar também a linguagem e as metáforas das religiões e das literaturas.

Religiões e outras instituições abertas aos sinais dos tempos terão de estar atentas às suas estratégias! Delas poderão aprender muito em termos de resposta ao globalismo.

No princípio era a fé em Deus, depois veio a fé no dinheiro e agora experimenta-se a fé na mensagem da Alta Tecnologia como doutrina de salvação, que transfere a esperança para a perspectiva das possibilidades infinitas da tecnologia! (Já há pessoas que se deixam congelar para serem descongeladas na altura em que a técnica tenha descoberto soluções para a morte – uma ilusão que desconhece a realidade do ser criado ou da matéria mas que como utopia dá resposta, à sua maneira, a necessidades do ser humano). Para os apóstolos da nova mensagem, os estados, as religiões, as filosofias tornam-se em empecilhos de progresso. Fixados na sua filosofia que de forma eclética se serve da ciência e da religião como expressão da necessidade humana, elaboram um sistema de ortodoxo-praxia orientada pelo desejo criativo que se realiza na inovação. Reduz-se o ser a uma determinada forma de estar na vida. A ideologia substitui cada vez mais as soluções práticas passando muitos projectos a ser efectuados segundo os óculos da ideologia e do momento.

No princípio era a fé em Deus que se encontrava no âmago do Homem. Hoje é a fé na tecnologia que já não se encontra dentro do homem, dependendo só dele e ao não fazer parte do seu centro corre perigo de o alienar totalmente.

A filosofia da alta tecnologia (economia digital) incorpora nela também Marx e Engels definindo o alienante como aquilo que nos tira do tempo, do concreto; assim se reduz a pessoa à materialidade que se esgota na actividade produtiva que é ao mesmo tempo fonte da consciência; por outro lado considera a religião, Deus e o dinheiro como factores alienantes que nos desviam da realidade material. A nova fé encontra no Joga e em exercícios semelhantes uma maneira de estar prática e de subjugar instâncias metafísicas.

A nova alienação prende a consciência humana à sua mera actividade. O produto é a luz da vela que resulta da energia do trabalho e o indivíduo esvai-se nela. A ideologia moderna, que a todos parece iluminar, aliena-nos com produtos conseguidos à custa da desumanização das pessoas reduzidas a mercadoria numa “metafísica” bruta construída, como no caso da vela, a partir da relação produto-consumidor. Aqui dá-se a identificação do indivíduo com o seu destino; tudo é reduzido a indivíduo saído da materialidade para se consumir na materialidade. A promessa do desenvolvimento infinito alimenta a nova alienação do indivíduo que ao ser reduzido a produto passa a ser consumido na ilusão do que consome. A relação entre produtor-produto e consumidor passa a ser a utilização, o imediato. A teoria da alienação em Marx, para ser consequente reduziria o Homem a mera biologia animal irracional. De facto, o pensamento, na sua qualidade de abstracto, seria na sua essência uma alienação. Para ser consequente o pensamento marxista e da aliança capitalismo-marxismo teriam então de declarar o fim do pensamento.

Continua no próximo artigo sob o título “O VALE DO SILÍCIO (Silicon Valley) E A ESCOLA DE SAGRES – MITOS DA SUSTENTABILIDADE”

António da Cunha Duarte Justo

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma vida pioneira: Gracia Nasi



Uma narrativa cheia de interesse e de suspense sobre uma mulher rica e mecenas, vítima do anti-semitismo da época adicionado às ambições e cobiça de todo o sempre, por onde perpassam histórias para mim desconhecidas da nossa história e nomes científicos e literários do nosso orgulho ou curiosidade – Amato Lusitano, Samuel Usque, Bernardim Ribeiro. O agradecimento a Maria Eduarda Fagundes, sempre de escrita elegante e esclarecida.

A SENHORA
Gracia Há-Nassi, também conhecida como Grazi Nasi, Gracia Nasi, Gracia Mendes, Gracia Mendes Benveniste, Gracia Miguez, nasceu em Portugal, possivelmente em Lisboa em 10/06/1510 no seio de uma família de judeus conversos, originária de Aragão, sob o nome cristão de Beatriz de Luna. Era filha de Álvaro de Luna de Aragão e de Philipa Benveniste. Segundo Cecil Roth, casou em 1528, em rito católico em sociedade, e provavelmente em rito cripto-judaico em ambiente familiar, reservado, com um rico comerciante e banqueiro, Francisco Mendes Benveniste (Tezmah Benveniste), que na época dos descobrimentos marítimos, também se tornou grande negociante de especiarias. Em 1536, com a morte de seu marido, pouco tempo após o nascimento de sua filha, Ana Mendes (Reyna), Beatriz de Luna torna-se uma das personalidades femininas mais importantes do seu tempo. Empresária, rica, filantropa, culta e bonita tinha prerrogativas desconhecidas à maioria das mulheres do século XVI.  Mas a cobiça de D. João III logo se estendeu ao seu grande património. Mesmo com os protestos da viúva, o inventário foi levantado por ordem do rei que tenta também levar-lhe a filha, uma das herdeiras da família, para a corte da rainha, D. Catarina, visando um casamento futuro com alguém da realeza.  Com a Inquisição se instalando no mesmo ano, Beatriz decide estrategicamente partir para Antuérpia onde seu cunhado e sócio, Diogo Mendes, abrira uma filial bancária da família com outro parente.
Apesar de alguns percalços e até prisão, livre e enobrecido por Carlos V, Diogo torna-se banqueiro de vários reis europeus. Com ele, Beatriz passa a gerir os negócios e estrutura uma rede secreta de ajuda aos judeus fugidos da Inquisição. Quando a irmã, Brianda de Luna, casa com seu cunhado Diogo em 1539, as relações familiares e económicas tornam-se ainda mais estreitas. Mas os anos de 1539 e 1540 ficam difíceis para as comunidades cristãs-novas de Antuérpia, delações e interrogatórios surgem. Morre Diogo Mendes e pelas suas disposições testamentárias Beatriz torna-se administradora da Casa Mendes (com auxílio de Guilherme Fernandes e João Micas) e da herança da sobrinha na menoridade desta, facto que criou uma situação de intolerância e desconforto entre as irmãs, até ao fim de suas vidas. Caso houvesse alguma coisa com Beatriz o património seria gerido por Agostinho Henriques (Abraão Benveniste), parente deles.   
Mais uma vez é a cobiça que leva o Imperador de Antuérpia a exigir o inventário dos bens do falecido banqueiro. Acusam Diogo de ter mantido práticas judaicas e a hipótese de confisco aguça o interesse da Coroa. Beatriz tenta salvar a situação, paga 40 mil ducados para retirar a acusação sobre a reputação judia de Diogo e 200 mil, em dois anos, à Rainha Maria da Hungria para evitar que outros membros da família fossem também acusados. O dinheiro ajudava mais uma vez a salvaguardar o relativo sossego que perseguia. Com o Papa, Beatriz consegue um  salvo-conduto que lhe permitia ficar em Roma. Não o usa, mas tem-no como estratégia para uma possível fuga. Porém, mais uma vez a Coroa resolve oferecer um partido dentro da realeza paras se casar com  a filha, D. Francisco de Aragão ou Gaspar Ducchio. Beatriz recusa tal oferta. Então, cristão-novos são presos, entre eles gente da família. Beatriz interfere pagando avultadas quantias em dinheiro e consegue libertá-los. A situação torna-se insustentável, prepara nova fuga.
Em 1545 pede a Maria da Hungria permissão para ir às famosas termas de Aix-la-Chapelle. Viaja com a parte feminina da família, mas encaminha-se para Lyon onde tinha vários interesses e depois para Veneza; não volta a Antuérpia. Tem como objectivo um dia chegar a Constantinopla. Envia João Micas para acertar negociações com a Regente. Em Veneza, Beatriz faz importantes contactos e negócios. Mas também tem aborrecimentos com a irmã que leva ao tribunal veneziano encarregado de causas estrangeiras, o processo da herança, em 1547. Porém, em 1548 chega o Santo Ofício e mais uma vez se vê na contingência de fugir, sem a deliberação do tribunal. Atinge Ferrara e fica na casa do cristão-novo português Sebastião Pinto, que a ajudou na passagem por Londres anos atrás. Porém, por questões financeiras, o Duque Hercules II oferece-lhe o aluguel de um palacete (Palácio Magnanini) por dois anos, de 1549 a 1551, por 200mil ducados/ano. Aí se estabelece e tenta anular o resultado favorável do processo de Veneza, que se decidira por Brianda. Dedica-se também a patrocinar artistas e trabalhos literários, como os de Samuel Usque (literato português, sefardita), Alonso Nuñez Reinoso (poeta espanhol de origem judia), Bernardim Ribeiro (romancista) e de alguns italianos, Ortensio Lando e Girolamo Ruscelli. Também financiou e apoiou os estudos científicos do médico judeu português Amato Lusitano (Dr. João Rodrigues de Castelo Branco) que descreveu pela primeira vez o sistema circulatório e suas válvulas, e escreveu tratados médicos, dos mais importantes do século XVI. Sua casa recebia intelectuais e  pessoas ilustres do seu tempo. Mas apesar de toda essa vida de brilho, ao final do contracto, Beatriz vê-se diante da possibilidade de abandonar Ferrara, já sugerida pelo Duque. E assim, em 1551, encontra-se novamente em Veneza e faz um acordo final com a irmã. Após resolver alguns negócios, vai para Ragusa, onde sua Casa tinha interesses. Dali, atinge finalmente Constantinopla. Em 1553 está livre para assumir seu nome hebraico e sua verdadeira religião. Daí em diante passa a ser Gracia Nasi. Sua filha Ana, agora Reyna, casa-se em 1554 com o primo João Micas (Joseph Nasi)  que ao que parece faz parte de uma rede de informações sobre as movimentações turcas no Golfo Pérsico. Preocupa um eventual ataque do sultão às possessões portuguesas na Índia. Os interesses são provavelmente comerciais. Gracia Nasi exerce intensamente sua religiosidade. Constrói Sinagogas e Escolas para os estudos do Talmude. Torna-se mediadora entre as comunidades judaicas em Constantinopla. Amplia a rede de apoio aos cristãos-novos que começara em Antuérpia. Recebe então a alcunha de a “Senhora” e outras como a “Coroada”, a “Hagevirá” (a herdeira da realeza).
Em 1555 sobe ao papado Paulo IV e recrudesce a perseguição aos cripto-judeus. Muitos dos seus contactos e conhecidos são encarcerados ou têm seus haveres confiscados. Tenta então desviar o comércio de sua Casa para Pesaro. O Porto de Ancona não é mais seguro.  Consolida, no entanto, a sua posição junto à corte turca.
Depois de conseguir junto ao governador de Damasco a administração de um sub-distrito, implanta um local de acolhimento aos judeus da diáspora (Tiberíades).
Morre em 1569 sem notórias notícias, após anos de mobilizações constantes e muitas acções de ajuda a comunidades sefarditas.
Gracia Nasi é considerada como iniciadora da primeira onda sionista de retorno à terra prometida. Suas acções corajosas, políticas e económicas deixaram marcas indeléveis na história do mundo ocidental e judaico.   
Uberaba, 02/08/15
Maria Eduarda Fagundes

Retrato impecável





 Julgo que sem contestação.




 O fenómeno Varoufakis
O mundo da política orçamental é vasto e complexo, incluindo muitos casos estranhos e aberrantes. Mas, até nessa companhia bizarra, o grego Yanis Varoufakis, no cargo de 27 de Janeiro a 6 de Julho, destaca-se como o pior e o mais bem-sucedido ministro das Finanças da história mundial recente. Em menos de seis meses conseguiu transformar uma situação desesperada numa catástrofe, enquanto se promovia da obscuridade ao estrelato.
Antes de mais, foi um ministro das Finanças muito popular, o que é inaudito. A função, nas suas características próprias, impõe incómodos e gera ódios. Quem se encarrega de nos tributar pode ser respeitado, temido, admirado, mas raramente é amado e celebrado. Varoufakis, mais conhecido pelo cachecol do que pelo défice, povoou magazines e revistas de moda.
Além disso era um académico numa função política, situação comum mas sempre ambígua. Recorrentemente tentada, costuma ser um fiasco por razões óbvias: os universitários tendem a ser tecnicamente bons mas politicamente inaptos, produzindo soluções elegantes mas impopulares. Neste caso, porém, a situação foi paradoxalmente inversa.
Yanis Varoufakis, doutorado em 1987 em Essex, na Grã-Bretanha, é professor catedrático na Universidade de Atenas desde 2006. Só que, especializado em Teoria dos Jogos, não domina as delicadas questões de finanças públicas e política orçamental. Aliás, não se lhe viu qualquer contributo, original ou outro. Desde o início, porém, revelou uma intensa atitude política, sentindo-se à vontade nas elaborações retóricas e nos debates parlamentares. Parecia um antipolítico-académico. No fim, o que o destruiu não foi qualquer destas duas dimensões, mas uma falha no elementar bom senso.
Tomou posse numa das mais terríveis crises que o mundo desenvolvido assistiu. Se isso impõe brutais sacrifícios, na população tem, ao menos, a vantagem de ser uma doença simples e elementar, com tratamento evidente. Havia alternativas limitadas e o essencial era óbvio para qualquer pessoa medianamente inteligente. Evitar a ruptura financeira, que geraria um colapso bancário e as consequentes derrocada produtiva e calamidade social, ainda piores do que as já verificadas, exigia garantir financiamento exterior. Só assim o país poderia estancar o pânico dos agentes económicos internos e externos, para depois começar o longo caminho de recuperação da confiança.
A tarefa era hercúlea, mas o Syriza tinha também condições únicas para a realizar: forte apoio popular nacional e internacional e os parceiros da União numa posição defensiva, devido à evidente desgraça já infligida à Grécia. Era patente que toda a gente desejava o maior sucesso ao rebelde governo helénico.
Nesta circunstância-limite havia algo a evitar a todo o custo: arrogância, pedantismo e dissipação. Insulto e desafio em condições assim, por muito que apeteça, são atitudes estúpidas. Quando se vai pedir muitos milhares de milhões a outros países, aliás também em crise, convém mostrar solidariedade, empenho, compreensão. Varoufakis fez exactamente o oposto do que devia: desdenhou negociações, iludiu propostas concretas e construtivas, limitando-se a barafustar.
É verdade que ele tinha bastante razão. A Europa cometera erros graves na Grécia, e sabia-o. Ao fim de tantos anos, o horror a que os gregos tinham chegado enfraquecia a posição dos duros, que exigiam a continuação da austeridade. Também para a União a atitude mais inteligente era benevolência, cooperação e apoio. Este ambiente favorável foi totalmente subvertido pela atitude tola, pretensiosa e ridícula do ministro grego, que legitimou os críticos enquanto debilitava os argumentos dos defensores de um alívio. No final, tendo prometido que se demitiria se perdesse o referendo de 5 de Julho, acabou por ser forçado a abdicar apesar de ter ganho.
O balanço do episódio é deplorável. Para o povo grego, o mandato de Varoufakis significou a explosão de uma situação já terrível. Bancos fechados, limites de pagamentos, ausência de crédito e bloqueios nas importações, além de tumulto e vexame logo na abertura da decisiva época turística. O governo do Syriza tem agora a missão impossível de aplicar um acordo pior do que aquele que recebeu mandato para rejeitar. Na Europa, o resultado foi devastador, com ruptura da confiança, acordos ilusórios e falta de perspectivas credíveis de união. Uma só pessoa beneficiou com tudo isto: Yanis Varoufakis, coqueluche mediática global que, agora sem responsabilidades, pontifica como guru da esquerda internacional. Parabéns!
João César das Neves 29 de Julho de 2015