sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Brincando às histórias em suspense



 Texto de Salles da Fonseca, no «A Bem da Nação”:

E O PRÍNCIPE DE ORANGE?
Há dias, perguntei quem era o Príncipe de Orange e logo fui incentivado a responder à minha própria pergunta pois o texto nada dizia sobre o «mistério».
E a resposta tanto pode ser estranha como ambígua. Estranha porque se trata de um Rei que assume o título de Príncipe; ambígua porque não há um único Príncipe de Orange mas sim muitos ao longo da História. Sim, os Reis da Holanda intitulam-se Príncipes e, como tal, sempre que um morre lá vem outro que se lhe segue.
Mas eu referia-me ao que nomeou Maurício de Nassau para Governador do Brasil Holandês na época em que estávamos dominados pelos reis espanhóis e em que o nosso Império ficou entregue à bicharada.
E quase me apetece contar a história às avessas, da frente para trás, pois os holandeses decidiram tomar conta do Império Português por incitamento da poderosíssima colónia de judeus portugueses refugiados na Holanda e, mais especificamente, em Amesterdão. E como aos holandeses isso muito lhes apetecia, juntou-se assim a fome com a vontade de comer.
Escorraçados que tinham sido de cá no tempo de D. Manuel I, os judeus estavam com pena da perda do nosso Império a favor de ninguém ou, marginalmente, de quem o desprezava, os espanhóis. A política filipina de quase abandono desses territórios de além-mar tinha como principal objectivo o enfraquecimento da Nação portuguesa que eles queriam dominar no âmbito da sua perene sofreguidão iberista. Portugal construíra um Império para ganhar dimensão que lhe permitisse sobreviver ao sôfrego e poderoso vizinho, havia que lhe sonegar esse Império para que perdesse força e pudesse ser dominado. Os holandeses que tomassem conta de tudo que quisessem.
E se o quiseram, não perderam tempo a fazê-lo por ordem de Frederico Henrique, o então Príncipe reinante, ou seja, o rei da Holanda.
Filho mais novo de Guilherme, o taciturno, nascido do seu quarto casamento com Luísa de Coligny, Frederico Henrique (29 de Janeiro 1584 - 14 de Março de 1647), foi no seu reinado que Maurício de Nassau foi nomeado administrador dos domínios brasileiros conquistados pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC) recebendo uma ajuda de custo de 6.000 florins e salário mensal de 1.500 florins (salário a todos os títulos perfeitamente principesco), o soldo de Coronel do Exército, além de uma participação de 2% sobre os lucros. Corriam ainda por conta da WIC as despesas de mesa e criadagem (dezoito criados), os salários do predicante Francisco Plante, do médico e do secretário.
Maurício prestou juramento em 4 de Agosto de 1636 como Governador, Almirante e Capitão-General dos domínios conquistados e a conquistar no Brasil para um mandato de cinco anos.
Chegada ao Recife
Começariam no embarque alguns dos motivos de sua frustração pois em vez da armada prometida de trinta e duas velas e sete mil homens de armas, a WIC armou apenas doze navios com dois mil e setecentos homens.
A armada partiu da Holanda em 25 de Outubro de 1636 e chegou ao Recife em 23 de Janeiro de 1637.
Estabelecidas relações amistosas entre holandeses, comerciantes e latifundiários, estes restauraram os engenhos com empréstimos concedidos pela WIC, compraram a crédito (da própria WIC, claro) os engenhos abandonados e assim se restabeleceu em pleno a economia açucareira.
Instituída a liberdade de culto das várias Igrejas cristãs e do Judaísmo, sentiram-se os judeus e os protestantes na «Nova Holanda» libertos do pesadelo inquisitorial de que eram vítimas na Europa e em especial na Península Ibérica. Foi então fundada no Recife uma sinagoga que é hoje considerada a mais antiga das Américas.
Decidido a transformar o Recife numa capital moderna, mandou projectar Mauritsstat [1] (donde resultam os actuais traçados urbanísticos dos bairros de Santo António e São José), drenou terrenos, construiu canais, diques e pontes; mandou também construir o jardim botânico e o jardim zoológico, um museu natural e um observatório astronómico; organizou serviços públicos essenciais tais como o de bombeiros e o de recolha de lixo.
Consolidação da conquista
Assim que chegou ao Brasil, Nassau passou imediatamente à ofensiva contra a tropa luso-espanhola e marchou até ao rio São Francisco aí assentando o limite meridional do Brasil Holandês.
Favorável a uma oferta abundante de escravos africanos, em 1637 enviou uma expedição naval que conquistou o Forte de São Jorge da Mina, em África (no dia 28 de Agosto).
Retrocesso
A possessão portuguesa da Mina foi colocada sob o controle do Recife, mas a sua conquista não correspondeu às expectativas económicas holandesas, já que o escravo da Guiné era reputado pelos próprios portugueses como inferior ao de Angola. Rapidamente a Mina se mostrou desinteressante para a estratégia de Nassau. Seguiu-se o abandono. 
Perdendo rapidamente a ilusão de que o rio São Francisco ofereceria protecção natural ao Brasil Holandês, ficou claro que, enquanto o Recife permanecesse em mãos holandesas e a Bahia em mãos portuguesas, nenhum dos dois lados poderia sentir-se verdadeiramente seguro. 
Até que… com o Santíssimo exposto, o Padre António Vieira proferiu na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, no ano de 1640 o sermão «Polas armas de Portugal contra as de Holanda», ameaçando deixar Deus se ele deixasse o Brasil continuar entregue aos holandeses.
Empolgados com esta mensagem, os portugueses fizeram a chamada “Revolta pernambucana” e expulsaram definitivamente os holandeses do Brasil. Corria Maio de 1644.
Regressado à Europa, Maurício de Nassau foi dispensado pela WIC e regressou à sua Alemanha natal tomado de grande melancolia. Não houve honras que o libertassem da depressão profunda até que morreu. Era o dia 20 de Dezembro de 1679.
Reparo agora que pouco ou nada disse sobre Frederico Henrique, Príncipe de Orange. Terá ele feito alguma coisa que mereça nota?

Com o desafio da pergunta final, já de uma crónica anterior – “Quem foi o Príncipe de Orange?», de 15/8, eu já fora à Internet procurar a resposta, mas jamais me disporia a usar o tom de displicência sorridente relativamente a Maurício de Nassau, depois de tantos elogios que lá colhi a respeito daquele, que modernizou o espaço brasileiro em que governou e me deu a mim o sentimento de inferioridade que nos é comum, quando comparamos as colonizações – nossa e saxónica ou gaulesa – estas sempre mais apetrechadas em termos de desenvolvimento social e de espaço, como o comprovam as nações que construíram.
O Dr. Salles defende patrioticamente o nosso estar no mundo – aguerridos, sim, mesmo esfarrapados que estejamos, sem receio de com isso perturbar as relações luso-castelhanas - e indica a peça-chave para a resposta portuguesa, após a Restauração libertadora da dependência  espanhola: o «Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda», do Padre António Vieira, que inspirou zelos e orgulhos nacionais, abatidos durante sessenta anos.
O desafio continua, em torno do Príncipe de Orange – Frederico Henrique entre outros – mas enquanto esperamos pela nova crónica, nesta técnica de suspense a sugerir os esquemas da Sherazade, transcrevo alguns períodos do Sermão de Vieira, que transpus da Internet, confirmativos do zelo patriótico desse extraordinário defensor de causas, humanitárias ou outras, na sua vida de dinamismo e na sua arte oratória inimitável.
Dividido em 5 capítulos, com exórdio, exposição/confirmação e peroração ou epílogo, dele retiro alguns parágrafos justificativos das palavras humorísticas de Salles da Fonseca: « Até que… com o Santíssimo exposto, o Padre António Vieira proferiu na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, no ano de 1640 o sermão «Polas armas de Portugal contra as de Holanda», ameaçando deixar Deus se ele deixasse o Brasil continuar entregue aos holandeses.»:

« Esta é, Todo-Poderoso e Todo-Misericordioso Deus, esta é a traça de que usou (David) para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens; mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão.» (Exórdio, I)

«Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moisés disse-vos: Ne, quaeso, dicant: "Olhai, senhor, que dirão." E eu digo e devo dizer: Olhai, senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa Fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfémias contra vosso nome?! Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês?! Oh não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa. »(Exposição, II)

«Considerai, Deus meu – e perdoai-me, se falo inconsideradamente – considerai a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses a quem nos princípios as destes; e bastava dizer a quem as dais, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, "quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia enim sunt dona Dei? Mas deixado isto à parte: tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do Mundo para conquistadores da vossa Fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singular vossas próprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador do Universo, que às sagradas quinas de Portugal e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta? Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!»
(Exposição, III)

«Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa Fé e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão.
Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos têm ensinado, que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste Mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc. E se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós e tão diferente connosco? Quais foram estes convidados e quais são estes cegos e mancos? Os convidados fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa, tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes em que pudéramos duvidar; se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluís agora e lançais fora dela e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nosnão há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa providência e mudais as leis de vossa justiça connosco.» (Exposição/Confirmação, IV)

«Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo (que é o que mais sente a piedade cristã), também a vós há de chegar. Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria…
Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino; nascerá erva nas igrejas, como nos campos; não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares,  nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerónimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses;e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: – Menino, de que seita sois? Um responderá: – Eu sou calvinista; outro: – Eu sou luterano. Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste- lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos?! Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas), se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo. (Exposição/Confirmação, IV)

«Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro Sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum. Se o Sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o Sol, porque lhos não estranhe; como pode estranhar vossa divina justiça que useis connosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos continuados, não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois Sol e Sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão,  e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai- nos por seus rogos, ou perdoai- nos por seus impérios; que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar e vos manda que nos perdoeis. Perdoai- nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Amen.» (Peroração ou Epílogo, V) 
(Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda 21 Biblioteca Online de Ciências da Comunicação)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O Pingo Doce é mais eficiente…



Uma das questões educativas que a democracia trazida pelo 25 de Abril impôs, para grande estupefacção minha, habituada a respeitar as regras de compartimentação dos diversos Serviços que impediam a interferência alheia no foro de cada um, foi a sucessiva intervenção da família no âmbito escolar, a que não fora habituada. Educada para ensinar as disciplinas da minha preparação técnica, (que a multiplicidade de experiências anuais, com as várias turmas e anos escolares, além de cursos de formação do meu interesse, naturalmente iam fazendo progredir em competência e diversidade, com o auxílio precioso dos manuais escolares apetrechados de orientação específica), parecia-me atrevida interferência no meu trabalho essas reuniões que punham em confronto pessoas a ele alheias, embora, evidentemente, aceitasse a reunião ocasional individual com o encarregado de educação para qualquer problema específico relacionado com o educando.
Mas parece que agora o Ministério da Educação pretende transferir a responsabilidade do ensino para as diversas câmaras municipais de cada área, e aqui vamos nós, de velas enfunadas, navegando e entrechocando, num ensino cada vez menos rigoroso em preceitos unificadores, sujeito ao capricho e à competência nem sempre comprovada, de cada presidente de câmara.
Estamos na época do ruído, da interferência popular, da massificação, das discussões infindáveis em torno dos jogos futebolísticos, do embrutecimento generalizado. Mas parece que os próprios treinadores e seleccionadores dos clubes não admitem assim tanto as interferências alheias no seu trabalho, em que são reis. Podem exprimir-se bem ou mal, com educação ou sem ela, mas as televisões os destacam, elas próprias ajudando ao maralhal da deseducação nacional. São reis no seu trabalho e alguns ganham de forma obscena, a condizer com a sua realeza. Não é o caso dos professores, é facto assente, cada vez menos autónomos, lacaios de mandatários de um ministério de um governo que assim se vai desresponsabilizando das pastas que não dão dinheiro, tal como das postas que, ao que parece, nas suas vendas, ajudam a curar as pústulas trazidas, há muitos anos já, nas pistas do enriquecimento próprio…
E tudo isto a propósito de um artigo que li no Jornal I, de Mário Bacelar Begonha, (12/8/2015), com o qual concordo inteiramente: «Enfim, se por razões economicistas querem entregar a gestão das escolas às câmaras, nós então contrapomos que é mais eficaz entregá-las às “mercearias”, controladas pelo Jerónimo Martins, ou à outra do Continente. É que esses não brincam em serviço e são 100% eficazes.
Se querem brincar, vão para o sítio próprio, mas não provoquem quem sabe do que está a falar e ensinou durante 60 anos! Não brinquem com coisas sérias e tenham juízo. Estudem os problemas e perguntem a quem se preparou a vida inteira para poder responder.»

Qual municipalização das Escolas?! O Continente é que está a dar! O Pingo Doce também:

«Educação nas câmaras municipais»
Por Mário Bacelar Begonha, Sociólogo. Escreve quinzenalmente à quarta-feira 
Jornal I, 12/8/2015
«Não foi por acaso que espíritos cultos e avisados, no passado, denominavam por Ministério da Instrução aquilo que anos mais tarde alguns “optimistas” resolveram chamar da “Educação”, sem cuidarem de saber se a escola é o sítio próprio para receber educação ou instrução! É que a educação implica instrução, mas esta pode existir sem aquela, o que é altamente inconveniente e prejudicial a um país.
Significa isto que a educação deve ter um carácter global, enquanto a instrução abrange apenas um aspecto da educação, sendo, pois, parcial.
A questão “filosófica” que se coloca é saber como será possível educar sem formação adequada e, por outro lado, procurar definir qual o “sítio”, próprio e adequado, para formar quadros para educar, ou será que estamos condenados a ter apenas pessoas que vão tão-só “instruir” outras?
Na faculdade procura-se instrução, conhecimento, saber, mas não educação. Na faculdade procura-se chegar à verdade, mas esta faz parte da educação que deveria conter a instrução, embora seja caricato admitir que esta possa prescindir da verdade.
No entanto, seria desejável que os cursos universitários com a vertente “ramo educacional”, ou seja, destinados ao ensino, tivessem a educação como elemento preponderante do curso, mas afinal estão apenas a falar de pedagogia, o que quer dizer apenas a arte de ensinar, de transmitir conhecimentos.
Ora a verdadeira educação terá de ser ensinada, primeiro, em casa, no seio familiar, na tenra idade (infância), e depois complementada na escola.
Significa isto que é a escola que deve ter um papel importante na educação da juventude, mas por esta (educação) deve entender-se cultura; usos, costumes e tradições.
Será educação uma senhora levantar-se para cumprimentar um homem? Será educação comer a fruta à dentada, como se vê nas cantinas universitárias? Será educação cuspir no chão, na rua, na via pública? Será bem educado ou não todo aquele que se levanta quando toca o hino nacional? Será educação levantar-se para beijar o pai que chega a casa, quando o filho já tem 60 anos? E vice-versa?
São todos estes aspectos que deveriam ser ensinados, transmitidos na escola, na faculdade, mas como será isso possível se lá tal não é ensinado, até porque a maioria dos que ensinam não receberam essa educação?!?
Ora aqui está uma excelente oportunidade para ensinar as pessoas a serem pessoas através da prática do desporto, já que ele tem uma pedagogia própria e exige disciplina e regras que têm de ser observadas, sob pena de se sofrerem danos, alguns irreversíveis.
É evidente que as gerações pós-25 de Abril não sabem quão honroso e educativo era o serviço militar obrigatório que, só por si, educava o povo que por lá passava e substituía, positivamente, a escola quando ela não podia cumprir parte da sua missão, por não ter recursos humanos à altura (da missão).
O que está aqui em causa é a avaliação da possibilidade de a educação passar para as câmaras municipais. Ora não conseguimos entender a falta de sensibilidade de certas pessoas, ou talvez de cultura, para não perceberem o ambiente que se vive numa câmara municipal, que tem mais a ver com a vida empresarial de uma cidade, de negócios, de terrenos, de licenças, de planos directores, etc., etc… e nenhuma vocação ou preparação para questões educativas.
Por outro lado, todo aquele que se preocupa com questões de ensino e de educação, por regra, morre pobre. Já o mesmo não se pode dizer de alguns que vão para as câmaras e que, quando as abandonam, não conseguem justificar o património que possuem! Perguntem ao Paulo Morais, que sabe da poda e é um exemplo de dignidade.
Enfim, se por razões economicistas querem entregar a gestão das escolas às câmaras, nós então contrapomos que é mais eficaz entregá-las às “mercearias”, controladas pelo Jerónimo Martins, ou à outra do Continente. É que esses não brincam em serviço e são 100% eficazes.
Se querem brincar, vão para o sítio próprio, mas não provoquem quem sabe do que está a falar e ensinou durante 60 anos! Não brinquem com coisas sérias e tenham juízo. Estudem os problemas e perguntem a quem se preparou a vida inteira para poder responder.
Só o Ministério da Educação tem vocação, e recursos, para gerir problemas ligados à educação, e portanto é lá que ela deve permanecer. Perguntem também ao Conselho Nacional da Educação, que tem obrigação de se pronunciar.»

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Prémio Nobel de Literatura de 2014



Mergulhada, embora ligeiramente - simples boiar de quem lê por pura diversão - nas escritas um tanto lineares dos escritores de sempre, com maior ou menor ramificação figurativa ou de perspectiva narrativa, de repente deparou-se-me este livro, oferecido pela minha nora Paula: «Dans le café de la jeunesse perdue», Prémio Nobel de Literatura de 2014, de Patrick Modiano, escritor conhecido, meu desconhecido, detentor de vários prémios literários, o último vindo coroar o seu livro publicado em 2007, reconstituição de um espaço temporal dos anos 50-60 forjado em muito do desequilíbrio e instabilidade vividos no pós guerra, sem, todavia, a pretensão de um sentido crítico ou de apontamento referencial ordenado por concepção visualista ou de outra qualquer apetência estrutural.
Na realidade, trata-se de um livro não linear, enigmático, mas de um constante retomar de nomes e de eventos, sob as perspectivas de diferentes narradores, que nos impõem uma constante retoma de leitura para percepção do quem é quem ou da trama que vai progredindo, ora vai recuando e retomando infindavelmente, em novas alianças de um “eterno retorno”, mesmo nos artifícios da sua evolução ou transformação. Assim, dessa forma enigmática que vai deixando e retomando as pistas, com os nomes e as suas relações, o título da obra - «Dans le café de la jeunesse perdue» - é bem a síntese de um enredo em torno de uma jovem, também fugidia e enigmática, figura representativa não só de uma geração jovem, sem rumo, mas também de gerações mais velhas, com o seu passado e os seus segredos, que não interessa decifrar, nos seus tratos e vidas de uma eterna repetição, momentaneamente ou repetidamente desembocada num café de bairro: Café Condé, mais tarde transformado em loja com expositor de objectos marroquinos .”Au Prince Condé”.
História de uma Jacqueline Delanque, filha de pai incógnito e mãe trabalhando no “Moulin  Rouge”, cuja menoridade é atravessada por acontecimentos definitivamente marcantes, pelo seu teor de aviltamento, na construção de uma personalidade tímida e fechada e simultaneamente arriscada, polarizadora de afectos, quer pela sua beleza, quer pela sua reserva, e cujo retrato de adolescente, tirado no comissariado da polícia onde fora conduzida por vagabundagem, servirá como ponto de arranque para o reconhecimento do seu paradeiro, ao detective privado Caislay (um dos narradores) – por encargo do marido abandonado da fugitiva Jacqueline – detective que a reconhecerá, no café Condé da Rive Gauche.
Os quatro narradores serão, por ordem sequencial na intriga, à volta dos frequentadores do café e suas ligações e sobretudo em torno de Louki (nome de carinho atribuído por um desses frequentadores), um estudante da escola de minas, o detective privado, a própria heroína, e Roland, seu amante (após o abandono do marido, personagem insípida e vulgarmente convencional).
Um romance que, na modernidade do seu enredo, de enigmas e pistas a tender para o policial, evoca igualmente a tragédia sofocliana «Édipo», no seu conflito que se vai gradualmente encaminhando, pelas diferentes pistas, para o reconhecimento do parricídio e do incesto, e o desenlace fatal – Um Édipo que se pune cegando-se, uma torturada e enigmática Louki que se suicida lançando-se da janela, ao encontro, certamente, das respostas para as suas incompreensões existenciais.
Como epígrafe justificativa, uma citação do escritor francês Guy Debord, parafraseando o dantesco « Nel mezzo del cammin di nostra vita» : «À la moitié du chemin de la vraie vie, nous étions environnés d’une sombre mélancolie, qu’ont exprimée tant de mots railleurs et tristes, dans le café de la jeunesse perdue. »
Na realidade, um romance que, mais do que oferecer uma intriga mais ou menos romanesca, na sedução de sensualidades nele inexistentes, embora subentendendo sentimentos reais de amor, carinho e dor, joga antes com o enigma da filosofia da vida: a vida como um eterno retomar, na banalidade ou no significativo dos reencontros, no sentimento de frustração ou de vacuidade que persegue o homem ao longo da vida, vida a que a morte reduz ao nada igualmente sem sentido, embora recurso da inadaptação ou incompreensão totais.
Eterno Retorno”, a tese que o livro pretende explicitar, na peugada de Nietzsche (retiro-o da Internet):
« L’Eternel Retour du même sous forme d’une expérience de pensée :
Nietzsche expose sous forme conditionnelle, sous forme d’expérience de pensée sa théorie :

« Que dirais-tu si un jour, si une nuit , un démon se glissait jusque dans ta solitude la plus reculée et te dise : « Cette vie telle que tu l’as vécue, tu devras la vivre encore une fois et d’innombrables fois ; et il n’y aura rien de nouveau en elle, si ce n’est que chaque douleur et chaque plaisir, chaque pensée et chaque gémissement et tout ce qu’il y a d’indiciblement petit et grand dans ta vie devront revenir pour toi, et le tout dans le même ordre et la même succession […]. L’éternel sablier de l’existence ne cesse d’être renversé à nouveau – et toi avec lui, ô grain de poussière de la poussière ! » – Le Gai Savoir (aphorisme 341).»