segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Nosso naufrágio



Quando penso naqueles que se metem de moto próprio numa aventura de destino desconhecido, largando pátrias e lares em busca de uma vida diferente, muitos por medo, muitos por ambição, quantos por desejo de arrasar, infiltrando-se, os alicerces de uma cultura e  uma religião que não é a deles, para impor, pela força, a do seu radicalismo islamita, lembro aqueles tempos em que também nós, os da distância marítima, fomos forçados a fazê-lo, alguns tudo largando, outros conseguindo trazer os restos dos haveres que julgavam necessários para o seu recomeço num destino incerto. Mas tínhamos aviões ou barcos que nos largaram no solo pátrio, e por vezes o braço familiar tão necessário para o recomeço, a própria pátria nos acolhendo, dentro das responsabilidades que entendera ter para com os que também lhe pertenciam por direito, apesar da má vontade de muitos dos que aqui estavam de raiz. Vejo-os a esses outros, caminhando rápidos, despojados de tudo, com as crianças pequenas ou maiores, sorrindo, apesar de tudo, apesar das lágrimas de muitos, de uma coragem e ousadia que admiro, por ser tão incerto o seu futuro, tão sem condições o seu presente, sujeitos, para mais, a uma aventura marítima quantas vezes trágica, como fora a nossa na ida, por mares desconhecidos, na ambição da riqueza e na fé de espalhar o cristianismo pelo mundo.
E a seguir leio textos do nosso medo – os de Vasco Pulido Valente e de Alberto Gonçalves – retomando os dados das nossas lutas intestinas, na caricatura da nossa governança e dos que pretendem arrasar, sob falsos argumentos de compor, o que foi feito, em princípio para fazer melhor, sem pejo de si próprios, sabendo quão necessária seria uma coesão autêntica entre as forças partidárias, para vencer esta crise a que se chegaria forçosamente, tanto foi o esbulho e a má reconstrução num esbanjamento de toleima dos empréstimos consentidos pelos “maus da fita”, na designação irónica de Salles da Fonseca referindo-se aos emprestadores do dinheiro, com a sua filosofia kantiana da “ética de dever fundamentada na racionalidade humana” distinta do “hedonismo que, sem esforço, tudo quer já”, sendo que “o trabalho é uma obrigação para qualquer alemão; o trabalho é um direito para quase todas as nações. Os alemães produzem; os outros consomem»
Pulido Valente mostra-se bem preocupado com a atitude de Costa recusando-se a “alinhar” com Passos Coelho na questão da viabilização do orçamento do Estado. Alberto Gonçalves põe um pouco água na fervura, achando que quando Costa for governo, Costa viabilizará o OE. Mas são muitas as sentenças, muito o pretensiosismo, muita a tropelia, muito o arreganho, muito o ódio, afinal. Por cá.

Pobres de nós
O dr. António Costa sabe que se perder em 4 de Outubro acabou politicamente. Depois de ter assaltado o PS e corrido à má cara com Seguro para ganhar à coligação, se não ganhar todo o azedume que contra ele se criou no partido virá ao de cima e ele não se conseguirá aguentar uma hora como secretário-geral.
A gente com que ele correu não esquecerá nem a brutalidade e a arrogância do método, nem que ele foi eleito pelo voto dos “simpatizantes” socialistas (um categoria indefinível) e não pelos “militantes” (uma categoria, pelos menos, tradicional). Além disso, há Sócrates que, com razão ou sem ela, se sentiu “posto ao lado” (José Lello) e traído e que só espera uma boa oportunidade para o liquidar.
A política não é um jogo pacífico e António Costa, que o sabe muito bem, não se ilude com certeza sobre os perigos da sua situação. Uma única coisa o pode salvar: conseguir a maioria absoluta para o PS. Mas presumivelmente, e apesar da propaganda que se fez sobre o debate com Passos Coelho, não parece que chegue lá. Não admira que perante o que, para ele, é a ingratidão e a cegueira dos portugueses, Costa ameace agora arrastar o país consigo. Sem surpresa nenhuma para mim, que estava à espera de um golpe destes, o admirável candidato do PS anunciou anteontem solenemente no Seixal que não tencionava “viabilizar” (ou sequer negociar) o orçamento de Estado da coligação. Ele não ignora as consequências desastrosas para os portugueses desse acto suicida. Pelo contrário. De qualquer maneira, prefere um desastre com ele do que um desastre sem ele. Suceda o que suceder.
A Constituição não permite ao Presidente Cavaco dissolver a Assembleia até ao fim do seu mandato; ou que a Assembleia seja dissolvida nos primeiros seis meses do dela. O que significa que Portugal será obrigado a viver sem orçamento (e por duodécimos) no mínimo até Junho-Julho do ano que vem. O que lançaria as finanças públicas num caos, sem falar nas reformas de qualquer tipo, que teriam de ser metidas numa gaveta durante oito meses. Pior ainda, os mercados que hoje nos sustentam a juros razoáveis não tornariam tão cedo a emprestar um tostão à irresponsabilidade indígena.
Desde a I República que não aparecia um cacique da envergadura do dr. Costa na cena política portuguesa, pronto a meter o país no fundo por vaidade pessoal ou conveniências partidárias. Apareceu anteontem. Pobres de nós.

Um dia teremos saudade da troika
por ALBERTO GONÇALVES
DN, 20/9/15
Com a pompa digna de um Watergate, o Público divulgou uma carta de Passos Coelho a Sócrates em 2011 e explicou que o então líder do PSD "exigiu" ao então primeiro-ministro "que pedisse apoio externo para resolver os problemas financeiros do país". A pompa é exagerada. A divulgação é redundante (a carta era conhecida). A explicação é desastradamente falsa.
Na carta em questão, não há - nem poderia haver - qualquer exigência: há a verificação de que o país estava na iminência da bancarrota, de que era fundamental impedir a dita e de que, "se essa [viesse] a ser a decisão do governo", o PSD não deixaria de "apoiar o recurso aos mecanismos financeiros externos". Embora, dado o "enquadramento", o jornal quisesse provar o contrário, Passos Coelho sai do episódio como o sujeito responsável que, ao invés de Sócrates, observou os interesses nacionais à frente dos privados. A propaganda assumida ou "amiga" de António Costa soma desastres.
Nenhum desastre, porém, se compara ao que sucederia a Portugal na ausência da troika. Numa campanha em que tipicamente não se discute quase nada, discute-se muito a autoria do convite à troika. Andará tudo doido? É uma possibilidade. Por esta altura, até uma criança deveria saber que a troika veio a pedido formal do PS, para alívio dos quatro quintos da população que não anseiam pelo caos e para desgosto de Sócrates, que, a exemplo de dúzias de estadistas notáveis pelas piores razões, preferia espatifar a pátria do que cair antes dela. Graças à insubordinação de Teixeira dos Santos, ainda bem que a troika veio. Ainda bem que Passos Coelho compreendeu a necessidade dessa vinda. Ainda mal que a coligação aproveitou tosca e parcialmente a oportunidade.
A única acusação mais bizarra do que culpar o PSD pelo advento da troika é acusá-lo de, no poder, ter excedido as respectivas exigências. Ou, no jargão das cabecinhas ocas, de ter "ido além da troika", a outra obsessão infantil da semana. É claro que, por opção própria ou ordem da Sagrada Constituição, o governo ficou aquém da troika, cujas condições sugeriam implicitamente as reformas que não se fizeram ou fizeram pela rama. Com a ajuda do fisco, lá se cumpriram os arranjos genéricos e, sob o verniz, manteve-se quase tudo na mesma. De vez em quando, aterravam por aí uns estrangeiros a constatar o progresso escapatório das "medidas". No prazo previsto, foram à vida deles, convictos de que as nossas não têm salvação.
A questão, insisto, não é condenar quem chamou ou apoiou a chegada da troika, mas quem a deixou partir. Sozinhos, ou soberanos de mão estendida, não vamos longe. E, com o PS mortinho por anular o pouco que a troika remendou, nem iremos perto.
Quinta-feira, 17 de Setembro
Festa rija
A Festa do "Avante!" é uma amostra pequena mas representativa do que seria o país caso os comunistas mandassem: solidariedade, convívio, participação, música, copos, petiscos, respeito, humanismo, delegações de grupos exóticos e terroristas, testemunhos de homossexuais insultados e espancados, comunicados a negar os espancamentos e a aludir a sexo oral, saudações fraternas de "camarada" e "paneleiro", em cada esquina um amigo ou um jagunço pronto a calar dissidências ao pontapé. De botas cardadas, como na outra cantiga. Um dia tenho de imitar o Prof. Marcelo, abdicar dos meus preconceitos e provar tamanha alegria.
Sábado, 19 de Setembro
O verdadeiro estratega da coligação
Em dois ou três dias, António Costa conseguiu: a) mostrar que não faz a mais pequena ideia sobre as "contas feitas" de que orgulhosamente se vangloria por aí; b) queixar-se à mamã de que a "direita" é feia e obrigar a pobre senhora a discursar não sei onde; c) provar que só a irascibilidade e a educação débil o separam de Jerónimo de Sousa; d) trazer para a campanha questões relevantíssimas como as taxas da IVG, ou "aborto" em português de gente; e) lançar suspeitas para cima do percurso profissional de Passos Coelho, o qual passou a carreira em partidos e empregos oferecidos por amigos, ao invés de muitas pessoas que não se chamem António Costa; f) garantir que, no que depender dele, o Orçamento de 2016 já está chumbado, o que é o mesmo que interromper a gravidez ainda antes da fecundação - e com taxas altíssimas.
Acerca do último ponto, porém, é exagerado criticar o homem pela eventual ingovernabilidade da pátria. Como acontece em relação a tudo o que diz num dia, no dia seguinte o Dr. Costa aparece a explicar melhor: obviamente, limitou-se a garantir que chumbará qualquer OE da autoria da coligação. Nada disso implica que, se o PS vencer as eleições, o Dr. Costa não esteja disponível para viabilizar um OE socialista. Sempre é um descanso, e um balde de água gelada nos que pensavam que o Dr. Costa faria implacável oposição até a um governo liderado pela sua insigne figura.
Não é uma hipótese absurda. Até aqui, ninguém se esforçou tanto quanto o Dr. Costa para derrotar o PS. Em dez meses, demoliu com bravura o avanço do partido nas sondagens. Em vésperas de campanha, começou a afocinhá-lo nas ditas. Espera-se que a campanha sirva para desgraçar o PS de vez. Caso contrário, o Dr. Costa terá o país inteiro sujeito ao seu prodigioso talento - e aí a desgraça será nossa.

domingo, 20 de setembro de 2015

Opiniões



Um artigo de Vasco Pulido Valente, uma entrevista de Maria Filomena Mónica. O primeiro revela meandros da política socialista, autoritária e persecutória, qual mesa censória dos tempos inquisitoriais e dos tempos pidescos – estalinistas lhes chama Pulido Valente - exigentes de actuações reverentes da parte dos jornalistas entrevistadores do candidato António Costa: caso não transpareça a reverência, imediatamente surgirá a coima de filiação partidária à direita e o jornalista deve preparar-se para futura exclusão, se Costa ganhar as eleições.
De facto, já existia, do tempo de Sócrates, o exemplo da expulsão de Manuela Moura Guedes do seu programa noticiarístico, por ser provocadora política, e António Costa vai-lhe, ao que parece, no encalço – não da Manuela mas do Sócrates. Vasco Pulido Valente é historiador arguto, ele o avisa. no seu artigo pleno de dados da sua observação crítica, felizmente já não de férias:

Raspar um socialista
Vasco Pulido Valente
Público, 19/9/15
Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do “Diário de Notícias” de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia se tem de aturar - com conta peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem, ou pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, uma ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em “pensar mal”.
 Esta semana tivemos dois casos que nos deviam inquietar. Primeiro, pareceu a meia dúzia de militantes que Vítor Gonçalves tinha entrevistado António Costa na RTP sem o cuidado e a reverência que a circunstância exigia. No dia seguinte foi publicado na internet um recado sibilino: “Quantos jornalistas com papel relevante em programas televisivos com impacte eleitoral (durante a pré-campanha) são familiares de altos dirigentes do PSD ou do actual governo?”. Este filosófico desabafo de sabor saudosamente estalinista vinha assinado por um tal Porfírio Silva, ao que por aí corre carregado de diplomas, que Costa recentemente chamou para o ajudar. Não sei da vida ou do parentesco de Vítor Gonçalves, nem do pessoal da RTP. Mas fiquei a saber que, para não me insultarem, preciso de apresentar documentos até à terceira geração para provar que não há na minha família nenhum desgraçado ou desgraçada do PSD.
O segundo caso foi o debate sobre justiça, também na RTP. Isto, não percebo porquê, enfrenesiou presentes maiorais do PS. Supunham talvez que, à sombra de discutir a justiça, se iria discutir a interessante carreira de Sócrates. E, sem sombra de hesitação, um jovem agitado e estridente, chamado João Galamba, reclamou a cabeça do Director de Programas, Paulo Dentinho, de acordo com as melhores regras democráticas. Por curiosidade, assisti ao programa em que se falou de Sócrates durante meio minuto. Mas para futuro sossego do sr. João Galamba, do sr. Porfírio e do PS em geral, proponho que se organize uma comissão de censura que separe o trigo do joio e faça respeitar o dr. António Costa. Se continua ou não depois de 4 de Outubro, logo se verá.


Quanto à entrevista de Maia Filomena Mónica, começo por descrever a sua personalidade, segundo uma  das epígrafes da página introdutória do discurso: «É uma rebelde que não se verga a nada nem a ninguém. Snob por convicção, não tem travões a ver o mundo à sua volta»
Mas não é pela sua personalidade de mulher bela e caprichosa que transponho excertos da sua entrevista mas pela panorâmica que nos apresenta da sociedade portuguesa e de muita da sua política e dos seus políticos que ficaram por deslindar. Caso da referência a Mário Soares e à sua Fundação, que um país de safadezas e de servilismos idolátricos pirosos faz por ignorar, permitindo mais um escoar de dinheiros públicos assim roubados na mistificação e na fraude. O mesmo, na descrição de Sócrates e das suas falcatruas, embora discorde da comparação com o Dâmaso Salcede queirosiano, que não passava de um enfezado idiota, cobarde e gabarola, longe da figura distinta de Sócrates, agindo na sombra, e expondo às claras as suas convicções políticas.
 Relativamente a Passos Coelho, como «produto não existente no século XIX», também não me parece que tenha acertado, Maria Filomena Mónica. A imagem de paralelo que me seduz, é a de Alexandre Herculano, não, evidentemente, na dimensão cultural ou na criatividade literária deste, mas na hombridade, na seriedade e no amor pátrio, que me parecem comuns a ambos. É certo que Herculano não foi homem de governação, mas defendeu causas políticas próprias de um homem livre e avançado para a sua época – como a do dogma do celibato dos padres que ele contrariou. Herculano é uma figura que permanece no nosso espírito como alguém impecável, cujos livros no meu tempo eram de leitura obrigatória, como fonte literária e pedagógica. Passos Coelho, na sua ambição de tomar conta do seu país, creio que o fez por amor pátrio. E isso é nobre e extremamente corajoso, dada a sociedade que Maria Filomena Mónica descreve, que merece o seu e o nosso desprezo.
Quanto às preferências caprichosas de Maria Filomena Mónica, acho que têm o seu quê de contraditório, pois reconhecendo valores da direita, nessa não vota, por se afirmar de esquerda que, ao que parece, defende o mito homem livre, sabendo quão falso é esse dogma, que entre nós não provém de um conceito espiritual mas apenas grotesco, na má criação das suas permissividades agressivas.
 Uma Entrevista
Texto de Joana Viana e de Vítor Rainho
Jornal I  29/8/15
Maria Filomena Mónica. “Ninguém me consegue amarrar”
(Excertos):
Armando Vara também está em casa e não era propriamente rico…
Pois é…isso é verdade. Não sei porque é o que o Salgado está em casa e o outro está na cadeia. Vou fazer só um parêntesis: a corrupção em Portugal é muito engraçada, porque muitas das pessoas que mais criticam a corrupção são elas mesmas corruptas. Muitas delas, ao longo dos anos, têm-se gabado – é isso que acho mais extraordinário – de fugirem aos impostos. Não fujo aos impostos, porque acho que numa sociedade civilizada se deve proteger os mais fracos, e por isso vivo como se a minha cabeça fosse escandinava. O Christopher Hitchens, um jornalista inglês que depois foi viver para os EUA, que morreu no ano passado, ensinou-me isto, viver como se. Eu vivo em Portugal como se vivesse em Inglaterra ou na Escandinávia. Vivo como se respeitasse o governo. Nunca meti cunhas nem pedi. E nunca me importei de pagar impostos. O que me importo é que depois os serviços não sejam bons.
Essa qualidade do SNS é algo que devemos à UE?
Dantes era muito pior! Os portugueses estão esquecidos disso! No prefácio («do seu livro sobre a Europa que acabou de entregar à editora, com impressões sobre a Europa com que sonha, por oposição à União burocrática em que estamos integrados») tenho uma nota optimista, que não calha bem comigo mas é o que penso: as pessoas não se podem esquecer do que era Portugal antes do 25 de Abril, do que era a pobreza que vi e vivi. E se sou de esquerda é porque, quando percebi que havia pobres, fiquei indignada.
Quando percebeu?
… Vivia na Rodrigo da Fonseca e estive 14 anos numa escola de freiras que era na Artilharia 1. Esse colégio, das Doroteias, quando eu tinha aí 13 ou 14 anos, achou por bem, para nós exercermos a caridade, levar-nos a um bairro da lata, onde são as Amoreiras agora, e cheguei lá e não queria acreditar! Percebi que o privilégio da Rodrigo da Fonseca era um escândalo, porque ao lado havia miúdos que não iam à escola porque não tinham sapatos, que estavam doentes, as mães tinham sete, oito filhos dos quais só tinham sobrevivido dois, gerou em mim uma enorme revolta que nunca passou. A sensação de que não posso viver numa sociedade em que, a meu lado, há estas pessoas com este grau de miséria. Não estou a dizer que seja possível haver sociedades totalmente iguais, mas devem ser dadas oportunidades aos filhos dos pobres para terem alguma ascensão social, se forem suficientemente trabalhadores e inteligentes, e isso não acontecia em Portugal. Marcou-me muitíssimo, até hoje! E a minha relação com os impostos deriva desta sensação de que não é bom viver numa sociedade com graus de desigualdade gritantes. E a crise, desde 2007 até hoje, principalmente nos EUA, tem aumentado muito mais a desigualdade social.
Vai voltar a votar branco em Outubro?
Vou. De resto não me entusiasma nem o Passos Coelho nem o António Costa. Também a campanha tem sido tão desinteressante de ideias… Não é que ache que as ideias são muito importantes, não leio os programas, mas a personalidade misturada com as ideias é importante e nenhum deles tem uma personalidade forte.
Na última entrevista ao i, e a propósito do livro sobre o Eça que publicou, disse que Passos Coelho era um produto inexistente no século XIX e que Sócrates era Dâmaso Salcede, ‘chic a valer’.
E viu-se como é que acabou o chic a valer, não é? Ele tinha um fascínio pelos aspectos externos da riqueza, carros, casas, um curso, sem se dar ao trabalho de se esforçar. Quer dizer, até admito que uma pessoa que não é particularmente rica e que vem da província possa querer as mesmas coisas que os lisboetas têm, mas tem de se dar ao trabalho de tirar um curso decente, de não fazer exames ao domingo. Já em 2009 tinha escrito, para uma revista chamada GQ que não sei se ainda existe, o retrato do Sócrates. A minha embirração com ele já vem daí, porque percebi que era um vigarista.
Na semana passada voltou ao ataque no “Expresso”, chamou-lhe mitómano.
Sim, porque duvido muito que aquilo seja uma tese de mestrado. Acho que é um aldrabão nato, mente até sobre o sítio onde nasceu… O Passos Coelho tem uma vantagem: é calmo. Não sei se é aldrabão, houve aquela baralhada da Tecnoforma, mas não tem nenhum carisma… Para se fazer política há uma parte que é emocional. Não é que eles devam ser teatrais, não estou a dizer isso e não gosto nada de populismo.
Paulo Portas tem isso?
Tem, dos líderes políticos é o que tem mais e é capaz de falar sem um papel, porque os nossos deputados e os nossos líderes políticos para dizerem ‘bom dia, até amanhã’ têm de levar um papel escrito. O Portas não, o Portas sabe falar em público, exprime lá as suas ideias, com as quais não estou de acordo, fiquei vacinada contra a direita. Às vezes penso: se não tivesse nascido no meio social em que nasci, será que era de direita agora?
Diz que é de esquerda pelo ateísmo e pela liberdade mas que há muita gente que acha que é de direita. Porquê?
Porque acham que sou meritocrática e muito rigorosa e dura com as pessoas e quero que os meus alunos saibam tudo, mas isso não é uma coisa de direita. Muitas pessoas acham que, sei lá, gosto de ter uma casa bonita e que para ser de esquerda tinha de viver num buraco com um sofá cheio de nódoas, não sei.
Para si o que defende a esquerda?
A igualdade social, as liberdades. Em Portugal não há tradição nenhuma da defesa das liberdades políticas ou de costumes, nunca houve. A direita nunca defendeu as liberdades.
A esquerda defende mais a liberdade de pensamento do que a direita?
Alguma esquerda defende a liberdade de pensamento. Não o Partido Comunista, porque aí há o centralismo democrático e o que diz o chefe é o que vale, é como com os evangelhos.
Acha que há mais corrupção quando há um governo socialista do que de direita?
No caso de Sócrates sim, mas não é sempre. Os ricos portugueses habituaram-se a um certo sentimento de impunidade.
Os ricos estão melhor com que governo?
Os ricos estão com todos os partidos e dão dinheiro a todos, como se viu com o Salgado, que deu dinheiro à Fundação Soares, outro escândalo nacional. Gostava que um jornalista averiguasse bem como é que aquela fundação foi feita, quanto é que recebeu do Estado. Da câmara sei que recebeu, mas e do Estado? O que me disseram foi que em alguns dos primeiros anos de vida da Fundação, esta, que é privada, teve mais dinheiro do Estado do que a Torre do Tombo ou a Biblioteca Nacional. Que dinheiro é que foi para essa fundação?
O caso BES rebentou, ou teve o seu auge, precisamente no governo Sócrates. 
Penso que este governo tem menos corrupção do que o governo Sócrates, sim. Mas se formos ver no passado… Não me lembro bem, não dou atenção à peripécia política, mas penso que, num país pobre que, de repente, tem fundos europeus, a corrupção tende a grassar.
Está a falar do governo de Cavaco.
Sim, e a responsabilidade não é só dos políticos, é do povo português, porque o povo pensa ‘se lá estivesse se calhar fazia o mesmo’. Não há, por parte da população, uma crítica genuína à corrupção, é como em Itália, é-lhes indiferente, estão habituados à corrupção, é um bem de cultura. E aqui também. Às vezes pensava, dizia isso ao António [Barreto], se calhar a direita, como são ricos, não precisam tanto de ser corruptos, mas depois pensei que não é verdade, eles são é corruptos de outra maneira.
Como?
Não são corruptos à Sócrates. Comprar um apartamento no Heron Castillo eles acham que é uma possidoneira de morte, querem lá casas no Heron Castillo, querem é na Quinta da Marinha, com árvores, resguardadas. São corruptos de outra maneira. Para os ricos, os políticos estão abaixo deles, são marionetas ao serviço deles, enquanto a esquerda é gananciosa. O [Armando] Vara e as outras pessoas devem pensar ‘isto é uma oportunidade bestial para agora começar a arranjar empregos para os meus amigos, primos, para mim’, e de repente aparece um Carlos Santos Silva da Covilhã com milhões. Os ricos já são ricos, o que eles acham é que devem ser feitas leis de acordo com o que querem e desprezam os políticos. Veja lá se vê alguém com um apelido sonante a ir para a política, é o vais! O que acho que se nota depois da revolução de Abril, e durante muito tempo não reparei nisso, é a mobilidade social. Há a ascendente, ou seja, os filhos dos trabalhadores e da pequena burguesia que, até então, não tinham tido acesso à Universidade, e que passaram a poder sonhar em frequentar o ensino superior. Não apenas a sonhar, mas de facto a ela ter acesso. Com tantos sociólogos que andam por aí a estudar os graffitis e outras parvoeiras, é lamentável que não saibamos qual é a percentagem de filhos de gente com apenas a instrução primária que passaram a frequentar a Universidade. A grande novidade é a mobilidade social descendente, ver que alguns filhos das grandes famílias nacionais tiveram de emigrar para ter um emprego. Até certo ponto, para a elite social a garantia de perpetuação do privilégio desapareceu. Portugal é hoje uma sociedade mais aberta, mais competitiva e meritocrática, o que evidentemente considero uma coisa boa.
Falou de Passos Coelho e de Sócrates. De Seguro diz que era um totó. E António Costa?
Está a fazer uma campanha desastrosa. Nunca leio programas, não preciso, prefiro que me digam nos jornais ou na televisão como é que eles vêem o mundo. E não vejo uma visão muito diferente, no caso do António Costa, da visão do Passos Coelho. O que acontece é que, no meio da crise, o que eles têm é de gerir. Mesmo assim, o António Costa deveria dizer ao seu eleitorado socialista o que o preocupa genuinamente e o que vai fazer. Não é dizer ‘vou criar não sei quantos postos de trabalho’, depois afinal já não é criar, é uma estimativa. Isto são coisas pequeninas que fazem as pessoas desconfiar. A cena dos cartazes em si até nem tem uma grande importância, suponho que em todos os países se arranjem cartazes lá na instagram ou como se chama.
Nos bancos de imagens.
Isso. Simplesmente aquelas eram particularmente infelizes porque diziam ‘Eu sou desempregada’. E depois aquilo ficou assim tudo numa névoa, num pântano. E agora ele aparece no cartaz cor-de-rosa! Não percebo o que lhes passou pela cabeça para fazerem aquele cartaz! Não acredito que o António Costa tenha a menor vergonha em assumir que tem sangue indiano, até porque ele tem orgulho no pai. Fazem-no branco para quê? E os jornais não falam nisso porquê? Porque têm medo de serem apelidados de racistas? Não tem explicação! Não me tem atraído, não me convenceu ainda a votar nele.
Nem noutros candidatos?
Não, na direita não voto, nunca!
Referia a esquerda.
Não, porque a esquerda é como o Syriza e o Podemos, sonham com um mundo que já não existe, que é um mundo, como disse, das classes trabalhadoras, provavelmente com uma ditadura do proletariado, esse mundo desapareceu. Hoje em dia há a globalização, há fenómenos absolutamente novos como o desaparecimento da classe operária, e portanto o mundo do Bloco é um mundo anacrónico. A única deputada que respeito é a Mariana Mortágua, porque desempenhou um óptimo papel e porque mostrou aos portugueses o que é ser deputado, é uma mulher que vai para casa e que prepara as coisas e portanto interroga. Até votava na Mariana Mortágua se ela fosse do círculo da Lapa e se não fosse do BE e eu não tivesse que pôr a cruzinha no BE. Imagine que havia círculos uninominais, como acho que devia haver, e que a Mariana se candidatava. Fiquei com confiança nela, porque percebi que ela trabalhava. Os outros estão lá e nem sei os nomes deles. Levantam-se, sentam-se, levantam-se, sentam-se. Pff. Não me interessa.
Vê-se que a Mariana estudou o dossier e que sabe do que fala, mas não haverá mais gente assim que não vemos na televisão? Não estaremos a ser injustos?
Não, não estamos a ser injustos, leio três jornais diários e todos os semanários, e deixei de ver o telejornal, deixei de ver televisão portuguesa completamente, agora desde que estou doente só vejo séries à noite quando paro de trabalhar. Não considero que haja políticos que estejam a fazer coisas maravilhosas e que nunca tenha dado por isso, não.
Mas e criar, acha que Mariana, se estivesse no poder, conseguiria criar?
Não sei, por isso digo que não votaria nela do ponto de vista ideológico, porque ela sonha com uma sociedade e com acção política para uma sociedade que não existe. Portanto eles podem querer o que quiserem, isso desapareceu. Por exemplo, acho que o Rui Tavares é um homem inteligente, mas o modelo na cabeça dele da sociedade portuguesa não é o que existe.
E para a sociedade real, que propostas é que deveriam ser feitas?
Olhe, têm de discutir a Europa, alguma vez viu a Europa ser discutida? Não, nem fazem ideia. A globalização? Zero. A concorrência dos chineses, a escola pública, há imensas matérias sobre as quais eles poderiam ter uma opinião. Só para dar um exemplo, deve ou não o Ministério da Educação subsidiar escolas privadas que são frequentadas por meninos ricos, nomeadamente escolas católicas cujos pais têm dinheiro? Para que é que o Estado está a subsidiar? Concordam ou não concordam? Perguntas concretas! Você é ou não a favor dos numerus clausus nas universidades? Como devem ser determinados? Mantendo-me ainda no domínio do ensino, que é o que conheço melhor, acha que o acesso às universidades deve ser feito por um computador como é feito agora, com base nas notas dos exames, ou as universidades devem dar-se ao trabalho, porque são preguiçosas, de elas próprias escolherem os alunos como deve ser? Os problemas concretos não são discutidos no parlamento nem na campanha. Andam a discutir a porcaria dos cartazes porque é a única coisa que veio ao de cima. A impreparação total do ponto de vista técnico impede o PS de montar uma campanha decente. Os outros, como diz o Marcelo Rebelo de Sousa, estão todos a fazer de mortos e se continuam a fazer de mortos até às eleições vai haver uma enorme abstenção. Porque as pessoas olham para aquilo e cresce uma coisa que me apavora, que é a raiva contra os políticos, que acaba sempre mal. Felizmente estamos na Europa, porque senão isto podia acabar muito mal. …….»

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Lordes sem cobertura




Lembrei-me de «O Pequeno Lorde», da escritora anglo-americana Frances Hodgson Burnett, livro que atravessou a minha infância e que um dia ofereci ao meu filho Artur, hospitalizado na altura, chamando-lhe, na dedicatória “o meu pequeno lorde”, por ser loiro e um rapazinho responsável, delicado e com amigos. O pequeno Cedric, era órfão de um filho de um conde inglês – Lorde Fauntleroy – que desprezara o filho, com rigidez aristocrática, por ter casado com uma jovem americana, aparentemente destituída das características imponentes da educação britânica. Mas o avô manda buscá-lo aos Estados Unidos e a imagem, observada ocultamente pelo advogado interveniente, da corrida entre o rapazinho e os seus amigos em que aquele sai vitorioso e se justifica disso sem “peneiras”, juntamente com outras atitudes de simplicidade e graciosidade que vai revelando numa história colorida de ternura e graça nos contrastes, permaneceram no meu espírito como exemplo “a não perder”.
Tal como o Artur, que a aflição pela sua doença me levara a oferecer-lhe o livro do paralelo com o tal rapazinho do meu encanto, ao ouvir hoje Pedro Passos Coelho em voz bem timbrada de um discurso simples e racional, pareceu-me que o Pedro criança poderia ter sido menino exemplar, como Cedric, o futuro pequeno lorde Fauntleroy. Será fantasia, mas não me importo de a revelar. Tenho gostado sempre dos discursos dele e naturalmente que um ou outro traço menos seguro desses discursos não são de molde a destituí-lo do pedestal de pessoa conscienciosa e honesta, que se propôs erguer a sua nação do atoleiro de ignomínia a que fora condenada, o que a maioria de nós não quer ver.
Como ele, outras figuras são, manifestamente, discretamente sábias e sensatas, as que o defendem, como Lobo Xavier, Telmo Correia, Nuno Magalhães, o que, em minha opinião, prova uma formação cívica e moral que dantes era prezada, e hoje ainda, por alguns, mesmo jovens, o que nos alegra a alma. É assim também o meu marido, embora não mais jovem, a quem recorro para me trazer uma palavra, não de apaziguamento, mas da mesma indignação que a minha, quando os ouço, aos outros, deitando abaixo, por vezes em voz aflautada, cheios de razões que, ou traduzem enorme empáfia, ou traduzem enorme ambição, ou enorme indiferença pelo país.
O meu marido foi dos que defendeu a pátria, pelos matos de Angola, muitos outros que o mesmo fizeram poderão ter idêntica posição de hombridade e amor pátrio, dificilmente aceitarão a leviandade dos que sistematicamente aniquilam quem governa, fechando os olhos aos condicionalismos em que trabalhou o Governo.
Mas a maioria não quer saber. Como descreve Vasco Pulido Valente, somos um povo que andou sempre a reboque, atrelado a uma Inglaterra protectora e desprezadora, pela nossa miséria económica e cultural. Agora estamos cheios de pruridos por continuarmos de canga e culpam Passos Coelho de se rebaixar a Merkel, ao BCE, como antes à Troika.
António Costa promete fazer diferente, mas todos sabem que não, imagem dos Tsipras e Varoufakis arrogantes e condenados. Os senhores da esquerda mais as senhorinhas de olhos tristes ou maliciosos sabem disso, mas o objectivo é condenar, porque achamos que temos direito à teta europeia. Eternamente, lordes refestelados, bem tratados, com direitos, sem deveres, sem educação. Não o achou Salazar, mas esse não conta, que nunca roubou.
Leiamos Vasco Pulido Valente, saído hoje no Público:

Protectorado

À esquerda e à direita anda por aí muita gente indignada por causa do protectorado de que Portugal sofreu e, segundo alguns patriotas sem mancha nem tumor, continua a sofrer. Isto deixa um indivíduo de boca aberta por duas razões.
Primeiro, porque de maneira geral foram esses mesmos patriotas que levaram Portugal ao protectorado de Bruxelas. Depois, pela total ignorância da história deste pobre país desde pelo menos o fim do século XVIII. Toda a gente se esqueceu que em 1807 a Inglaterra meteu D. João VI num barco e o despachou para o Brasil? Ou que Junot acabou corrido por um corpo expedicionário inglês? Ou que o embaixador de S.M. Britânica tinha assento de jure no Conselho de Regência que ostensivamente governava o Reino?
E ninguém se lembra que na guerra contra os franceses (que durou até 1814) o general Beresford comandava o exército português com a ajuda de umas dezenas de oficiais que trouxera de Inglaterra e que o nosso Tesouro pagava? E também ainda não é claro para a cabecinha nacional que o triunfo do liberalismo em 1834 não passou de uma conveniência da Inglaterra que ela, de resto, financiou e forçou as potências conservadoras, como por exemplo a Áustria, a engolir? E o progressismo indígena também se esqueceu que a guerra da “Patuleia” se resolveu com a intervenção da esquadra inglesa (ao largo do Porto e em Setúbal), por uma invasão de um exército espanhol assalariado por Londres e por um “protocolo” de Palmerston, que determinava quem podia, ou não podia, entrar no governo?
E a seguir desapareceu o protectorado? De maneira nenhuma. A Inglaterra e, com a autorização dela, a França continuaram a sustentar a maravilhosa paz da Regeneração; e a promover ou liquidar ministérios de acordo com o grau da sua subserviência e a mandar nos territórios de África de que Portugal, na sua ingenuidade, se julgava dono. E finalmente, em 1892-1893, não hesitaram em suspender os víveres de que a nossa miséria humildemente se alimentava. Os patriotas que hoje se arrepiam com o protectorado dos credores deviam pensar que o único período em que não houve protectorado algum em Portugal foi durante a Ditadura de Salazar, cujos benefícios não se distinguiram na história da Europa. Mas voltar a 1928 não parece uma política muito inteligente.