quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Os calos do nosso patriotismo



“Dói-me Portugal”: Um texto sombrio, socorrendo-se de referências a poesia de Espanha, poesia, segundo Pacheco Pereira, intraduzível noutras línguas em termos de musicalidade, embora ele tenha traduzido dois versos para a sua analogia não patriota, mas apenas pátria:  “Uma das duas Espanhas há-de gelar-te o coração”: “Um dos dois Portugais há-de gelar-te o coração”.
E segue-se o tal aprofundamento das escrófulas sociais, de hoje como de ontem, é certo,  mas por conveniência raivosa apenas responsabilizando os do governo que se pavoneia, os do empresariado em posição de vénia, todo o resto – “os de baixo” - no desemprego ou no emprego precário e, segundo a focalização dos empregadores, descritos como “feios, porcos e maus”, querendo receber sem trabalhar, à custa deles, dos patrões, em vez de “amocharem disciplinadamente”.
Já depois deste artigo despejando recalcamentos e ódios intemeratos, surgiu o tal esboço do rectângulo dividido em dois, na “Quadratura do Círculo” pelo mesmo Pacheco Pereira, antecipando – e sugerindo - a proposta pós-eleitoral de governação à esquerda, a qual esquerda cobre mais de metade do país, sem referir a quase metade populacional dos que se abstiveram de votar, o que faz propor a criação de um outro governo para estes, ou pondo-os a governar entre si, embora pelo seu desprezo em participar num acto importante de cidadania, me pareça que esses se estão nas tintas para quem quer que os governe – o que é amorfo.
E assim se fomenta o ódio, nestas generalizações de ataques raivosos de uma esquerda desejando ascender, tal como já o fizera anteriormente durante o Processo Revolucionário em Curso de má memória, e que Pacheco Pereira parece querer fazer renascer, com o seu historial sem ponta de equilíbrio, num radicalismo desafogado em mágoas e ódios, que não ressalva os tantos de uma população de facto “de brandos costumes”, não da hipocrisia de Salazar, mas da sua sabedoria e inteligência crítica. Mas Pacheco Pereira parece desejar mais os costumes jihadistas para expansão do seu Islão avassalador, ou mesmo apenas a garra combativa  de uma Espanha dos idos de 36/38, atropelada em sangue fratricida, para expansão das suas teorias falsamente humanitárias e desprezadoras da sua pátria.
E o “niño que empieza a vivir” terá o coração gelado num desses dois Portugais, como já acontecera na Espanha, nos lamentos de musicalidade intraduzível de António Machado, donde a conclusão de Pacheco Pereira, ambicioso de um Portugal valiente, como a valiente España, desta vez imitando as mágoas de Unamuno: “me duele España”, dói-me Portugal».

Dói-me Portugal
José  Pacheco Pereira
Público, 5/9/15
O poema de Antonio Machado intitulado Españolito é, como muitos poemas seus, intraduzível.
Eugénio de Andrade dava os poemas de Antonio Machado como exemplo da impossibilidade, no caso da poesia, de encontrar noutra língua, não as palavras certas, o que ainda era possível, mas a “música” do poema, o modo como fluía o som dessas palavras. Por isso, aqui vai no original:
Ya hay un español que quiere
vivir y a vivir empieza,
entre una España que muere
y otra España que bosteza.
Españolito que vienes
al mundo te guarde Dios.
una de las dos Españas
ha de helarte el corazón.
É um poema sinistro tanto quanto pode ser um poema. Estamos a caminho da ferocidade da guerra civil espanhola: “uma das duas Espanhas / há-de gelar-te o coração”. Não é hipotético, é certo. Morrerás em breve por uma ou por outra dessas “duas Espanhas”. Como Machado, enterrado junto da Espanha mas do lado francês, para onde fugiu quando a guerra estava perdida para a República.
O tema das “duas Espanhas” é muito antigo e não é alheio também ao pensamento português contemporâneo desde o século XIX. A ideia de que há “dois Portugais” também por cá circulou, mas sem a dramaticidade e a fronteira talhada à faca, com que existiu em Espanha. Houve sempre por cá mais mistura, mesmo nos momentos em que “um Portugal” defrontou o “outro”, nas lutas liberais, na República e na longa ditadura que preencheu metade do século XX português. A essa mistura Salazar chamava a “brandura dos nossos costumes”, uma enorme mentira em que os poderosos desejam acreditar e nem ele acreditava. Também ele era capaz de, com o seu enorme cinismo, agradecer aos portugueses terem sido tão “pacíficos” durante a crise.
Hoje, “dois Portugais” existem e vão a eleições. Um está à vista todos os dias, outro tornou-se invisível, mas está cá. Como é que é possível ele ter desaparecido de modo tão conveniente neste ano eleitoral? É conspiração dos media, é censura induzida, é habilidade de um dos “Portugais”, é apatia, resignação do outro “Portugal”, é incapacidade do sistema político representar ambos, ou só um, é o efeito daquilo que os marxistas chamavam “ideologia dominante”`? É, porque já não há dois, mas apenas um só, e este é o Portugal feliz, redimido dos seus vícios passados, empreendedor, cheio de esperança no futuro, deixando a “crise” para trás, virado para o “Portugal para a frente”? É tudo junto, menos a última razão.
Um dos “Portugais” está de facto invisível nestas eleições. Quem devia falar por ele, não fala e quem fala não é ouvido. Criou-se uma barreira de silêncio onde apenas se ouve a propaganda. Vejam-se as miraculosas estatísticas. Começa porque há as estatísticas de primeira e as de segunda, as que valem tudo e as que não valem nada. As “económicas” são de primeira, as “sociais” são de segunda. Das primeiras fala-se, as segundas ocultam-se.
As estatísticas “da recuperação económica”, escolhidas a dedo e trabalhadas a dedo, são comparadas com os anos que mais convém, umas vezes 2000, outras 2008, outras 2010, outras 2011, outras 2012, outras 2013, etc.. Todas a subir, pouco mas a subir, com “tendência” para subir. Os “do contra” ainda dizem que são tão milimétricas essas subidas e tão condicionadas pelo bater no fundo, tão longe do que seria necessário, tão dependentes de factores externos, que, ao mais pequeno abanão, o castelo de cartas ruirá. Como, para não ir mais longe, se vê com a venda do Novo Banco, o “bom”. (Embora suspeite que mesmo a pior das vendas vai ser apresentada como um excelente resultado, comparada com qualquer hipotética operação mais ruinosa, que “poderia ter acontecido”, mas nunca existiu. É uma das técnicas habituais apresentar sempre o mal como o mal menor.)
Quem é que quer saber, destes pequenos incidentes? Até às eleições servem bem, no dia seguinte, se os seus criativos autores ganharem, voltam a ler com toda a atenção os relatórios do FMI para justificar a continuação da austeridade. Ver-se-á como o défice vai subir, vai-se ver como as coisas são piores do que se apresentou neste ano eleitoral, mas já é passado, não conta.
Há mais de um milhão de desempregados, “desencorajados”, desempregados de longa duração que desapareceram das estatísticas, falsos estagiários, e pessoas que só não estão nas listas do desemprego porque emigraram. Porque queriam? Não. Porque não tinham alternativa e ainda faziam parte daqueles que podiam emigrar. Se estão felizes é por mérito da Suíça, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da França e das competências e conhecimentos que ganharam em Portugal, imperfeitos que fossem, antes de 2008. O Portugal que lhe deu essas competências também já está a encolher, a acabar. Estamos a falar de várias centenas de milhares de pessoas. É muito português.
Voltemos aos desempregados que, ó céus!, também não deixaram de existir. São muitas centenas de milhares de pessoas, à volta de um milhão se somarmos, como devemos somar, várias parcelas de pessoas que não tem emprego. Não é sequer emprego sem direitos, é que não tem emprego. Ponto. Por muita imaginação que se possa ter, é suposto que não estejam felizes com a sua vida. Nem eles, nem as suas famílias. É muito português.
Depois, mais um número que se sobrepõe aos outros, uma em cada cinco pessoas é pobre, dois milhões de portugueses. Onde estão eles que não se vêem? Depois de uma overdose pontual de miséria nos anos mais agudos da crise, despareceram as pessoas que vivem mal de Portugal. Não são boa televisão a não ser como “casos humanos” extremos – a idosa sem pleno uso das suas faculdades mentais que vive imersa na sujidade e na miséria mais extrema numa casa sem vidros, nem água, nem luz – e não é disso que estou a falar. Estou a falar da pobreza que é estrutural, da que recuou dez anos para trás, mas que, neste recuo enorme em termos sociais, perdeu qualquer esperança, aquela que ainda podiam ter no início da década de 2000. 
E aqueles a quem cortaram a magra pensão na velhice e a reforma com que pensavam viver os últimos anos, também estão felizes, a aplaudir o PAF? E aqueles que não eram pobres ou tinham deixado de ser pobres depois do 25 de Abril e que agora estão a escorregar para esse “estado” de que já não vão sair até morrerem? Estão felizes e contentes, perdido o emprego, a pequena empresa, o carro, a casa? Sim, as estatísticas de segunda, as sociais, revelam as penhoras, as devoluções, as humilhações, o esconder de uma vida sem esperança, ou seja desesperança. É muito português.
O discurso oficial, o do “outro” Portugal, diz que tudo isto é “miserabilismo”. Diz-nos que apenas o crescimento da “economia”, daquilo que eles chamam “economia”, pode resolver as malditas estatísticas “sociais”. Outra conveniente ilusão, porque, a não haver mecanismos de distribuição, a não haver equilíbrio nas relações laborais, a não haver reforço dos mecanismos sociais do estado – tudo profundamente afectado pela parte do programa da troika que eles cumpriram com mais vigor e rapidez – o “crescimento” de que falam tem apenas um efeito: agravar as desigualdades sociais. Como se vê.
No grosso das notícias, ministros e secretários de estado pavoneiam-se com grupos de empresários em posição de vénia, por feiras, colóquios dos jornais económicos, encontros liofilizados para que não haja o mínimo risco e, quando abrem a boca, é apenas para fazer propaganda eleitoral, a mais enganadora da qual se faz falando do “estado” redentor do país que agora já “pode mudar”. Eles falam do lado do poder, do poder que aparece nas listas dos jornais económicos, os novos “donos disto tudo”, chineses, angolanos, profissionais das “jotas” alcandorados a governantes, advogados de negócios e facilitadores, gestores, empresários de sucesso, a nova elite que deve envergonhar a mais velha gente do dinheiro, que o fez de outra maneira. O “outro” Portugal, o que é tão visível que até cega, com todas as cores, luzes a laser, aplausos de casting, feérico e feliz.
Não é este o meu Portugal. Não lhes tenho respeito. Uns fazem por si, outros fazem pelos outros. Conheço-os bem de mais. Não gostam dos de “baixo”. Acham que eles são feios, porcos e maus. Querem receber sem trabalhar. Querem viver à custa dos outros, deles. Se estão pobres é porque a culpa é sua. Se estão desempregados é porque não sabem trabalhar. Se se lamentam da sua sorte, são piegas. Deviam amochar disciplinadamente para serem bons portugueses. Não. “Há-de gelar-te o coração”.
Direi pois, como o velho Unamuno, “me duele España”, dói-me Portugal.
http://s.publico.pt/NOTICIA/1706884http://s.publico.pt/espanha/1706884http://s.publico.pt/franca/1706884http://s.publico.pt/alemanha/1706884http://s.publico.pt/suica/1706884http://s.publico.pt/25-de-abril/1706884http://s.publico.pt/fmi/1706884http://s.publico.pt/banco-de-portugal/1706884http://s.publico.pt/desemprego/1706884http://s.publico.pt/politica/1706884http://s.publico.pt/conjuntura/1706884http://s.publico.pt/opiniao/1706884http://s.publico.pt/demografia/1706884http://s.publico.pt/familias/1706884http://s.publico.pt/salazar/1706884http://s.publico.pt/advogados/1706884http://s.publico.pt/novo-banco/1706884http://s.publico.pt/questoes-sociais/1706884http://s.publico.pt/partidos-e-movimentos/1706884http://s.publico.pt/emigrantes/1706884

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Necessidade a quanto obrigas!




Era o meu pai um homem sério, que gostava de contar a sua anedota à mesa, para nos rirmos, o que acontecia não raras vezes. A propósito do hábito do lamento que reconhecia no povo português, ele próprio podendo referir – mas jamais o fazendo, sempre discreto, no seu mundo que sempre admirei como superior, (nos seus estudos, nas suas lutas, na sua força de alma, nos seus escritos), conhecendo eu a sua história primeira mais pelas referências da minha mãe, do que por qualquer possível desabafo seu – a propósito, pois, do choradinho provinciano, contido em tanto do fado antigo, o meu pai resumia-o na expressão que colheu algures e nos fazia rir sempre – “Chora a mãe trabeculosa junt’ à filha qu’ agoniza”.
É tema da crónica de João Miguel Tavares «O desgraçadismo foi sobrevalorizado», do Público de 1 de Outubro, ultimamente muito referido, no propósito de reforço das acusações ao Governo que o proporcionou com a sua austeridade “criminosa”. A crónica o diz, eu já tinha reparado, em conversa de café, mostrando quanto tal não corresponde assim tanto à realidade, quando nos “concertos” e outros eventos públicos se vêem os espaços repletos, apesar da careza dos bilhetes. Por outro lado, com uma bonificação passageira nas carteiras – confesso que não dei por nada, mas Vasco Pulido Valente o afirma em “Portugal não tem cura” no Público de 26/9, a propósito do “dinheiro fácil” que voltou – refere-se o aumento do nível de vida, em aquisições de automóveis e provavelmente em gozo de férias, nem sei bem. As populações das terras também não parecem infelizes, nos vários programas diários televisivos, que mostram cozinhados, bailaricos, canções e alegria popular com fartura.
João Miguel Tavares refere que criou o neologismo “desgraçadismo” por analogia com o “engraçadismo” criado por Pacheco Pereira, em apontamento sobre a ligeireza das críticas humorísticas - como a de J. Miguel Tavares - o que não admira, tal a profundidade dos esclarecimento científicos de Pacheco Pereira, qual Dr. Fausto interessado pela panorâmica da ciência universal, as levezas da jocosidade crítica passando-lhe ao largo, embora não as da sensibilidade amorosa. (Refiro-me, é claro, neste último capítulo, a Fausto, não a Pacheco Pereira, cuja vida pessoal me é estranha).
Para além, pois, da exploração do miserabilismo para fins eleitorais, da crónica de João M. Tavares, a crónica de Vasco Pulido Valente refere, em iracúndia de desprezo “crónico”, a história de um povo deslumbrado pelo dinheiro fácil, que nos levou actualmente a querer emparceirar com as “raças superiores” europeias. Uma lição de história pátria, uma lição humilhante, que, se não prestigia o povo português, também não prestigia quem tão aristocraticamente o achincalha, sem qualquer laivo de equilíbrio ou de bondade, em generalização propositadamente defeituosa.

O texto de João Miguel Tavares:

«O desgraçadismo foi sobrevalorizado»
Em tempos, Pacheco Pereira cunhou a palavra “engraçadismo” para classificar aqueles que, como eu, utilizam o humor para falar de assuntos políticos, com uma superficialidade (diz ele) que impede uma genuína reflexão sobre os problemas do país.
Hoje, eu queria devolver o cumprimento e acusar Pacheco Pereira de “desgraçadismo”, que podemos classificar como a utilização de um discurso catastrófico para falar de assuntos políticos, com um primarismo (digo eu) que impede uma genuína avaliação do estado do país.
Não digo isto só para embirrar com Pacheco Pereira em vésperas de eleições, mas porque a sua atitude me parece sintomática do desfasamento que existe entre a realidade do país e a narrativa que sobre ele foi sendo construída ao longo dos últimos anos. Todos estamos admirados com as sondagens, e há seis meses não se vislumbrava vivalma capaz de admitir em público a sua fé na vitória da coligação. Contudo, há uma diferença significativa entre o espanto e a incompreensão. Eu estou espantado, mas percebo. Já a esquerda da pátria, e a própria esquerda do PSD, não está pura e simplesmente a perceber o que lhe está acontecer. Afinal, como é possível que num Portugal espremido até à última gota de IVA, de sobretaxa de IRS, de 13º mês, de terrível precariedade e impiedosa austeridade, quatro em cada dez eleitores ainda se mostre disponível para votar em quem nos governou desde 2011? O povo embruteceu de vez?
Não, o povo não embruteceu de vez, embora o mesmo não se possa dizer de quem decidiu resumir os últimos quatro anos de Portugal a uma espécie de “waste land” – para esses, Outubro pode bem vir a ser o mês mais cruel. Ao mesmo tempo que fomos sendo esmagados por um discurso mediático centrado em números de desemprego, programas de ajustamento, cortes, emigração, quedas de bancos e protestos de corporações descontentes, havia centenas de milhares de portugueses a fazer pela vida e a tentarem desenrascar-se sem a velha bengala do Estado, cada vez mais frouxa e desconjuntada. O desgraçadismo está muito sobrevalorizado.
É verdade que boa parte dos portugueses que vão votar na coligação não estão satisfeitos com a governação de Passos Coelho e Paulo Portas. Eu próprio, no próximo domingo, vou votar PàF mais ou menos com a mesma convicção com que os comunistas votaram em Mário Soares em 1986. Trata-se de engolir, não direi um sapo, mas, pelo menos, uma rã. Só que não tenho alternativa à rã – não há um único partido que esteja a criticar a coligação por aquilo que ela merece ser criticada. Todos os políticos batem na tecla da austeridade, quando todos os não-políticos têm a perfeita consciência de que a austeridade era inevitável; toda a esquerda acusa o governo de ter ido além da troika, quando o maior erro do governo foi ter ficado aquém da troika.
Tivesse alguém dito: “o governo perdeu uma excelente oportunidade para reformar o país”, e eu estaria ao seu lado. Mas não. Em toda esta campanha apenas se ouviu a conversa do desgraçadinho. Ora, para quem não é desgraçadinho, não se sente desgraçadinho e não está viciado em desgraçadismo, o discurso do queixume e as promessas de regresso a vacas gordas em prado ralo são muito pouco convincentes. O país mudou e o PS estava distraído. Acreditou que para ganhar folgadamente as eleições bastava, como dantes, sacar o voto do descontentamento. Enganou-se: desta vez, os descontentes não são todos iguais.

O texto de Vasco Pulido Valente:
«Portugal não tem cura»
A revista Visão trazia na capa: “Voltou o dinheiro fácil”, o que para muita gente foi com certeza um motivo de congratulação.
Não interessa que a poupança tenha caído nos três primeiros meses deste ano, nem que a balança comercial tenha voltado a ser (temporariamente?) deficitária. Os portugueses são portugueses porque são ou imaginam que são europeus. Fora isso, coitados, não são coisa nenhuma e precisam, portanto, de imitar as “raças” superiores que vivem lá mais para norte ou para ocidente. E quando apanham uns tostões, já se sabe, é para se mascararem de “modernos”. Compram, ou recompram, uma casa, um carro novo, o último computador, um tablet e um smartphone e vão passear para a Tailândia ou outro sítio exótico como as pessoas civilizadas.
No meio das belezas da segunda metade do século XIX, houve em Portugal um pequeno percalço. O Brasil arranjou uma guerra com o Paraguai (1864- 1870) e a moeda brasileira, que nos chegava da emigração, perdeu uma parte substancial do seu valor. Ora era com ela, ou quase só com ela, que nós pagávamos as nossas contas no estrangeiro, porque o “real” português não valia nada. A “classe média” indígena ficou muito agitada. Os dois partidos do regime (o regenerador e o progressista) fabricaram um governo a que chamaram “Fusão”, o Porto veio para a rua e resolveu inventar para seu uso uma “união nacional” e tudo até 1871 ficou numa grande balbúrdia, que só Fontes conseguiu acalmar, com um empréstimo confortável, que nos permitiu não perder a nossa querida “identidade nacional”.
Nesse tempo, a “classe média” (um conceito por excelência ambíguo) não passava de uns milhares de pobrezinhos, que trabalhavam para o Estado e arrastavam as suas pretensões melancolicamente pelos cafés da Baixa e por alguns clubes recreativos. Uma carga de polícia chegava para os meter na ordem. Hoje não. Hoje a verdadeira “classe média” com hábitos de consumo “como na Europa” é uma grande massa de centenas de milhares de pessoas (na maioria funcionários públicos), distribuídas por Portugal inteiro e com um voto na mão. Não se contentam com o óbolo exíguo que recebem do Estado, protestam contra a sua imaginária “escravatura” fiscal e querem “mudar”. Para quê já confirmámos: para gozar os benefícios da civilização como ela se goza em Nova Iorque ou em Bali, com a comodidade que o seu “bom gosto”, aprendido na TVI, na SIC e em revistas, manifestamente exige. Portugal não tem cura.

Um por todos



Ele devia sentir-se muito infeliz. Para todos os efeitos, embora as sondagens já o indicassem, a esperança é sempre a última a morrer, e até ao fim ela se manteve. Mas às 20 horas soube-se que as sondagens estavam certas, que a Coligação ganhara, que o PS perdera, que o BE ultrapassara o PCP, como deixavam prever, e as reacções não se fizeram esperar.  Um BE triunfante e pouco depois, com a força do seu pequeno-grande triunfo, expondo a sua indisponibilidade para um acerto viabilizando a governação da direita, cuja maioria relativa era tragicamente ineficaz para se governar em condições. O PCP, certamente que vivendo a sua dose de humilhação, vendo o seu horizonte de terceira força ofuscado pela graciosidade feminina que lhe roubara o lugar, tentou disfarçar e logo lhe seguiu no rastro, apontando idênticos motivos de recusa, há muito repisados – o seu anti-desemprego, o seu anti-Europa e anti-euro, a sua defesa dos trabalhadores, a sua pertinaz recusa do capitalismo, com, a par disso, as habituais ameaças de deitar abaixo sem peias, todas as tentativas de governação serena e construtiva.
 E logo a sugestão foi feita de liquidar o partido ganhador, a favor de um governo de esquerda mais amplo de sentido e eficácia. Os analistas da Coligação ainda se rebelaram com a perfídia, um honesto Pires de Lima acusando tal hipótese de fraudulenta, contra os sorrisos beatíficos dos comparsas de mesa de opinião diversa, aliás já por Pacheco Pereira, Mefistófeles burlão, sugerida, à cautela, antes – não fossem as sondagens dar certas - através de um rectângulo  brincalhonamente – se não malignamente – repartido em dois de diferente dimensão, o menor reservado, naturalmente para a direita, o que significava que a esquerda é que deveria governar, por muito que expressassem divergências de fundo, PS e esses outros.
Mas era a vez de António Costa decidir. E ele falou, em discurso aparentemente bem disposto, retardando decisões, embrulhando as pistas, prolongando a agonia de uns e de outros, ele que dissera não fazer ajustamentos com a direita, que pedira o apoio da esquerda para a maioria absoluta, mas que, na realidade, não o obtivera. Começou por afirmar que não se demitia, o que fez engolir em seco muitos que contavam com isso – (por não ter ultrapassado com vantagem Seguro, que ele destronara antes, a pretexto de uma vitória do PS, possível com ele).
Não foi possível essa vitória. Mas António Costa, embora um tanto confusamente, conseguiu demonstrar finalmente a sua tese: ele não alinharia com uma esquerda de convicções políticas contrárias, e com o governo de direita saberia impor as suas condições para viabilizar entendimentos.
É justo. Uma coligação a três – já que os outros se estão borrifando para o país – é infinitamente melhor do que a dois, o país precisa de todos, e o povo, que soube decidir, premiando quem soube trabalhar melhor, merece esse apoio.
Um povo que outrora chegou longe, o mesmo que agora foi capaz de distinguir onde reside mais seriedade e poder de  reconstrução. Um povo habituado ao sacrifício, mas sabendo escolher o seu mestre de Avis contra os menos patriotas, fautores da desordem.
António Costa merece os abraços – e não só os dos seus correligionários.