domingo, 6 de dezembro de 2015

Manon Lescaut



Vontade de falar de “Manon Lescaut” do abade Prévost, que releio - na analogia do seu enredo de abismos com os que vivemos no nosso país - me deu a “Pluma caprichosa” de 28/11, de Clara Ferreira Alves. Uma história de «um amor grande como um mar sem praias», retirando-lhe o tom faceto que preside aos excessos descritivos vocabulares dos amores de Cesário Verde com a sua “triste Helena” do poema "Setentrional”. Um amor intenso, uma paixão absoluta, feita de todos os excessos e de todas as renúncias ao bom senso, ao respeito por si próprio, a quaisquer perspectivas de miséria ou fome ou frio, ou prisão, ou morte, ou rejeição social, intercalados os momentos de penúria, de abjecção, de dor, com os momentos de total harmonia e carinho amoroso, neste par original, bem distinto do Paulo e Virgínia ou até mesmo de Margarida Gautier, a dama das camélias, cortesã que igualmente morrerá, rejeitada que foi pela família do amado Armando Duval. Bem distinto ainda do romance epistolar de Choderlos de Laclos, “Les liaisons dangereuses”, e do seu requinte analista da libertinagem aristocrática do século XVIII, e da sua problemática psicológica que dita os comportamentos de perversidade ou sensuais ao longo da obra. Outras novelas se poderiam citar, quer na literatura inglesa, quer na francesa, sem excluir o “Werther” de Goethe, que havia na estante do meu pai e me acompanhou em leitura de adolescência, bem como as aventuras do engenhoso fidalgo Don Quixote da Mancha, ou mesmo o pícaro Don Pablo de Ségovie, “El Gran Tacaño" de Quevedo, creio que prémio escolar em tradução francesa que o meu pai recebeu em Macau, nos seus estudos liceais feitos ali, durante os anos de tropa.
«Un homme et une femme» do século XVIII, uma bela e triste jovem de dezoito anos, amada pelo jovem de boas famílias, des Grieux, que a salva do convento onde os pais a enviam para ser religiosa e assim reprimir as suas tendências de libertinagem que, em jeito fatalista, ela considerava virem a ser causa da sua infelicidade. Ambos escondem os seus amores, em promessas de dedicação mútua e definitiva. Incapaz de suportar a miséria, a frágil e volúvel Manon entrega-se a um senhor B que denuncia des Grieux ao pai deste, fazendo que seja recuperado pela família da qual só por astúcia em manifestações de mudança e esquecimento consegue livrar-se, decidido a seguir os estudos sacerdotais. A sua fama chega aos ouvidos de Manon que o visita no parlatório com lágrimas de humildade e beleza convincentes e justificações da sua traição só por amor por ele, efectuada, já que o senhor B pagava bem e ambos poderiam usufruir do sacrifício da dedicada Manon. A nova queda do futuro sacerdote é imediata e a história prossegue, nas ambiguidades de Manon, no seu desvelo amoroso, na indiferença pelo Mal, com o perdão de des Grieux, e o no clima passional estigmatizante e avesso a quaisquer pruridos de bom senso, a que o amigo de Grieux - Tiberge – vai acudindo com conselhos e auxílio financeiro, mas o enredo evolui em divergências de felicidade e vício, favorecido este pela intervenção de um irmão de Manon – Lambert - figura de sordidez, oportunismo e falta de escrúpulos, ele próprio comandando as vidas dos dois jovens, nos seus truques de sobrevivência que manipulam a irmã e o beneficiam a ele.
Um discurso de primeira pessoa, tanto do narrador inicial, no presente, como do próprio narrador des Grieux, em retrospectiva de desabafo agradecido, pelo auxílio financeiro pelo primeiro prestado aquando do embarque para da América da doce Manon degredada, que des Grieux irá acompanhar, em grande dedicação mas em penúria extrema. Um livro de aventura rocambolesca, de prisões, degradações e truques mas de demonstração de um amor infinito, que tudo sofre na vileza mas igualmente no admirável de uma paixão superior a todo o preconceito. O final da história refere uma Manon bem amante, fugindo para a selva com o seu amado por sua causa perseguido, ela cada vez mais debilitada, ele despojando-se das suas vestes para a cobrir e agasalhar e afinal a enterrar, deitando-se, seguidamente, semi-nu na campa que para ela cavou, na esperança de morrer também. Des Grieux acabará por ser salvo pelo amigo de sempre, Lambert, regressando a França, para retomar a vida.
Uma novela francesa do século XVIII como nunca produzimos em Portugal, mais votados aos lirismos, à epopeia, à literatura de viagens ou à prosa oratória ou historiográfica. A nossa produção novelesca apenas se iniciaria por alturas do romantismo, com vários participantes que também existiam na estante do meu pai, e que culminavam no burilador de enredos “leves” – os nossos preferidos, de minha irmã e meus – Júlio Dinis e a sua obra aprazível, de criatividade, sedução e o necessário conhecimento humano e de costumes, com sugestões de anti-clericalismo e de contemporaneidade, no apontamento social não zurzido a vergastadas excessivamente críticas, como o fariam os escritores neo-realistas do século passado, de que ainda hoje sofremos o efeito clamoroso e redundante.
Vem, pois, este assunto a propósito do artigo da “Pluma Caprichosa” de Clara Ferreira Alves – “Meu caro João Soares” - no qual aconselha o novo ministro da cultura a preservar os nossos escritores mortos, em novas edições completas, e a passear os poemas dos nossos poetas nos autocarros da nossa indolência ledora. E recordei uma vez mais autores do século XX do meu desagrado, entre os quais Vergílio Ferreira que, mau grado a escrita vária do seu experimentalismo literário constante, nunca conseguiu atrair-me, no maçudo de um discurso de análise intimista ou abstracta, em busca dos porquês e dos comos das transcendências ocultas à percepção humana. E isso me levou a Manon Lescaut, uma novela clara, movimentada, não pretensiosa, mas denotando argúcia na descodificação dos caracteres, de contrastes fundos entre o muito amor e a muita perversidade, ou antes, a incapacidade de Manon de reconhecer o erro das suas atitudes menos convencionais, ou a singeleza com que des Grieux esquece as convenções, totalmente dominado pela paixão avassaladora.
E, muito embora reconheça o alcance duma tal medida de publicação das obras completas dos escritores consagrados, julgo que esses modernos já estão suficientemente consagrados, mau grado a multiplicidade de publicações que enchem as prateleiras das livrarias com toda a casta de livros. Por mim, caso houvesse dinheiro para gastar nesses autores, preferiria trazer à ribalta novamente as edições dos clássicos da Sá da Costa, que João Gaspar Simões em boa hora se lembrou de revelar e que tanta luz vieram trazer ao nosso espólio cultural, que, extinta a Sá da Costa, conviria repor. Para não morrermos ainda, em regresso às origens e detectar se valeu a pena.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Será que não vai recomeçar?



«Ninguém aceita uma parcela de poder sem a condição de uma parcela de malvadeza», (Alain, pseudónimo literário de Émil-Auguste Chartier, 1868-1951, ensaísta e filósofo francês): Pensamento do «Escrito na Pedra» que encima a última página do Público de 28/11/15, donde já extraí o “Acabou!!!! Acabou. Acabou?» de José Pacheco Pereira e a que os artigos que seguem – «Porque sim», de Vasco Pulido Valente e a “Editorial” –«A “agenda improvável” de Costa» podem servir de resposta, no seu conteúdo de responsabilidade feita de amadurecimento cultural e ético, que a idade ainda não trouxe a José Pacheco Pereira, envolto nas brumas venenosas de um muito saber destituído da necessária cordura e equilíbrio, impregnado dos resquícios da doutrinação marxista – necessária, sim, mas sem os radicalismos utópicos e falsos próprios de todos os radicalismos, tais os que a Revolução Francesa já igualmente difundira, com muita malvadez, de mistura com as belas teorias dos seus filósofos enciclopedistas, e ainda os radicalismos que os jihadistas nos tempos presentes pretendem impor hoje, no desregramento da sua vileza sem tabus, sob falsos pretextos religiosos.
Na verdade, se o governo de Passos Coelho, a que se refere o Tri “Acabou” de Pacheco Pereira, foi duro e austero e com muitas falhas, não podemos deixar de reconhecer que, na camisa de onze varas em que necessariamente se viu metido, não poderia actuar de uma forma muito diferente, se queria livrar-se dela honrosamente, como parece que fez. Vasco Pulido Valente traça o retrato de mais esta vergonha nacional de um Costa usurpando um lugar que lhe não pertence, com os seus satélites rindo felizes, sem lhe dar garantias de eficácia colaboracionista, e um país acomodado, alinhando na falcatrua, no cinismo e na comezaina eufórica. Também Paulo Portas o apontou no seu brilhante discurso, aquando da moção de rejeição do governo usurpado, como, aliás, todos os da direita que então se pronunciaram.
É certo que poucos querem saber de pagar dívidas, neste país em que se foi aumentado com dinheiro alheio, e a iniciativa do governo anterior de pagar a dívida, os senhores e as senhoras apoiantes de Costa, desdenham, nos velhos discursos com sabor aos dos reclamantes da nossa juventude, hippies, se lhes chamava, mas postos na boca de gente que nada tem de hippie hoje, porque lhe cobre a cabeça antes o véu da sua unção, e lhe enche as mãos antes o missal da sua devoção e do seu cinismo. Os hippies – e os existencialistas, que aqueles também eram – contestavam a burguesia endinheirada a que pertenciam, estes desejam massificar uma sociedade pela igualdade, no seu ódio à diferença, coisa que por cá, aliás, já conseguiram.
Foi no que se transformou a libertação da “ditadura”. A liberdade não formou homens, porque lhes faltaram os princípios. E a perversão veio, gradualmente, manchando o caminho, descambando na irracionalidade dos pensamentos, nisto, no “porque sim” de Pulido Valente, a que se aplica o axioma do Escrito na Pedra: «Ninguém aceita uma parcela de poder sem a condição de uma parcela de malvadeza».
Mas a reposição dos direitos dos “trabalhadores”, segundo Pulido Valente e a Editorial, parece mergulhar no vazio de uma utopia que o tempo talvez não tarde em demonstrar. Oxalá que não.

Porque sim…
Vasco Pulido Valente
Público 28/11/2015
A esquerda manifestou ontem a sua alegria, embora misturada com uma certa raiva a Cavaco, agora absolutamente inútil. Se deixasse o cavalheiro espernear sozinho em Belém, não tinha estragado a sua festa. Até porque, como de costume, o conformismo do indígena entrou logo em cena e, tirando um ou outro caso de convicção e teimosia, os jornais, o Komentariado e a televisão começaram logo a louvar o inominável governo do sr. Costa e as felicidades que ele seguramente nos traria. Houve mesmo um originalíssimo grupo de beatos que resolveu promover um jantar na Casa do Alentejo para comungar na alegria colectiva da vitória, com o proverbial lombo de porco e batatas fritas. Deus lhes dê uma longa vida e muitos pretextos para se unirem assim na sua fé.
Cá de fora, não pareceu que os motivos dessa tão devota euforia merecessem uma grande confiança. Compreendo muito bem que um subsídio, uma encomenda ou uma ajudazinha no emprego alegrem a alma. Mas não parece que o “bodo aos pobres”, como a direita lhe chama, ou a “redistribuição”, como lhe chama a esquerda, venha a ser uma coisa por aí além. Num país com a dívida pública e privada de Portugal e uma economia pequena e frágil, em que se investe pouco e mal, não sobra muito para acabar com a miséria, o desemprego e a pobreza de uma “classe média” que nunca chegou verdadeiramente a existir. O óbolo que se pretende dar aos “mais desfavorecidos” não lhes devolverá o optimismo do tempo em que, à superfície, o mundo se mexia a seu favor e ninguém esperava um percalço ou uma catástrofe.
Hoje, o dr. Costa e as suas tropas contam, para nos livrar deste desgraçado destino, com o aumento do consumo interno da gente encalacrada a quem deram uns cêntimos, com uma extraordinária epopeia científica e cultural (?) e com os milhões do universo exterior que serão atraídos pelo PCP e o Bloco e pelo seu conhecido tacto para receber e regular a iniciativa privada. Quanto ao resto, 19 ministros, 41 secretários de Estado e, como certeza, umas centenas de assessores saídos direitinhos da América e da Inglaterra bastam para pôr em ordem a vida portuguesa e a administração, de acordo com os melhores preceitos da arte. Pena que o Partido Socialista falhe sempre com Soares, com Guterres, com Sócrates. Mas desta vez não falhará com Costa. Porquê? Porque sim.

A “agenda improvável” de Costa
Direcção Editorial
Público, 28/11/2015
Não é preciso acompanhar de muito perto a política nacional para perceber que talvez o mais difícil para António Costa ainda esteja para chegar e que o novo primeiro-ministro vai ter de fazer a quadratura do círculo para conseguir ultrapassar os muitos desafios e obstáculos que tem pela frente. O longínquo The Times of India publicava esta quinta-feira, dia de tomada de posse do XXI Governo Constitucional, uma notícia em que, para além de se congratular com o facto de o novo primeiro-ministro ser “de origem goesa”, resumia de uma forma inteligente e informada os tempos “difíceis” que Costa tem pela frente: “Simultaneamente [terá de] assegurar os compromissos com a União Europeia e dialogar com partidos de esquerda que rejeitam o acordo desde o início, insistir num programa socialista que permita uma redução sustentável de défice e dívida, aumentar salários mínimos e descongelar pensões.” Um caderno de encargos que o jornal indiano classificava de “agenda improvável”.
No Parlamento, esta sexta-feira percebeu-se as dificuldades que o líder dos socialistas vai ter para tornar provável essa “agenda improvável”; a maior parte das propostas mais sensíveis de alterações às leis que subiram ao plenário acabaram por descer às respectivas comissões sem votação para serem discutidas na especialidade. Um adiamento que mostra que ainda há muito trabalho a fazer para que haja uma convergência à esquerda que seja consequente.
Aliás, a “posição conjunta do PS e do PCP sobre a situação política”, um dos acordos que permitiram aos socialistas chegar ao poder, já alertava para uma lista de temas sensíveis em que, “apesar de não se ter verificado acordo quanto às condições para a sua concretização, se regista uma convergência quanto ao enunciado dos objectivos a alcançar”. Dois desses temas sensíveis, a extinção da sobretaxa do IRS e o fim dos cortes nos salários da função pública, chegaram ontem ao Parlamento, mas foram remetidos para discussão na especialidade nas respectivas comissões, sem votação. Aliás, todos os restantes dossiers levados pela esquerda à Assembleia da República, à excepção do fim dos exames do 4.º ano do ensino básico, tiveram o mesmo destino, ou seja, o adiamento. A direita, agora na oposição, não perdeu tempo e tentou transformar os adiamentos num caso político. “A decisão da esquerda ou das esquerdas é adiar, adiar, adiar”, comentava Cecília Meireles do CDS.
Os deputados têm agora 20 dias para fazer a discussão na especialidade para que as propostas possam voltar a ser votadas. Um tempo que António Costa terá de aproveitar para se sentar à mesma mesa com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins e tentar chegar a um consenso, sobretudo quanto à velocidade com que se vai tirar o pé do acelerador da austeridade. A falta de entendimento sobre estes temas sensíveis numa altura tão precoce da legislatura equivaleria a uma sentença de morte para este Governo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Não tenho palavras



O texto é uma explosão de alegria, de quem já viveu alegrias tamanhas e tão parecidas como esta, novo 25 de Abril para uma alma vibrátil, vê-se que justa e caridosa, que, ao que leio na internet, abriu para Karl Marx e fez finca-pé nele - «Só quem não viveu aqueles tempos é que pode pensar que os mais de seis anos passados entre o princípio da história e o seu fim não fossem seis séculos em que tudo mudou e tudo estava mudado.», leio na Internet, como frase sua. Outra frase retirada da sua biografia é que «Viria a aderir ao PCP (m-l) em 1972, de inspiração maoísta e de cuja secção Norte foi fundador.» Publicou livros, viveu na clandestinidade, até ao golpe de 11 de Março de 1975. Escritor, português, não digo a idade, que vem na internet, quer fazer uma Fundação com os seus livros, que são muitos, para ilustrar este país que precisa muito, parece que aderiu ao PSD, mas isso ninguém diria, e a vitória da esquerda encheu-lhe as medidas, como se nota por este artigo saído no “Público” em 28/11/15, autêntica girândola de foguetes, que pretende mostrar uma boa formação moral e muita cultura, além de um retorno aos brinquedos da infância, neste aplaudir entusiástico do seu wink wink, logo moderado por outros suspiros de dúvida transpostos nos sinais diacríticos de uma pontuação expressiva de variados sentimentos e precauções:

Acabou!!!! Acabou. Acabou?

Acabou!!!!
Experimentem dizer “acabou” junto de uma das inumeráveis vítimas destes anos de “ajustamento” e vão ver como é a resposta. Eu já experimentei várias formas e têm todas um ponto de exclamação no fim ou outro qualquer expletivo. Ou é um suspiro fundo de quem atravessou um trajecto complicado e, chegado a outro lado, respira longamente de alívio; ou é um alto e sonoro “acabou” como antes do 25 de Abril se chegava ao “às armas” da Portuguesa e de repente toda a gente gritava a plenos pulmões; ou é uma espécie de vingança saborosa em ver na mó de baixo aqueles que sempre entenderam que têm o direito natural de estar na mó de cima.
Ou há mesmo uma variante irónica, como se o “acabou” fosse semelhante ao do episódio dos Monty Python em que uma personagem num pub dizia para um eleitor circunspecto do PAF ao lado “you know what I mean?” e tocava-lhe nos braços numa cumplicidade admitida. Wink, wink. No episódio, depois queria vender-lhe fotografias pornográficas: “you know what I mean?” Aqui, era uma fotografia de Cavaco Silva a “indicar” António Costa, wink, wink. Até eu fico da escola do engraçadismo, imaginando alguns personagens que andaram a insultar a nossa inteligência, a mentir-nos descaradamente, e a atacar o bolso dos que não se podiam defender, culpando-os de “viverem acima das suas posses” e de serem “piegas”.
You know what I mean?”. Piu-pius governamentais que vivem no Twitter; irrevogáveis de geometria variável; o “impulsionador jovem” que aos saltos no palco dizia à assistência “ó meu, isso da história não serve para nada”; os “justiceiros geracionais” que queriam tirar as reformas aos pais e avós para em nome de uns abstractos filhos e netos as darem a “outros” pais e avós, bem vivos e presentes, em nome da “estabilidade do sistema financeiro”; os neo-malthusianos que nos encheram de simplismos gráficos em que se escolhiam os parâmetros e se excluíam outros para concluir que “não há alternativa”; os arrojados ultra-liberais, que queimam o valor dessa bela palavra de liberdade, e que proclamam que nunca, jamais e em tempo algum quereriam “casar” com as “esganiçadas” do Bloco, sem sequer perceber o que lhes diz o espelho; as mil e um personagens ridículos cuja desenvoltura vinha de terem poder, estarem encostados ao poder e entenderem que tinham impunidade para pisar os outros porque eram mais fracos e tinham menos defesas. Vamos todos dançar a tarantela para expulsar o veneno.
Acabou!!! Sabem ao que me refiro? Sabem, sabem. Bem demais.

Acabou.
Acabou. Percebe-se no ar que chegou ao fim uma época, um momento da nossa vida colectiva e que existe um desejado ponto sem retorno. E, na verdade, para “aquilo” já não é possível voltar, pode ser para outra coisa pior ou para outra coisa diferente, mas para o mesmo já não há caminho.
O modo como “acabou” conta muito, porque é diferente dos modos tradicionais da vida política portuguesa. Se o governo PSD-PP tivesse acabado nas urnas por uma vitória do PS mesmo tangencial, o efeito de ruptura estaria muito longe de existir, mesmo que o governo PS não fizesse muito de diferente do que o actual governo minoritário vai fazer. Foi a ecologia da vida política portuguesa que mudou, com o fim da tese do “arco de governação” e, mais do que qualquer solução, que pode ser precária, não durar ou acabar mal, acabou a hegemonia de uma das várias construções que suportavam a ideologia autoritária que minava a democracia nestes dias, a do “não há alternativa”.
Acabaram os votos de primeira e os de segunda, com o escândalo de também os votos de um torneiro numa oficina de reparações, que faz todas as opções erradas e tribunícias, é sindicalizado nos metalúrgicos, vive na margem sul, e vota na CDU, também valer para que haja um governo de pacíficos funcionários públicos e professores que votam no PS, ex-membro do “arco da governação”. Não é por amor ao governo de Costa, nem ao PS, é outra coisa, é porque não queriam os “mesmos” e foi essa força que os fez acabar. Vem aí o PREC? Se a asneira pagasse multa podíamos enviar os asneirentos num pacote para pagar a dívida e ainda ficávamos com um superavit.
Pode até não mudar muito, porque já mudou muito.

Acabou?
Não. Há muita coisa que não acabou. Há um rastro de estragos, uns materiais e outros espirituais, que não vão ser fáceis ou sequer possíveis de superar numa geração. Sempre que um jornalista fizer a pergunta pavloviana de “quem paga?” ou “quanto custa?” só sobre salários, pensões e reformas, ou seja aquilo que interessa aos que tem menos e nunca faça a mesma pergunta em primeiro lugar, e muitas vezes único lugar, para tudo o resto, benefícios fiscais, impostos sobre os lucros, “resolução” de bancos, PPPs, swaps, etc. ainda não acabou. Sempre que alguém “explicar”, com um encolher irónico dos ombros e completa e absoluta indiferença, a ineficácia da fiscalidade sobre a riqueza, porque os capitais “deslocam-se” como água para outros sítios, para offshores, e podem sempre fugir, e por isso “não vale a pena” sequer admitir tentar taxá-los, ainda não acabou. Sempre que se considera como normal que quem manda em nós, eleitores, portugueses, Portugal, são uns burocratas de Bruxelas e uma elite de governos europeus, que nos governam por “instruções”, “directivas”, “regras”, interpretadas rigidamente para países como Portugal e com ampla folga para países como a França, ainda não acabou. Sempre que o dolo, a violação da confiança e dos contratos com os de “baixo” e a inviolabilidade com os de “cima”, continuar a ser a prática de um estado de má-fé, ainda não acabou. Sempre que se cultive, dissemine, impregne, envenene a vida pública com a indiferença com a pobreza, o desemprego, a quebra de qualidade de vida, a perda de dignidade quando se vê a casa penhorada , ou se perde o carro na frágil classe média que criamos depois do 25 de Abril, retirando da pobreza muitas famílias para lhes dar outros horizontes pelo trabalho e, aos seus filhos, pela educação, e se vê tudo isto como efeitos colaterais não se sabe de quê, embora se saiba para quem, ainda não acabou. Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.
Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.
Pode até não mudar muito, porque já mudou muito.»

Acabo. Afinal, eu não tenho palavras para tão digno fardo sentimental. Prefiro imaginar na boca de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas, os versos tristes de Soares de Passos, poeta de muita dor, também autor do “Noivado do Sepulcro”, que a minha mãe cantava e me ensinou, melodia desenterrada dos finais do século do nosso ultra-romantismo. Só aqueles poderão condignamente responder a José Pacheco Pereira, com a respectiva dor da separação, mesmo sem melodia, mas com muita fé no porvir:



Partida
Ai, adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado;
Soa a hora, o momento fadado;
É forçoso deixar-te e partir.
Quão formosos, quão breves que foram
Esses dias d’amor e de ventura!
E quão cheios de longa amargura
Os da ausência vão ser no porvir!
Olha em roda estas margens virentes:
Já o outono lhes despe os encantos;
Cedo o inverno com gélidos mantos
Baixará das montanhas d’além.
Tudo triste, sombrio, e gelado,
Ficará sem verdura nem flores:
Tal meu seio, privado d’amores,
Ficará de ti longe também.
Não sei mesmo, não sei se o destino
Me dará que eu te abrace na volta…
Ai! quem sabe onde a vaga revolta
Levará meu perdido baixel ?
Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,
Açoitado por ventos funestos,
Sumirá por ventura seus restos
Nas voragens d’ignoto parcel.
Mas ah! longe esta ideia sombria !
Longe, longe o cruel desalento !
Após dias d’amargo tormento
Virão dias mais belos talvez.
Dá-me ainda um sorriso em teus lábios,
Uma esperança que esta alma alimente,
E na volta da quadra florente
Eu co’as flores virei outra vez.
Mas se as flores dos campos voltarem
Sem que eu volte co’as flores da vida,
Chora aquele que em tumba esquecida
Dorme ao longe seu longo dormir;
E cada ano que o sopro do outono
Desfolhar a verdura do olmeiro,
Lembra-te inda do adeus derradeiro,
Deste adeus que te disse ao partir!

Autor: Soares dos Passos (1826-1860)