terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Fraternidade sulista



Um artigo de Francisco Henriques da Silva publicado no A  Bem da Nação»: ELEIÇÕES EM ESPANHA
PERANTE A IMPOSSIBILIDADE DE CENÁRIOS À ALEMÃ OU À PORTUGUESA VAI SURGIR UM GOVERNO FRÁGIL NA PERSPECTIVA DE NOVAS ELEIÇÕES EM 2016Os resultados das legislativas espanholas de ontem, se bem que tenham garantido, tal como em Portugal, uma vitória pirrónica ao partido no Poder, vão dar origem a um período muito complexo e de difícil solução em termos de governabilidade. Trata-se, pois, de uma situação manifestamente débil e, salvo milagres de última hora, ainda possíveis, todavia improváveis, que poderá ter de ser resolvida a médio prazo com a convocação de novas eleições.O bipartidarismo terminou definitivamente em Espanha e o novo quadro quadripartidário, inúmeras vezes anunciado, que implica – et pour cause, alguma atomização das pequenas formações – parece que veio para ficar. De salientar a ascensão fulgurante do Podemos (o Syriza espanhol), que, todavia, não pode ainda aspirar ao Poder e o aparecimento do Podemos que, quiçá por erros de campanha e inexperiência politica, ficou aquém das expectativas.O certo é que nenhuma das grandes formações, mesmo em coligação com forças que lhe estão próximas, garante a maioria absoluta no parlamento (ou seja, 176 assentos na Câmara e Deputados). Assim, à direita, o PP (123) com o Ciudadanos (40) garante apenas 163 lugares. À esquerda, o PSOE (90) com o Podemos (69), ainda menos, 159. Todavia, se lhe adicionarmos a Izquierda Unida (comunistas - 2) e mesmo com os 9 da Esquerda Republicana da Catalunha, atingiriam os 170, ou seja quedar-se-iam 6 lugares aquém do desejado. Além disso, uma tal coligação implicaria cedências de monta às pretensões soberanistas dos catalanistas – maxime a aceitação de um referendo pró-independência – que o PSOE não pode, por forma alguma, aceitar. Por conseguinte, uma coligação negativa “à portuguesa” é, praticamente, impossível.Subsistem outras soluções, designadamente uma grande coligação à alemã, ou seja uma aliança conjuntural PP-PSOE, que teria, presumivelmente, um mandato curto e um programa mínimo, na pendência de novas eleições. Mas esse cenário foi, de imediato, afastado pelos socialistas e por algumas reputadas figuras do PP.Outra hipótese, seria a avançada pelo Ciudadanos: deixar o PP governar, com as abstenções daquele partido e do PSOE. Não obstante este já disse que votará não à investidura de Rajoy. Para além da ingenuidade de uma tal solução, se acaso fosse viabilizada, presume-se que conduziria a Espanha a uma situação de instabilidade permanente. Ao menor sinal, o edifício ruiria.Finalmente, resta saber que tipo de processo negocial poderá ser conduzido, quer à direita, quer à esquerda, com os pequenos partidos, que tipo de cedências terão de ser feitas e que linhas vermelhas não poderão ser franqueadas.Não sendo viáveis as soluções portuguesa (por falta de quórum parlamentar), alemã (por diferenças irreconciliáveis entre as 2 principais forças), fantasiosa a solução do Podemos e demasiado complexa a negociação taco-a-taco com as pequenas formações, aguarda-se para o início de Janeiro a formação de um governo de transição conduzido por Rajoy e o provável anúncio de eleições antecipadas em 2016. Francisco Henriques da Silva

A atracção dos abismos parece ser o que está a dar neste mundo onde ninguém se entende nem, sobretudo, quer entender-se. Daí que a ingovernabilidade seja a consequência previsível nos países em que uma esquerda se impôs fruto de zanga ancestral dos menos favorecidos para com os que os governaram aparentemente sem os distinguir. A Revolução Francesa tratou do tema com muita crueldade, mas foi progredindo sempre, quer culturalmente quer tecnologicamente. Os povos do sul fazem agora a sua tomada da Bastilha do igualitarismo, mas por cá reina demasiada mândria, a esmola será sempre o recurso final, que basta a  muitos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Flashback em estardalhaço de mestre


«2015, um ano deprimente»
Vasco Pulido Valente
Público, 20/12/2015

« Syriza ganha as legislativas na Grécia com o extraordinário programa de acabar com a “austeridade” contra a Europa e contra os mercados. Sai do chão um ministro das Finanças, chamado Varoufakis, com um sobretudo preto de cabedal, que entusiasma as “Passionárias” da esquerda portuguesa e o dr. António Costa, secretário-geral do PS.
A TAP – Há, como de costume, uma grande gritaria para impedir a privatização da TAP. Parece que, embora endividada e sem futuro, essa agremiação é um símbolo da Pátria e da “diáspora” de milhares de indígenas, amigos do bacalhau e de Ronaldo. Ou seja, que continua a ser o Império de que fomos corridos. Aviões com nomes ridículos como “Miguel Torga” e “Fernando Pessoa” parecem consolar a populaça.
A Cozinha – O país perdeu a cabeça com a cozinha. Aparece um chef em cada canto, abre um restaurante em cada dia, com “especialidades” que não se recomendam e não se comem. Os jornais publicam centenas de páginas de receitas e fotografias de pratos muito apetitosos no papel. Apesar do turismo, as falências não param.
A Televisão – Os noticiários são um espectáculo vexatório. Andam entre o jornal “O Crime”, de abençoada memória, e a crónica dos desastres que vão acontecendo pelo mundo inteiro. De política nada, ou quase nada, excepto grupos de gente furibunda que berra todo o tempo para seu gozo pessoal. Fora isso, uma nova estirpe de comentadores de futebol, que fala horas inutilmente sobre coisas que não existem.
As romarias a Sócrates – Sem especial sucesso, levaram a Évora cavalheiros que julgávamos com algum juízo.
Eleições – Ninguém ficou satisfeito com elas. A direita declarou que as tinha ganho; a esquerda foi para o governo com o dr. Costa à frente. Cavaco, escondido em Belém, torceu e retorceu as mãos para no fim fazer o que era inevitável. Não se percebe como um homem daqueles dominou 20 anos de democracia. Talvez porque aprendeu com Marcelo Caetano a exibir uma pose de estadista superior e com o Banco de Portugal a não discutir as contas. Consta que em Fevereiro volta para o Algarve.
António Costa – Já distribuiu umas migalhas da mesa do convento, rezou o Padre-Nosso à loucura da esquerda e gastou uma quantidade descomunal de dinheiro para exorcizar o fantasma de Passos Coelho. Daqui a uns meses começa a conversa a sério.»

Com licença com licença



Seguimos o nosso homem nos seus truques, ele leva a televisão atrás para os seus expedientes de vedeta, não os que fizeram levantar a saia a Marilyn, em imagem de graciosidade e sedução, mas em imagem de palhaço triste e bom, vítima sempre da maldade alheia. O certo é que a televisão o acompanha nesses truques. O último que vi pareceu-me sórdido: um homem que se desloca à prisão de Évora para visitar os amigos que lá deixou e dar assim uma lição de solidariedade e boas maneiras ao mundo português, a quem falou, sozinho - os entrevistadores ocultos, uma ou outra voz se ouvindo apenas, para lhe dar mais protagonismo a ele. Ficámos colados à televisão ante o espectáculo caricato do homem só, falando só, como já tenho visto muitos na rua, perdidos no seu mundo de alucinações.
Mas outros se ocupam dele, bem melhor, embora me pareça que deveria já ser tabu tal tema, pelo indecoroso:

Retrato de Sócrates pelo próprio
Público, 17/12/2015
Palavra a José Sócrates (TVI): “Quando fui estudar para Paris, a primeira decisão que tomei foi pedir um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos de 120 mil euros. Em 2012, a minha mãe vendeu o seu apartamento [no prédio Heron Castilho], deu-me a parte que me devia dar [NR: 75% de 600.000 euros, o que totaliza 450.000 euros] e isso deu-me para viver até ao final de 2012. Entre o momento que saí do governo até ao final de 2012, quais foram as minhas fontes de rendimento? Basicamente, a doação da casa da minha mãe.”
Palavra a José Sócrates (Expresso, 19 de Outubro de 2013): “Quando perdi as eleições [em Junho de 2011], telefonei à minha gerente de conta e pedi um empréstimo ao banco de 120 mil euros. Um ano sem nenhuma responsabilidade e levando um filho comigo. Gastei o dinheiro todo. Assim fui para Paris, em vez de, mais uma vez, pedir dinheiro emprestado à minha mãe.”
Palavra a José Sócrates (TVI): “A partir de 2013 comecei a trabalhar e comecei a ganhar dinheiro [NR: no início de 2013, Sócrates assinou um contrato de 12.500 euros mensais com a Octapharma, a que se seguiu um segundo contrato de 12.500 euros em Maio de 2014], e ganhava razoavelmente. Mas a verdade é que em 2013, porque o meu filho mais novo ainda estava em Paris e eu estava em Lisboa, as minhas despesas cresceram muito, e por isso, em 2013, apesar de já estar a trabalhar, recorri a empréstimos do meu amigo Carlos Santos Silva. Ele emprestou-me dinheiro durante cerca de um ano, até porque quando fui detido, em Novembro [de 2014], eu já ganhava 25.000 euros por mês e tinha a expectativa de poder pagar tudo o que lhe devia e rapidamente.”
Palavra à matemática: José Sócrates afirmou há dois dias na TVI – foi ele quem o disse, não eu, nem o Ministério Público, nem o Correio da Manhã – que em ano e meio, entre Junho de 2011 e o final de 2012, gastou 120.000 euros do empréstimo da CGD e 450.000 euros do dinheiro da casa da mãe, o que totaliza 570.000 euros em 18 meses. José Sócrates afirmou também que só em 2014 tinha pedido três empréstimos à Caixa Geral de Depósitos, o que credibiliza as notícias que indicam que até à sua prisão ele contraiu mais quatro empréstimos, de 25.000, 75.000, 40.000 e 30.000 euros (total: 170.000 euros). A isso se somam pelo menos 250.000 euros (“as contas ainda não estão completamente saldadas”, afirmou) emprestados por Carlos Santos Silva, até à data da sua prisão. Contas feitas, estamos a falar de 1 milhão de euros em pouco mais de três anos. Cerca de 25.000 euros por mês.
Para que fique bem claro: na entrevista à TVI, José Sócrates apresentou-se como um ex-primeiro ministro sem rendimentos, que à custa de empréstimos, mãe e amigo gastou 1.000.000 euros para tirar um mestrado em Paris. Sócrates entende que isto não é “vida faustosa”. “Onde é que está o luxo?”, perguntou. Digamos que para quem está alegadamente falido, o seu conceito de luxo é muito original. Contudo, a questão não está no luxo – está no facto de a frase “tinha a expectativa de poder pagar tudo o que devia [a Santos Silva] e rapidamente” ser uma mentira descarada. Mesmo a receber 25.000 euros (brutos) por mês, ele jamais conseguiria pagar rapidamente aquilo que devia com o nível de vida que levava, até porque, como disse, se não tivesse sido preso continuaria em Paris para tirar o doutoramento. Não é só o mundo inteiro que está contra Sócrates. É o mundo inteiro, a lógica e a matemática. 
O HOMEM QUE FALA SEMPRE SOZINHO
(A Bem da Nação)
No caso Sócrates, o processo judicial não pode resolver tudo. Por isso, a estratégia de o deixar a falar sozinho não chega. Há um debate político para fazer.
Já temos acusação no caso Sócrates. Não a do Ministério Público, mas a de José Sócrates contra a democracia e a justiça em Portugal. Ouvimo-la mais uma vez, recitada em dois consecutivos serões televisivos, sem direito a perguntas e muito menos a dúvidas. Sócrates nunca soube falar de outra maneira, a não ser sozinho. E depois dele, quem ouvimos? Pouco mais do que os comentadores obrigatórios das televisões, o Correio da Manhã, e alguns sindicatos de magistrados ofendidos. É clara a estratégia do regime perante o caso Sócrates: deixá-lo a falar sozinho, como aquelas pessoas estranhas que às vezes nos interpelam com alguma teoria alucinada e que logo percebemos não valer a pena contradizer. É esta a boa atitude? Não é.
O caso Sócrates é grave por qualquer lado que se queira olhar para ele. Reparemos, por exemplo, no que Sócrates afirma. O ex-primeiro ministro não se limita a criticar os vagares da acusação, os excessos de prisão preventiva ou as violações do segredo de justiça, que não serviriam, aliás, para distinguir o seu caso de tantos outros. Também não lhe chega refutar ou reinterpretar o que já veio a público dos elementos de acusação contra si. No tempo de antena da TVI, tal como já acontecera antes, vimos um antigo primeiro ministro e ex-líder de um dos maiores partidos do regime insinuar que foi vítima de uma perseguição judicial encomendada pelo anterior governo do PSD e do CDS para comprometer o PS na última campanha eleitoral. Segundo Sócrates, o PS perdeu as eleições por causa deste caso, o que quer dizer que os resultados eleitorais de 5 de Outubro terão sido viciados por uma encenação judicial inspirada pelo governo de então.
Depois de quarenta anos de regime democrático e de trinta anos de integração europeia, Portugal seria um país onde juízes e magistrados obedeceriam a instruções recebidas de dirigentes partidários. Ora bem: ou isto é mesmo assim, e então o actual governo e o parlamento deveriam estar a promover inquéritos à justiça e a investigar os anteriores governantes, ou isto não é nada assim, e então todos nos deveriam estar a explicar como é que um indivíduo com esta visão do regime foi primeiro-ministro deste país durante seis anos, e líder de um dos grandes partidos do regime.
Dir-me-ão: tudo depende do processo judicial, há que aguardar. Mas o processo, acabe como acabar, não pode resolver todas as questões. Se Sócrates for absolvido dos crimes de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, vamos convencer-nos de que este é um regime monstruoso, uma falsa democracia, onde um ex-primeiro ministro honrado foi vítima de uma perseguição judicial vilíssima, com motivos facciosos? E se Sócrates for culpado, deveremos concluir que este é um regime não menos monstruoso, uma democracia não menos falsa, onde um conspirador corrupto pôde tomar e manter o poder no Estado, até a crise financeira o derrubar? Precisamente porque qualquer dos cenários é mau, há um debate político a fazer, seja qual for a decisão judicial.
No fim do solo televisivo desta terça-feira, José Alberto Carvalho teve o lapso de lembrar Nixon. Talvez haja algumas analogias entre Richard Nixon e José Sócrates, mas a classe política americana discutiu Nixon, o Congresso investigou-o, Nixon caiu por força das instituições e não por causa de uma aflição financeira, e os jornalistas entrevistaram-no (veja-se o seu confronto com David Frost). Nixon até foi perdoado pelo seu sucessor, mas não foi varrido para debaixo do tapete, como um simples caso de polícia ou de psiquiatria. Sócrates não pode continuar a falar sozinho.
In Observador, 18/12/2015 Rui Ramos

Todavia… José Sócrates é um espécime antigo, que os versos de António Gedeão poderiam retratar. Demos-lhe a nossa bênção, deitemos achas na fogueira das suas vaidades, equiparemo-lo ao Homem Nascido de Gedeão, que tal retrato bem pode servir-lhe, nas suas ambições de riqueza e poder, nos seus complexos de vitimização,  nas suas ânsias exibicionistas...:

Fala do Homem nascido
Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu

Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

In Teatro do Mundo, 1958