quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Três temas




O primeiro sobre os “pândegos” da candidatura à presidência da República e os motivos por que, apesar das suas farsas de alinhamento à esquerda, com o deprimente abandono do seu partido, sob o pretexto irrisório da assumpção de um cargo presidencial abrangente na questão das empatias, pairando, pois, acima de quaisquer partidarismos - (na minha interpretação desconfiada, um posicionamento significativo, antes, de indiferença, desdém, vaidade pessoal, traição a valores antes admitidos, ou pura matreirice eleitoralista) -  apesar pois de todos esses dados e outros que envolvem um temperamento popularucho ao modo do nosso D. Pedro I,  que não se limitou a amar a linda Inês e a matar os seus assassinos, pois também dançou nas ruas, Marcelo Rebelo de Sousa ainda parece superiorizar-se - pelo menos na capacidade expressiva e na rapidez de raciocínio a que nos habituou - aos demais “pândegos” da expressão de Alberto Gonçalves, o que faz que seja o que menos nos envergonhará como representante máximo, face aos desconchavos ou aberrações a que tal campanha nos tem sujeitado, pobre pátria ao que chegou.

Trata o segundo texto das relações de dependência do partido no poder face aos que aparentemente o apoiam, pau mandado de todos, até mesmo dos comentadores de futebol. O futuro a Deus pertence, não sei se a nós também.

Mas é, sobretudo, a referência ao Charlie Hebdo, aquando do massacre pelos jihadistas há um ano, e ao apoio de todos os que então vibraram no repúdio a esse e na fraternidade bem gritada no conceito da defesa da liberdade de expressão, em identificação com os seus defensores mortos, que trata o terceiro texto de Alberto Gonçalves, no esvaziamento, um ano após, dessa empatia, em que por toda a parte se alinhou, até mesmo por cá, num “Je suis Charlie” de puro arrebatamento mediático e inconsequente. Mas a liberdade de expressão, ao ferir a religiosidade de uma seita sem religião nenhuma, como essa do Estado Islâmico, que só espera pretextos para usar da sua própria liberdade de manifestação, em cenas de crueldade e ameaça constante ao mundo, por toda a parte se infiltrando e alastrando, em vingança selvática e sinistramente encoberta, revela-se, afinal, um chamariz de adeptos, mais do que os defensores de Charlie Hebdo.
E até mesmo os muitos desenhos e escritos da revista Charlie Hebdo, festejando-a e apoiando-a, no aniversário do massacre, no seu “Numéro Spécial”. parecem tristes amostras de uma impotência ocidental, como ocos chavões defensores de uma liberdade que é apenas chamariz do caos:
 
Qualquer coisa que não seja de esquerda
Alberto Gonçalves
DN, 17/1/16
"Diz qualquer coisa de esquerda" é qualquer coisa que a esquerda gosta muito de dizer. A frase é retirada de Abril, filme do italiano Nanni Moretti, cuja personagem assiste a um debate televisivo entre Berlusconi e o socialista Massimo d"Alema. A prece destina-se naturalmente a D"Alema e naturalmente não adianta de nada. Moretti enerva-se. Não precisava de se enervar: se viesse para Portugal teria imensa dificuldade em descobrir frases que não fossem do seu agrado (por isso é que nós somos o que somos e a Itália é uma potência mundial).
Exemplos são inúmeros, mas para não fugirmos da "actualidade" basta lembrar que, por cá, temos a suprema originalidade de uma campanha presidencial em que nove dos dez aspirantes são de esquerda e o restante finge que também não anda longe. Desde a peregrinação à Festa do Avante! que Marcelo Rebelo de Sousa tomou por garantidos os votos da direita (com e sem aspas) e, entre a bajulação da espécie de governo em funções e a vergonha das próprias origens políticas, partiu à conquista dos outros. Antes de se consagrar como o presidente de todos os portugueses, o prof. Marcelo quis tornar-se o candidato de quase todos. Pelo meio, deixou desamparados os eleitores menos entusiasmados com a golpada do dr. Costa e mais convencidos, inicialmente, de que o ex-comentador da TVI devolveria num instante o país à normalidade democrática.
A ilusão do povo "reaccionário", digamos uns 40% dos cidadãos, era infundada e durou pouco. Quanto às ambições do prof. Marcelo, que a certa altura pareceram tremidas, sobreviveram e talvez se prolonguem por um ou dois mandatos em Belém. Porquê? Por duas razões.
A primeira é o carácter exótico das criaturas que o desafiam. Por muito que o regime já se arraste com dificuldade, ainda não estão criadas as condições de completo desconchavo suficientes para se imaginar Maria de Belém, o reitor Nóvoa ou algum dos demais pândegos no lugar de chefe de Estado. É claro que à esquerda haverá sempre gente disposta a votar na primeira curiosidade antropológica que o partido ou a desdita lhes ponham à frente. Com sorte, porém, essa gente não chegará a metade da população.
A segunda razão prende-se com a opinião pública e publicada. Quando se percebeu que as vénias do prof. Marcelo à esquerda não o resguardariam dos ataques desta, boa parte da direita (com e sem aspas) decidiu subjugar a desconfiança em favor do empenho. Isto é, cada insulto dos adversários recorda às pessoas que pior do que um presidente provisoriamente resignado ao dr. Costa seria um presidente que lhe venerasse a incompetência pela eternidade afora.
Não sei a quantidade de potenciais abstencionistas assim arregimentados. Sei que, por mim, nunca me ocorreu nenhuma vantagem na vitória do prof. Marcelo até ponderar os perigos da sua derrota. E que mesmo que ele não diga nada de "direita", tudo é preferível a ouvirmos a única coisa de esquerda que nos falta: apertem os cintos, senhores passageiros, que dentro de momentos aterraremos em Caracas. Ou o Portugal do futuro, nas palavras do reitor Nóvoa.

Quinta-feira, 14 de Janeiro
Pressão baixa
É um disparate achar-se que o governo só atende a ordens do PCP. E do Bloco de Esquerda. E dos sindicatos. E de economistas gregos. E de visionários bolivarianos. E de astrólogos devidamente habilitados. Ao que tudo indica, o governo também obedece a comentadores de futebol.
Veja-se o caso do popular Eduardo Barroso, o qual tem o poder de anular decisões do ministro da Saúde. Este havia feito determinados convites para a direcção de um hospital lisboeta. Por razões decerto imperiosas, as escolhas não agradaram ao dr. Barroso, pelo que, segundo os jornais, o ministro naturalmente voltou atrás e optou por nomes simpáticos ao fervoroso adepto do Sporting.
Daqui em diante, é de admitir que algumas decisões governamentais aguardem pelo aval de Rui Santos, daquele sujeito forte que gosta do Benfica e de dizer "Ó Sousa Martins!" e do rapaz do Porto que canta numa banda de tributo aos Pearl Jam. Desde que, escusado acrescentar, todos possuam competências técnicas reconhecidas, como uma relação de parentesco com Mário Soares ou assim.
A palavra final a Ana Catarina Mendes, senhora vista com assiduidade nas imediações de António Costa: "O PS mostrou em apenas um mês que é possível governar de forma diferente." Se alguém conseguir desmentir tamanha evidência merece um lugar no Conselho de Ministros ou no Trio d"Ataque.

Sexta-feira, 15 de Janeiro
Checkpoint Charlie
Dos milhões que se diziam "Charlie" há um ano sobram uns poucos distraídos, quase ninguém. Sobretudo após o semanário publicar, há dias, um cartoon que transforma a criança síria afogada numa praia turca num muçulmano adulto que persegue mulheres na Alemanha. Mau gosto? Possivelmente. Mas nunca devia ter sido o "gosto", mau ou bom, a motivar a defesa da revista, aliás fraquinha. O que em Janeiro de 2015 estava em causa era o direito a dizermos o que quiséssemos, que tarados quiseram abolir e que o Ocidente pareceu defender. Pareceu. Afinal, o que se exibiu em vigílias e nas ditas "redes sociais" não passou de sentimentalismo contagioso. Afinal, as inúmeras profissões de fé na liberdade de expressão esvaíram-se no exacto momento em que a expressão excedeu os limites que impomos à liberdade. Afinal, embora não partilhemos os meios, partilhamos os princípios dos assassinos. Os fins não prometem.

Tudo tão longe



A propósito de um texto publicado no “A Bem da Nação”- uma entrevista a Marcelino dos Santos, e em resultado de uma conversa telefónica que o Dr. Salles da Fonseca manteve com João Cabrita, autor do livro “Mozambique”, The tortuous road to Democracy”, o qual lhe telefonou de Mbabane (Suazilândia),  para saber mais dados sobre Joana Simeão, após ter lido no “A Bem da Nação” um seu texto sobre a sua relação pontual com aquela, propôs-me o Dr. Salles , sabendo que eu a conhecera, que escrevesse sobre Joana Simeão. Mas o meu conhecimento só resulta de memórias, mais ou menos apagadas, embora não esquecidas, de uma voz estridente numa mulher vistosa e espampanante, na cabeça um espectacular turbante, e isso ficou registado em texto vagamente poético “Assim é Joana” de “Pedras de Sal”. Foi uma altura de muito sofrimento, ou antes, de muito terror e estupefacção que vivi em esperança de reversão, continuando a trabalhar e a ironizar por escrito, tal como agora se faz também, a respeito do que se pratica na nossa democracia laracheira - mas não criminosa, como a que se tentou implantar em Moçambique. Só para rir o afirmá-lo –  democracia - ou, pelo contrário, para chorar. A entrevista de Emílio Manhique com Marcelino dos Santos mostra a crueza de um regime comunista implantado nessa ex-colónia, como, mais ainda, talvez, em Angola:

O QUE OS COMUNISTAS FAZEM A QUEM SE LHES OPONHA

Entrevista com Marcelino dos Santos por Emílio Manhique, Televisão de Moçambique.
Data: 19 de Setembro de 2005
Programa: “No Singular”
(Excertos)

Emílio Manhique: Lázaro Nkavandame, Gwenjere, Joana Simeão foram mortos depois da independência, mas a Frelimo tinha dito que iam ser reeducados, que iam servir de exemplo. Porque é que foram mortos sem sequer nenhum julgamento?
Marcelino dos Santos: Naturalmente... primeiro porque consideramos que era justiça.
Manhique: Justiça popular?
Marcelino dos Santos: Altamente popular, exercida...
Manhique:... mas foi uma justiça de um movimento guerrilheiro, não de um partido.
Marcelino dos Santos: Justiça contra traidores porque qualquer um deles se aliou ao colonialismo português.
Manhique: Mas porque é que a Frelimo primeiro disse que iam servir de exemplo?
Marcelino dos Santos: Sim, e depois sobreveio a acção, a tentativa do inimigo de buscar elementos moçambicanos descontentes, em particular aqueles que pudessem ser-lhes bastante úteis. Então, aquela consciência que nós tínhamos inicialmente de que são traidores e que, portanto, deveriam ser executados. Bom, numa certa medida podemos dizer que surgiram as condições que forçaram a implementação de uma preocupação e de um sentimento muito, muito, muito antigo porque é bom não esquecer que Lázaro Nkavandame...
Manhique: E porque é que não se informou o povo?
Marcelino dos Santos: Porque aí é preciso ver o momento em que isso acontece e naturalmente embora nós sentíssemos a validade da justiça revolucionária, aquela construída, fecundada pela luta armada revolucionária de libertação nacional, havia, no entanto, o facto de que já estávamos em Estado independente. Quer dizer, Moçambique se tinha já constituído em Estado embora a Frelimo fosse realmente a força fundamental desse Estado. Então foi isso, talvez, que nos levou, sabendo precisamente ainda que muita gente não estava certamente apta a entender bem as coisas, que nós preferimos guardar no silêncio esta acção realizada. Mas que se diga bem claramente que nós não estamos arrependidos da acção realizada porque agimos utilizando a violência revolucionária contra os traidores e contra traidores do povo moçambicano.
 (colaboração de João Cabrita, Mbabane, Suazilândia)

O que posso fazer, é transcrever outro texto de “Pedras de Sal” (contido em “Cravos Roxos”), com um parágrafo que se refere a Joana Simeão. E como contém referência a Almeida Santos, servirá justamente para o homenagear, lembrando acções passadas, do agrado de toda a gente agora, como é costume quando se morre, mas que justamente reconhece nele  o homem inteligente que foi e que teve ocasião de continuar a revelar-se por cá, protegendo os seus amigos, com a sua voz maviosa, que – mais uma voz – ficaria gravada na minha lembrança, através do fado doce que lhe ouvi cantar em Lourenço Marques, e que a internet me faz ressuscitar:

Lá Longe
Lá longe ao cair da tarde
Vejo nuvens d'oiro que são os teus cabelos
Lá longe ao cair da tarde
Vejo nuvens d'oiro que são os teus cabelos
Fico mudo ao vê-los, são o meu tesoiro
Lá longe ao cair da tarde
Lá longe ao cair da tarde
Quando uma saudade se esvai ao sol poente,
Lá longe ao cair da tarde
Quando uma saudade se esvai ao sol poente,          
Como canção dolente duma mocidade
Lá longe ao cair da tarde.

Transcrevo pois, o texto – “Movimentação” - sobre um passado morto, lamentando a crueldade com que foi tratada a figura esplendorosa de Joana Simeão, e, afinal, recordando uma figura marcante, de voz branda e expressiva, Almeida Santos, cuja morte inesperada chocou, após o gesto de apoio a Maria de Belém, como acto de cavalheirismo e amizade que o elevou, para mim, por altivamente se revelar indiferente aos comparsas do apoio a Nóvoa.

Movimentação
«Desde 25 de Abril, aproximadamente, toda a gente se movimenta para fazer coisas – partidos, manifestos, comunicados, discursos, reuniões, pareceres, propostas de saneamento, peditórios, tentativas de ilustração das massas..
Os peditórios e as tentativas cabem às senhoras, por natureza generosas e apóstolas da tentação, como as sereias.
Cá por mim, sinto-me baralhada, pois as opiniões são muito desencontradas.
Os partidos que se apelidam de democratas, parece que são mais que um, pois por vezes desmentem-se. Uns mandam telegramas de repúdio a umas palavras elegantemente levianas – e parecem, pois, repudiar a leviandade. Logo outros democratas desmentem tal telegrama – o que parece apoiar a leviandade. Por outro lado, um dos partidos democratas propõe saneamentos onde não se inclui o da prostituição e logo outro partido democrata inclui o saneamento da prostituição.
Um outro chamado MIMO deseja mimosamente a independência total, mas em idêntico telegrama de repúdio às mesmas palavras levianas expõe que jamais renegará a pátria portuguesa – contradição que me deixa atordoada pela desorientação de princípios manifesta.
Um partido chefiado por uma mulher – nem só os peditórios e os partidos são pertença das senhoras – experimenta autodeterminar a massa negra informando-a de que se não deve amotinar contra a massa branca – maneira cavilosa de lhe lembrar que pode.
Um ilustre advogado, num artigo de muito génio que ficará na posteridade como marco simbólico das qualidades humanitárias e cavalheirescas de um povo – aconselha com muita finura a que deixemos estas terras aos seus naturais, afirmando que se ele fosse negro era isso mesmo que desejaria. Esqueceu-se de analisar a questão do outro ponto de vista – do seu – e de se afirmar numa atitude corajosa e não cordialmente desleixada, de quem se está nas tintas, ou prefere uma retirada elegante, porque teve tempo de se estruturar melhor “ailleurs” durante o regime tão criticado, mas com tantos resultados positivos para si próprio e tantos outros, derrotistas como ele.
Um homem igualmente chique – tem-me chamado muito a atenção o pormenor do requinte de maneiras (com raras excepções) em todo este fervilhar – depois de se mostrar, reservadamente embora, conivente com a Junta, manifesta agora, decididamente, a sua não adesão a respeito do Ultramar. Como é um homem, ao que se tem visto, habituado a levantar voo frequentemente, cuida tarefa fácil levantarmos todos voo com ele, e aconselha resignação e calma ordeira, para tudo se fazer com compostura, na hora do embarque, de acordo com os seus ideais.
E no meio de tanta leviandade e garotice com que se debatem os destinos de um povo, de tanto egoísmo e cobardia mascarados de filantropia, de tanto partido apressado, poucos deles seguem o da sensatez e do respeito pelas normas do seu Governo, o partido daqueles cidadãos verdadeiramente livres, ou seja, os que sabem obedecer.»

sábado, 16 de janeiro de 2016

Explicações



O texto de Vasco Pulido Valente, publicado hoje no Público, só pode pedir um comentário de apreço. Um homem culto e inteligente, que procura as fontes para as suas razões. É certo que, num país de traição tantas vezes cometida, onde a mesquinhice e a inveja se casam lindamente com a pequenez intelectual, não são de estranhar estas novas reformas no ensino em função da tal massificação que se introduziu há muito, que o restabelecimento do bom senso conseguiu em parte minimizar, mas que a nova viragem a uma esquerda cujos valores se resumem – ficticiamente, é certo, pois há sempre os espertos que desejam mais para si – a uma tolhida generosidade para um igualitarismo ideal para os com menos valia.
Vasco Pulido Valente informa sobre a tese do livro “Les Héritiers” de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, publicado em 1970, que serviu aos nossos revolucionários de 74, e a Tiago Brandão Rodrigues na revolução de 2016.
O certo é que há sempre os filhos mais protegidos, os alunos mais curiosos ou mais trabalhadores que hão-de sempre distinguir-se. E  isso dá-nos coragem para esperar que tudo mude novamente, ainda que não no meu tempo.
Mas de facto, ao ouvir há dias António Costa, posto perante a pergunta de Pacheco Pereira, sobre se se propunha mudar o AO e responder que não, pois já houvera outro AO a que ele se submetera e não morrera por isso, dando uma imagem de ignorância sobre o cariz de idiotia que este AO comporta, ou ao ouvi-lo larachar no Parlamento sobre a inutilidade dos exames, não sei se haverá razões fortes para esperar ainda.
Eu confiei na sensatez de Passos Coelho e do seu Governo, mas também ele se mostrou fechado à eliminação do Acordo, embora explicadas as suas anomalias por cabeças gradas do país. E o desrespeito pela língua pátria é bem símbolo da nossa miséria moral e intelectual, a acrescentar à material, que de nós faz contínuos devedores, sem pruridos de consciência, também aí, eliminado o governo anterior que os tinha. Tudo isso relacionado com a tolice dos exames que se eliminam nuns anos e se propõem em outros, nem se percebe porquê.

Revoluções
Público, 16/01/2016
Não se percebe como Cambridge, uma cidade universitária, tranquila e campestre nos mandou um primitivo português como Tiago Brandão Rodrigues. Verdade que o homem trabalhava lá e se passeava pelas mesmas ruas e pela mesma relva por onde tinham andado Newton, Wittgenstein e Russel. Só que nada disso lhe deu um grão de modéstia e de prudência. Chamado por Costa, não hesitou em virar do avesso o sistema de ensino que por aqui encontrou e que levara vinte e tal anos de esforço e de polémica a chegar a um relativo equilíbrio. O valente trazia um plano no saco e não hesitou em escaqueirar tudo, para abrir um “novo ciclo” de justiça para a Pátria e os professores. Pode haver quem ache esta maneira de fazer a felicidade do próximo um pouco extravagante. Se há, é gente pérfida, com razões malévolas.
A coisa vem de um livro, publicado por volta de 1970, por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (talvez por Bourdieu sem Passeron), com um título prometedor, “Les Héritiers”. A tese geral desta obra era simples: a “classe dominante” tinha reproduzido a sua tirania transferindo o capital para a descendência; mas no mundo moderno passara a transferir o “saber” e não o “capital”. Ou seja, o seu método de “reprodução” mudara e o dever do verdadeiro socialista estava agora em destruir essa nova maquinação da burguesia. Ora como esta venenosa manobra da “classe dominante” assentava, por um lado, nos privilégios que se “herdavam” da família e, por outro, no carácter selectivo da escola, que o exame e a nota simbolizavam, o objectivo essencial era obviamente transformar a escola num lugar de prazer e acabar com o exame e a nota.
Que as criancinhas ficassem num estado de completa ou quase completa ignorância interessava pouco. A operação pelo menos destruía os filhos da “classe dominante”, que sem “capital” e sem “saber” seriam absorvidos por um igualitarismo militante; e também alegrava os professores que deixavam de responder pelo seu trabalho perante o Estado da burguesia (Bourdieu detestava os professores que ensinavam e em 1968 tentou correr com Aron da Sorbonne). Como se calculará, esta perfeita idiotia foi recebida em Portugal por meia dúzia de profetas, que durante o PREC arrasaram a “escola” a pretexto de a “sanear” primeiro e de a “salvar” a seguir. A balbúrdia que estabeleceram liquidou a vida a muita gente. As reformas do ministro Tiago liquidarão mais.