domingo, 27 de março de 2016

A carta da Catarina




Quando hoje transcrevi no meu blog o texto anterior, que tinha a ver com o terrorismo islâmico, lembrei-me de que a minha Mãe faria 109 anos e só intimamente a recordei, embora desejando lembrá-la em mensagem explícita. Mas à tarde a Catarina enviou-me a sua carinhosa mensagem, e estou-lhe grata. Porque me permitiu assinalar este dia, de uma Mulher para sempre recordada. Assim, aqui fica o segundo texto do dia, para me associar ao sentimento da minha neta.

Hoje, dia 27 de Março de 2016, fazias 109 aninhos e recordo-te com muita saudade, minha estrelinha, Avó Pureza. Já são quase 3 anos que não estamos juntas. Fazes-me falta mas eu sei que me estás a encaminhar para o caminho bom, tanto a nível profissional, como a nível pessoal, como diz a Avó Berta. Fico contente por isso estar a acontecer. Acho que até posso dizer: finalmente! Vou continuar no meu caminho bom, sempre contigo a iluminar-me. Agradeço-te por isso. Como já me estão a chegar as lágrimas aos olhos e um aperto na garganta, para não começar a chorar, só me resta agradecer-te por tudo aquilo que me fizeste e estás a fazer. Passa um bom dia! Beijinhos da tua Carochinha.




Na corda bamba de uma democracia de virtude



Mais uma história para guardar, a contada na crónica de José Pacheco Pereira, análise dos nossos tempos sobre costumes, religiões, e o extraordinário impacto que, sobre uma Europa enfezadamente aberta a todos eles - no desejo, ou de se redimir de pecados anteriores ou de mostrar uma superior abertura democrática e artística a todas as originalidades de comportamentos e costumes - se encontra a braços com uma guerra sem fronteiras, pela infiltração sorrateira de credos e usos que escondem intenções perversas, como se tem visto.
Quem é mais tacanhamente ligado ao preconceito, lembra o aforismo antigo «em Roma sê romano», que faz que se exija um mínimo de adaptação aos costumes dos povos residentes pelos que para esses  imigram. Tal não se deu, e os povos estranhos aí estão, impondo os seus jeitos de vestir, que ocultam uma inexplicável autoridade, talvez intenção, mas que sobretudo foram gradativamente alastrando em focos de violência desabando nos frequentes atentados terroristas desta guerra de implacabilidade e irracionalidade de caricatura.

Da burka ao colete de explosivos
José Pacheco Pereira
Público, 26/3/16
Recentemente estive num país europeu onde um dos aspectos em que as ruas mais visivelmente mudaram foi o número cada vez maior de mulheres com niqab e algumas com burka. Um niqab, que mostra apenas os olhos da mulher, ou a burka que nem isso mostra, não é nada que passe desapercebido, deixando a milhas o vulgar lenço na cabeça muitas vezes usado com uma roupa em nada diferente da que traria uma rapariga não muçulmana qualquer, ou um mais envolvente hijab, ou um chador, que pela sua preocupação de tapar todo o corpo da mulher, com excepção da face, já proclama mais claramente a prisão a que, em todos estes casos, o corpo da mulher está sujeito. Hijab, chador, niqab e burka reflectem uma hierarquia com distintas origens e tradições, mas em todos os casos significam uma menorização do corpo da mulher e são um símbolo do poder masculino.
Num elevador com duas ou três mulheres, velhas e novas, de niqab, ou num restaurante perguntando-me como é que comem quando todas as atenções estão viradas para elas, como é inevitável, a sua presença gera uma grande sensação de desconforto. Preferia não ter de partilhar um espaço pequeno, mesmo que por minutos, com mulheres que se vestem assim. Incomoda e muito.
Pergunto-me se este tipo de desconforto seria o mesmo que teria um branco no Mississippi se tivesse de se sentar num autocarro ao lado de uma negra nos tempos da segregação. Ou será que o mesmo tipo de desconforto terá um devoto muçulmano se numa aldeia nigeriana, ou numa vila do interior da Anatólia, ou no Magrebe, se tivesse ao seu lado uma mulher "pouco vestida" segundo os seus cânones de correcta maneira de vestir? Aliás, para este último exemplo, não preciso sequer de ir para o mundo do islão: já vi a comoção gerada por uma rapariga que amamentava o filho num café e para isso mostrava um seio. Ou, se se quiser, o incómodo causado por um transexual num meio pequeno e fora dos sítios trendy das cidades. Em quase todos estes casos, mesmo no caso do transexual, é o corpo feminino, a sua ocultação ou exibição, ou a sua assunção pelo sexo "errado", que está em causa. Não sei que mal fizeram as mulheres, com excepção dessa serva da serpente, Eva, para gerarem este tipo de reacção. Saber sei, há muitos estudos de antropologia e psicologia que o explicam, mas sabendo, não sei.
Ora, um dos aspectos mais complexos de uma alteridade cultural, que representa uma fronteira "civilizacional", é o modo como no mundo do islão todas as tentativas de modernização têm encalhado na dificuldade de conceber um papel diferente para a mulher, que não a considere propriedade dos homens, do marido aos irmãos e aos pais, e que não a marque com um vestuário humilhante que se destina a mostrar a sua subjugação. É por isso que o niqab é ofensivo, tanto mais quando ao lado da mulher assim escondida está um marido jovem, desempoeirado, de jeans e telemóvel em punho, que, como é óbvio, não segue qualquer código de vestuário e a transporta como se fosse uma peanha.
No debate sobre o terrorismo que se está a travar, antes com a Al-Qaeda, agora com o Daesh, o facto de alguns dos terroristas que combatem na Síria ou no Iraque serem europeus, e os actos de terrorismo apocalíptico em que o objectivo é matar o maior número de "infiéis" no menor tempo possível serem de responsabilidade de jovens muçulmanos nascidos na França ou na Bélgica, obriga a olhar para Marselha, Paris, Bruxelas e Londres e saber o que é que aí está a acontecer. Obriga-nos também a perceber com ainda maior clareza que o relativismo "multicultural" pode ser muito bem avontadado, mas representa uma cedência de valores civilizacionais inaceitável por quem acredita que um mundo com direitos humanos é melhor do que a aceitação de qualquer selvajaria em nome dos "costumes" ou da religião.
Ora, se o terrorismo em si não pode ter qualquer explicação que menorize o acto criminoso por qualquer determinação causal como o desemprego, a exclusão, ou qualquer outro factor socioeconómico, já importa saber por que razão é que nas comunidades onde se "criaram" estes terroristas eles são o seu produto, assim como nelas se movem à vontade, mesmo depois de se saber o que fizeram, como na velha metáfora guerrilheira, como "peixe na água". Então há todo um conjunto de factores que se tornam explicativos, explicativos não são justificativos, e entre eles avultam todos os que tornaram estas comunidades muçulmanas europeias, em particular em França, Bélgica e Reino Unido, esse espaço em que os terroristas se movem como "peixe na água". Porque apesar das sucessivas declarações apaziguadoras de que a maioria das pessoas que vivem em bairros como Molenbeek em Bruxelas são gente pacífica — e são — e que condena com toda a veemência os actos de terrorismo — aí já não é bem assim, há nuances —, a verdade é que essas comunidades, que deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo, estão longe de o estar. E aí contam as fronteiras que a alteridade cultural ajudou a erguer, dobrada da crescente adesão dos jovens a um islão fundamentalista, e que reforçam o gueto por dentro. Por fora, sabemos quais são os factores que reforçam esse mesmo gueto, a falta de mobilidade vertical que a estagnação económica da Europa dos últimos anos acentuou e a dificuldade que as sociedades europeias têm de criar o élan ascendente que o melting pot americano tem conseguido para a maioria dos seus emigrantes, muitos dos quais chegam sem nada. Na confluência das duas atitudes de gueto resulta que nos microcosmos, como os bairros pobres de Marselha, Londres, Paris e Bruxelas, se há islão moderado, não se ouve, nem parece existir, e o que acontece é uma crescente raiva, manifesta em particular nos jovens contra uma sociedade, que os leva a acentuar ainda mais o isolamento cultural e social. E as raparigas que usam ostensivamente pelo menos uma qualquer forma de "vestuário" islâmico recusam-se a cumprimentar os homens e a ser vistas nos hospitais por médicos e não podem esperar ter muitos dos empregos a que poderiam aceder.
Mas atenção, também aqui os homens se comportam de forma diferente. Quando se diz que os atentados de Paris são contra o "nosso modo de vida", cafés, restaurantes, uma sala de diversão, só em parte é verdade, porque muitos desses jovens radicalizados por uma corrente do islão fundamentalista vivem muito bem nesse "modo de vida": bebem, frequentam prostitutas, vestem-se à ocidental. Até um dia.
Depois há aquele factor que também o nosso "politicamente correcto" tem dificuldade em confrontar: o terrorismo da Al-Qaeda e do Daesh comporta uma componente religiosa, ou melhor, político-religiosa, que temos muita dificuldade em perceber em sociedades já com séculos de laicização. A resposta que se dá vai das alarvidades de Trump às proclamações sucessivas de que o islão "nada tem que ver" com o terrorismo, que é uma perversão do islão. Na verdade, tem. Não podemos separar o lado "bom" do "mau" de uma religião. Há uma corrente no islão, aliás já antiga, que justifica a exterminação dos "infiéis", como no passado aconteceu também no cristianismo. Aliás, deveríamos voltar à nossa história cristã para perceber alguma coisa sobre este fundamentalismo, visto que já o tivemos com bastante força no cristianismo, e está longe de desaparecer de todo. Por isso, se ignoramos que estes jovens que se suicidam, e também matam, têm também motivações do foro religioso, não percebemos que a religião, entendida de uma forma que nós consideramos para nosso conforto como "pervertida", está presente nos actos dos terroristas.
Acabar com o Daesh é possível por meios militares, mas nos últimos vinte anos emergiu uma realidade política e religiosa de natureza muito violenta que existe muito para além do terreno sírio e iraquiano, e está nas nossas cidades. A experiência militar e operacional que estes jovens ganharam na Síria combatendo com o Daesh é importante, mas não é preciso ter uma grande experiência militar, saber muito de explosivos, e obter Kalashnikovs, o que não é difícil, para criar o caos criminoso num campo de futebol ou numa rua apinhada ao fim da tarde. Contrariamente ao que às vezes se sugere, não há grande sofisticação nestes atentados, com regras de clandestinidade rudimentares que só funcionam porque é difícil infiltrar estes meios, ou porque os serviços de informação como os belgas não viram nada na rua ao lado. Melhor humint melhora muito o combate ao terrorismo, mas mesmo assim não o impede de todo.
Dito isto, estamos metidos num grande sarilho.

sábado, 26 de março de 2016

Mais por nós do que por eles



“Orgulhosamente sós”, frase atribuída a Salazar, é retomada no Editorial do Público de 13/3, para justificar o posicionamento da facção britânica avessa à continuidade do Reino Unido na União Europeia, mostrando o quanto essa opção poderá ser negativa, no isolacionismo a que condenará os ingleses.
 Lembrou-me a frase de Salazar, que tanto se parafraseou no seu tempo, creio que em autocrítica parodística pela nossa matreirice interessada em destruir esse mito. O certo é que ele foi destruído, e nos aproximámos assim de quem nos reduziu à condição do «humildemente acompanhados”, que, de resto, condiz com a nossa modéstia de povo sempre mais espectador do que participante – (embora sempre expectante relativamente a dinheiros emprestados pela mesma União Europeia) -  na consciência da nossa insignificância cultural, mau-grado os heroísmos passados, da abertura de rotas para o mundo, no interesse próprio.
Também eu gostava que os Ingleses permanecessem ligados à União Europeia, habituada que estou a vê-los sempre em comando, quer quando dominam o mundo da Ásia e África, América e Oceânia, expandindo os seus produtos, a sua língua e a sua cultura, quer  por razões de afectos nacionais, devido a velha aliança que mantivemos em momentos de crise, como no tempo de D. Fernando, ou no de D. João IV, casando a D. Catarina de Bragança com um Stuart, a quem oferecemos Bombaim e Tânger, mais o hábito, ao que parece, do «five o’clock tea» e a “marmelade”, coisa significativa, além dos Doze de Inglaterra e o seu Magriço, defensores da honra feminina inglesa no tempo do duque de Lencastre, coisa de pouca monta, mas que Fernão Veloso valorizou contando-a aos marinheiros, como passatempo, antes da «súbita procela» que desabou sobre as naus do Gama, como mais uma das insídias de Baco, mas desta vez já perto do destino –“Terra de Calecu, se não me engano”, o que foi dito pelo alegre piloto melindano. O certo é que os Ingleses nos favoreceram com o Beresford e o Wellington, nos tempos da Revolução Francesa e seguintes da ausência da corte, a “banhos” no Brasil, e mais uns empréstimos necessários para recompor as finanças, no século XIX e seguinte, dívida que só o orgulhoso do Salazar conseguiu combater, embora retomada nestes tempos de acompanhamento democrático sem orgulho de maior.
Mas quando o Editorial do Público defende a permanência da Inglaterra na União Europeia, será que não o regem idênticos considerandos sobre a superioridade inglesa, como poderoso auxiliar do equilíbrio desta, mais do que o interesse pelo próprio equilíbrio do Reino Unido? 



Editorial
Público, 13/3/16
Orgulhosamente… sós?
Pode o Reino Unido apartar-se da União Europeia e a história ter um final feliz? Há eurocépticos que dizem que sim, apontando a UE como “um sorvedouro de dinheiro que subverte a democracia” e um “anacronismo”. Mas o salto no abismo que propõem, com a promessa (não garantida) de que existirá um pára-quedas a evitar danos maiores, não está a convencer as grandes empresas e os gigantes da finança londrina. Além de uma parte considerável do eleitorado, que teme poder ficar a perder com tal aventura. Com o referendo marcado para 23 de Junho e com quatro meses de campanha, já em marcha, a antecedê-lo, as principais interrogações dos britânicos não são políticas mas económicas e centradas nos seus próprios benefícios. O que ganharão se ficarem? O que perderão se saírem? Cameron, que se lançou nesta aventura por razões de sobrevivência política e agora terá de a levar até ao fim pelas mesmíssimas razões, sabe que é a isto que tem de dar resposta. E já o fez na quinta-feira, ao dizer: “Para aqueles que defendem a saída, a perda de empregos e os danos na economia podem ser danos colaterais ou um preço que vale a pena pagar. Para mim, não são. Não há nada mais importante do que proteger a segurança financeira dos britânicos.” A segurança, aqui está uma palavra que muitos levarão a sério. Trocar o certo pelo incerto foi coisa que não convenceu, por exemplo, os votantes no referendo escocês. E escolheram permanecer no Reino Unido. Ficaram no “clube”. Agora é o país inteiro que deve escolher ficar ou sair do “clube” maior, a União Europeia. Clube onde não tem de usar a mesma moeda, mas onde beneficia de vantagens comerciais não negligenciáveis num mercado único de milhões de pessoas. É para isto mesmo que alertam Guntram Wolff e André Sapir, do think tank Bruegel, num artigo intitulado O mito da soberania do Reino Unido: “Ser membro da União Europeia concede ao Reino Unido uma forte influência e a capacidade para exercer a sua soberania ao nível da União Europeia. Se sair da União Europeia, o Reino Unido terá de enfrentar uma escolha, entre negociar com a União Europeia e o resto do mundo os termos dos acordos comerciais ou virar-se para o isolamento.” Cameron e o seu governo empenham-se em convencer os britânicos a votarem pela permanência, mas terão pela frente uma oposição insistente e empenhada. A realidade, mais do que as intenções, ajudará. E se os britânicos fizerem contas, verão que o “orgulhosamente sós”, e simultaneamente poderosos, é, no mundo global de hoje, uma quimera.