segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sicut erat in principio



O retrato mantém-se, não subtil mas directo, segundo o esquema, não sei se real, do “elementar, meu caro Watson”, sem interpretações abusivas que retirem a clarividência da análise ou desfaçam o desequilíbrio  da tese, há muito assumida. Só que acrescida, em cada crónica, de mais um ou outro sinal “diacrítico” que lhe altera o tom ou o formato. Desta vez trata-se da estapafúrdia atribuição, por Costa e seus camaradas acompanhantes, de malévolas intenções aviltantes, aos vários países europeus e até talvez do resto da Terra, contra “nosotros” humildes, o que só vem reforçar o nosso complexo - não, todavia, o de Édipo ou de Electra, que são de luxos senhoriais esses da psicanálise encartada, não condizentes com a nossa  natureza modesta, que se limita ao de inferioridade, sem nome próprio a distingui-lo. É certo que, como reacção preconceituosa contra esses sentimentos humilhantes, já antigos e com razões para o serem, sempre lembrámos heroicidades passadas de que, aliás, os camaradas do Dr. Costa e muitos outros anteriores a esses sempre troçaram, como farroncas desprezíveis de aparência indignamente patriótica. Mas os outros povos europeus e talvez do resto da Terra realmente o que devem ter é inveja de nós, que temos bom sol às vezes, e bons enchidos, e por isso nos querem reduzidos à indigna miséria, o que nem é democrático nem bem aceite pelo nosso Costa, amante do requinte. Julgo que o anterior ministro Passos Coelho não imaginava que fosse esse o motivo das exigências europeias contra nós, atribuindo-o, como se sabe, a uma imposição moral de saldar as dívidas, que Passos desejou cumprir e Costa não vê como, porque nós, o povo, acima de quaisquer pruridos da alma, temos os direitos  do corpo, de ser bem tratado.
Daí as leis benignas que já decretou, de parceria com os seus apoiantes, e os sustos que causa à direita, com os optimismos manobradores dessa política que aparenta ser desastrosa, pelo menos para o sociólogo Alberto Gonçalves.
E aqui vamos nós, tendo, para mais, que ser embalados, nesses arraiais de patranhas idealistas, pela ponderação inteligente das virtuosas sórores do BE, que Alberto Gonçalves com tanta iracúndia desfaz. Assim vamos reflectindo. E agoirando.

A prosperidade é um estado de espírito
Alberto Gonçalves, Sociólogo
DN, 24/4/16
Por motivos que escapam ao comum mortal mas não ao olhar presciente do dr. Costa, a "Europa" naturalmente deseja que os portugueses vivam na mais abjecta miséria. E quem diz a "Europa" diz a Comissão Europeia, o FMI, a Alemanha, Pedro Passos Coelho, o senhor da confeitaria aqui ao lado e toda a súcia de comentadores ao serviço do imperialismo neoliberal. Alimentada por pura maldade, essa gente dá-se a uma impensável trabalheira apenas para subjugar-nos, humilhar-nos e forçar-nos a remunerações incompatíveis com as escaladas dos combustíveis que o governo, para nosso privilégio, decreta a cada semana. Por sorte, e ao contrário de anteriores governantes que conviviam - e colaboravam - impecavelmente com isso, o dr. Costa "não aceita" viver num "país de pobreza". E se o dr. Costa não aceita, postura com credibilidade acrescida por ter sido assumida em patuscada do PS com cantilenas de Carlos Alberto Moniz, não se imagina qual a legitimidade de uns burocratas em Bruxelas para contrariá-lo. Que se saiba, não lhes devemos nada.
Fica então decidido que isto da penúria depende totalmente da vontade dos titulares do poder. Se estes forem mesquinhos, o povo anda de mão estendida. Se forem socialistas, para cúmulo sob a vibrante orientação de dois partidos comunistas, o povo nem sabe o que fazer ao dinheiro. Ou sabe?
Por muito que me custe dizê-lo, há uma ligeiríssima mácula no impecável raciocínio do dr. Costa. Devo lembrar que a referida discórdia com a CE prende-se com a subida do salário mínimo, que em Janeiro trepou vertiginosamente dos 505 para os 530 euros. Embora possa ser impressão minha, mal habituado devido a tantos fins-de-semana em iates ao largo de Capri, julgo que um acréscimo de 25 euros não é susceptível de transformar os cidadãos em outdoors da abundância. Para benesses assim, era preferível estar quieto, nos salários, nos aumentos de produtos básicos ou acessórios e nos impostos em que o dr. Costa já jurou não bulir (garantia de que teremos agravamento à porta). Se a ideia é resgatar a populaça da tirania dos rendimentos pelintras, porque não se arremessa o salário mínimo para valores de, por exemplo, 1200 euros? Ou 3000? Ou 5347 e não se volta a falar nisso?
Não me venham dizer que é por causa do alegado impacto no desemprego, e sobretudo no desemprego de longa duração e dos pouco qualificados. Montantes à parte, semelhante patranha é justamente o "argumento" da CE, depressa ridicularizado pelas pensadoras à disposição do BE. Se metade das gémeas Mortágua demonstrou cientificamente a inexistência de relação entre o salário mínimo e o emprego, o caso declara-se encerrado. Os tratantes às ordens do grande capital tentaram impingir-nos a tese absurda de que convém ao salário mínimo, ou exactamente aos aumentos do salário mínimo, estar dependente da produtividade, da inflação e de palermices do género. Azar deles: saiu-lhes pela frente o fruto de uma educação às mãos do prof. Boaventura, o competente sr. Jerónimo, o engraçado "ministro" Centeno e, claro, o dr. Costa, "príncipe da política" segundo um dos diversos militantes do PSD que fazem campanha pelo PS.
Arrasado o estratagema dos déspotas, resta ao governo perder os últimos vestígios de timidez, cortar de vez as amarras da opressão e vincular os ordenados dos portugueses ao único critério realmente relevante: o parecer da maioria de esquerda. Parece-me excelente. O tempo novo é o tempo de elevar Portugal aos padrões de vida das nações admiráveis e admiradas pelo séquito do dr. Costa, tipo Venezuela e Cuba, onde os salários mínimos rondam, se bem me recordo, os 10 000 euros mensais. Ou se calhar os 10 euros, que para economistas de gabarito os zeros à direita não pesam. O que hoje pesa imenso, pelo menos a avaliar pela espectacular situação caseira, são os zeros à esquerda. Força, Portugal, e o último a sair que apague a luz - se o dr. Costa não a cortar primeiro, como o inspirador Maduro de Caracas.
Sexta-feira, 22 de Abril
Passar cartão
Não é o PCP que tem lampejos de lucidez: é o Bloco de Esquerda que vive em estado de alucinação perpétua. O episódio do "cartão de cidadania", que os comunistas dissimulados queriam impor e os comunistas assumidos vetaram, é apenas um exemplo. E nem sequer um exemplo original: por todo o Ocidente e arredores há "comissões", "observatórios" e centros de ócio similares empenhados na erradicação da discriminação de género através do massacre da gramática. Os primitivos, que pronunciavam "chuva" e aguardavam o aguaceiro, acreditavam que a linguagem determinava a realidade. O BE, sem hesitações ou subtilezas, também acredita, e é preciso um partido que acredita na democracia norte-coreana para moderar-lhes a toleima.
Ocasionalmente, critica-se os nossos humoristas por pouparem o BE à sátira. É possível que não se trate de uma questão ideológica, mas do simples facto de o BE constituir uma anedota em si mesmo. Eu próprio iniciei este texto decidido a aliviar-me de duas ou três graçolas alusivas e desisti entretanto. Cada frase, atitude ou proposta do BE já é uma graçola perfeita e involuntariamente (?) elaborada. E a melhor de todas é a circunstância de tamanha homenagem ao delírio ver-se hoje representada sobretudo por senhoras. Se a ideia é combater o enxovalho e a subalternização das mulheres, não seria mal pensado começar-se por aí.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Rei Momo



Dois artigos de opiniões opostas transcrevo do Público de 26/3, sobre o caso Dilma/Lula, que tem pintalgado as páginas dos jornais, deixando boquiaberto de estupefacção quem ainda se deixe influenciar por inúteis pruridos de natural vergonha. E lembramos o Carnaval brasileiro, de pujante e colorido bambolear de corpos nas ruas de Copacabana, admirando a beleza dos trajes, e a firmeza e denguice das pernas, prometendo vitalidade e continuidade de um povo amante de diversão e vivendo-a com tanta garra. Entretanto, no segredo dos deuses e no meio da sua selva, os homens do governo aplicam-se a recriar os seus próprios bailados enredados em ambições lucrativas. De igual pujança, desprezando o povo, em proveito próprio. Mas o povo habituado ao sambódromo aí está participando, em espalhafato, manipulado por estes ou aqueles, divertindo-se em carnaval constante, que os da rede ambiciosa fazem mover a seu gosto. E no seu próprio interesse, é claro.

Corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo
26/03/2016 - 00:25
É bonito! É até querido! É mesmo comovente constatar tanta camaradagem, tanta solidariedade para com correligionários e camaradas. Mas há momentos em que o excesso de ingenuidade em política parece mais compadrio mal disfarçado de cegueira política. E quando isso acontece, o que resta é apenas indignação com tanto despudor.
E é de indignação o único sentimento que é possível sentir quando se observa a reacção que o PCP, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, e o ex-líder Francisco Louçã tiveram perante a decisão da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, de empossar o seu antecessor, Lula da Silva, como seu ministro, para que este ganhasse direito a ser apenas julgado pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil — o equivalente ao Tribunal Constitucional português — e assim evitar a possibilidade da sua iminente prisão preventiva no âmbito da operação Lava-Jato.
Não interessa sequer discutir se as acusações criminais a Lula da Silva são ou não verdadeiras. Cabe à Justiça brasileira investigar, provar e punir. O que é facto é que há uma vasta quantidade de políticos brasileiros, dirigentes de vários partidos, governantes, deputados, senadores que foram ou estão a ser investigados por práticas de corrupção. Os casos são vários e vão do Mensalão ao Lava-Jato. Há várias investigações autónomas em curso, sendo que Lula da Silva é referido ou investigado em quatro. É um facto que o juiz Sérgio Moro extrapolou os limites do cargo ao divulgar escutas que devem ficar em sigilo. Mas isso em nada invalida que ele seja uma figura determinante pela coragem que tem demonstrado na investigação Lava-Jato. E por outro lado é bom salientar que ele não é o único juiz que investiga a corrupção na política brasileira.
É também uma evidência que é uma habilidade política de quem se acha impune e acima do Estado de direito democrático optar, como a Presidente Dilma Rousseff fez, por dar posse ao seu antecessor, como ministro do seu Governo, com o objectivo evidente de que este ganhasse o privilégio de só poder ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro. É uma forma de abuso do poder em que Dilma Rousseff pôs em causa o respeito que os ocupantes dos órgãos de soberania democráticos devem uns aos outros.
É bom recordar que, no Estado de direito democrático, os órgãos de soberania são os órgãos de poder político — os presidentes, os parlamentos e os governos —, mas são-no também os tribunais. E que é do equilíbrio de poderes entre estes três órgãos que vive a democracia. Como é bom referir que, no Estado de direito democrático, a Justiça tem de ser autónoma e operante, sem medo do poder político e independente deste. Mais: uma das diferenças entre democracia e ditadura é precisamente a existência nesta última de uma Justiça discricionária exercida por um poder político que não reconhece autonomia aos tribunais. Assim como tem de ser dito que numa democracia é essencial a existência de liberdade de imprensa e de um jornalismo livre que exerça a sua função de escrutinar o poder político.
Isto tudo vem a propósito da indignação de ver parte da esquerda portuguesa a relativizar o que se passa no Brasil e a fazer de Dilma Rousseff e de Lula da Silva vítimas de tenebrosas conspirações de juízes e jornalistas. Seria ridículo se não fosse grave ler o comunicado do PCP em que é dito que "os recentes desenvolvimentos no Brasil não podem ser desligados do aprofundamento da crise do capitalismo", que no Brasil "os seus sectores mais retrógrados e antidemocráticos promovem uma intensa operação de desestabilização e de cariz golpista", que agem "por via da instrumentalização do poder judicial e da acção de órgãos de comunicação social", para uma "acção de desestabilização indissociável do conjunto de manobras de ingerência promovidas pelos Estados Unidos".
Mas igualmente grave é a declaração feita por Catarina Martins de que a acção da Justiça brasileira é um "golpe de Estado do século XXI", acusando "um poder judicial, com órgãos de comunicação social, que está a agir fora do Estado de direito". Ou a relativização feita por Louçã na SIC, em que tentou reduzir ao ridículo as investigações.
Será que Louçã quer fazer de conta que acha que todos nós acreditamos que ele acredita que os indícios conhecidos sobre Lula são tão-só a ida uma vez a uma casa que pensou comprar e não comprou? Considera Louçã que nós acreditamos que ele acredita que é apenas por causa de um juiz que é teimoso e persegue Lula que este está a ser investigado? Será que Jerónimo de Sousa e a restante direcção do PCP acreditam mesmo que nós acreditamos que eles acreditam que o que está em causa é um ataque do capitalismo e dos Estados Unidos a um líder de esquerda?
Minhas senhoras e meus senhores, corrupção é corrupção. Ponto final. Parágrafo.

Leiamos então o ponto de vista de um dos representantes dessa esquerda unida pelos nossos nobres ideais de Abril:

Brasil: um golpe de Estado em transmissão directa
Francisco Louçã
Público, 22/3/2016
Assistimos no Brasil a um golpe de Estado em transmissão directa, por vezes em câmara lenta, outras em aceleração frenética. É assim que se procede no século XXI: em vez de tanques nas ruas, tudo começa com um juiz que quer derrubar um governo, declarando guerra ao princípio da soberania democrática. É golpe curto, bem sei, prender para eliminar politicamente e depois deixar as coisas seguirem o seu destino.
O juiz é um poder, certamente um poder especial pois ignora a proclamada separação de poderes e actua fora da lei, mas é um poder que pode tudo, pois não será corrigido em tempo útil, se é que alguma vez o será. O mal está feito, a desconfiança semeada, o pânico nas ruas, só não sabemos como vai prosseguir a saga.
Começou com a primeira detenção de Lula que era ilegal, e era mesmo. Depois, a escuta será ilegal, e é, a sua divulgação um crime, e é, a escuta abrangia todos os advogados de um escritório, e isso é delirantemente ilegal, o juiz é suspeito de intuito partidário, e não o esconde, a própria perseguição e o pedido de prisão preventiva não têm fundamento legal, e não têm mesmo, mas o juiz é um poder inexpugnável e por isso pode desencadear uma tempestade. Segundo Marco Aurélio Mello, Juiz do Supremo Tribunal Federal, referindo-se a Sérgio Moro, o magistrado que desencadeou as primeiras salvas do golpe, “ele simplesmente deixou de lado a Lei”.
Precipitado pelos magistrados golpistas, a manobra decide-se por estes dias no balanceamento dos movimentos da opinião pública, na ocupação da rua, nos ajustes de contas partidários e sobretudo na corrida contra o tempo. O que é certo é que nunca tínhamos visto um golpe de Estado assim: no Brasil, em 1964, no Chile, em 1973, na Argentina, em 1976, foi com baionetas que a ditadura avançou e não com sentenças ou acusações judiciais. Este novo tipo de golpe é mais eficaz, mobiliza a dúvida e espalha os ódios, disputa a aceitação e mesmo a participação de parte da população, ocupa o terreno do simbólico, que é a sede da política. Esta técnica de golpe de Estado neutraliza a argumentação e assim exclui a razão, porque se baseia na hegemonia afirmada de um poder supremo e imune à democracia. O César é o juiz, que se apresenta como um pai moralizador ou como o braço da vingança divina. Ele é o poder que pode tudo e por isso dispensa uma ditadura, se o choque e pavor tiverem como consequência a destruição eleitoral dos seus adversários, e neste caso a decapitação política de Lula, o mais temido candidato a re-presidente. O golpe tem este objectivo preciso: prender Lula, seja com que pretexto for.
Esta farsa grotesca, este golpe, havemos de convir que foi preparado ao longo de muito tempo. Havia esse ódio de classe contra Lula, um torneiro mecânico feito grande do país, havia o medo social das elites urbanas contra a massa popular em cidades de quinze milhões de habitantes, havia a raiva de latifundiários contra os sem-terra, havia as listas de sindicalistas a assassinar, tudo se foi conjugando para estes dias de chumbo.
Mas, ainda assim, mesmo com tanto ódio, nada fazia prever a cavalgada dos juízes e dos seus partidários. De facto, Lula governou sem beliscar os interesses dos que temem pela propriedade e pelo estatuto, o seu partido foi-se habituando aos salões e cultivando a intriga. Nem a terra foi distribuída nem a indústria e a finança foram ameaçadas ou entregues ao povo, que recebeu uns reais para que a pobreza ficasse menos pobre, umas escolas e universidades para os seus filhos e muita paciência para todos porque o Brasil ainda há-de ser um imenso Portugal. O pouco que mudou, mudou alguma coisa para muita gente dos de baixo mas nada para os de cima. E o Brasil viveu tranquilamente o encabulamento da Copa do Mundo e depois voltou à sua vida de todos os dias. Nada fazia prever o golpe, portanto.
Dilma remou na mesma maré. Inaugurou o segundo mandato cedendo tudo à direita, nomeando para postos chaves do governo o homem que seria o ministro das finanças do seu adversário e uma representante de terratenentes para a agricultura. Porque deu tudo aos adversários, o golpe parecia coisa de ficção ou de jogo de computador.
Até que chegou o Caso Petrobrás, ou Lavajato. E ele tocou no ponto frágil de toda esta construção, os partidos, tanto do governo como da oposição. O principal partido de direita que faz parte do acordo governista, o PMDB, distinguiu-se entre os que, com o presidente do Parlamento Federal, Eduardo Cunha, correm contra o tempo da acusação judicial e da prisão, depois de as suas contas no estrangeiro serem identificadas e ser exibida a mão que lhe pagou. Outra parte do PMDB, com o vice-presidente Temer, perfila-o como sucessor de Dilma se conseguir a sua impugnação. No PSDB, o principal partido de oposição, luta-se entre os que querem demitir Dilma agora (com alguma acusação derivada do Lavajato), para provocar uma eleição a curto prazo, ou os que querem demiti-la depois (com o processo rocambolesco sobre o financiamento da campanha eleitoral), conforme as conveniências de cada um, seja Serra, Alckmin ou Aécio Neves, colegas e inimigos. Todos correm contra o tempo e isso cria uma irracionalidade colectiva: os chefes partidários, apanhados na teia da corrupção e irmanados na desgraça, escolheram todos o quanto pior melhor. Quanto mais depressa incendiarem o Brasil, mais depressa esperam sentir-se aliviados da pressão sobre cada um deles.
É preciso reconhecer que o PT alimentou esta monstruosidade. Os seus dirigentes acreditaram que a composição da aliança governista criaria uma distribuição de benesses e um espírito situacionista que cimentaria esta multidão de partidos e de interesses graúdos. Chegou-se ao ponto, quanto as primeiras frestas estalaram, de agenciar a compra e venda de votos de deputados com o Mensalão, para manter o governo a flutuar entre as suas próprias piranhas.
O Brasil tornou-se assim um pavor de ameaças neste golpe em câmara lenta onde só vejo desperdício de esperança, tanta tristeza, tanta gente extraordinária que está a ser sacrificada, tanta ameaça contra a liberdade, tanta pesporrência golpista, tanta violência evocativa da ditadura militar, tanta asquerosa condenação dos mais fracos: nesse mundo eles não têm direito. Não precisávamos desta farsa de golpe para nos lembrarmos que a história é parteira de tragédias.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Poupanças



Foi Álvaro de Campos que escreveu a «Ode Triunfal» como um dos monumentos  do Primeiro Modernismo, na sua versão futurista, de dessacralização da arte, refractária aos temas do convencionalismo clássico da Beleza e da filosofia humanista, enveredando decisivamente pelos temas prosaicos, do feio, da violência, da mecânica ruidosa e brutal numa sociedade industrializada, que o passo seguinte exemplifica:

……Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!......

Foi, pois, Álvaro de Campos e a sua Ode Triunfal que o artigo de José Pacheco Pereira me fez evocar - «Offshores: não é uma questão fiscal, é uma questão de democracia» - espécie de monumento sobre o novo modernismo, se já não pelos ruídos sanguinários do martelar dos mecanismos industriais, para delícia dos ouvidos dos poetas, numa civilização a modernizar-se, se expande agora no pungir dos zunzuns dos moscardos, denunciando igual violência, mas, sobretudo, menos consciência laboral, no frenesim universal e mudo dos mecanismos de guardar dinheiros ocultos, no hábil frenesim das gentes do universo que escondem os dinheiros nessas máquinas silenciosas do mundo, no frenesim volumoso desses dinheiros escondidos, provenientes não de trabalho ruidoso ou suado mas de cambalachos variados em rede oculta de multiplicidade infinita de fios e de nós. Mundo de zunzuns às escondidas,  criando a guerra, o caos, a miséria  em torno. Como se tem visto. Como o aponta  José Pacheco Pereira no seu estudo de história e filosofia e sociologia. Indigno de Ode e muito menos triunfal, neste retrato penalizante do carácter humano:

Offshores: não é uma questão fiscal, é uma questão de democracia
Público, 9/04/2016
Nas suas declarações sobre as revelações (mais confirmações do que revelações) dos chamados “Documentos do Panamá”, Marcelo Rebelo de Sousa foi ao âmago da questão quando disse que o problema dos offshores era um problema de democracia. E é.
Os offshores são, antes de tudo, do crime, da lavagem de dinheiro, da fuga ao fisco, uma questão que significa para as democracias a perda de um princípio básico — o de que o poder político legitimado pelo voto e pelo primado da lei se sobrepõe ao poder económico. Por isso, tratar a questão dos offshores apenas como sendo de natureza fiscal e andar às voltas por aí é já um mau ponto de partida.
A questão que muitas vezes é iludida é que não existe uma única razão económica sólida para que haja offshores. Para que é que eles servem para a economia, para a produção, para o emprego, para a indústria, para o comércio, para o investimento limpo? Nada. Tudo aquilo para que os offshores servem é para esconder dinheiro e os seus proprietários, para esconder a origem do dinheiro, através de um conjunto de fachadas anónimas que depois vão desaguar aos grandes bancos sediados na Suíça ou em Londres.
O que os políticos europeus dizem, quando confrontados com esta realidade, ou com os escândalos periódicos, como o actual com os documentos da Mossack Fonseca, é que não podem fazer nada e que o que podem fazer fazem. Por detrás desta declaração de impotência — eu estou a falar de políticos democráticos — está o retrato da captura ocorrida nas últimas décadas, e agravada pela crise de 2008, da política em democracia pelos interesses financeiros globais, pela banca, pelos “mercados”. Sim, porque uma das faces semivisíveis dos offshores são os biliões que circulam em fundos e outros tipo de operações financeiras e bancárias, a que nós chamamos os “mercados”, o Deus ex machina que faz mover os países como marionetas.
Podem fazer alguma coisa? Podem fazer tudo. Repito: podem fazer tudo. E acrescento: mas não querem. Podem fazer tudo, mas não querem — esta é a frase que melhor resume o “problema para a democracia”. E não querem por dois motivos. Um de fraqueza política, — a maioria dos políticos europeus são gente frágil à frente de países fragilizados, uma combinação de que resulta uma imensa fraqueza para lidar com interesses poderosos, como são os que estão por detrás e pela frente dos offshores. O outro é a hegemonia nos partidos de direita, e em muitos socialistas subservientes, de uma mistura entre ideias sobre a economia, sobre o Estado, sobre as empresas, sobre a governação dos países, que corresponde ao “pensamento único” que tem presidido à política da Comissão Europeia, do Eurogrupo, aos partidos do PPE, e que tem levado a cabo a política de Schäuble e dos alemães e de alguns outros países seus aliados.
Este segunda razão é do “podem, mas acham bem”, e essa aparece como de costume nos mais rudimentares defensores dos offshores que pululam na nossa direita mais radical, nos jornais, nos blogues e nas redes sociais. Eles são reveladores, porque têm a imprudência de dizer aquilo que os de cima da cadeia alimentar pensam, mas não podem dizer. E todos ficaram imensamente incomodados com os “Documentos do Panamá”, porque é “deles” e dos seus que os “documentos” falam. E correram logo a dizer que era uma questão com Putin e não com o capitalismo. Ou seja, os offshores são mais uma perversão do comunismo e do socialismo e dos “oligarcas”, como gostam de chamar aos poderosos do “outro lado”. E então é ler como os offshores são uma resposta à tirania fiscal dos Estados “socialistas”, ou uma digna resposta da liberdade económica do dinheiro e das empresas para fluir para todo o lado sem barreiras. Sem dúvida, admitem, que há crimes e lavagem de dinheiro, mas são pechas menores dos offshores. O essencial é que eles são mais uma manifestação normal da liberdade económica e da luta contra a prepotência dos Estados e das políticas “socialistas” dos altos impostos. Isto vem de quem fez o “enorme aumento de impostos”, retirou aos contribuintes qualquer protecção face aos abusos do fisco e só é “liberal” na bandeirinha da lapela. Pobre da “mão invisível” que foi possuída pela família Adams.
Também nos offshores se verifica a escassíssima vontade dos políticos europeus, que tem à sua cabeça institucional o senhor Juncker, que tem no seu currículo ter feito enquanto primeiro--ministro do Luxemburgo todo o tipo de acordos ilegais, insisto, ilegais, à luz das regras europeias, destinadas a levar para o seu país empresas que aí encontravam um paraíso fiscal protegidas pelo segredo de Estado. Ou no caso do Reino Unido, em que dezenas de offshores estão em territórios sob soberania britânica.
O problema como sempre é o dos alvos e dos intocáveis. Ou melhor: defender por todos os meios os “intocáveis” de serem tocados e impedir que os alvos deixem de ser alvos. O objectivo da política do “ajustamento”, policiada pelas instituições europeias sem estatuto democrático como o Eurogrupo, ou pelo FMI, em consonância com os “mercados”, foi proteger o sistema bancário, os “mercados”, o dinheiro que “flui” e, sem o dizer, no mesmo pacote vão os offshores “contra os quais nada se pode fazer”. E o melhor atestado de ineficácia da múltipla legislação europeia tão gabada nas suas intenções de dar “transparência” ao sistema financeiro e combater a corrupção é o que revelam estes “Documentos do Panamá” e muitas outras estimativas sérias: o dinheiro que vai para os offshores é cada vez mais. Ponto.
A solução da questão dos offshores é simples, se tivermos vontade para a aplicar. E desconfiem de quem venha com muitas complexidades e complicações, é sempre mau sinal. Insisto, não é muito complicado: trata-se de comparar o dinheiro dos offshores com o dinheiro dos terroristas. Um rouba, em grande escala, Estados e povos, o outro mata. Um mata à fome em África, outro nas ruas de Paris ou em Nova Iorque. Um destrói economias, poupanças, classes médias criadas com muitos anos e esforços para progredir, outro escraviza povos e reduz a ruínas países já muito pobres. É uma comparação que admito ser excessiva, mas, se partirmos dela, talvez possamos compreender (ou não) por que razão aquilo que se admite em termos de recursos de investigação, penalizações duríssimas, confisco de bens do crime ou da droga, ou da corrupção ou da fuga ao fisco, e se aplica ao dinheiro do terrorismo, se pode aplicar ao dinheiro ilegal dos offshores. Ah! Já estou a ouvir em fundo: “Mas muito desse dinheiro é legal.” Ai é? Então, qual é o motivo por que em vez de estar inshore vai para os offshores?
Deixem-se por isso de falsos espantos e falsas surpresas. Tudo o que está nos “Documentos do Panamá” não é novidade para ninguém. Como não é novidade para ninguém o discurso de “não se pode fazer nada”. Mas, se queremos salvar a democracia no século XXI, o problema do dinheiro anónimo, escondido, fugido e protegido algures numa caixa de correio humilde de uma casa nas Ilhas Caimão, ou num cacifo acolchoado de um luxuoso escritório de advogados no Panamá é objectivamente mais dissolvente do que os tiros de uma Kalashnikov nas ruas de Bruxelas. Faz-nos pior, porque os tiros são-nos exteriores, são do “inimigo”, e os biliões das Ilhas Virgens são de dentro, dos “amigos”.