terça-feira, 5 de julho de 2016

Um texto que vale ser gravado em pedra mármore



Mil palavras – dez mil talvez – que definem uma imagem - a de uma capa funcionando como símbolo – de um novo PSD mercantil e pimpão, na sua forma de ascensão ascética valorizando o seu representante - espécie de “homem da Regisconta”, executivo da mala, iniciando a subida da escada, com contas e cifrões à sua volta, e a palavra “success” complementando-a. Trata-se da capa das 222 PROPOSTAS SOCIAL-DEMOCRATAS (Para um verdadeiro programa nacional de reformas) que o dedo sagaz de José Pacheco Pereira condenou, descrevendo-lhe o simbolismo, com o negativismo da sua superioridade intelectual que, apesar da irascibilidade que provoca, tão tendencioso  e insistente é na sua agressividade desconcertante e paradoxal, sem uma réstia de reconhecimento, não só da gravidade do contexto provocador da austeridade imposta pelo governo anterior, como da honorabilidade do homem Passos Coelho, não deixamos de admirar pela sagacidade da reflexão e expressividade e sabedoria do descritivo.
O texto segue, infelizmente sem a imagem do desenho, texto que merece ser meditado pela nossa juventude de empenhos na ascensão, pela mediocridade da sua formação:

Uma imagem que vale mil palavras
02/07/2016 Tópicos
Costuma dizer-se que uma imagem vale mil palavras e esta, seguramente, vale mais que mil pelo que nos diz sobre o actual curso do neo-PSD. Pode sempre dizer-se que em si não tem muita importância, – e não tem, – que pode ter sido um lapso ou uma desatenção, ou que não justifica que se perca muito tempo com ela. Mas merece, porque ela é tudo isso e mais do que isso. É “reveladora”, ilumina muita coisa que é dita e, acima de tudo, muita coisa que não é dita, na vida, nas ideias, no imaginário, visto que se trata de uma imagem de natureza religiosa, plena de referências muito antigas à imagética ocidental de carácter escatológico. Trata-se de uma imagem desprovida de conteúdo político explícito e especialmente de conteúdo político social-democrata, mas densa de ideologia e espiritualidade. A ideologia é má e a espiritualidade é banal e “new age”, mas é o que é. A imagem é um tratado sobre a mentalidade, sobre um certo autodidactismo que se sobrepõe à formação académica ou à falta dela e, principalmente, fala-nos sobre os mecanismos de representação do mundo, e do desejo de o atravessar com sucesso, da actual direcção do PSD. É também uma imagem que revela a “cultura” do consumidor da Internet, via Facebook e “redes sociais”. A imagem é, aliás, um compósito copiado de outras imagens de um site na Internet, mas a natureza desse compósito num documento político é que é relevante e original. Que tenha passado pela cabeça de responsáveis de uma instituição tão importante na vida de um partido como um Grupo Parlamentar, onde hoje se senta também Passos Coelho, é que é “revelador”.
Que imagem é esta de que de certeza o leitor nunca ouviu falar? Da capa da edição em papel de 222 Propostas Social-Democratas, um guião para um “verdadeiro programa nacional de reformas”, de autoria do Grupo Parlamentar do PSD. Uma espécie de programa do governo, apresentado sobre as cinzas do célebre guião de copy-paste de Portas e que se pretende contrapor ao Plano Nacional de Reformas do PS, o “falso programa de reformas”, a que alude o “verdadeiro”. O documento merece discussão em si, mas a capa merece-o muito mais. Porque a capa é original, mesmo se copiada, a única coisa original no plano simbólico que vi produzida pelo PSD nos últimos anos. Já vi muita coisa no PSD, a começar pelo canto do “menino guerreiro”, mas ainda devo continuar capaz de me surpreender.
A capa tem no centro, como motivo principal, uma imagem de carácter religioso: a célebre Escada da Divina Ascensão, subida por João Clímaco a caminho do Paraíso. João Clímaco era também conhecido como “João da Escada”. Há vários ícones orientais representando-a, exactamente da mesma forma que aqui o PSD a representa. Só que, aqui, é o Homem da Regisconta que a sobe com o seu fato de executivo e segurando a mesma pasta que é a sua marca inconfundível. A versão é a do Homem da Regisconta visto por trás, afastando-se de nós a caminho do Paraíso e, para saber o caminho, tem uma espécie de folha de rascunho, de apontamentos de uma reunião, um workshop empresarial, ou motivacional, que funciona como um blueprint para a salvação. Melhor: tem um “business plan”. Esse mapa para o divino lugar, implica o uso da informática, da “social media”, do marketing, do “business”, da estratégia e de uma panóplia de gráficos de barras e “pie charts” habituais em documentos empresariais e, de novo, nos cursos de gestão de baixa qualidade. Numa demonstração de grande originalidade, uma ideia nova é representada pela lâmpada da banda desenhada e está lá ao lado de um cifrão. Peço desculpa por usar muitas palavras em inglês, mas é em inglês que está escrita a folha negra com instruções para o caminho para o “sucesso” com ponto de exclamação: “success!!”.
Cada degrau é um passo a caminho do Paraíso, que, no Tratado de João Clímaco, se inicia pelo ascetismo e termina pela plena perfeição das virtudes: Aqui, também o Homem da Regisconta sobe uma mesma escada no cumprimento do “business plan” escrito nas paredes, onde o negro predomina para nos ofuscarmos com a luz sagrada da ascese. Como acontece com muitas das imagens deste tipo, inscritas mesmo que inconscientemente no nosso imaginário, há uma mescla de caverna de Platão, da escatologia cristã oriental, posteriormente revista por uma imagética de natureza maçónica. Sim, porque a imagem é igualmente uma metáfora maçónica, o que não é de admirar no neo-PSD onde predomina a obediência a várias maçonarias, algumas bem pouco recomendáveis. O caminho para a “luz”, que espreita detrás de um buraco de fechadura, igualmente copiadas de um site na Internet, repete uma imagética maçónica que associa os “mistérios” a um buraco de fechadura, cuja abertura representa essa iniciação na plena sabedoria. Resumindo e concluindo: o homem dos dias de hoje, um jovem executivo, ou um profissional de marketing, ou um diligente “jota”, tem nesta imagem sagrada a sua forma de aceder ao divino, ou seja, ao sucesso.
O que é que isto tem a ver com o Estado? Nada. Com reformas políticas? Nada. Com o povo e a melhoria das suas condições de vida? Nada de nada. Com uma mensagem política subliminar? Sim. É uma mensagem para o indivíduo, porque é do sucesso individual que se trata no mundo do “empreendedorismo”, não para um país, ou uma comunidade, uma classe ou uma nação. É uma mensagem esforçada e antiquada, com décadas de atraso, para o “homem da Regisconta” do início da informática e da entrada das máquinas de calcular e da moderna gestão no mundo empresarial. Nem sequer é para o yuppie da bolsa, nem o criativo das dot.com, nem para as start-up. Na verdade há muita incompetência e muita ignorância nestas incongruências, mas pouco importa.
É pelo “negócio” que se chega à salvação. É pela vulgata da linguagem dos “business plan” que se encontra o caminho para a “luz” ou seja, para o “sucesso”. O neo-PSD dos nossos dias pensa assim, ou seja, não pensa, tem uma fé. Na prática, quase tudo o que faz é de outra natureza, muito mais antiquada, a gestão de cunhas e acordos, de controlos e influências, mas precisa de “espírito”, de uma espécie de religião barata e que não dê muito trabalho e vai procurá-lo aqui. Não é uma religião verdadeira, é mais uma seita, uma confraria, uma irmandade, uma loja.
O que é que isto tem a ver com o PSD no seu conjunto e, acima de tudo, na sua história e identidade? Nada. É uma ideologia neófita de parte do aparelho que hoje controla o partido. Faço justiça a muitos dedicados militantes, por exemplo, nas autarquias, que não querem saber disto para nada. Aprenderam com a sua acção a ser muito mais terra-a-terra e a não ter ilusões com esta maravilhosa escada para a “luz”. Sabem muito bem, com um saber de experiência feito, como é a usura da política quotidiana. São católicos, apostólicos romanos, muitos não são praticantes, muitos são até naturalmente pouco ou nada religiosos e não querem saber deste mambo jambo maçónico para nada. Já cá estavam antes e vão continuar a cá estar depois. Mas este caminho hoje seguido pelos neo-PSDs faz imensos estragos naquele que é o maior partido político português e, por essa via, a Portugal. Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo dos pés do Homem da Regisconta é a palavra “social-democrata”, essa sim que não caminha para o buraco da fechadura iniciática mas para servir de capacho ao “Homem da Regisconta” que lhe volta as costas. É aliás esse o lugar que tem na capa. De facto as imagens falam com muito mais que mil palavras.
Historiador

O nosso “fúlgido e rubro ruído contemporâneo”



«Tratar o destino com os pés» é o título da crónica de Alberto Gonçalves, como sempre dura e profunda, na sua tentativa de melhor penetrar a espessura dos nossos espíritos mais versados no estrondo da matéria física, visível e audível, donde se segue que o futebol esteja na berra, para nós, desde sempre, e mais agora, em que o vil metal tilinta em força e as rivalidades e sabedorias clubísticas se desfazem em ironias recíprocas de trejeitos igualmente estridentes, que o audiovisual protege e estimula, de modo desafiante. Também as figuras do Bloco da Esquerda se aproveitam da época marulhante para estimular o mesmo audiovisual e os elementos governativos a quem estão ligados, com as propostas altissonantes da sua saloia ambição que, essa sim, terá efeito penetrante na fibra da nossa espessura mental. São os temas da crónica de Alberto Gonçalves.
Mas estou a ouvir o noticiário, e por entre as explosões assassinas dispersas pelo mundo, de que se fala nos noticiários, ouço, abismada, a notícia de que o  candidato do Partido da Independência do Reino Unido desde 2010, Nigel Farage, apresentou a sua demissão do cargo, Pilatos lavando as suas mãos, depois de ter conduzido o seu UKIP à vitória do BREXIT, ou Quixote enganado na questão da Dulcineia, estatelado ao comprido (por moto próprio), depois da luta contra os moinhos de vento.
Entre os aspectos positivos de que tratam hoje os noticiários – como exemplo, a próxima entrada de uma sonda espacial da NASA – Juno – na atmosfera de Júpiter, para pesquisas específicas que produzirão novos conceitos – (e entre nós a notícia da participação na construção de um avião militar, o que atesta o desenvolvimento da nossa indústria aeroespacial - que criou outrora uma Passarola e mais tarde realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul) – e os cenários negativos em maioria, onde sobressaem os actos de terrorismo e os abusos vários de ordem social, económica ou política, como nos habituámos a  observar – na vastidão desses cenários, pois, chocou-me, sobremaneira, a atitude desse Pilatos britânico que semeou os ventos e cautelosamente se esquiva a enfrentar as tempestades. Parece-me desprezível a sua atitude. Se fosse por cá, creio que lhe cairia em cima pelo menos o Carmo, a pusilanimidade a que somos atreitos poupando talvez a igreja da Trindade. É certo que nunca as coisas se passariam entre nós de igual modo, nunca repeliríamos um cargo governativo, tão afeiçoados que somos ao poder que preferimos mesmo extorqui-lo, quando não nos cabe em sorte. Mas parece-me cobarde - ou tão só pedante - esta atitude de Nigel Farage, talvez inspirado na peça de Óscar Wilde – Um Marido Ideal – de um herói pretendendo renunciar à carreira política para manter a aparência de impecabilidade moral. Que os súbditos britânicos têm imensos exemplos literários a aconselhá-los dignamente. Não é como nós que só temos o Júlio Dinis ou os simpáticos trechos de João de Deus a conduzir-nos pela vereda da virtude.

Tratar o destino com os pés
Alberto Gonçalves
DN, 3/7/16
Até agora, vi a maioria dos jogos da dita selecção nacional no campeonato em curso. Ao estilo (digamos) apresentado, os comentadores chamam "jogo de paciência". Se se referem à paciência necessária para o espectador aturar aquilo, acertam em cheio: o próprio Job tentaria cortar os pulsos após vinte ou trinta minutos de futebol tão lento e destrambelhado. Embora os jogadores me pareçam fracotes, e o "melhor do mundo" fora de forma, fica a impressão de que, entretida a reformular penteados ou a estreitar laços com a "diáspora", a equipa não treinou nada, excepto a estratégia para adormecer adversários ainda menos dotados (os quais são prévia e constantemente considerados prodigiosos de modo a alimentar o patriotismo). Não tem corrido mal: Portugal não perdeu um jogo. Acontece que também não ganhou nenhum, apenas seguindo em frente graças às sucessivas atenuantes nos regulamentos da bola, da "repescagem" aos "penáltis", passando pelo "prolongamento". É isto um drama? Nem por sombras. Como se diz no jargão, é futebol, e o futebol, apesar da histeria alusiva, é uma suprema irrelevância.
Dramáticas, ou, vá lá, relevantes, são as legitimações subjacentes. Em embaraçosas conferências de imprensa, futebolistas e treinador juram que o essencial é vencer de qualquer forma, mesmo, presumo, que esta inclua o desempate por moeda ao ar, o suborno ou o tiroteio nos balneários. Nas televisões, "especialistas" subscrevem o método. Nas tribunas, as excelências que alegadamente nos governam e representam (mas que de facto vivem em estádios franceses) aplaudem-no. Nas ruas, o povo entra em júbilo frenético a cada eliminatória humilhante. "Somos os maiores", berra-se sem ironia.
No futebol, talvez se conquistem glórias sem mérito. Na vida real, não é tão provável. Para desgraça de todos nós, somos propensos a estender à vida real a jovialidade com que se troca trabalho, rigor e exigência pela hipótese de um triunfo inútil e, fora dos relvados, imaginário. Queremos bons salários sem produtividade, prosperidade sem esforço, riqueza com dinheiro alemão. Queremos, em suma, as vantagens; dispensamos os aborrecimentos intermédios e necessários. Para não recuar muito, eis a história da recente "austeridade": sem nunca se perceber o respectivo significado, começou por celebrar-se os governos que a tornaram inevitável, abominou-se o governo que a aplicou e voltou a festejar-se a nomenclatura de borlistas que fingiu exterminá-la por decreto, quando o extermínio em causa será na verdade o do país enquanto nação residualmente remediada e soberana. No futebol, cantando e rindo e mancando e aproveitando artimanhas, pode chegar-se à final. No mundo que importa, chega-se ao fim. Não admira que o dr. Costa e o prof. Marcelo se empenhem em não se distinguir dos iludidos adeptos comuns: a ilusão é o ofício deles. Aceitá-la é o nosso.
Na quinta-feira, imediatamente antes do penálti decisivo, o locutor da RTP afirmava, com típica inconsciência, que o sr. Quaresma tinha "o destino de um país nos pés". O destino não tardou a levar um chuto. Portugal. Portugal. Portugal. Pobre Portugal.
Domingo, 26 de Junho
Convenções
Acho interessantíssimo que o Bloco de Esquerda agite as bandeiras do arco-íris e do combate à violência doméstica e, na sua convenção, aplauda de pé (cito os jornais) um Movimento pelos Direitos do Povo Palestino. Não comento o tratamento dispensado pelo "povo palestino" a homossexuais e mulheres. Limito-me a sugerir que, em convenções futuras, o BE organize um churrasco de vitela para criticar as touradas e proteste aos tiros o acesso de civis a armas de fogo.
Porém, o grande momento da pândega "bloquista" foi a ameaça de referendarmos a "Europa" caso esta nos castigue por causa do défice. Para facilidade de conversa, admita-se que a dona Catarina fala pelo governo (o que não é uma hipótese absurda), que o governo possui a última palavra em matérias assim (desde que seja para o lado "correcto", a sagrada Constituição aldraba-se sem problemas) e que o presidente da República permitiria a brincadeira (depois da dança étnica e dos comentários da bola, o prof. Marcelo já provou ser um brincalhão). Ultrapassadas estas irrelevâncias, qual seria o impacto de uma chantagem que no fundo consiste em informar o credor que não se volta a pedir-lhe dinheiro? Qual é a parte do desastre grego que a dona Catarina não percebeu? Como se imagina, Angela Merkel não voltaria a dormir descansada - de tanto rir. Até o PCP se riu.
E eu sinto-me ridículo só de escrever a propósito. Afinal, é esse o mérito (digamos) do BE: pôr as pessoas a discutir "ideias" que antigamente não se toleravam a crianças com mais de 7 anos. Ouvir o bando é o mesmo que promover um seminário sobre física de partículas moderado por Isabel Alçada e realizado na sala de actividades da creche. É gente que diz o que sabe e não sabe o que diz. Enquanto terapia de grupo, parece-me excelente. Enquanto outra coisa qualquer, parece-me uma tristeza pegada.
É triste o jornalismo que leva aquilo a sério e são tristes os eleitores que levam aquilo a sério. E é tristíssimo um governo que por desmesurado oportunismo e desmesurada irresponsabilidade obedece a uma anedota imberbe a que apenas por convenção se pode chamar partido.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

NASCEU O PEDRITO



No dia 2 de Julho. O primeiro bisneto. Um menino amoroso, sãozinho e escorreito, uma perfeição de bebé. Quando a mãe dele nasceu – primeiro neto - eu fui ao Hospital vê-la e pude pegar-lhe ao colo, do que ela logo protestou, fazendo ouvir um estrondo que lhe limpou a barriguinha, e eu senti-me no céu, por ter ajudado no desimpedimento dos primeiros obstáculos na vida da Ana. Mas a Binha era mãe da velha guarda, compreensiva, sabendo dos impulsos de agarrar naqueles corpinhos tenros, quando os julgamos um pouco nossos. Ou talvez por eu ser mais nova, então, pude pegar na Ana. Mas o Pedrinho não dormira na sua primeira noite, e a Mãe também não e estava sossegadinho, agora, no seu sono entrecortado de súbitos esgares ameaçando o choro. Não convinha retirá-lo do bercinho, tão frágil parecia, e o colo de uma bisavó já não é seguro.

Para o Pedrinho, gostaria de o presentear com um texto que a sua trisavó Pureza costumava recitar, nos nossos tempos de meninas, muito bem soletrado, as consoantes e as vogais muito marcadas, segundo aprendera na “Cartilha Maternal”, no Carregal, onde o pai dela, meu avô António Brás, que não conheci, conseguira que o Governo colocasse uma professora, com quem ela aprendeu a ler. E esse texto ficou-me na memória, tal como o Hino de Amor, de que ela também recitava uma grande sequência de versos. Toda a Cartilha do João de Deus figura na nossa memória, aliás, como uma espécie de livro mágico, onde ressoa a voz da nossa Mãe, e por onde igualmente o teu Avô Ricardo, Pedrito, se iniciou na leitura, aos cinco anos e cheguei a usar para o Bruno, embora sem a mesma magia.

E é com a história do Pedro (do teu nome) e o Hino de Amor, ambos da Cartilha Maternal, que eu desejo envolver a tua entrada na vida, Pedrinho, na recordação eficaz da tua trisavó Pureza e no sentimento de amor da tua, pela primeira vez, bisavó, que para ti deseja a mesma protecção com que o «Deus Menino, o Bom Jesus», salvou o passarinho do encantamento perigoso da serpente:


JOÃO DE DEUS (1830-1896)
I
Ó Pedro, que é do livro de capa verde, que te deu o avô?
- Já o dei ao Jorge a guardar.
- Vai lá pedi-lo.
- Para quê?
- Para a tia Carlota ver a gravura do caçador.
- Ouve cá: a pobre da Clara ia abrir a porta do quarto, caiu, quebrou a garrafa do petróleo, e ficou ferida. Vou agora à botica; levo aqui a receita: à tarde logo falo ao Jorge, e digo que to dê.
- Palavra?
- Palavra, Júlio, fica certo.
- Vê lá cuidado!
II

HINO DE AMOR

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via:
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira,
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E o foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo),
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!