domingo, 24 de julho de 2016

Paradoxos deste mundo



Clara Ferreira Alves diz não pertencer ao grupo trucidador de Tony Blair por crimes de guerra, por conta da do Iraque. Mas tal declaração parece contraditória da sanha com que lhe descobre as perfídias da sobrevivência e que ela considera desprezíveis.
De facto, Tony Blair sempre me pareceu uma figura simpática, nobremente sorridente, mesmo quando atordoaram – ele e os americanos, com George Bush à cabeça, - o mundo, com as suas acusações contra Saddam Husseim e lhe invadiram o Iraque à conta de um hipotético arsenal militar, provável destruidor do mundo. Também tive medo então – nunca se sabe como podem agir os povos sem equilíbrio racional, ou governados por ditadores bestificados, como é, igualmente, o da Coreia do Norte, um tal sinistro Kim Jong-un e nem se me dava que os Estados Unidos o pusessem a andar – pois, graças à sua força de primeira potência mundial que não desejam perder, têm actuado sempre que se lhes pede, e sobretudo para impedir que o comunismo alastre, ou as armas nucleares, que devem ser usadas com moderação, como certos vinhos capitosos e como foi o caso das suas bombas sobre as conhecidas cidades japonesas da segunda guerra, bombas, afinal, de nível muito inferior às actuais. Mas parecem cada vez menos disponíveis, os EU, mais renitentes em ajudar os povos, e sobretudo se o Donald Trump ganhar as eleições, que tem cara de chefiar como o da Coreia, com muito orgulho próprio, espalhado numa cara de caricatura. Mas tenho, de facto, pena do povo norte-coreano, assim submissos, conquanto eles pareçam mesmo amar o seu chefe, depois de tanto chorarem o pai deste, “que era cousa estranha de ver”, para usarmos a expressão, um tanto arcaica, o que não é de estranhar, do nosso Fernão Lopes.
Mas a execução de Saddam foi horrorosa, teledifundida, para exemplo dos espectáculos posteriores com que, sobretudo os povos islâmicos fundamentalistas, vão exercendo as suas revanches. É claro que, se víssemos o Hitler ou o Estaline e outros de calibre parecido a serem enforcados, eu julgo que apreciaria, mas do Saddam até tive pena. É claro que muitos dos Estados Americanos têm a pena de morte, mas passa-se tudo em família, as coisas não transpiram cá para fora com tanta facilidade, e nem se pensa nisso, excepto os habituais pensantes, além de que eles são extraordinários a descobrir mundos e a ajudar nas desgraças dos povos do mundo de cá (alguns dos quais eles ajudaram a destruir vendendo aos chefes desses as armas necessárias para esse efeito destrutivo), vivemos, assim, mais tranquilos, sabendo que eles ajudam a matar a fome e a sanar as feridas, o que julgo não acontecer com os chineses, que também têm pena de morte, ainda mais despercebida, e agora falam-nos de El Salvador como o país mais perigoso do mundo, com os seus gangues, e de outros países da América Central, parece que a loucura devasta cada vez mais esta Terra que já foi edénica no princípio.
A E contém, pois, o magnífico artigo de Clara Ferreira Alves, de pormenor histórico vasto e adequado e clareza discursiva, embora um pouco paradoxal nos argumentos, que vão num crescendo de acusações graves, depois de se ter demarcado do julgamento e condenação de Tony Blair, mas  a E traz-nos também notícias do historial das sondas americanas a Júpiter, e sobretudo da actual Juno como produto do mesmo povo americano que aceita a pena de morte e a vulgarização das armas de fogo e simultaneamente lança sondas para os espaços, de efeitos cada vez mais incalculáveis, não só científicos mas – quem sabe? – mais futuros destruidores ainda deste sítio onde vivemos.
O que é certo é que, como muito bem pondera Clara Ferreira Alves, foi com a tal invasão do Iraque que tudo começou, embora o terrorismo seja muito mais antigo, os franceses até tiveram La Terreur.  E para todos os efeitos, nós, os muitos africanos que há uns anos viemos invadindo a Europa e outros continentes, também fomos vítimas disso, lá no sul, mas não contamos, até porque os nossos terroristas não eram tão civilizados como os de agora, só mandatados por Moscovo e com armas cedidas por esses e apoiados pelos nossos, para o virar da página, coisa de somenos. Mas agora é que o terrorismo é grave, passa-se na Europa, com gente civilizada, e é com actos maléficos que nos atingem, esses do recém-criado Estado Islâmico, industriados em religião e noutras perfídias como as do gosto de matar apenas porque sim. Também, por arremedo, lá pela América Central, os gangues.  Cada vez mais imparáveis, os tiroteios. Em breve, o mundo será convertido em gangues.
 «lls sont fous, ces RomainsComo a gente se ria, com as graças do Obélix, sem pensar nestas tragédias. Até o sentido de humor mudou, de ataque directo e mal educado, agora, a pedir retaliação, num vaivém, tu cá tu lá, imparável. E sem esperança de viragem.

A mãe de todas as guerras
Clara Ferreira Alves
E, A Pluma Caprichosa, 9.07.2016
O relatório Chilcot, ordenado por Gordon Brown, acaba de ser publicado. Não é a ocasião mais favorável para a Grã-Bretanha, que conhece pela primeira vez em muito tempo a humilhação e downgrading da sua vida pública. O velho parlamentarismo inglês, no país que deu ao mundo os Monty Python, reduzido a uma caricatura. Boris, Gove, Cameron, Farage, Corbyn e companhia fizeram mais por isto. Como avisou Churchill, unidos venceremos, divididos seremos vencidos. Neste cenário de cobardes e demissionários, Tony Blair poderia voltar a emergir como um chefe mais ou menos responsável. No trabalhismo, deve ter havido quem suspirasse pelo blairismo. Até ao Iraque, Tony Blair foi o maior político inglês desde mrs. Thatcher. Reformou um partido que estava esclerótico, e refém de extremistas e de sindicatos marxistas, venceu todas as eleições, deu cabo dos conservadores e iniciou o que parecia ser a via certa para o socialismo em crise, a académica Terceira Via. Os teóricos da Europa pós-Muro pareciam ter a solução para todos os males. No Kosovo e na Bósnia, Blair demonstrou, contra a vontade de Bill Clinton e ensombrando a relação especial, que a NATO devia intervir e que os Estados Unidos tinham a obrigação moral de não abandonar os Balcãs ao imperialismo e nacionalismo da Sérvia. Era uma decisão militarista que a história provou estar certa. Slobodan Milosevic acabou sentado no Tribunal Internacional de Haia e morreu na cela. Agora, Blair é ameaçado esporadicamente com esse Tribunal. Quem é, afinal, Tony Blair? Um estadista enganado ou um criminoso convertido ao catolicismo? Não pertenço ao grupo que quer vê-lo enganado e condenado por crimes de guerra. Não faria sentido, nem seria coerente, a não ser que fossem buscar Kissinger a casa. Quando tomou a decisão de invadir o Iraque juntamente com o grupo de falcões americanos que estavam nos antípodas dos trabalhistas, Tony Blair era um homem convencido da bondade da invasão. Saddam era um carniceiro, um carniceiro ao qual toda a Europa tinha vendido armas e serviços a preço de ouro e pagos com o dinheiro do petróleo, um carniceiro ao qual Donald Rumsfeld tinha apertado a mão nos anos oitenta, os anos em que o Irão era o inimigo principal. O que não impediu Reagan de vender armas aos iranianos em troca da libertação de reféns americanos no Líbano, sobretudo de um operacional da CIA que acabou torturado, morto e filmado, iniciando a indústria dos vídeos de reféns. Com o dinheiro iraniano tinto de sangue, os conselheiros de Reagan, incluindo um bandido chamado Oliver North, armaram os contras da Nicarágua. Comparado com o Irangate, o Watergate é uma brincadeira. Nixon, um Presidente com uma inteligente política externa, teve azar. Reagan teve sorte e saiu da História pela porta grande, com uma frase certeira sobre o Muro de Berlim cozinhada pelos estrategos e por Peggy Noonan, competente redatora de discursos.
O azar de Blair declarou-se mais tarde. Até ao suicídio do perito em armas de destruição maciça David Kelly, mandado desacreditar pela quinta coluna de Blair, e até às guerras com a BBC, Blair tinha tido sorte. O desastre do Iraque, consumado numa vitória militar seguida de um período de neocolonialismo aventureiro, irresponsável, corruptor e corrompido, só começou a ser visível a partir de 2006, quando Saddam foi executado no dia 30 de dezembro. O julgamento e o filme da execução, sancionado por ingleses e americanos, são uma vergonha para qualquer democracia. Em 2007, o desastre era claríssimo. Há que louvar Gordon Brown, em 2009, por ter ordenado este inquérito que poderia manchar, e mancha, a reputação do seu partido, mesmo que as razões para o fazer fossem as da destruição do rival. Quod erat demonstrandum.
Somos todos, na Europa, herdeiros deste desastre, desta guerra do Iraque. Uma guerra que alterou os mapas e as hegemonias e instáveis equilíbrios do Médio Oriente. A Síria é o resultado do Iraque. O Daesh é o resultado do Iraque. O Patriot Act, Guantánamo, a tortura praticada por Estados democráticos, as rendições extraordinárias, a crise dos refugiados, o terrorismo contemporâneo, os atentados brutais em Bagdade (que o Ocidente ignora), os mortos, contas feitas neste momento mais de um milhão, e a destruição total e irreversível de um país charneira, onde se cavou mais a fissura entre sunitas e xiitas, são o resultado do Iraque. Tony Blair não podia ter previsto isto. As consequências excederam largamente os actos primários. Depois do desastre, Blair dedicou-se com afinco a ganhar dinheiro. A sua Fundação, Tony Blair Faith Foundation, presta conselho a oligarcas, ditadores e corporações e recolhe dólares. Não se conhecem os efeitos benéficos da ganância e da “fé”. Blair tornou-se um falso e ridículo filantropo que coleciona mansões e viaja nos iates e jatos privados dos amigos multimilionários. O avatar de Tony Blair é mais desprezível do que a ambição churchilliana e o idealismo errado de 2003.

sábado, 23 de julho de 2016

O saber não ocupa lugar



Ao ler, na revista “Fugas”, o artigo de Humberto Lopes «As boas memórias da feitoria portuguesa em Antuérpia», lembrei a história que aprendera, de glórias, sim, mas de decadência também, portuguesa, que nos fazia canalizar para a Holanda tantas das riquezas provindas das rotas marítimas através da tal “feitoria” de Antuérpia, servindo de entreposto comercial com a Europa do Norte, em breve a nação precisando de pagar ao estrangeiro o pão que comíamos, pois a ânsia do ouro das Índias causava o êxodo dos campos, e a política de centralização do poder real, com a criação de uma nobreza faustosa e parasitária, a breve trecho nos tornou um país dependente do estrangeiro por não produzirmos. Uma gesta, a nossa, tão ambiciosa quanto admirável de “resiliência”, como hoje se diz, para animar os adeptos do falhanço. Na realidade, muito lutámos e esbanjámos, em vidas e custos, num fogacho de glória que nos tornou pioneiros da globalização, e extraordinários, apesar de tudo, pelo que conseguimos, de que “Os Lusíadas” são eco, retomado por outras vozes, como a de Pessoa na sua “Mensagem”.
A leitura do artigo de Humberto Lopes fez-me consultar, na Internet, uma síntese sobre a “Utopia” de Thomas Morus e encontrei um trabalho de António Marques Miguel   de introdução a uma proposta de trabalho aos seus alunos de “Pensamento e Comunicação”  do Departamento de Arquitetura (4º ano do ano lectivo de 2002-2003).
Foi, pois, um grande prazer de leituras, visto que, como nunca li a Utopia, desconhecia  essa tal personagem portuguesa “Rafael”, que nos situa numa época de tanto esplendor tecnológico, matemático, científico e literário português, bem merecedor do crédito  de uma extraordinária figura de pensamento e nobreza  de  alma, como foi Thomas Morus.
         
As boas memórias da feitoria portuguesa em Antuérpia
Por Humberto Lopes
“Fugas”  (Público ), 16/7/16
16.07.2016
Mesmo sem eloquentes sobrevivências patrimoniais de ordem material, a contribuição lusitana para a prosperidade de Antuérpia é bem reconhecida. Um passeio pela cidade flamenga, evocando um pouco da memória da presença portuguesa desde o início do século XVI.
Da Valónia à Flandres, segue-nos o mesmo cenário do outro lado da janela do comboio, o plat pays da canção de Brel. Planuras sem fim, manchas de arvoredo dispersas por verdes pradarias, aldeolas de casario térreo e telhados inclinados, os altos campanários das catedrais como singulares montanhas, canais perdidos em horizontes tocados por céus baixos e cinzentos. Voam pelos ares, ainda, restos de chuva do temporal da véspera; o vento começou a mudar de direcção de manhã e não é improvável que durante a tarde irrompam alguns fulgurantes raios de sol sobre as imagens douradas que coroam o Stadhuis (a Câmara Municipal) e as seiscentistas casas das velhas guildas de Antuérpia.
Vamos de Bruges a Anvers, a designação francófona da que foi uma das cidades mais prósperas da Europa nos séculos XVI e XVII. De uma a outra cidade viajou também, há quinhentos anos, o inglês Thomas More, no intervalo de uns afazeres oficiais que o levaram à Flandres. O dia de ócio acabou por providenciar o “encontro” em Antuérpia com o principal personagem do livro, um certo marinheiro e aventureiro português, de “tez trigueira” e “longa barba”, a condizer com a condição e no retrato instantâneo que surge numa das primeiras páginas do livro. O marítimo é apresentado a More mais como um sábio do que como um simples “patrão de navio”.
Este português, que seria a fonte de informação sobre a tão distante ilha de “bom governo” descrita na Utopia, trouxe das viagens um precioso património de experiências e saberes. “Navegou como Ulisses, e até mesmo como Platão. (...) conhece bastante bem o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia ao qual se devotou exclusivamente, fê-lo cultivar a língua de Atenas de preferência à de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará passagens de Séneca e de Cícero. Portugal é o seu país.” Rafael havia feito, enfim, a escolha entre ser Abel ou Caim, entre a liberdade e a propriedade com as amarras do sedentarismo: “Jovem ainda, abandonou seu cabedal aos irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo, amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio (…) durante as três das quatro últimas viagens, cuja narrativa se lê hoje em todo o mundo.”
More pormenoriza o local do encontro, a Catedral de Notre Dame. Imaginemo-los na companhia do flamengo Pieter Gillis, amigo comum, saindo de Notre Dame e passeando-se pela já então muito cosmopolita praça central de Antuérpia, o Grote-Markt, que em português soa muitíssimo bem tratando-se de uma cidade que ficou a dever a sua prosperidade ao comércio e que representava de forma notável um exemplo das sociedades mercantis em emergência na época.

O sonho de Adam Smith
A prosa que descreve esse encontro e a fantástica narrativa de Hitlodeu, a Utopia, foi inicialmente publicada em Louvain, em 1516, mas o lugar central de Antuérpia na sua génese tem sido, justificadamente, celebrado nesta cidade. Quanto à presença do protagonista português, ela está longe de ser um acaso: Portugal jogava então um papel preponderante na construção da economia-mundo com o seu comércio de especiarias, e o autor tinha certamente na bagagem a leitura de narrativas das navegações que largavam do Tejo.
A prosa de More articulava as ideias de Adam Smith quanto à origem da força e da riqueza das nações com o esboço, já, dos contraditórios que iriam preencher os compêndios vindouros da nascente ciência económica. As tiradas do personagem português, se descreviam as idealizações de uma sociedade “utópica”, não rasuravam as distorções sociais e morais mais óbvias: “A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres, zangões ociosos que se nutrem do trabalho e do suor de outrem...”.
Não é indiferente o contexto em que a alegoria progride. O que Antuérpia e outras cidades da Flandres davam ao mundo, às nações europeias e às outras que com elas estabeleciam laços comerciais, era todo um novo sistema, muito mais aberto ao mundo e construído na base de extensas relações com ideias e geografias diferentes, natural sequência nos tempos renascentistas. Algumas reservas ficavam já lavradas nos argumentos esgrimidos pelos personagens; outras brotariam da incessante roda de ideias. Como as de Bakunine, que viria a sugerir, mais tarde, que “a concorrência não tem coração, não tem piedade (...). Nessa luta são necessariamente cometidos muitos crimes; toda essa luta fratricida não passa de um crime cometido contra a solidariedade humana, base de toda a moral”, asseverava o céptico anarquista.

Lição de cosmopolitismo
Das margens do rio Escalda às portas da Centraal Station, ao longo da Lange Nieuwstraat, da Korte Nieuwstraat, da Meir ou de muitas outras artérias que vão cruzando pequenas praças preenchidas por esplanadas cobertas por toldos e aquecidas nos dias mais frios, no Grote-Market e nas ruelas contíguas, os cenários são desenhados com a mais eloquente arquitectura flamenga.
Os bares com cerveja belga artesanal alternam com restaurantes de variadas bandeiras e paladares; logo à saída da Centraal Station, a uma dezena de metros, o icónico Bier Central, uma paragem inevitável, lista mais de trezentas marcas de cerveja, muitas de fabrico artesanal. E não há que andar muito para se dar com ementas gregas, chinesas, japonesas, eslavas, mexicanas, árabes ou portuguesas. Ou lojas e mercados multi ou transculturais onde os tecidos já são mais coisa dos Orientes do que flamengos, como era usual em séculos idos. E ruas de comércio indiano ou paquistanês (sobretudo as das nacht winkels, lojas abertas noite dentro), marroquino, turco...
Nada de insólito, bem vistos os factos; que grande cidade não afixa cenário equivalente? O complemento “natural” destes intermitentes bazares é a massa heterogénea de gente que caminha pelas ruas, cada caminheiro com as suas convicções, as suas (in) exactidões, as suas existências, os seus destinos, numa cidade que provou ao mundo que separar as águas com facilidades de passe de mágica só pode ser coisa de fantasmática página bíblica.
Se a prosperidade é coisa que nasce das trocas comerciais, o conhecimento viaja também nesse vaivém que é, também, de idas e voltas de seres humanos. Não dizia Braudel que com as mercadorias viajam ideias, hábitos, costumes, práticas, cultura, enfim? Olhemos as ruas de Antuérpia: podia o nosso Hitlodeu dizer o mesmo. E More, que nas suas passeatas pelo burgo flamengo terá visto já um tanto do que agora vemos, ao caminhar por estas ruas que cedo acolheram o cosmopolitismo das grandes cidades comerciais. Fechar hermeticamente fronteiras é coisa recente na longa história das sociedades humanas e esta cidade flamenga não se embaraçava, nem ninguém nela, com a variedade de gente que se cruzava no porto e no Grote-Markt.
Lodovico Guicciardini, ilustre mercador florentino da Flandres, pôde escrever que “em nenhum lugar do mundo os estrangeiros são tão senhores dos seus actos e gestos como em Antuérpia (...). Resulta desse facto que vive aqui uma mistura de pessoas de todas as nacionalidades e que se ouve falar em Antuérpia um grande número de línguas diversas”. E acrescentou uma observação, algo hiperbólica, que relativiza as nossas contemporâneas “descobertas” da multiculturalidade e as iluminadas elucubrações multiculturalistas da intelectualidade orgânica. “As viagens para lugares distantes são completamente supérfluas para quem quiser estudar ou imitar os usos e os costumes de um ou outro povo: encontra-os aqui todos reunidos nesta cidade.”
O exemplo percorria as margens do Mediterrâneo e de outros mares e terras, disso nos lembram as páginas de Amin Malouf ou os juncos chineses que o conquistador Albuquerque encontrou em abundância carregando mercadorias em Malaca. Ou as cosmopolitas urbes da Rota da Seda, de Kasghar a Pequim, ou, até, o encontro do Gama em Calecute com dois muçulmanos tunisinos que falavam castelhano e genovês...
Do Oriente para Antuérpia
As circunstâncias político-religiosas pesaram, assegurando aos seus habitantes “essa imunidade religiosa e intelectual que faz a sua glória e prosperidade”, lemos numa evocação desses tempos, um volume publicado pela extinta Livraria Orfeu, de Bruxelas (Portugal & Antwerpen - 1498-1648, de Anne Quartaet e Frederic Wille), que mantém, todavia, a sua componente editorial e as suas edições acessíveis aos leitores no espaço da Lusoloja, na Chaussée de Louvain, na capital belga.
Aos fundamentalismos nacionalistas anti cosmopolitas, o argumento da imunidade intelectual e religiosa, e a virtude que supõe, deve gerar um certo desconforto: “A cidade consegue permanecer na perspectiva espiritual o que era na perspectiva comercial e económica, um oásis de liberdade, quase de anarquia, apesar de um período difícil de um ponto de vista político”, escrevem os autores do livro. Muitos dos insignes portugueses da história de Antuérpia eram judeus ou cristãos novos que foram obrigados a abandonar Portugal, perseguidos e em risco de acabar nas fogueiras da Inquisição.
Ao passearmos pela Lange Nieuwstraat, pela Kipdorp e pelo Meir, em trechos da cidade que acolheram mansões de portugueses, é justo recordar que a acção e o celebrado engenho dos lusitanos que viviam na Flandres representaram notáveis contribuições para a prosperidade da cidade flamenga — tanto através do comércio de especiarias como da actividade de lapidação de diamantes e pedras preciosas. Jacques Attali nomeava as cidades europeias que mais beneficiaram do comércio com as Índias (orientais e ocidentais): Antuérpia e Sevilha.
A experiência de Guicciardini reforça essa ideia: “O crescimento mais notório que tornou esta cidade tão famosa e rica começou por volta de 1503 e 1504, no momento em que os portugueses começaram a trazer especiarias e drogas das Índias para Portugal e daí para as feiras desta cidade.” Com os seus armazéns a abarrotar de pimenta, cravinho, gengibre, noz-moscada, Antuérpia chegou a ser o maior depósito de especiarias da Europa e respondia por um quarto das receitas da nossa Casa da Índia. Pouco mais tarde, seria o açúcar, mercadoria embarcada na Madeira e em São Tomé, outro importante motor da economia antuerpiana. Na Suikerrui, hoje uma rua pedonal entre a Notre Dame e as margens do Escalda, haveria uns quatro importadores portugueses que forneciam aquela matéria-prima aos refinadores locais.

Ocultos sinais lusitanos
Indagamos, ao passo ziguezagueante de um roteiro traçado na zona mais antiga, os signos e as histórias de gente portuguesa que por ali andou fazendo História e deixando nome. E ao calcorrear itinerários no centro histórico descobrimos biografias que revelam esplendor e tragédia, narrativas que são também um pouco do que conta como registo histórico do Portugal que não se quedou dentro das suas fronteiras — como, aliás, tantos outros povos cuja identidade dificilmente se pode confinar ao que se costuma designar por raízes.
Como tão exemplarmente resumiu Juan Goytisolo (que escolheu Marraquexe para pátria) a propósito dos fenómenos migratórios, “o homem não é uma árvore: carece de raízes, tem pés, caminha”. “Desde os tempos do homo erectus circula em busca de pastos, de climas mais benignos, de lugares onde possa resguardar-se das inclemências do tempo e da brutalidade dos seus semelhantes.” Como estranhar, ou esquecer, pois, que foi da Europa que partiu uma das maiores vagas de emigração do século XX? Mais de sessenta milhões de emigrantes europeus puderam rumar livremente para África e para as Américas...
Uma boa parte das residências dos mercadores, dos lapidadores de pedras preciosas e de um ou outro banqueiro luso, situava-se numa zona delimitada pela Lange Nieuwsraat, pelo Meir e pela Gasthuisstraat. A feitoria, transferida de Bruges logo no início do século XVI, e também conhecida por Casa de Portugal, tinha assento na Kipdorp.
O edifício já não existe, mas é ali que podemos ver uma reminiscência arquitectónica da Casa de Portugal, um tecto abobado no que é actualmente um quartel de bombeiros. Na entrada principal, uma placa comemorativa, em flamengo e em português, assinala a relevância histórica do lugar: “Aqui foi durante três séculos a Casa de Portugal que o rei Dom Manuel I mandou fundar em 1511 para expansão do comércio português.” Na monumental escadaria do Stadhuis, uma grande pintura mural mostra uma cena da inauguração da Bolsa, em 1532; algumas das figuras que rodeiam os altos magistrados da cidade são representantes da comunidade portuguesa.
Ali perto, na confluência da Markgravestraat com a Lange Nieuwstraat (onde havia também estabelecimentos portugueses de lapidação e comércio de pedras preciosas), vemos uma capela gótica de finais do século XV. Fez parte de um palácio lusitano, o Immerseel, propriedade do cônsul Rui Fernandes de Almada. O palácio desapareceu, entretanto, e é na Chapelle de Borgogne que sobrevivem alguns motivos pictóricos evocativos da presença portuguesa, entre os quais um brasão de Portugal.
Um pouco mais adiante, ainda na Lange Nieuwstraat, entramos no maior templo de Antuérpia, a igreja de Santiago (ou Sint-Jacobskerk, em flamengo), histórica etapa na peregrinação a Compostela. O edifício, em gótico flamejante, e beneficiário do mecenato de Diogo Duarte, comerciante de pedras preciosas descendente de um cristão-novo escapado da Inquisição, alberga no interior, entre outros, o túmulo de Rubens e ostenta uma obra prodigiosa em mármore que inclui mais de uma vintena de altares. Há brasões lusitanos à vista, o túmulo de Diogo Duarte e, uma vez mais, uma história que as reminiscências materiais deste itinerário não contam por inteiro: o português ficou conhecido também como um grande coleccionador de arte, deixando um espólio de quase duas centenas de obras, incluindo pintura com as assinaturas de Bruegel, Durer, Van Dick, Rafael, Tintoretto e Ticiano.
Não foi o único: outros mercadores e feitores portugueses coleccionaram também obras de Dürer, pintor que fez amizade com alguns deles — na Galeria dos Ofícios, em Florença, conserva-se um quadro que é fruto dessa relação, La Negresse Khatarina, retrato de uma criada do feitor João Brandão. Por cá, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, podemos revisitar um pouco das boas memórias da feitoria portuguesa de Antuérpia e apreciar o São Jerónimo que Dürer terá oferecido a Rodrigo Fernandes de Almada. Foi há quase quinhentos anos, em 1521, pouco tempo depois de Thomas More ter visitado Antuérpia e ter encontrado um certo Rafael Hitlodeu.
Dos velhos cais à arte de Rubens
Haverá quem viaje até Antuérpia só por Rubens, como até Florença apenas pela Galeria dos Ofícios? Não é improvável. Mas se os Uffizzi e a cidade do Arno têm outros encantos, também à urbe de Rubens e de Van Dick não faltam seduções para viageiros de plurais interesses. Quanto às narrativas sobre o esplendor quinhentista das especiarias, a zona do porto antigo pode ser um atractivo: há curiosos percursos temáticos junto aos velhos cais disponibilizados por algumas agências locais. Visita incontornável nessas bandas: o museu MAS, que conta a riquíssima história do porto de Antuérpia.
Também na zona ribeirinha, à distância de uma breve caminhada a partir do Grote-Markt e de Notre Dame, há uma visita estimulante: o museu da Red Star Line, uma companhia de navegação fundada na segunda metade do século XIX. O espaço, utilizado outrora para o embarque de passageiros, é capaz de contar histórias assaz pertinentes: entre 1873 e 1934 a companhia transportou para o continente americano cerca de dois milhões de passageiros, a maioria emigrantes europeus em busca de vida melhor.
A propósito de museus, na rua Wapper fica a casa apalaçada onde viveu Rubens. Aí encontramos (tal como na catedral) um interessante acervo de obras do pintor, filho de presbiterianos e católico por opção. A fé deste prolífico mestre está aí testemunhada. Mas Peter Paul Rubens era um artista completo, era mais do que um crente temeroso de ameaças bíblicas: para uma apreciação de algumas das surpreendentes figurações eróticas na sua pintura é preciso ir até ao Museu Real de Belas Artes, ou um pouco mais longe, ao Mauritshuis, em Haia. Ou ao Museu do Prado, que conserva um magnífico Jardim do Paraíso, pintado a meias com Bruegel, o Velho, além do sedutor As Três Graças, assinado com o seu mais famoso discípulo, Van Dick.
Sardinha assada na Sint-Jansplein
A ágora, larga bastante para ser palanque de mercados populares, também dá pelo nome de Praça de São João e por lá podem soprar aromas culinários dos santos populares ou agitarem-se festejos de vitórias futebolísticas, como sucedeu recentemente.
E não é apenas gente lusa a que frequenta os cafés ou as padarias portuguesas — também os belgas se tornaram entusiastas da doçaria lusitana, sobretudo dos quase universalmente famosos pastéis de nata, iguaria muito estimada tanto em Antuérpia como em Bruxelas, onde a Pastelaria Garcia se tornou ponto de encontro dos apreciadores.
São à volta de cinco mil os portugueses residentes em Antuérpia, gente de várias gerações e diferentes vagas de emigração. A mais “antiga”, diz-nos Marília da Cunha, a viver na cidade há mais de cinquenta anos, “passa despercebida”, tal o enraizamento na cultura e sociedade locais, fenómeno que acredita ter maior expressão na comunidade portuguesa. As gerações migrantes mais recentes parecem estar mais concentradas nas actividades profissionais, menos sensíveis ao reencontro ou às trocas culturais, face ao pouco interesse que certos eventos despertam.
Noutros tempos, nos anos 1980, chegou a haver uma mais significativa actividade cultural — “havia jograis, teatro, festejava-se mais os santos populares”. Para o viajante contemporâneo, o comércio, representado por mercearias (bem) abastecidas de produtos lusitanos, acaba por ser, talvez, o sinal mais visível da actual presença portuguesa em Antuérpia.

António Marques Miguel . Utopia de Thomas More
            A UTOPIA
Thomas More (1478-1535), Sir e São
A obra “Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia”, conhecida  correntemente  por  A UTOPIA, elevou Thomas More a figura incontroversa da Renascença,  no duplo sentido de cultor das letras e defensor dos direitos civis.
A REPÚBLICA de Platão, apesar dos seus já dezanove séculos, foi decerto inspiradora do inglês, diplomata e Chanceler do Reino de Henrique VIII, pelo tema de filosofia política, que denuncia a injustiça da polis, recuperando More ainda algum ideário daquela e os modos de diálogo.
More, convicto cristão e servidor, acima de tudo, do seu Deus, que de si disse ser “ De família honrada, sem ser célebre”, teceu a obra com três intervenientes; ele próprio, o seu amigo Peter Gilles, de Antuérpia, e o marinheiro “ nascido em Portugal “  Rafael Hitlodeu, por aquele apresentado, porquanto “ Não existe na terra nenhum outro capaz de dar tão completos e interessantes pormenores acerca dos homens e das regiões desconhecidas ”.
Na trama moriana, o personagem narrador é o seu alter ego (PINA MARTINS, 2006), um marinheiro que acompanhou o navegador florentino Amerigo Vespucci nas suas viagens ao Novo Mundo. Na óbvia ficção, a escolha de Rafael, nome bíblico e da segunda caravela na viagem de Vasco da Gama à Índia, acrescido do apelido Hitlodeu, traduzível por “tagarela ”, espelha, e qualifica, as opções de Thomas More que teria conhecido os Itinerarium Portugalensium que narravam, com pormenores, aventuras extraordinárias de viagens e descoberta de novos povos.
More  eivado pelo desencanto da sua Europa, imagina que só no Novo Mundo, existirá um lugar de uma felicidade entre homens, organizado, a ilha dos utopianos, em nenhures, fazendo da Outopia (não-lugar) uma Eutopia, lugar feliz.
Thomas More que sempre serviu o seu Rei, suportando algumas contradições, tinha como seu amigo, o grande humanista e pedagogo Erasmo de Roterdão (1466-1536), visitavam-se nas suas respetivas cidades, sabendo-se que o Elogio da Loucura (1509), a importante obra reformista, crítica da sociedade da época, incluindo a Igreja, foi escrita e discutida entre ambos, em Londres.
Foi porém Peter Gilles, o seu primeiro grande conhecimento em Antuérpia, que tinha nas suas relações intelectuais e artistas, Guillame Budé, Lefèvre d’Étapes, Thierry Martens, Albrecht Dürer, entre outros, que lhe apresentou Erasmo e publicou a edição princeps de A UTOPIA (1516) com a supervisão deste.
A obra estrutura-se nos Livro I e Livro II, aparecendo, nas traduções, acrescida por algumas cartas do autor e de seus contemporâneos, e ainda do Alfabeto Utopiano que inclui Versos Sobre a Ilha da Utopia.
O Livro II , que, na feitura, teria sido o primeiro, é “uma descrição dessa ilha maravilhosa. Não omitais nenhum pormenor, peço-vos ”, assim More disse a Rafael, a que este respondeu “mas a narrativa é demorada.“ (…) “ Entrámos então em casa para jantar e voltámos depois ao jardim sentando-nos no mesmo banco. ” (…) ” Ele, ao ver a nossa curiosidade ávida e atenta, recolheu-se um instante em silenciosa meditação e começou nestes termos: (Livro II) – A ilha da Utopia tem dois mil passos na sua maior largura, …”.
Este Livro segundo, do modo de viver dos Utopianos, desenvolve-se em oito capítulos que vão da descrição física dos territórios, onde as suas cinquenta e quatro cidades são semelhantes (Amaurota é uma delas, sede do governo e do senado), ao último sobre as religiões praticadas; passando pelos magistrados/zelo pela justiça; o trabalho mínimo de seis horas, essencialmente na agricultura, que todos praticam; os deveres e direitos de família; da cidadania; das viagens que empreendem; da  distribuição de bens (não há propriedade privada) e da guerra.
Os mais aptos formam a elite culta, mas todos os cargos são eleitos. Escravos são os ladrões, ou os de comportamentos menores, mas não pelos seus progenitores, ou ainda inimigos de guerra apanhados com armas. Os casais conhecem-se obrigatoriamente nus e o adultério é reprovado com pesadas penas; aqui prevalece a moral cristã.
O Livro I desenvolve-se em diálogos, primeiro entre More e Pedro Gilles, depois com Rafael e ainda deste com um quarto personagem o “ eminentíssimo John Morton, cardeal-arcebispo da Cantuária e Chanceler de Inglaterra ”. 
Este Livro, pela pena de More aborda dois polémicos temas: a conveniência ou não da participação do filósofo no conselho aos príncipes e a punição (pena de morte) aplicada a ladrões em Inglaterra.
More pensa que os filósofos tinham a responsabilidade e o deviam fazer, de proporcionar ensinamentos sólidos, conselhos preciosos e assistir aos reis. Quanto aos ladrões, se houvesse condições iguais para todos não haveria pretexto para roubos.
“ Em primeiro lugar os príncipes preocupam-se apenas com a guerra: arte que me é desconhecida e que não tenho desejo algum de praticar. “
“A morte é, neste caso, o castigo injusto e inútil: demasiado cruel para punir o roubo e demasiado forte para o impedir. “
Estas são falas de Rafael, o marinheiro que lia grego e se “dedicou predominantemente à filosofia ” e não de Thomas More, como autor.
Mas algumas das “ suas contradições ” não invalidam a firmeza de convicções de que o grande exemplo foi recusar prestar juramento, nos termos do “ Decreto da Sucessão ” e do “Ato de Supremacia ”  - decorrente da união de Henrique VIII com Ana Bolena - por fidelidade à sua própria consciência e fé, o que lhe valeu, “ por clemência “  do já “ cabeça da Igreja de Inglaterra ”  a pena de “ simples decapitação ” em vez de “ ser suspenso pelo pescoço ” e cair em terra ainda vivo para ser “ esquartejado e decapitado.”
Foi este facto que o levou como mártir, à canonização pela Igreja Católica, em 9 de maio de 1935. Erasmo elogiou-o como homem “ cuja alma era mais pura do que qualquer neve.” Sir  já o era pelos feitos à coroa inglesa.
A história regista ainda a coragem de Thomas More, a sua ironia e bom humor, quando a caminho do patíbulo disse ao tenente da guarda ”Ajuda-me a subir com cuidado, que eu para baixo amanho-me sozinho ” e lá, puxou as barbas para o lado porque nunca tinham ofendido o Rei
Foi este humanista, inglês cristão, descrevendo o espaço de cidadania, a cidade com contornos físicos, que assumidamente escreveu há quase 1700 anos, a primeira e das mais belas utopias humanas (seguiu-se A Nova Atlântida  de Francis Bacon em 1627), idealizando o Homem restituído à sua dignidade, criticando a razão de Estado em nome dessas exigências, e ficcionou Rafael.
“ A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.“
Mas Thomas More bem entendia o ser humano, por isso ainda escreveu  “ Além disso, não estava seguro que ele (Rafael) fosse capaz de sofrer pacientemente a contradição”, a sua Utopia a continha, por isso humana, também retrato dele próprio.
Louvou as instituições criadas por Utopus, fundador da ilha, mas concluiu assim a sua obra: “ Desejo-o mais do que espero”.
Óscar Wilde disse que a cada janela aberta outra se oferecia, referia-se à utopia e escrevia então “ A alma do homem sob o socialismo.“
As utopias, fonte de alternativas, não são criticáveis, os utopismos, simples irrealismos, sim.
Novembro de 2012
António Marques Miguel                 
Bibliografia
A UTOPIA, Tomás Morus, Lisboa, Guimarães Editores, 9ª edição, 1994. Tradução de José Marinho, Notas e Postfácio de Pinharanda Gomes
VTOPIA ou A melhor forma de governo, Thomas Morvs, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2ª edição revista, 2009.  Tradução, com prefácio e notas de comentário de Aires A. Nascimento. Estudo introdutório de José V. de Pina Martins

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Parece que foi ontem



Não, não vivemos mais ao ritmo do tempo elíptico e sem história que lemos em Eça, no final d’Os Maias  «E esse ano passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, arvoredos murcharam. Outros anos passaram.», embora seja verdadeiro e bonito de se ler, na sequência dos seus paralelismos e contrastes, deixando antever que das pessoas felizes não reza a história ou que essas pessoas não contam, pois se trata de ficção.
Mas as pessoas reais também não contam, embora deixando marcas na convulsão dos dias. É o que mostra este artigo de Pedro Jordão, que nos traz lembranças aparentemente recentes, no mistério deste galgar do tempo tão próximo, e já soterrado nos escombros das violências que desses factos narrados foram consequência, e que estamos vivendo hoje, sem adivinharmos ainda os percursos que esta vertigem temporal nos vai trazer a seguir. Vivemos tudo isso que ele nos conta, lembramos a “primavera árabe”, o “imolado pelo fogo” e as suas consequências no desencadear do terrorismo, temos presente ainda a macacada da tenda onde Khadafi e os seus dormiam, em Oeiras, perto do forte de S. Julião, mas tudo isso são nadas que passaram, das caricaturas trágicas da vida. Pedro Jordão mostra no seu artigo as consequências da intervenção do Ocidente no Oriente petrolífero, a destruição de países e culturas, a criação do Estado Islâmico  aterrador, uma Europa a ser penetrada por gente que foge alucinada, e por gente que a quer em frangalhos. Uma lição para rever, enquanto por aqui andamos. No terror do amanhã para os nossos.
Primavera Árabe – o romantismo e o horror
Pedro Jordão
Público, 11/07/2016


Parece óbvio que devemos contribuir para a erradicação de regimes totalitários. É uma sensação romântica e generosa, porque acreditamos que o fim desses regimes traz inerentemente a paz, os direitos humanos, a liberdade. Mas o que devemos concluir se, derrubando tais regimes, abrirmos as portas a regimes muito mais opressores, mais sanguinários? Nesse caso contribuímos para um maior sofrimento dos povos. É esse o caso da Primavera Árabe. Do romantismo inicial da libertação passou-se a resultados que são de puro horror. E o Ocidente pode ter sido, designadamente nos casos da Síria e da Líbia, profundamente irresponsável.
Os regimes árabes sempre foram predominantemente autoritários. É algo quase estrutural em sociedades pulverizadas por fidelidades e ódios tribais que é difícil compatibilizar num mesmo país. No final de 2010, um vendedor de rua tunisino imolou-se pelo fogo, em protesto contra as arbitrariedades do estado, a falta de oportunidades e a falta de respeito por direitos humanos básicos. O que distinguiu aquele caso foi a rápida disseminação do drama pessoal através das omnipresentes redes sociais, gerando uma crescente adesão popular ao protesto, que em semanas alastrou a outros países do Norte de África e do Médio Oriente. Esta foi a fase romântica e nobre deste processo.
Rapidamente, regimes autocratas como os da Tunísia e do Egipto foram derrubados. Como em muitas situações no mundo, mudar pode ser fácil. Mas mudar apenas é sensato se se muda para melhor. Com a excepção da Tunísia, as novas realidades tornaram-se, afinal, muitíssimo mais brutais do que as anteriores. Egipto, Síria, Iraque e Iémen são disso exemplo. Vejamos os novos horrores que ajudámos a semear nos 5 anos do curso da “Primavera” Árabe.
Poucos meses após o início da contestação popular, o Ocidente “decidiu” que o presidente sírio, o médico oftalmologista que exerceu em Londres, Bashar al-Assad, teria que ser derrubado. O regime era duro e autocrata, mas as alternativas imediatas seriam muito piores, como escrevi nessa altura, tal como o referi sobre a Líbia. Foi o apoio ocidental que viabilizou rebeldes que destruíram o país e o futuro dos sírios. Vejamos o resultado desta pouco inteligente obstinação ocidental.
Na Síria alimentámos uma brutal guerra civil. Em consequência, morreram 400 mil pessoas. Mais de 11 milhões de sírios tiveram que abandonar as suas casas, incluindo mais de 4 milhões que abandonaram o país. Cerca de 10% destes procuraram fixar-se na Europa, gerando parte do problema europeu dos refugiados e dos milhares que morreram afogados no Mediterrâneo. Mais de 13 milhões de pessoas carecem de apoio humanitário na Síria, incluindo 400 mil em locais onde essa ajuda não consegue chegar. O país, que era um dos mais desenvolvidos e modernos da região, está em ruínas. Metade das cidades está arrasada. Antiguidades deslumbrantes, e para sempre insubstituíveis na herança da Humanidade, foram destruídas. Dois anos após o início desta guerra civil síria foi aí formado o “Estado Islâmico”, cujo legado conhecemos nos atentados em todo o mundo, na decapitação massiva de seres humanos, na queima de pessoas regadas com gasolina dentro de jaulas em frente de público. Os mesmos repetem estes horrores no Iraque, onde a população Yazidi é sujeita a um genocídio. Mulheres não islâmicas são raptadas para serem violadas porque os islamitas acreditam que assim as tornam muçulmanas. Populações femininas de povoações inteiras foram escravizadas e vendidas como escravas sexuais. Apesar do totalitarismo de Assad todo este cenário é brutalmente pior. A “Primavera” de que acabámos por ser co-autores tornou-se num horror que marcará gerações de sírios.
Sou, desde sempre, um apoiante da NATO, mas considero uma aberração que esta tenha operado militarmente na Líbia para derrubar Khadafi. Este, um personagem repugnante, foi, no passado, um motor do terrorismo internacional até que os americanos bombardearam a Líbia. A partir desse momento, Khadafi tornou-se progressivamente num dos principais aliados muçulmanos na luta ocidental contra o terrorismo e o radicalismo islâmico. Khadafi tornou-se num aliado da NATO. Foi recebido e visitado por chefes de estado e governantes europeus de primeira linha. Mas, subitamente, ele é atacado, sem convincente justificação. Por que motivo um dos seus aliados europeus, o presidente francês Sarkozy, pareceu tão empenhado em derrubá-lo? Este foi um outro grande erro do Ocidente. Khadafi desapareceu mas no lugar da Líbia aliada na luta antiterrorista agora temos um país controlado por terroristas e bárbaros islamitas, distribuídos por 500 milícias registadas num país sem lei, uma anarquia total para onde o Estado Islâmico pode vir a transferir a sua “capital” e em cujas praias mediterrânicas se fazem massivas decapitações.
Dificilmente se vislumbra uma “primavera” nesta convulsão brutal. A maioria dos países em causa encontra-se em situações perante as quais, em comparação, os autoritários regimes anteriores pareceriam um quase paraíso.