sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Reconstituição em alegoria



Pobre da esposa de Durão Barroso, que um dia se lembrou do cherne para caracterizar o marido! Mal ela sabia que a imagem explodiria, usada e troçada pelos nossos concidadãos numa malquerença que não sei bem se não conterá o seu quê do habitual mau espírito de  inveja que corrói a alma humana em geral. Afinal, tantos há que, igualmente ambiciosos, conquistaram poder por meio de truques menos honestos, useiros e vezeiros em seguir as vias sinuosas, mais ou menos obscuras da saliência pública. Durão Barroso não apresenta obra escrita – sigo a biografia da Internet – mas é um político extremamente medalhado, não tenho dúvida de que por competência própria, de homem ambicioso e hábil, que provavelmente trabalha para a sua visibilidade, e isso não me parece crime. Realmente, fomos assistindo a uma contínua ascensão externa, que, se tivesse ficado no seu país, talvez não viesse a obter, manietado pelo clima de desordem e desrespeito em que neste país se vive, que os sindicatos promovem junto dum povo pouco esclarecido e presa fácil do linguajar de violência reivindicativa sempre pródiga nos direitos próprios, sempre omissa nos deveres para com a pátria. Como Paulo Mendes Pinto, eu também não conheço Durão Barroso, a não ser nas imagens que lembro da sua participação pública, a mais positiva sendo a do apoio que deu ao governo de Passos Coelho, considerando a obrigatoriedade de se pagarem as dívidas, por injustas que fossem certas imposições da Europa credora e mais exigente com aqueles que considera menos eficientes no trabalho. Mas a alegoria do cherne a viver dos destroços alheios acho-a severa demais aplicada a Durão Barroso, responsabilizando-o pelos destroços em que deixou a Europa e indiferente às opiniões que o condenam. Se foi convidado para a Goldman Sachs Internacional, deve ser porque lhe reconheceram competência, e talvez isso não cause muito mal no mundo, tirando o vencimento que será excessivo, na opinião de muitos, mas não mais do que outros vencimentos – ou nem sequer isso - igualmente excessivos dos absurdos contrastes que existem neste mundo de disparidades gritantes. Talvez desejássemos que Durão Barroso recuasse a um cargo de menos projecção, como esse seu de professor universitário, ou até que se tornasse um infeliz coitadinho, como o pobre Alberto Caeiro do poema XXVIII das nossas próprias lágrimas de impotência. E ele não vai nisso.

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...         Alberto Caeiro, Poema XXVIII

“Sigamos o cherne”! ou a ecologia do fim da Europa
Paulo Mendes Pinto
Público: 26/07/2016
Corria o mês de Março de 2002, quando, no final da campanha eleitoral, Margarida de Sousa Uva brindava o universo das imagens políticas com uma comparação que não mais largaria Durão Barroso. “O Zé Manel, se fosse peixe, era um cherne”, dizia a esposa do futuro Primeiro-Ministro, dando ao marido uma aura de buscador de sonhos, de líder que é seguido, usando para isso o poema “Sigamos o cherne” de Alexandre O’Neill. Ora, a imagem já antiga que num comício tanto nos fez rir volta a ser actual e, quem sabe, com uma profundidade que quem a proferiu nunca imaginou possível. De facto, a imagem do cherne ganha cada vez mais sentido. Ora, seguindo a caracterização do site “Mar de Portugal” da Ciência Viva, descobrimos o seguinte sobre o cherne:
“Os juvenis formam cardumes e encontram-se junto a objectos flutuantes, enquanto os adultos são solitários, podendo ser observados em grutas ou em destroços.”   
 Toda a imagem, numa verdadeira poética de vida, está muito bem resumida nesta definição. Se “os juvenis formam cardumes”, tal como aconteceu nas militâncias depois abandonadas dos anos pós-25 de Abril, “os adultos são solitários”, o que facilmente se pode perceber de alguém que virou costas ao colectivo do seu partido e da sua nação para abraçar um cargo europeu, abandonando o governo, fazendo aquilo que pouco tempo antes António Guterres recusara fazer.
Mas mais... Se os últimos desenvolvimentos com o novo emprego apenas mostram a continuação desse desígnio do ser-se solitário, aparentando pensar-se apenas na sobrevivência individual, onde os colectivos e as naturezas dos cargos e funções parecem nada significar, a não ser mais um ponto no currículo, o final da definição do Ciência Viva ajuda-nos a entrar por uma porta estrondosa na questão ecológica do cherne: “podendo ser observados em grutas ou em destroços”...
 É exactamente a forma como podemos duplamente caracterizar a herança de Durão Barroso. Dois “destroços” são o motor da sua acção. Por um lado, o destroço em que deixou a Europa com a sua direcção da Comissão Europeia, uma União sem rumo nem projecto, a que se junta a sua inigualável participação, em bicos de pés, na célebre Cimeira das Lajes onde se deu corpo a uma das mais odiosas mentiras contemporâneas. Por outro lado, os “destroços” que são verdadeiramente vampirizados por empresas como aquela para quem agora Durão Barroso trabalha, entidades que somaram fortunas loucas com a desgraça em que a Europa caiu, com a crise, com os problemas de défice, com o "Brexit", agora – tudo aspectos conjunturais onde Barroso foi actor central...
Tal como o cherne, que pode viver 80 anos, José Manuel Durão Barroso tem uma vida política longa. Mas uma vida política que consegue não distinguir aquilo que tão bem Marcelo Rebelo de Sousa soube, ironicamente, chamar pelo nome: Durão Barroso atingiu “o topo da vida empresarial”.
E nada há de mal em ser-se empresário. O mal está em não se saber, ecologicamente, que os constrangimentos de uns impedem a salubridade das acções dos outros. Sim, porque, infelizmente, todos bebemos do descrédito que é lançado pela Europa, pelas suas instituições, pela noção de política, quando um cherne decide viver de destroços dos outros. A questão é verdadeiramente ecológica. O tal Durão Barroso apenas parece ter-se esquecido que o seu lugar seria o do Homem de Estado, não o empresário. Era isso que era esperado de quem foi primeiro-ministro e presidente da Comissão Europeia. A valorização da causa pública, da vida da Res publica, precisava que um indivíduo como ele percebesse, sem que fosse preciso explicar-lhe, que há uma coisa a que se chama dignidade. E a “dignidade” não é a dele, é a dos cargos que ocupou representando-nos.
Mas, claramente, nada há a fazer. O processo de contratação foi longo, como se sabe, e Durão Barroso teve muito tempo para pensar e reflectir. Tomou uma decisão digna de um cherne. Solitário, escondido nos destroços de que se alimenta, falou-nos em universidades, em conferências e disse não ser candidato presidencial; afinal, era para a Goldman Sachs que tudo já se alinhava.
Simplesmente, tenho vergonha. Mas tenho o orgulho de nunca o ter conhecido.
Professor na Universidade Lusófona

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Está no hino



No hino francês também. A nossa predisposição para gritar às armas. Mas o hino espanhol não tem esse apelo. É mais ao trabalho e à paz, específico de uma continuidade forjadora de  cidadãos, dedicados fortemente ao seu país, oxalá assim seja, nos tempos que decorrem, os partidos a não se entenderem, o que parece que não causa transtorno, eles lá vão de braços alçados a prosseguir no triunfo de uma grande pátria que supo seguir sobre el azul del mar el caminar del sol.

Viva España!
Viva España!
Alzad los brazos hijos del pueblo español
Que vuelve a resurgir
Gloria a la patria que supo seguir
Sobre el azul del mar el caminar del sol (bis)
¡Triunfa España!
Los yunques y las ruedas cantan al compás
Del himno de la fe (bis)
Juntos con ellos cantemos de pie
La vida nueva y fuerte del trabajo y paz (bis)
¡Viva España!
Alzad los brazos hijos del pueblo español
Que vuelve a resurgir(bis)
Gloria a la patria que supo seguir
Sobre el azul del mar el caminar del sol (bis)

Como muito bem informa António Barreto, o nosso caminho é outro. Tudo numa abstracção perdida nas brumas da memória, numa gritaria de apelo insensato, não de auto-estímulo esforçado para o trabalho e a responsabilidade. O artigo de António Barreto é muito justo muito apropriado, muito inútil. Aqui fica, mesmo depois de não se terem verificado tais desastres, por enquanto, suspensos. Até ver:

Às armas!
António Barreto
DN, 17/7/16    «SEM EMENDA)
Aqui estamos, mais uma vez, a bramar "às armas!". Como sempre. Como noutros séculos. Quando os portugueses, alguns portugueses, não encontram desculpas para as suas asneiras, recorrem ao patriotismo. Quando os governantes não sabem resolver os problemas que herdaram ou criaram, entoam hinos. Quando os dirigentes querem escapar, atribuem as responsabilidades ao inimigo externo. Mas sobretudo quando não têm meios nem razão, logo apontam o dedo a um perigo estrangeiro. Já foi a Espanha dos Filipes, já foi a Inglaterra dos piratas e já foi a França do terror e de Napoleão. Também já foram os americanos. E os comunistas, russos de preferência. Já foi o petróleo e os dólares. Agora, são os europeus. Os de Bruxelas, em geral. Os da Alemanha, em particular. Os da direita, da banca e das finanças, mas estrangeiros. São eles os responsáveis pelas nossas dívidas, os causadores das nossas perdas, os obreiros da nossa crise e os culpados das nossas dificuldades!
Em vez de procurar valorizar o que temos, de aproveitar o que sabemos e de organizar a economia; em vez de investir, de diminuir o desperdício e de fazer obra útil; em vez de apenas gastar o que temos, de atrair investimento externo e de trabalhar e poupar; em vez de estudar, de nos governarmos com mais sabedoria e de fazer com que o Estado respeite os cidadãos, em vez disso, procuram as autoridades comover os sentimentos, confundir os espíritos e mobilizar contra alguém, o inimigo, o adversário, a ficção dos que querem mandar em nós, a invenção dos que não respeitam os portugueses e a fantasia dos que não honram uma nação com oito séculos de história!
António Costa, o seu governo e os partidos que o apoiam estão envolvidos num processo perigoso que vai acabar mal. Desencadearam uma guerra contra a União. Atiraram-se à Europa. Batem o pé, como gostam de dizer. Levantam a voz ou falam com voz grossa, como prometem em comícios vulgares. Não aceitam a chantagem europeia, declaram em tom marialva. Não estão cá para obedecer à Europa! Garantem que em Portugal são os portugueses que mandam e não aceitam lições de ninguém!
O governo recusa mostrar à Comissão um rascunho de orçamento que, aliás, ninguém lhe pediu! Insiste em gastar e distribuir. Não corta na despesa. Contraria a Espanha e o Reino Unido. Critica a Alemanha. Procura aliados na extrema-esquerda, coisa pouca. O governo não tem meios, nem força interna, nem aliados externos que lhe permitam esta espécie de baroud d"honneur, o último combate de uma guerra perdida! De luta simbólica para dar o exemplo. De sacrifício que faça um mártir e nos transforme em heróis! Portugal não tem riqueza, nem recursos, nem capacidade para, sozinho, contrariar as regras da economia europeia e mundial, obter os créditos de que necessita, conseguir os investimentos de que carece. Não se deve cantar mais alto do que a sua garganta. Nem dar passos maiores do que os seus pés. Muito menos cantar de galo, quando não se tem voz nem poleiro. António Costa e o governo estão a preparar-se para desencadear uma luta para a qual não têm meios nem força. E nem sequer razão.
É claro que a União Europeia está em apuros e não sabe qual é o seu destino. Há anos que se espera pela crise em que vivemos hoje. A União Europeia está à beira de morrer na praia, como diz o lugar-comum. Foi longe de mais e não foi suficientemente longe. Não é equitativa, distingue entre grandes e pequenos. Não é justa, só castiga os fracos. Não é igualitária, segue as directivas alemãs. Longe de mais para dar paz e democracia. De menos para a segurança e a disciplina.

Mas nada justifica que o governo português invente uma guerra contra a União. Será sempre uma guerra contra si próprio.

“Ficam muito feios”.



Estávamos nas conversas banais das saúdes, nossas e dos amigos, embora com parcimónia, pois, tal como o ratinho pobre da aldeia, que recebe o primo rico da cidade com o esbanjamento da humildade que dissimula as suas penúrias, na versão admiravelmente dinâmica e visualizadora do nosso Sá de Miranda,  – “Dá mil voltas o coitado / Que não põe os pés no chão “ e “Mostra bom rosto á despesa. /Vem o outro e dissimula.” Ou estoutra: “ Estoutro pondo lhe a mezinha, / Mesura quando ia e vinha, / Deu lhe tudo quanto tinha, / Pede perdão por costume.” - também nós vamos discretamente engolindo mazelas para não atrair o mau olhado de outras mazelas piores.
A dada altura, falou-se de calvícies que, em minha opinião, dão certo brilho às personalidades masculinas, pois tenho reparado que as calvas profundas aparecem mais nos homens de ar poderoso, empunhadas como distintivo de classe, em todo o seu esplendor de cabeças sem o artefacto usual dos cabelos. E logo me surpreendeu a frase que a nossa amiga disparou, os seus gestos amplos acompanhando o sonoro do dito:
- Os homens, mal lhes começam a cair os cabelos, eh pá! Rapam-me os cabelos e aparecem aquelas cabeças a brilhar. Ficam muito feios.
 Desatámos a rir e nem pude exprimir a minha opinião admirativa das calvas sugestivas de bem-estar e poder. De resto, já tinha reparado na moda das calvícies, reais ou provocadas, e recordarei sempre a canção da nossa mocidade “É dos carecas que elas gostam mais”, que contraponho às palavras da nossa amiga, já dispersa noutros temas da sua facúndia oral e gestual: - “Eles estão a anunciar um aumento de temperatura”, o que nos lançou na tragédia do aquecimento, a acrescentar às dos Erdogans pró Ocidente, fabricando, talvez, atentados para eliminar focos  perigosos de refractários ao seu poder -  o que poderá trazer alianças daquele com a Rússia, catastróficas para a estabilidade ocidental, já tão precária, ao que se diz. Soma e segue, nosso hábito.