domingo, 28 de agosto de 2016

Y asi nos va


E os jornais que a minha irmã me traz vão-se acumulando, na premência dos afazeres ou de outras leituras, e descubro agora, já antigo, este, com o artigo já sublinhado por ela. Pouco tenho a dizer, na anuência de opinião com a dum jovem, João Miguel Tavares, que não enfileira no grupo oportunista, como já tantos passaram ao longo destes anos de “liberdade” e agora têm a oportunidade de se exibirem novamente, descendentes da geração antiga, ou novamente estreitados, para não deixarem passar a ocasião de relembrar... E insistir. Um artigo que desejo guardar, auscultador de uma sociedade de grande penúria, que se entretém a alardear excitações, mais do que reais convicções, fundamentadas em argumentos de ombridade e solidez - quais rãs da fábula, inchando, a aspirar ao tamanho do boi...
Patriotismo? Tenham vergonha
Público, 7/07/2016
Já ouvem ao longe as trombetas? Neste momento, a luta contra as sanções não é apenas um combate político – é um desígnio patriótico ao nível do ultimato inglês de 1890. É a dignidade de Portugal que está em causa! É a obrigação de reagirmos à chantagem europeia! É a necessidade de defendermos a alma lusitana e o espírito de Viriato! Vocês lembram-se do tempo em que o nacionalismo era coisa salazarenta e o patriotismo uma bandeira poeirenta do CDS? Esqueçam. O patriotismo está super-fashion e há um novo nacionalismo 2.0. O PCP, o Bloco de Esquerda e o próprio PS estão embriagados de nacional-patriotismo, e não é por causa do Europeu de futebol: é porque os alemães – ou melhor: os boches – querem impor a todo o custo a ditadura da austeridade. Em 1890 cantava-se pelas ruas “contra os bretões, marchar, marchar”. Com o advento da República passou a cantar-se “contra os canhões, marchar, marchar”. Chegou a hora de uma nova e imprescindível actualização: “contra os teutões, marchar, marchar”.   
O secretário-geral do PCP pede ao Governo “brio patriótico” para informar Wolfgang Schäuble que “no seu país manda ele, mas aqui mandam os portugueses”. O Bloco garante que se as sanções forem para a frente ele lança contra a Europa a sua mais recente canhoneira: o referendo-a-não-se-sabe-bem-o-quê. Já no final do ano passado, o Bloco discutia num dos seus fóruns a candente questão: “A esquerda deve ser patriótica?” Luís Fazenda mostrava o caminho: “Há um nacionalismo progressivo e um nacionalismo reaccionário. Nós somos do campo do nacionalismo progressista.” Viva, pois, o nacionalismo progressista, que o PS tem vindo a adoptar com entusiasmo crescente, cumprindo mais uma das suas promessas eleitorais: ser, nas palavras de António Costa, “o campeão do patriotismo na Europa”.
A coisa funciona assim: quanto mais a Europa se desconvence da sanidade mental dos planos económicos de Mário Centeno, mais o fervor patriótico toma conta do Partido Socialista. Por cada mapa Excel que se afunda há uma bandeira verde-rubra que se ergue. Pelas ruas, estão plantados cartazes onde os socialistas prometem “defender Portugal na Europa” e a destacada Ana Catarina Mendes elogia a “voz grossa” do Governo e do PS. Os agudos de Pedro Passos Coelho foram substituídos pelos baixos profundos de António Costa.
Por favor, alguém informe os nacionalistas progressistas e os campeões do patriotismo da figura ridícula que estão a fazer. Não por haver mal algum em defender os interesses de um país – acho óptimo –, mas porque o único interesse que a esquerda está a defender é a sua sobrevivência política. Isto não é um patriotismo corajoso, de faca nos dentes. Isto é apenas um patriotismo dependente, de chucha na boca.

Eis a dura verdade: esta esquerda não tem qualquer projecto político plausível para o país que tanto diz amar. Aquilo a que chamam patriotismo é o eterno prolongamento do Portugal de mão estendida e incapaz de produzir o suficiente para sustentar o seu nível de vida. Patriotismo é tentar quebrar esse círculo vicioso. Patriotismo é trabalhar pelas reformas indispensáveis, é fazer sacrifícios por um país melhor, é lutar pela nossa independência financeira. Patriotismo não é berrar alto, a ver se nos voltam a encher a velha gamela. Dizem por aí que o bom aluno era demasiado subserviente. Já o aluno cábula, esse, é um grande patriota. Com uma mentalidade destas, só temos aquilo que muito patrioticamente merecemos.

sábado, 27 de agosto de 2016

O que não tem remédio…



Leio agora um texto antigo, um texto sério
Que não posso deixar de transcrever.
Recorda-me imagens que passaram
Tempos que se viveram
De maior sobriedade e exigência
- Apesar das fugas que se cometiam -
Pois sempre ilicitudes existiram
Num mundo onde antigos fabulistas
Usavam animais que exemplificavam
As tolices que os homens praticavam.
Fábulas  que, afinal, não resultaram
Com o aumento das prisões nem dos juristas
Ou sequer dos moralistas,
Que parece até que apresentam
Efeito contraproducente.
E aqui estamos nós a discutir
Se é lícito não pagarmos à Europa
Aquilo que a Europa confiante
Nos  emprestou em tempos de penúria.
Mas leio no Público outra notícia
Que prova que pagar
Para nós não é relevante:
«Multas, nos transportes, por cobrar
50 milhões  de euros ultrapassaram»
Não, não há solução
Quando falta educação
- Além da outra penúria -
 Na nossa idiossincrasia.
E, embora sem eficácia
 O texto de A. B., de impaciência,
Aqui está, com a minha concordância.

As dívidas da Pátria
António Barreto
DN, 10 /7/16, - «Sem emenda»

Já hoje sofremos sanções e não é pouco! Os juros que pagamos são superiores aos dos outros países. Os investimentos, nacionais e estrangeiros, caíram a pique. Continua a exportação de capitais para países mais seguros e bancos mais honestos. Nos mercados, o dinheiro para Portugal é escasso ou muito caro. Os credores internacionais têm dúvidas. Todas estas realidades têm nomes mais técnicos e suaves, mas são verdadeiras sanções. Parece que não chegam! Ainda são precisas mais!
Como é evidente, devemos pagar sanções. E ser punidos. É bom que assim seja. A impunidade é um defeito grave. Quem não faz o que deve tem de assumir as consequências. Em última análise, quem sofre com as sanções são os contribuintes. Sabemos isso. Por isso as sanções podem ser injustas. Mas são instrumentos necessários a pôr os políticos em ordem e a obrigá-los a ter disciplina. Sobretudo é o modo de informar os eleitores que os seus políticos governaram mal, tomaram decisões erradas, gastaram o que não é deles e não fizeram contas porque queriam ser eleitos. As sanções são uma condição necessária à formação de um juízo racional dos eleitores. Sem sanções, não há políticos a despedir, não há governantes indisciplinados a castigar, não há mentirosos a punir nem há demagogos a contrariar!
Distribuir o que não há, gastar a mais e não pagar dívidas merece castigo! Mentir nas contas, gerir mal e favorecer a corrupção deve ser punido! Decretadas pelas autoridades competentes, as sanções servem para tornar evidentes aos eleitores os erros e os defeitos dos seus políticos.
Por isso é confrangedor o actual debate sobre sanções, assim como a onda de patriotismo bacoco que o governo e os seus apoiantes fomentam. É ridículo declarar guerra à União Europeia e à Alemanha! É idiota invocar a pátria para aumentar a dívida! É infantil tentar camuflar os erros políticos sob as roupagens da dignidade nacional! O patriotismo sempre foi o refúgio dos demagogos, dos ditadores e dos aldrabões.
Estamos a chegar lentamente ao país dos crédulos: nós temos sempre razão, eles, nunca! Os debates parlamentares resumem-se a isto. Os fiéis de um culto só acreditam no seu sacerdote. Os simpatizantes de um partido só confiam nele. O pensamento é o do rebanho. Inteligência, informação, razão e rigor são dispensados. Estas semanas de futebol só vieram agravar os espíritos. O que importa é ganhar, nem que seja com a mão, dizia alguém na televisão. A lógica é a mesma. Com argumentos nacionalistas, que as esquerdas envergonhadas designam por patrióticos, com emoções patetas e com sentimentos totalmente deslocados, pretende-se manter aliados e iludir eleitores. Sendo que os apoiantes comunistas e bloquistas querem mais do que isso. Querem mesmo dar cabo do Euro, do Tratado Orçamental e desta União. Para o que esperam evidentemente pela cumplicidade pacóvia dos socialistas e pelos sentimentos patrióticos dos Portugueses vexados na sua dignidade nacional!
Verdade seja dita que os outros intervenientes não se portam melhor. O que faz com que seja difícil compreender o que realmente se passou e está em causa. Portugal infringiu ou não as regras? Quando? Por quanto? Quem foram os responsáveis? E os outros países da União? Esta trata todos da mesma maneira, como diz, ou com parcialidade, como parece? A União ainda não conseguiu demonstrar que, na questão dos défices, está a ser justa e equitativa. O PSD não provou que a sua gestão ficou abaixo do défice. O governo não conseguiu demonstrar que a sua actuação não agrava os défices. Chegámos ao ponto do inferno das emoções, próprio do patriotismo: o que fizemos é bem, porque fomos nós. O que eles fizeram é mau, porque foram eles. Ao que nós chegámos!
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Mas decididamente não penetram



Mais duas crónicas que encanta ler, de Alberto Gonçalves, um escritor habituado a “parar, olhar e escutar”, antes de transpor para a escrita os seus variados temas de reflexão, num estilo vigoroso, de frontalidade e graça crítica, e reveladores, simultaneamente, do seu equilíbrio moral. E as figuras da sua leitura e da nossa realidade aí vão perpassando, nos seus caprichos, nos seus ridículos, nos seus considerandos disparatados, ou de sugestões de concerto provando a futilidade e o vazio de pensamento – o caso da ministra Constança, do segundo texto, e a sua inverosímil proposta de castigo aos infractores das matas - e a adaptação da mesma pena, na sátira de Alberto Gonçalves, aos diversos incendiários governamentais, causadores da ruína do país. Ou o punhado de frases entusiásticas do primeiro texto, pronunciadas vezes sem conta aquando do acontecimento da nossa glória futebolística deste ano - demonstração da nossa exaltação petulante e parola a merecer as vergastadas do articulista.
Mas estamos na era dos “gosto”, como comentário facilitador da nossa inapetência para uma escrita mais raciocinada, as zurzidelas do comentarista não surtem efeito no retrocesso da nossa banalidade ou na penetração da nossa “crosta”.

Frases da semana
"Agora vejo que somos uma grande nação" (popular entrevistado pelas televisões após a vitória da selecção portuguesa sobre a selecção do País de Gales). Naturalmente. É sabido que os êxitos futebolísticos traduzem e inspiram as genéricas glórias de um país, e não vale a pena lembrar a felicidade que se abateu sobre a Grécia depois da conquista, em 2004, do exacto campeonato de que agora se fala. E do Brasil, campeão do mundo cinco vezes, nem é bom falar: a cada título, a prosperidade subia para níveis quase insuportáveis. Em abono da justiça, convém notar que não se trata de um predicado exclusivo da bola, já que os triunfos nas corridas também fizeram do Quénia o portento económico e social que se conhece.
"Somos milhões a festejar. Portugal está de parabéns. No Domingo gritaremos mais alto: Viva Portugal! #EURO2016 #POR" (António Costa no Twitter). Nunca um primeiro-ministro adoptara com tamanho vigor as chamadas "políticas de proximidade": atento aos assuntos verdadeiramente prioritários, o dr. Costa é indistinguível do cidadão que desabafa nas "redes sociais" ou no café, e que não perde uma transmissão do autocarro em Marcoussis. Só a quantidade e a qualidade dos clichés o distinguem e colocam entre os eleitos, ou, no caso, nem isso.
"Heróis do mar, nobre povo, nação valente etc." (locutores da bola no fim dos relatos). Além de constituir uma peça melódica e lírica superior, A Portuguesa cai sempre bem até em situações menos protocolares. De resto, está cientificamente provado que a sua interpretação emocionada em ocasiões sortidas e inesperadas consolida o nosso lugar muito acima das demais nações da Terra. Há que ter pena delas, coitadas. E esmagá-las nos relvados. Que importa sermos a vergonha da Europa a sério se somos o orgulho da de brincar?
"No Domingo cantaremos de galo" (trocadilho hilariante ouvido por aí). A ideia inicial passava por vencer a Alemanha na final e, assim, ridicularizar a sra. Merkel e arruinar os boches, esses presunçosos reticentes em patrocinar--nos a folia ad infinitum. Como a França já tratou disso (em dois dias, a sra. Merkel entrou em depressão e a miséria em Berlim atingiu dimensões dramáticas), cabe-nos esfrangalhar a França, porque acolheu os nossos compatriotas e isso, ao que parece, é uma afronta intolerável. Como diria o dr. Costa, Viva Portugal, o país que obrigou os nossos compatriotas a emigrar.
"Contas feitas, Portugal pode arrecadar neste Europeu 26 milhões" (jornalista não identificado). Calha bem: 26 milhões é justamente o montante que nos faltava para equilibrar o défice, colocar a dívida em ordem, recapitalizar a CGD, financiar uma dúzia de feiras medievais e repor os direitos adquiridos da função pública. É uma sorte, mas a sorte procura-se.
"Somos 11 milhões a acreditar" (quase 11 milhões de portugueses). Claro que a festa só é bonita se for totalitária e ninguém escapar ao fervor. Mas acho que os números pecam por excesso. Suspeito que, se procurarmos com afinco, encontraremos dois ou três vende-pátrias - além de Pedro Passos Coelho - nada empenhados no triunfo da selecção. No fundo, serão os mesmos dois ou três traidores - mais Pedro Passos Coelho - empenhados nas sanções de Bruxelas. É procurá-los, detê-los e, excepto se se encontrarem no rés-do-chão, defenestrá-los. Sem as doses adequadas de patriotismo transtornado, um indivíduo é capaz de tudo, inclusive "torcer" pela França ou contra o governo.
"Portugal vai ter neste ano um novo recorde de turistas" (ministro da Economia). Porquê? O clima melhorou? A temperatura do mar aqueceu? O peixe ganhou sabor? O património abatido ressuscitou? Cristiano Ronaldo será exibido numa montra em Albufeira? Que se saiba, não. Mas em que outro país do hemisfério norte os estrangeiros podem sintonizar os noticiários e contemplar um presidente especializado em dança, bola, obituários e assuntos de Estado em geral? E um primeiro-ministro que, esteja ou não num estádio francês, ri sem parar, talvez por aconselhar o povo a andar a pé ou a pedais (por causa da saúde) enquanto, indiferente ao próprio bem-estar, se desloca de Falcon? E um povo que, quando não insulta franceses, alemães, galeses, polacos ou croatas, recebe maravilhosamente e, de brinde, festeja nas ruas um futuro radioso?
"Estamos a viver um momento histórico" (transeunte alcoolizado na Praça do Marquês). Depois da longa noite "austeritária" e "neoliberal", já tínhamos saudades. No tempo do eng. Sócrates, vivíamos momentos históricos com regularidade diária. O homem inaugurava uma fábrica de alfinetes autossustentável com o dinheiro dos contribuintes e, pimba, havia momento histórico. O homem assinava um protocolo com um torcionário qualquer e, pumba, havia momento histórico. O homem espirrava e, atchim, havia momento histórico. A coisa chegou a tal ponto que se tornava complicado distinguir o que era realidade e o que era história. Hoje, graças à selecção, ao governo, ao presidente, aos Falcon e a este prodigioso país, pode ser dia de história. A realidade que espere.

Os malucos
Alberto Gonçalves
DN, 21/(/16
Encerrado o "rescaldo" dos incêndios, é tempo de fazer o "rescaldo" das declarações da ministra da Administração Interna sobre os incêndios. Antes de mais, coloco a hipótese de as declarações em causa terem sido realizadas sob coacção psicológica ou ameaça de arma, factores que justificariam a radical imbecilidade das mesmas. Nesse caso, peço antecipadamente desculpa à sra. ministra por tudo o que se segue.
Enquanto o país ardia, uma revista "cor-de-rosa" fotografou a sra. ministra a passear o glamour inato numa festa algarvia ou similar. Embora as proverbiais más línguas se apressassem a condenar a dra. Constança, é inegável que, divertida e calada, esse foi o melhor momento dela nesta história. Depois, a sra. ministra cedeu às pressões populares, regressou a Lisboa e desatou a dizer coisas.
A primeira coisa que disse consistiu em lamentar a falta de solidariedade europeia no combate aos fogos. Trata-se de uma reacção representativa das principais qualidades socialistas (e, é chato acrescentar, portuguesas): perante qualquer contrariedade, procuram instintiva e alucinadamente arranjar um bode expiatório que os isente de obrigações. Para a sra. ministra, o problema não são os incêndios, mas naturalmente as maçadas que os incêndios lhe podem suscitar. Já basta o que basta, leia-se as férias interrompidas.
A segunda coisa que a sra. ministra disse passou por defender a "utilização comunitária" dos terrenos florestais abandonados, o que nas entrelinhas significa roubá-los aos donos em proveito das autarquias, que cuidariam da sua gestão e exploração: "É uma ideia que deve ser bem ponderada, bem reflectida e penso que muito útil." Se ponderarmos bem, é claro que as autarquias, esses paradigmas do rigor, seriam capazes de aproveitar as desprezadas áreas em questão para magníficas rotundas, magníficos pavilhões "multiusos" ou, com jeito, um daqueles magníficos projectos financiados pelos "fundos" e de serventia nula (na minha terra adoptiva, há um spa sem clientes que custou uma fortuna e está um primor). Se reflectirmos bem, é claro que a sugestão ajudaria a um enorme avanço na luta contra os incêndios, perdão, a propriedade privada que tanto consome as matas, perdão, a alma dos socialistas. Muito útil seria a sra. ministra não pensar de todo. E, quanto a punir o abandono de territórios, convinha notar os exemplos dos membros do governo e do PR em pessoa, quase permanentemente em França, no Brasil, na Índia ou onde calha a fim de "apoiar a selecção", "apoiar a delegação" e outros propósitos vitais: não se pode trespassar Portugal para estadistas a sério?
A terceira coisa que a sra. ministra disse define, digamos, um estilo e merece integrar um compêndio restrito dos Grandes Desígnios da História da Humanidade: a dra. Constança quer que os incendiários sejam responsabilizados civilmente além de criminalmente, isto é, que paguem o prejuízo. A sra. ministra está imparável, ou, no jargão americano e sem trocadilhos, "is on fire". De acordo com um psicólogo citado na imprensa, eis o perfil do incendiário-padrão: "Baixo nível educacional e de qualificação profissional, habitante em zona rural, consumidor de álcool, com atraso cognitivo e patologias do foro mental." Bate certo. Não é necessário o anunciado, e assaz democrático, acesso aos dados bancários dos cidadãos para constatar que um alcoólico retardado do interior, sem estudos e provavelmente sem emprego, é criatura de vastos recursos financeiros. Mal se apaguem as chamas nos 200 hectares, uma comissão de avaliação enumera os danos e o tolinho tem 15 dias para efectuar o respectivo pagamento, mediante cheque na conservatória do registo predial ou por transferência no multibanco. O Estado inicia o processo de reconstrução, com investimento público adicional e criação de emprego, e o povo festeja nas ruas. Assunto encerrado.
A ideia é tão boa que deveria ser alargada à própria esfera governamental, na qual indivíduos demasiado incompetentes e nocivos seriam responsabilizados criminal e civilmente pelos estragos cometidos. É evidente que os senhores que nos tutelam não possuem a disponibilidade orçamental do típico maluquinho da aldeia. Em contrapartida, os estragos, no bom senso, na economia e no que calha, são imensamente maiores - e, até a julgar pelas sondagens, o castigo nenhum. Quem é maluco, quem é?
Sexta-feira, 19 de Agosto
O recurso à diplomacia
Os filhos do embaixador do Iraque que, em Ponte de Sor, espancaram um rapaz quase até à morte não possuem apenas imunidade diplomática: aparentemente possuem também imunidade noticiosa. Houve pelo menos um canal televisivo que tratou o caso sem sequer referir a origem dos agressores. Se a ideia era evitar críticas preconceituosas, acho bem. Acolher os representantes oficiais de nações amigas é compreender os respectivos costumes. Alguém condenaria os filhos do embaixador americano por organizarem uma partida de softball com colegas? Ou os filhos do embaixador cabo-verdiano por participarem numa sessão de mornas? Cada um diverte-se como sabe e pode. São as diferenças culturais que fazem do mundo um lugar lindo. E o respeito pelas diferenças torna-o ainda mais bonito.