quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quais harpias


Um artigo que, sob uma aparência brincalhona, que, naturalmente faz inchar de empáfia os visados, alerta para um grave problema de “dilapidação” social, pela proposta indecorosa de duas vedetas públicas, quais harpias sugando as carnes, em jeito de destruição acéfala e vingadora.
Creio que, ao invés de alertar a sociedade para os males que elas e eles provocam, o artigo de Miguel Pinto Luz faz sorrir de complacência uma nação onde a corrupção dos hábeis provoca a  inveja dos inábeis, em maioria, que, ao sentir-se lesada, põe no mesmo saco os que enriqueceram fraudulentamente, ignorando os casos de enriquecimento pelo trabalho e poupança,  ou herança, e com isso originando a tal massificação social torpe e desonesta que as harpias protegem, incansáveis aves de rapina agoireiras e perniciosas.
O artigo de Miguel Pinto Luz é um alerta, na apatia geral de uma nação não laboriosa que se deixa bestificar. Vandalizar.

Catarina e Mariana, a quanto obrigam
MIGUEL PINTO LUZ, Gestor, vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais
Público, 29/09/2016

Vivemos hoje numa sociedade de aparências, onde todos querem ser ou parecer aquilo que não são. Costa quer parecer de extrema-esquerda quando é socialista. Catarina quer parecer Primeira-ministra quando é coordenadora de um pequeno partido de extrema-esquerda. Mariana quer ser Ministra das Finanças quando é simplesmente deputada. Centeno quer parecer Ministro, mas não consegue.
Imagine o leitor como seriam os diálogos entre estes personagens. Já estou a ver uma reunião de despacho da Ministra Mariana com o seu secretário de estado Centeno:
Mariana: - Mário, pedia-te que elaborasses uma proposta legislativa no sentido de tributar sem excepção tudo o que se assemelhe a rico, capitalista, empreendedor, empresário ou betinho da linha.
Centeno: - Mas Sra. Ministra, em Harvard aprendi que isso pode afastar ainda mais investidores nacionais e estrangeiros da nossa economia…
Mariana: - Mário, Mário… quantas vezes tenho de repetir que se queres continuar a governar tens de perder a vergonha e abrir os teus horizontes às forças progressistas e anticapitalistas?
É com mágoa que o digo, mas neste jogo do empurra e faz-de-conta, o Partido Socialista, a troco da manutenção de um poder efémero e penalizador do futuro do nosso país, entregou de bandeja e de forma subserviente o Governo da nação ao Bloco de Esquerda. Sim, de facto hoje somos governados por um governo de extrema-esquerda, e os sinais estão todos lá. Vivemos naquilo a que eu chamo de um “PREC com Maldade”.
Sim, com maldade pois assistimos a uma perseguição, sem quartel, sem critério, sem sequer um pingo de vergonha, aos que ajudaram a construir a nossa economia, aos que empreenderam, aos que assumiram riscos e conquistaram por mérito o seu lugar. Ao contrário do que Mariana nos tenta dizer, no seu estilo agressivo e sobranceiro, com as suas propostas estamos a atacar a nossa classe média e a hipotecar o nosso futuro.
Com maldade porque há 40 anos vínhamos de uma ditadura, de uma guerra e de uma descolonização, onde a fractura ideológica era genuína e não artificial e preconceituosa como hoje.
Com maldade, porque nos mentem todos os dias, dizendo que estamos no bom caminho.
Com maldade porque fazem tudo isto com um sorriso nos lábios.
Com maldade porque esquecem os nossos filhos, os nossos netos o nosso futuro.
Com maldade porque não encontro outro argumento racional para em pleno século XXI se adopte uma dialéctica do século XIX, divisionista e maniqueísta, que só divide a sociedade portuguesa que há 40 anos se reconciliou e encontrou um modelo de democracia moderna e livre.
Mas a pergunta que tenho feito ao longo dos últimos meses, e que verdadeiramente me intriga, é outra: porque não ouvimos uma contestação clara e inequívoca a estas opções? O que justifica este silêncio ensurdecedor? A resposta é tão cruel quanto o PREC em curso: as nossas elites falharam. Da política às empresas, passando pela banca, os media ou pela academia. Todos tem a sua quota parte de responsabilidades. Remetem-se ao silêncio porque falharam no plano ético, no plano moral e no plano social. Os seus telhados de vidro são hoje tão finos e transparentes que das gerações de ouro de gestores, políticos, banqueiros do fim do século passado, são poucos os que hoje sobram à frente de grandes empresas, bancos ou partidos.
Para calar o silêncio, precisamos de novas elites, novos protagonistas. Gente com capital social suficiente para, sem preconceitos, dogmas ou quaisquer esqueletos no armário, poder recentrar o debate na pessoa humana, na construção de uma sociedade mais justa e mais próspera. Hoje falamos de pessoas mais educadas, mais conscientes do mundo em seu redor, mais autónomas, mais sonhadoras, mais ambiciosas, mais empreendedoras, mais envolvidas no projecto de felicidade colectivo. Eu quero viver num país que não aponta o dedo a quem poupou numa vida de trabalho, a quem se destacou pelo seu mérito e é premiado. Eu quero viver onde o valor da liberdade de escolha se sobreponha a penalização social, onde as mulheres tenham, de facto, tantos direitos como os homens, onde as minorias se façam ouvir e onde possamos garantir aos nossos filhos um futuro. Neste País não seremos todos mais pobres, neste país podemos ser todos mais ricos.

https://s.publico.pt/NOTICIA/1745515 https://s.publico.pt/governo/1745515 https://s.publico.pt/ps/1745515 https://s.publico.pt/politica/1745515 https://s.publico.pt/opiniao/1745515 https://s.publico.pt/bloco-de-esquerda/1745515 https://s.publico.pt/mariana-mortagua/1745515 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Não há como ser-se bom

Chamou-me a atenção o título, que me pareceu de intenção sardónica, e li o texto de Pires de Lima. Na mesma página vinha a entrevista a György Schöpflin, do partido do referido primeiro Ministro húngaro, Viktor Orbán, e copiei-o, visto não aparecer na Internet, no agrado pelas respostas de Schöpflin. Mas na Internet encontrei também esclarecimentos úteis para a percepção do caso, entre nós pouco debatido, absortos que andamos nas intrigas económicas ou nos golos dos clubes, e acrescentei-o ao texto.
Pouco percebo do assunto, a minha reacção é puramente subjectiva, mas como me pareceu tendencioso o artigo de Pires de Lima, servi-me dos outros dois textos para me esclarecer e concordar com Orbán e  Schöpflin. Julgo que é um problema difícil de resolver, a guerra no Médio Oriente não dando sinais de travar, mas Schöpflin tem razão ao afirmar que outros países não europeus poderiam ser receptáculo de migrantes, a pequena Europa não podendo, sozinha, comportar  tais avalanches, de gentes com intenções várias. Transponho o “grito” final do último texto, com plena adesão: "Os migrantes inundam-nos. Não batem à nossa porta, eles afundam-nos".
Mas  não penso como o investigador universitário Bernardo Pires de Lima, que me parece integrar-se na onda optimista de uma esquerda que abre cristãmente os braços a todos os carenciados, porque não tem responsabilidades na luta pela côdea, nem mede as consequências das suas propostas “laracheiras”, de facto sobretudo interessada na difusão do seu verbo monocórdico, de uma solidariedade “para inglês ver” :

Filhos de Putin
Bernardo Pires de Lima, investigador universitário
DN, 2/10/116

Fez agora um ano que a UE aprovou um sistema de quotas para a recolocação de 150 mil refugiados (em 500 milhões de habitantes) que fugiam das guerras civis mediterrânicas. Alguns Estados membros, como a Hungria, a Eslováquia e a Polónia, nunca aceitaram que uma decisão comunitária prevalecesse sobre a sua esfera nacional e foram bloqueando, das formas mais ignóbeis, a concretização dessa medida no terreno. O primeiro paradoxo que salta à vista é este: países que devem a sua democracia e recente prosperidade à integração na União Europeia depois de décadas de jugo totalitário são os que mais desdenham em momentos decisivos como o atual a existência de um centro político coordenador da imigração, trânsito, acolhimento e asilo no espaço comunitário.
Na verdade, estes Estados têm uma visão mais próxima do menu a la carte com que Londres sempre pautou a sua relação com a UE do que de um compromisso sincero com os direitos e deveres de um país com os dois pés dentro. Não é por acaso que é nos países do grande alargamento a leste que se verificam as maiores taxas de abstenção em eleições para o Parlamento Europeu: no fundo, a integração europeia não passou de uma escapatória generosa à pobreza soviética, um porto de abrigo para as elites - muitas delas vindas dos antigos partidos comunistas - e um garante da continuidade da homogeneidade cristã nas suas sociedades. De cada vez que numa qualquer capital europeia um líder brada aos céus que a Europa é fruto exclusivo da herança judaico-cristã e que deve ser preservada a todo o custo - apagando com isso séculos de presença muçulmana -, o senhor Orbán rejubila na cadeira com a garantia de que a pureza magiar não será nunca mesclada. Quando a trupe de cínicos, entre eles Orbán, desfilou nas ruas de Paris depois do ataque ao Charlie Hebdo, o primeiro-ministro húngaro tratou logo de encerrar a questão à boa maneira da mais fina xenofobia política em curso: "Não queremos cá minorias, mas manter a Hungria como Hungria." Infelizmente, não é o único a pensar desta forma.
Já de maneira diferente pensava o jovem Orbán quando a Fundação Soros lhe atribuiu uma bolsa para estudar em Oxford em 1989. Não consta que, minoritário, o húngaro tenha na altura sofrido represálias dos ingleses, massacrado na cara com gás pimenta ou que à volta dos seus aposentos se tenha erguido um muro com arame farpado para que se evitasse o contacto com tal criatura. Orbán é um dos muitos chicos-espertos da política europeia contemporânea que passou de liberal a reacionário por razões táticas, ambição política e enquadramento numa rede protegida, ironia da história, por Moscovo. A "Rússia branca" ou a "Hungria para os húngaros" fazem parte de um programa descarado que pode ter todo o cabimento à luz dos valores do senhor Putin mas devia corar de vergonha qualquer cidadão desta Europa que se desfaz em autoelogios humanistas, cosmopolitas e se vê como a vanguarda universal da defesa do Estado de direito.
Nenhuma das 300 mil crianças que sobreviveram à travessia do Mediterrâneo e bateram às portas da UE em 2015 vislumbrou qualquer defesa do Estado de direito, respeito pelas convenções internacionais de direitos das crianças ou do estatuto dos refugiados ratificado por todos os Estados membros. Nesta matéria, se a montante a UE é um desastre na antecipação das crises que a assolaram e um fiasco na coordenação mínima, a jusante é ela própria um elemento de desrespeito jurídico. Os Orbáns desta vida só têm margem política para atuar porque ela lhe é generosamente concedida. Vale a pena recordar isto: mesmo violando os tratados (como muito bem disse em tempos o ministro dos negócios estrangeiros luxemburguês), nunca o Conselho Europeu ousou deixar de fora das suas reuniões o primeiro-ministro húngaro, mas, quando o brexit caiu como uma bomba em Bruxelas, a primeira decisão do conselho foi barrar a entrada a David Cameron. Se hoje Orbán faz o que quer da UE, tal segundo por exemplo Erdogan, à UE o deve.
E assim chegámos ao referendo húngaro. À parte as dúvidas sobre a constitucionalidade da pergunta, parece claro que, mais do que legitimar o travão aos refugiados e às quotas acordadas em Bruxelas, Orbán quer alcançar dois objetivos: que chegam à Hungria do maior número de zeros. E que não seja posta em causa a livre circulação dos húngaros, dos seus capitais e mercadorias, de forma a que outros, como Orbán, possam ir tranquilamente estudar para Oxford, trabalhar em Paris ou comprar um automóvel a Munique.
Mesmo que não atinja os 50% de participação para ser juridicamente vinculativo, este referendo já atingiu o seu objetivo: dar continuidade, por outros meios e vozes, ao primeiro, garantir a continuidade de maiorias absolutas com o voto útil dos eleitores da extrema-direita do Jobbik; segundo, ser o timoneiro continental da estratégia de renacionalização de praticamente todas as políticas europeias, à exceção das únicas que lhe interessam. E quais são elas? Que todos, sobretudo os mais ricos, continuem a financiar o orçamento comunitário e a dotar os fundos desmembramento iniciado com o brexit. O Kremlin e, quem sabe, Donald Trump não deixarão de prestar a devida homenagem a Orbán.

Entrevista: György Schöpflin
DN  2/10
- Não terá a Europa obrigação de ajudar quem foge à guerra?
- Não tenho problema em dar asilo a quem genuinamente está à procura de asilo, mas para os migrantes económicos a resposta é não. A Europa não tem obrigação de acolher aqueles que vêm para cá apenas porque penam que vão ter uma vida melhor.
- Pensa que esses são a maioria?
- São dois terços.
-Como deve a Europa lidar com a crise migratória?
- Cada vez mais gente concorda que é preciso lidar com o problema não na Europa mas sim na origem, no Médio Oriente e na África subsariana.
- O que pode ser feito?
- Muito pouco. A solução passa pelo crescimento económico e isso só é possível com melhores governos.
- Se há pouco que se possa fazer, devemos então cruzar os braços e deixar que as pessoas morram?
- Não há nenhuma razão para que tenham de morrer. Devem ser desencorajados a vir. Ninguém está a forçar ninguém a atravessar o Sara. Ninguém está a forçar ninguém a atravessar o Mediterrâneo.
- Estão a fugir de guerras e de condições de vida insuportáveis.
- Por favor, isso não é verdade. Querem é melhores condições económicas. Os que vêm da Síria, sim estão a fugir da guerra, masd aqueles que vê da África definitivamente não estão a fugir da guerra.
- Imaginemos que estão a fugir de condições económicas desumanas.
- Isso faz que sejam migrantes económicos e não rwefugiados. E, já agora, porquê apenas a Europa?
- Os EUA e o Canadá, por exemplo, já receberam muitos refugiados,
- Sim, alguns. Mas quantos recebeu o Brasil? Zero. Esse é um problema globalque não pode ser resolvido ó pela Europa. Quantos refugiados sírios foram recebidos pela Arábia Saudita? Mais uma vez: zero.
- Talvez a Arábia Saudita não seja o local mais seguro…
-Será pelo menos mais seguro do que a Síria. Além disso, são muçulmanos e lá sentir-se-iam em casa.
- Viktor Orbán tem sido acusado de políticas xenófobas e racistas. Como comenta?
- São palavras vazias usadas pelos liberais quando não têm mais nada para dizer, É uma forma de acabar um debate ou uma discussão.
- Dizer que temos de preservar a Europa para os europeus é, de certa forma, um comentário racista, ou não?
- Não. De todo. Porquê?
- A Europa sempre foi um espaço que recebeu pessoas vindas de todos os lados.
- Os portugueses ficaram muito contentes com a conquista dos mourosd?
- Isso já foi há alguns séculos…
- Estava a falar-me da história da Europa e eu estou a dar-lhe história da Europa. Posso também dizer-lhe que a Hungria não gpostou da invasão do império otomano. Sim, sempre houve migração, mas há valores europeus que são muito importantes para a Europa. Afirmar isto não é racismo.
- Esses valores ficam em risco com a chegada de mais refugiados?
-Claro que sim.Já esteve em Bradford na Inglaterra? Há zonas onde houve uma limpeza étnica, onde praticamente só podem viver descendentes de paquistaneses.. não há integração na sociedade e não vejo que contribuam para os valores europeus, como a tolerância.
- Em Portugal as comunidades estrangeiras estão bem integradas.
- Parabéns. E então? A questão está na massa crítica. Quando um grupo particular de migrantes atinge determinada dimensão eles não irão integrar-se porque não têm incentivos para o fazer.
- Define-se como europeísta?
- Como um europeísta moderado.

O contexto:
(Excerto da Internet )
Quem tem uma visão totalmente contrária é György Schöpflin, eleito para o Parlamento Europeu nas listas do partido do governo. Integrado na bancada do Partido Popular Europeu - a mesma onde se sentam os deputados da CDU de Angela Merkel - Schöpflin defende que "a UE não tem poderes para impor quotas".
Têm sido muitas as declarações de Orbán sobre a questão dos refugiados a criar controvérsia e mal-estar no seio da União Europeia. "A Hungria não precisa de um único migrante para ajudar a economia. Quem os quiser que fique com eles. Para nós a migração não é uma solução para um problema, mas sim um veneno que não queremos engolir. Cada migrante implica um risco em matéria de segurança e terrorismo", afirmou o primeiro-ministro, em julho, numa conferência de imprensa em Budapeste.
Em total antagonismo com Orbán estão os eurodeputados dos partidos da oposição que falaram com o DN. "Este comportamento é um mau exemplo para toda a Europa. O terrorismo não é uma consequência das migrações. A maioria dos refugiados estão a fugir dos mesmos grupos terroristas que atacam na Europa", defende Benedek Jávor. "Qualquer país desenvolvido tem a responsabilidade de ajudar aqueles que enfrentam a guerra, a morte e outras coisas terríveis. Nós, húngaros, também fomos refugiados em 1956 quando os tanques soviéticos invadiram Budapeste. Mais de 200 mil fugiram do país e foram bem recebidos no Ocidente. Isto é algo que nunca devemos esquecer", acrescenta Molnár.
Desde que regressou ao governo em 2010 (já ocupara o cargo de primeiro-ministro entre 1998 e 2002), Orbán tem sido uma constante dor de cabeça para a União Europeia. Em maio de 2015, em Riga, o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, na receção aos líderes europeus que iam participar na cimeira, saudou o primeiro-ministro húngaro com um afável e sorridente "olá, ditador".
Ao garantir mais de dois terços do Parlamento, Orbán viu-se legitimado - e com uma maioria suficiente - para levar a cabo várias alterações legislativas e constitucionais consideradas pouco democráticas pela Europa. Uma das mudanças mais polémicas foi a criação de um observatório da comunicação social com poder para aplicar multas pela publicação de conteúdos "politicamente pouco equilibrados".
No início da crise de refugiados, Orbán referiu-se à questão como "um problema da Alemanha", insistindo que "os húngaros têm o direito de não querer viver ao lado de largas comunidades muçulmanas". Uma visão que o levou a levantar uma barreira de arame farpado ao longo dos 175 quilómetros de fronteira com a Sérvia. Outro dos momentos em que também desafiou a UE foi quando criticou a imposição de sanções à Rússia na sequência da anexação da Crimeia.
"Infelizmente as acusações de xenofobia e racismo aplicadas a Orbán não são infundadas", lamenta Molnár. Já para Schöpflin, trata-se de "um excelente político, que pensa muito bem e que tem uma visão da Europa contrária à hegemonia liberal dos nossos dias".

Hoje a Hungria está dividida entre o "sim" e o "não".


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Diabolizando…


Extraordinário de contundência sarcástica este libelo acusatório da nossa visão atrofiada sobre a oportunidade económica, que destrói, à partida uma fonte de receita importante para o desenvolvimento, ao invés de o apoiar, gritando aos quatro ventos a maçada que é admitir os milhares de turistas que não dão tréguas à nossa prostração de “mesmice”, já por Eça bem definida, como incúria paspalhona e grotesca, e, como no caso presente, oposição mal intencionada a uma qualquer hipótese de fortalecimento económico, neste caso pelo desenvolvimento turístico. E vá de gritar aos quatro ventos contra as incomodidades do turismo desfazedores das nossas comodidades e interesses,  atrapalhando os nossos direitos à boa paz e às casas da nossa predilecção, por eles ocupadas, a imprensa associando-se, não com isenção mas camaradagem, no plano destruidor do turismo incómodo.
O texto, não de cortês ironia mas de amarga chacota, dá uma achega de apoio a esse alarido atrofiador de uma fonte de receita que queremos desperdiçar, plano que põe o dedo, simultaneamente, nos nossos processos de “enriquecimento” fraudulento, quer através dos “choferes” de praça, percorrendo os destinos dos turistas em desvios vultosos ou atropelando turistas, quer da restauração, servindo refeições mal preparadas, quer dos cidadãos comuns dando falsas informações, além da sugestão de “medidas” governativas a tomar, para satisfazer  os protestos contra os incómodos do turismo.
Deve resultar.
Turismo nunca mais
Talvez por influência da Catalunha, e dos interessantes chalupas que mandam em Barcelona, anda por aí um debate acerca do excesso de turistas sobretudo em Lisboa, um pouco no Porto e não tarda em Salvaterra de Magos. Personalidades de relevo chamam a atenção para a calamidade, com um frenesim proporcional ao relevo que pretendem alcançar. Os media conferem à calamidade a devida histeria. Multidões de anónimos partilham em fóruns (ou fora, para os chatos) testemunhos do horror. Todos juntos procuram responder à decisiva questão: como conseguir menos turismo?
Faz sentido. Numa altura em que todos os indicadores económicos se despenham pelos gráficos abaixo, seria ridículo que um sector destoasse da tendência geral. Enquanto quase pedia desculpa pelo inconveniente, uma secretária de Estado do Turismo já prometeu "afinações" à lei do alojamento local, alegadamente por causa da "preocupação" com a "segurança" e a "higiene". De facto, as preocupações são outras: tentar levar à falência negócios emergentes e acabar com a vergonha que é ver estrangeiros ocuparem-nos as ruas e deixarem aqui o dinheiro deles.
A intenção é óptima, porém insuficiente. Por muitas taxas, taxinhas e regulamentações que os governantes despejem em cima do assunto, os arrogantes dos estrangeiros não cessam de aterrar por cá, alheios ao carisma do comércio tradicional ou sedentos de descaracterizar o comércio tradicional (vai dar ao mesmo). Para cúmulo, continuam a irritar a irmã de Paulo Portas. A menos que, logo na fronteira, se impusesse um imposto de seis mil euros por cada turista excedentário que ouse pretender entrar no país, a coisa não vai lá por decreto. Sobra a sociedade civil.
A sociedade civil pode fazer imenso pela causa. A começar pelos choferes de praça no aeroporto, que até agora apenas são acusados de acrescentar umas voltinhas ao percurso requisitado. De agora em diante, compete-lhes manter as voltinhas adicionais para os primeiros turistas do dia (o contingente adequado, portanto) e acrescentar voltas de 300 quilómetros para os restantes, os quais, após o percurso Portela-Belém com escala na Figueira da Foz, ficariam sem orçamento para as férias e regressariam de imediato aos países de origem. À Uber sugiro que largue as mariquices e abrace este verdadeiro desígnio nacional.
Aos responsáveis da hotelaria cabe admitir somente uma percentagem escassa de turistas (definida previamente em sede de concertação social) e negar com rudeza quarto (ou ceder um canto nos fundos da lavandaria) à percentagem indesejável. Já os proprietários dos restaurantes têm, literal e metaforicamente, a faca e o queijo na mão: basta servirem sem problemas a quantidade decente de forasteiros e presentearem a quantidade indecente com salmoneloses, bruceloses e botulismos em abundância.
E os cidadãos comuns não ajudam? É só quererem. O que custa ao transeunte fornecer simpaticamente informações a meia dúzia de turistas e correr dúzias com indicações falsas ("A noite em Gondomar é um encanto, principalmente depois das duas da manhã...") ou meros insultos ("Olha-me este... Vai para a tua terra, boche de um raio!")? O que custa ao automobilista atropelar ocasionalmente um ou cinco espanhóis de chinelos e mapa perante a indiferença da polícia? E o que custa à polícia inventar transgressões suficientes para destruir as férias de uma família japonesa?
Não custa nada, excepto alguns milhares de milhões de euros que pelos vistos destoavam na nossa gloriosa caminhada rumo à bancarrota. Num instante atingiremos o número perfeito de turistas, que presumo similar ao da Coreia do Norte. E enfim seremos felizes: na Coreia do Norte a felicidade é obrigatória.

Quinta-feira, 29 de Setembro
Apoio ao cliente
Não vejo "telejornais" há muitos anos, tantos que já nem me lembrava porquê. Um dia destes, espreitei um e lembrei-me. Não vale a pena nomear o canal em causa. Basta notar que, no pedaço que segui (cerca de meia hora, suponho que uma pequena fracção da duração total daquilo), levei com representantes dos taxistas a exigirem apoios para não espancar a concorrência e com uma arqueóloga a exigir apoios para visitar o Egipto, alegada "terra dos sonhos" e evidentemente o sonho dela.
Pelo meio, beneficiei de uma bonita e extensa "reportagem" sobre um casal que queria alugar casa no centro de Lisboa. A senhora do casal (o homem, talvez por ter dificuldades de expressão ou vergonha na cara, não falava) reivindicava, no mínimo, um T2 compatível com o rendimento familiar. Pelos vistos, não havia. A senhora não se ficou: com a indisfarçada simpatia do "jornalista", protestou energicamente contra os proprietários que transformavam os apartamentos em habitação turística para - bandalhos - ganharem mais dinheiro. A senhora foi clara: desse por onde desse, ela tinha o direito de morar no exacto local que desejava, mais ou menos como eu tenho o direito a uma moradia em Laurel Canyon. Se bem percebi, a senhora exigia uma realidade alternativa. Ou "medidas". Ou "políticas". Ou - esperem um bocadinho - apoios.
Eis o problema dos "telejornais": estão repletos de portugueses.