sábado, 5 de novembro de 2016

Pau de cera é uma vela!



Quando ouvi num dos telejornais, ou talvez em alguma entrevista, a referência ao possível acordo comercial com o Canadá, senti-me, naturalmente, feliz, desejando que o nosso país se erga do atoleiro em que sempre soçobramos, mesmo quando parecemos estar a expulsar os maus espíritos do nosso tortuoso caminho, onde a cada passo se assacam aleivosias ou trapaças que envergonham qualquer espírito menos acomodado. O acordo comercial com o Canadá possibilitaria trocas comerciais importantes para o erguer de uma balança indelevelmente marcada pelos saldos negativíssimos do nosso sabe-se lá o quê! Dolce far niente? Mas há quem produza, e houve quem se servisse até dos ruídos brutais da modernidade para fazer disso tema dos seus poemas, como Álvaro de Campos. É certo que um António Nobre se queixava de que maus signos o perseguiam e dá-nos vontade de dizer o que ele disse do D. Enguiço, que era ele, provavelmente, pois sempre se queixou de azarado, pobrezinho!
Farto de dores com que o matavam,
Foi em viagens por esse mundo:
Mas os comboios descarrilavam,
Mas os paquetes iam ao fundo!
E essa sua agonia de doente e revoltado, com que foi tecendo a trama, aparentemente simples e dolorida da sua mística poética, já, por seu turno, encarnada no saudosismo fatalista da “Menina e Moça” de Bernardim, tem a ver com a nossa agonia por um Portugal em permanente desequilíbrio, “Meu pobre Chico! Meu pobre Chico!” (in “D. Enguiço”).
Repentinamente, segundo notícia que ouvíramos também e que lemos - 3/11/2016 - somos avisados de que “Portugal deixa setor dos diamantes em Angola ao fim de um século”: Portugal oficializou a saída do setor diamantífero angolano, ao fim de um século, com a Sociedade Portuguesa de Empreendimentos (SPE) a assinar um acordo de cessão das participações que detém no país.»
 Antes disso, esta notícia de Francisco Assis, que só leio hoje «UE-Canadá: um acordo comercial condenado a soçobrar?», e que me trouxe à lembrança o D. Enguiço. Francisco Assis é pessoa avisada e sabedora,  não está, pois, a mentir. Para elevar, então, o espírito acabrunhado, só me resta a canção da Maria da Fé, que nos dá alguma hipótese:
Quando a gente passa e um rapaz suspira
Pode ser mentira, pode ser mentira
Mas se for um homem já de certa idade
Pode ser verdade, pode ser verdade.

UE-Canadá: um acordo comercial condenado a soçobrar?
Público, 27/10/2016
Este acordo com o Canadá tem sido apresentado como o melhor alguma vez alcançado pela União Europeia.
Os tempos que correm não vão de feição para a celebração de acordos comerciais internacionais. Tanto na Europa como nos Estados Unidos temos vindo a assistir ao crescimento de tendências proteccionistas que começam a ter eco no discurso dos principais responsáveis políticos. No caso norte-americano isso foi muito evidente na campanha presidencial em curso. Trump, por um lado, e Sanders, por outro, obrigaram aquela que se perfila como a próxima Presidente dos Estados Unidos, Hillary Clinton, a alterar o seu posicionamento no domínio da política comercial, com consequências que só poderão ser plenamente percebidas no âmbito da acção da mais que provável futura administração democrata. Certo é que, enquanto candidata, Hillary se viu obrigada a rever posições que anteriormente abraçara com aparente convicção.
Donald Trump, como é cada vez mais visível, não dispõe de um discurso político minimamente coerente e assenta toda a sua campanha numa retórica trauliteira e demagógica, onde se atropelam declarações moralmente obscenas e propostas politicamente indiscritíveis. Há, porém, um fio condutor no seu caos discursivo: a tentativa de seduzir um eleitorado tradicionalmente democrata constituído pelo que resta da working class branca, residente nos estados que tiveram no passado uma forte tradição industrial. Esse eleitorado, que em tempos fugiu para Reagan em nome de um liberalismo económico que haveria de o desiludir, admite agora votar em Trump em nome precisamente de um proteccionismo puro e duro que não está dissociado da exaltação daquilo que os americanos designam por nativismo, e que não deixa de constituir uma forma de xenofobia. Apesar de tudo, com a previsível vitória democrata, é de admitir que os Estados Unidos acabem por prosseguir uma política comercial aberta ao mundo e empenhada na concretização de múltiplos acordos comerciais.
Na Europa, as coisas também não estão fáceis neste domínio. O Parlamento Regional da Valónia deliberou opor-se à celebração de um acordo comercial entre a União Europeia e o Canadá, impedindo assim a Bélgica de o subscrever. Como neste domínio a União Europeia só pode decidir com base na unanimidade de posições dos seus Estados-membros, este acordo comercial pode estar condenado a soçobrar. Curiosamente, o presidente do Governo Regional da Valónia não é um populista, nem tão pouco um demagogo primário; pelo contrário, trata-se de um professor universitário com uma vasta e interessante obra produzida sobre a União Europeia. As razões invocadas têm que ver, por um lado, com a natureza específica dos mecanismos de arbitragem de âmbito internacional previstos, e, por outro, com o receio da concorrência num sector particularmente sensível como é o da agricultura. No fundo, prevalece o temor de que grandes empresas multinacionais, nomeadamente no sector agroalimentar, venham a beneficiar de vantagens que possam pôr em causa a pequena economia valoa. O caso valão não deixa de se inscrever numa progressiva evolução da opinião pública europeia no sentido da adopção de um posicionamento crítico em relação aos tratados comerciais.
Há pelo menos duas ilações a retirar de imediato deste caso: em primeiro lugar, ele evidencia o carácter profundamente democrático do sistema decisório europeu, contrariando assim a tese habitualmente expendida pelos extremistas de esquerda e de direita que gostam de falar de uma autocracia burocrática sediada em Bruxelas; em segundo lugar, ele obriga todos aqueles que, como é o meu caso, continuam a preconizar a vantagem da realização destes acordos comerciais, a um acrescido esforço de explicitação pública dos seus méritos. Hoje em dia estes acordos já não interessam apenas aos produtores, como acontecia até a um passado recente, mas suscitam também o interesse e a curiosidade dos consumidores. Na medida em que o centro nevrálgico destes tratados foi transferido do domínio do valor das tarifas aduaneiras para o campo da harmonização normativa  ?  em áreas tão importantes como as regras de produção alimentar, a saúde pública ou o ambiente  ?  a sua discussão tornou-se um tema fundamental do debate político actual.
Este acordo com o Canadá tem sido apresentado como o melhor alguma vez alcançado pela União Europeia, revestindo-se mesmo de um carácter exemplar pela própria circunstância de ter como parceiro um país que possui um modelo de organização económica e social muito próxima do europeu. É mesmo caso para perguntarmos: se não formos capazes de estabelecer um acordo deste tipo com o Canadá, com quem seremos nós capazes de chegar a um entendimento comercial?
Esperemos que estes acidentes de percurso, tão característicos das verdadeiras democracias, possam ser superados de forma a que possamos alcançar uma maior regulação da globalização, com a devida salvaguarda dos legítimos interesses dos diferentes povos europeus. A democracia exige por vezes alguma lentidão de processos, já que se não baseia na supremacia de um suposto despotismo tecnocrático esclarecido, nem tão pouco pode ignorar ou sequer desvalorizar os receios  ?  por menos racionais que eles possam parecer  ?  dos cidadãos que são a sua razão de ser.

Voltemos, pois, à caverna



Por umas letrinhas apenas, informa Nuno Pacheco no título do seu texto, que segue, mais uma pedrada no charco da nossa tola ignorância e subserviência. Por umas letrinhas apenas, se dá uma cambalhota na língua portuguesa, consolidada e enriquecida pelos anos fora, com o manejo dos seus escritores. É o que, em síntese, significa esse título, corolário de outras cambalhotas há muito perpetradas, sem respeito nem amor pátrio, a que esse tal de Acordo Ortográfico vem dar o reforço final do menoscabo e desprezo pelo pobre país, que, apesar de tudo, tanta riqueza nos deu de gente com real valor. Ainda bem que existem Nunos Pachecos, que de vez em quando elevam o seu grito de protesto, esperançados no provérbio da água mole. Mas o nosso empedrado encefálico, é mais duro do que o da calçada portuguesa, que, esse, fura mesmo, e resvala e esburaca, onde tombamos a cada passo. Não, nenhuma água nela penetra, do saber e do respeito pátrio, na nossa pedra encefálica.
Mas ainda bem que existem Nunos Pachecos. A lembrar. E a lastimar.
Conquanto que, por cá, as lástimas mais reconhecidas sejam as do fado – do antigo – e das caridadezinhas dos PêCêPês da nossa virtude. E o resvalar da língua para o como se fala até vem dar mais achegas de poder ao povo da vila morena, por vezes mesmo destituído das primeiras letras. Como o fazem sentir os tais do Acordo.

Por umas letrinhas apenas
Público, 27/10/2016
Os ingleses não são loucos e sabem, como também deveríamos saber, que a escrita e a fala são disciplinas distintas.

Não foi há muito tempo. No dia 10 de Outubro, na Gulbenkian, na sessão de atribuição dos prémios do património cultural (a mesma sessão onde foram distinguidos Eduardo Lourenço e Plantu), uma das oradoras, ao explicar as actividades que justificavam o prémio, disse por várias vezes “actividades” sublinhando o C. Não foi engano, porque nunca disse “âtividadej”, como faz a maioria, disse sempre “âktividadej”. Falará ela “à antiga”, como por aí se diz? Ou pura e simplesmente tem da palavra o sentido primeiro, próximo do étimo latino? A discussão pode parecer uma bizarria, mas não é. Porque quando se instituiu que o acordo ortográfico de 1990 era mesmo para ser imposto, um dos grandes argumentos que o sustentavam, além da pretensa “simplificação” da escrita, era afacilitadora” submissão à oralidade em detrimento da etimologia. “Não se lê, não se escreve” ou “o que não se pronuncia não se escreve!” foram regras que andaram insistentemente a soprar-nos aos ouvidos. Mas como é possível pôr alguém que diz “aktividade” a escrever “atividade”? Escreve o C porque o diz? Ou altera a fonética?
Isto passa-se com inúmeras palavras, às vezes de forma caricata. Por exemplo: há quem diga "expectativas", sublinhando o C, e quem diga "expétâtivas". O que faz o acordo? Fácil, permite dupla grafia, coisa que já existia antes, mas só de país para país. Agora é transfronteiriça. O mesmo com "características", onde muita gente pronuncia o C em ct, ou "carácter", onde é generalizada a omissão desse mesmo C.
E a regra da fonética, quando é que se aplica? Na verdade, a regra da fonética é pura tolice, como facilmente se comprovará. A ser assim, o verbo "Estar" teria de mudar. Ninguém diz, em voz corrente, "estou a almoçar" ou "estás a aprender muito devagar" ou "estamos fechados, volte mais tarde"; diz-se ‘tou, ‘tás, ‘tamos. Se a regra da fonética fosse para valer, teríamos o verbo Tar: Eu tou, Tu tás, ele tá, nós tamos, vós tais, eles tão. Bonito? Há pior. Querem ver como se altera o som de uma palavra pela escrita? Veja-se, por exemplo, "co-adopção". Assim, lê-se "cô (de ‘com’, daí a acentuação do "o") âdóção". Se retirarmos o P, leremos por impulso "cô-adução"; mas se tirarmos o hífen leremos "cuadução", porque nas palavras onde o "co" perdeu vida própria essa é a tendência vocálica dominante.
Um exemplo inglês, que andou por aí muito em voga devido ao nome de um clube. Leicester, como Worcester ou Gloucester, perde na fala o “ce” do meio. Lê-se Leister, Worster, Glouster. Pelo extraordinário acordo português, mudariam de grafia. Só que os ingleses não são loucos e sabem, como também deveríamos saber, que a escrita e a fala são disciplinas distintas.
Por cá, há quem vá percebendo isso. Até quem menos se esperava. Na sua reunião de 2010, em Sintra, a CPLP fez questão de reafirmar que o acordo ortográfico era “um dos fundamentos da Comunidade e um instrumento essencial para a unidade da Língua Portuguesa.” Agora, o ainda secretário executivo da CPLP, o moçambicano Murade Murargy, disse há dias em entrevista à Agência Brasil o seguinte: “Não me preocupo se estou a aplicar [o acordo ortográfico] ou não. Se as pessoas me entendem, vamos em frente”. E disse mais: “Quanto ao acordo ortográfico, muita gente não está de acordo, há muitos intelectuais, jornalistas, que não aplicam, pois acham que não traz vantagens. Não há uma unanimidade sobre se valeu a pena, ou não, o tanto de dinheiro que se gastou. As implicações financeiras da aplicação do acordo são grandes”. Um problema que ele realçou foi o dos manuais escolares. “Acredito que devemos concentrar-nos no que é fundamental para permitir que os outros [países-membros] possam se desenvolver”.
Querem traduzir isto para uma fala simplificada e mais fonética? Eu traduzo: vão para o diabo mais as normas de um acordo que não unifica (há mais palavras diferentes agora do que havia antes), não padroniza, não simplifica, não melhora nem torna mais “internacionalizável” a língua portuguesa. Alguns já perceberam a fraude há muito tempo, outros têm vindo a percebê-la com o passar dos meses e dos anos. Falta apenas uma coisa: coragem para acabar com isto.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Barracas na maré baixa

Barracas na maré baixa
O artigo vale por si, no seu humor agarotado, que esconde uma profunda preocupação.

É difícil ser de direita em Portugal
Público, 27/10/2016
Tenho de dar razão à esquerda: a direita anda a choramingar há mais de um ano, a anunciar diabos que não vêm, e com muita dificuldade em aceitar aquilo que se está a passar. Gastamos o nosso tempo a apontar diferenças de tratamento, a lamentar que aquilo que em 2015 eram cortes selvagens em 2016 se tenham transformado em indispensáveis cativações, e que trocar tributação directa (progressiva) por tributação indirecta (regressiva) seja a nova definição de uma política de esquerda. Andamos cabisbaixos. Tristes. Jururus. Tudo isso é verdade. Mas se a esquerda vir bem, aquilo que a direita reclama é por um direito que a esquerda até costuma apreciar: a igualdade de oportunidades. Lamentavelmente, a igualdade de oportunidades não existe na política portuguesa. Em Portugal, a esquerda é o homem e a direita é a mulher. Na teoria, têm os mesmos direitos. Na prática, não têm. Um tem de limpar a casa muito mais vezes do que o outro.
Dou-vos um exemplo concreto desse tratamento diferenciado. Há dois dias, a Fenprof respondeu a um artigo meu sobre o desaparecimento de Mário Nogueira e a nova postura do sindicato, que desde que este governo tomou posse trocou a oposição nas ruas pela oposição no site. Embora Mário Nogueira, até para justificar o emprego, não possa abdicar totalmente de um pó-de-arroz sindical e de um eyeliner reivindicativo, a verdade é que o novo Mário Nogueira é o antigo Mário Nogueira sob o efeito do Xanax que lhe é diariamente prescrito pelo PCP enquanto suportar o governo. A Fenprof nem disfarça. Fala de uma direita “assustada e desorientada”, que se afunda nas sondagens e já não consegue enganar os portugueses, para depois concluir: “Não, a Fenprof não muda ao sabor dos governos e só há um interesse que serve: o dos professores que representa!” Esta conclusão faz lembrar a famosa frase de Henry Ford sobre o Ford modelo T: “O cliente pode ter o carro da cor que quiser, desde que seja preto.” Os professores também podem ter a Fenprof que quiserem, desde que seja comunista e desconsidere qualquer governo de direita. Um professor do CDS está tramado: chegou demasiado tarde ao mercado sindical, que vive em situação de quase monopólio. Ou se junta a Mário Nogueira e sus muchachos, ou a sua voz nunca será ouvida.
O meu problema, claro está, não é com a Fenprof, mas com a fenprofização do país, dada o número crescente de portugueses dependentes do Estado. Enquanto as vacas foram gordas, a alternância democrática foi sendo assegurada, e o país, mais mal do que bem, foi sendo empurrado para a frente – sempre contra a vontade do PCP e da CGTP, sublinhe-se. Mas em tempos de vacas magras, temo que a esquerda portuguesa e as instituições que a apoiam – como os sindicatos –, às quais o regime foi oficiosamente entregue no pós-25 de Abril em troca da democracia e da paz, tenham reconquistado um poder que já não tinham desde 1975. E o poder é este: a esquerda ou consegue governar, ou consegue impedir que a direita governe, seja através de uma enorme contestação social, seja através da cultura de esquerda que varre a Constituição. Daí a desigualdade de oportunidades. É verdade que a esquerda não pode repor mais “direitos” porque a Europa não deixa. Mas a direita não pode impor mais reformas porque a cultura de esquerda não permite. A esquerda tem um problema com o fora; a direita tem um problema com o dentro. Não admira que andemos enfastiados. É muito difícil ser de direita neste país.

Mas o sentimento é antigo, sempre se deu por isso, desde que se inverteu a marcha de 42 anos atrás. É certo que o sentido crítico naquela época também nem sempre era aceite com isenção. Lembro-me dum pequeno texto que publiquei na Página da Mulher do Notícias de Lourenço Marques, coisa insignificante, mas, segundo me disse Irene Gil, a orientadora da Página, merecera a desaprovação de um qualquer bem graduado do Exército, que nessa altura estava bem posicionado para desaprovar. Era este, o texto, extraído de “Pedras de Sal”, 1974, 2ª edição em “Cravos Roxos” (1981):
As Tabuletas
«A nossa praia geral da Polana está subdividida em várias particularidades, como a da Ponta do Mar, a do Bosque, a dos Militares, muito ciosos estes das suas prerrogativas marítimas, alcançadas, certamente, por meio do brilho das suas espadas fulgentes e garbosas.
Há dias, a Joaninha foi à tal praia dos militares ciosos e ficou muito impressionada com uns letreiros discriminatórios das barracas para os oficiais, os sargentos e os praças, novas subdivisões ainda de uma subdivisão maior.
Como é muito observadora, pôs-se logo a destrinçar sobre a qualidade dos panos das barracas em cada sector e também sobre o tamanho da sombra que cada um projectava, e a espessura e o marulho das ondas para cada subdivisória. Aparentemente não notou discrepâncias, as sombras e os panos das barracas eram idênticos, e idêntica a sujidade nas areias lodosas da maré baixa.
Como além de observadora é muito recalcitrante, resolveu ir com a irmã para uma barraca do “côté” dos praças, mas, muito correctamente, foi convidada a retirar-se para o côté competente e superior. Tentou explicar as suas preferências pelos praças por causa do azul mais doce do mar grandioso e inocente das grandezas humanas, mas acabou por educadamente se retirar para uma banda não militar, uma colónia balnear, onde não havia ainda dessas discriminações por as crianças estarem aí mais ou menos niveladas quanto à sua posição social.
Não sei se a Joaninha tem razão nos seus protestos generosos. A verdade é que a compartimentação dos produtos foi sempre necessária e até na cozinha e na despensa usamos o processo, para não confundirmos, numa pressa, os feijões com as salsichas, nem os filetes de pescada com os fósforos «Pala-Pala», se bem que inofensivos estes últimos.
Se as jovens que vão à praia militar não encontrassem as tabuletas indicativas, arriscar-se-iam a deixar-se deslumbrar apressadamente e erradamente, contrariando as inclinações das famílias, o que sempre provocou graves crises domésticas, de que o Romeu e a Julieta constituem o exemplo mais do conhecimento geral, logo seguido do Simão Botelho e a diáfana Teresa, no seu melancólico “Amor de Perdição”.»

Lembrei-me do texto, por analogia, sentindo quanto, desde sempre, constituímos peças de uma engrenagem que, naturalmente, nunca muda, mesmo que se actualizem as peças. Na altura, até fiquei amedrontada, que o Exército era poderoso bastante para não aceitar destes atrevimentos de inferiores, que ainda por cima tinham de zelar pela vasta família. Mas agora não haveria desses castigos de despedimento, pelo menos por causa tão banal. João Miguel Tavares, sensível que é, nem precisa de se amedrontar com a sua sinceridade, pois vive em democracia, provavelmente até ditada por alguns desses ditadores da moda de antanho, que rapidamente desfizeram as barracas, mal soou o grito de Abril. Ele bem pode mostrar a sua lisura de pensamento, que a única pecha que o pode infamar serão as críticas por vezes bem soezes dos comentadores integrados na visão maniqueísta de pensamento militarizante: esquerda/direita.
De facto, as sujeições dos Mários Nogueiras ao partido que os orienta são  bem visíveis, de uma mansidão aparente, por conveniência do partido novamente no poder, que por sua vez esconde cautelosamente as garras, no seu compadrio amistoso.

Para mim, a “direita” PSD pode estar expectante, sem conseguir convencer acerca do desaire provável do novo governo. Como gostaria que Portugal bolasse para a frente, não desejo que António Costa se engane nas suas previsões. Para mim, Passos Coelho  será sempre aquele moço que quis retirar Portugal do labéu de ser caloteiro.