sábado, 26 de novembro de 2016

No rasto do tempo



De beleza, o mundo em que vivemos, afirma António Barreto, é indiscutível. E os anos passados, feito o balanço, é inegável que os horrores que os povos sempre viveram são sonegados a favor do contributo que deram para que as gerações seguintes vivessem melhor. E o que resta desses tempos, desses povos, são as belezas que deixaram, os monumentos que criaram, os conceitos que ensinaram, os progressos que protagonizaram, os homens, apenas átomos sofredores ou desfrutadores de delícias, perdidos no tempo. As perfídias que se partilharam foram em parte compensadas pelos actos de generosidade, de altruísmo dos que se afligiram com o Mal do Mundo e tentaram diminuí-lo.
 É no “Candide” de Voltaire que o Mal e o Bem se sucedem, em ritmo perfeitamente alucinante e grotesco, no intuito sardónico do seu autor de mostrar quanto as teorias optimistas do “melhor dos mundos” na expressão do sábio Pangloss são constantemente postas em causa, nas surpresas monstruosas das realidades sofridas pelo cândido e apaixonado herói Candide e todos aqueles que ama, causadas pelos elementos naturais ou pela má formação dos homens que têm poder e o julgam perene. E assim será sempre.” Candide” conclui com a conhecida fórmula mágica “Il faut cultiver notre jardin”, o trabalho sendo o antídoto contra a infelicidade.
É certo que, com a evolução, a máquina hoje substitui o homem, o trabalho torna-se cada vez mais difícil de obter, o desemprego sobe, o que é causa da infelicidade humana maior, ligado que está à realização pessoal e à sobrevivência. Sem horta para cultivar, exploramos teorias e gritamo-las aos sete ventos, revolucionários exigentes no nosso canto do mundo, enquanto os mais eficientes usam outros métodos mais esconsos na conquista dos seus valores ambíguos. Tudo isso que descreve António Barreto no  seu “O mundo que criámos” e que é aterrador, de tão lúcido, sem esperança para os que nos seguem, o que é monstruoso.
Mas não será assim. O Bem continuará visível – e em cada bebé que nasce uma esperança e uma felicidade grande dominam. O espectro aterrador de uma Terra a secar, com o ar a tornar-se irrespirável – horror que Voltaire não previu – talvez não venha a concretizar-se.
Senhor, dá-nos o ar e a água para o pão nosso de cada dia… concede que, do que vivemos hoje de mau, se salde, nos séculos vindouros, apenas a beleza de tudo o que se soube criar de bom.
E o texto de António Barreto é bem um pedaço de excelente prosa pensada, de uma experiência vivida, que ficará na História para conhecimento disto que somos hoje.

O mundo que criámos
António Barreto
DN, 20/11/16   - « Sem Emenda»
O mundo que nós fizemos é fonte inesgotável de amor e decência. De honra e bondade. De beleza e inteligência. Mas também é verdade que a sociedade que criámos, com similares contributos de todas as correntes políticas, exibe abundantes razões de infelicidade e desespero.
Substituímos a liberdade e os direitos individuais pelos direitos colectivos e sociais. Destruímos o ethos do trabalho, em troca da obsessão da competitividade. Habituámo-nos à desigualdade social e ao desemprego crónico. Não denunciamos o racismo dos outros pelo risco de sermos nós apelidados de racistas. Aceitamos a vigilância dos indivíduos pelo Estado. Cultivamos a transparência, mas destruímos a privacidade. Deixamos que a vida cultural obedeça às regras da publicidade e da propaganda.
Fomos brandos perante ideias nefastas. A noção de que a identidade nacional é fantasia reaccionária. A certeza de que a igualdade é fonte de liberdade. A crença de que o sistema democrático gera sempre a liberdade. A convicção de que basta querer para que um pobre e um desempregado deixem de o ser. A certeza contrária: se um pobre e um desempregado são o que são, é por culpa da sociedade.
Criámos uma sociedade de direitos sem mérito, de garantias sem esforço e de privilégios sem valor. Dissemos a todos que podiam aspirar a tudo, à gratuitidade, à assistência, à estabilidade vitalícia, a toda a educação, cultura e ciência e criámos classes médias prontas para tudo, desde que o consumo seja ilimitado e o crédito infinito. Fomentámos a substituição da família pela escola. Demos à política o direito de tudo dominar, a economia, a cultura, a ciência e a moral.
Dissemos a muitos que podiam aspirar a tudo o que quisessem, que podiam ser imensamente ricos, que a imaginação, a força e o êxito eram os grandes critérios de triunfo, que a especulação era permitida e a ambição festejada! Fizemos ricos, bilionários e proprietários disformes capazes de tudo e convencidos de que podem enganar e esmagar quem contrarie tão ilustres seres. Desprezámos quem ganhou dinheiro, quem quis ganhar dinheiro e quem quis subir na vida. Não soubemos distinguir entre ganhar dinheiro de forma decente e honesta e acumular dinheiro de modo corrupto e desonesto.
Fizemos ou deixámos fazer um Estado monstruoso. Uma carga de impostos desmoralizadora. O despotismo do Estado democrático. A indiferença perante o endividamento. O favorecimento pelo Estado de negócios ilícitos, favoráveis aos amigos. A promiscuidade e a corrupção inevitáveis. A ideia de que o dinheiro não tem pátria, odor ou origem. A transformação do partido político em casta de sacerdotes da democracia. A tolerância perante a corrupção, a mentira e a promiscuidade.
A substituição de valores de identidade nacional por abstracções internacionais. A intolerância perante os diferentes, os outros e os que não pensam como nós. O mau convívio com as religiões. A ficção democrática da União Europeia e o embuste do défice democrático e dos falsos remédios para o curar. A dependência da Europa parasita dos Estados Unidos em tudo o que respeita à defesa.
Em nome da competitividade, deixámos destruir empregos estáveis e decentes e aproveitámos as piores condições de trabalho e de vida dos países pobres e das ditaduras. Queixamo-nos da globalização, que gostaríamos de travar, lamentando os desempregados europeus, sem preocupação pelas centenas de milhões de asiáticos que devem à globalização a sua sobrevivência e que deixaram de morrer de fome.
Populistas, nacionalistas, reaccionários, comunistas e revolucionários: criámos os espectros que nos ameaçam. Ou deixámos criar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma nação de puerilidades…



É bastante contundente a diatribe de Alberto Gonçalves desta semana. Com sentido desprezo nos designativos redutores - “mocito”, “Adão não sei quê”, idiota, etc, que de certo modo empanam o brilho do discurso castigador de quem discorda e argumenta condenando, mas habitualmente com uma ironia mais leve, embora igualmente incisiva. De toda a maneira, um pensamento claro o ajusta, na condenação do status, duma RTP de propaganda oficial e dos “mocitos” que se julgam o máximo – e são-no, realmente, geralmente no sentido oposto. Quanto ao Presidente--- prefiro não lembrar. Basta ler Alberto Gonçalves, e novamente a vergonha nos avassala, abrasadora. Certamente que o pai ilustre de Marcelo Rebelo de Sousa teve mais sentido de Estado. Naqueles tempos ditatoriais em que não se permitiriam ataques destes, também é certo que  os governantes não os mereciam. Como pudemos chegar aqui? Digamos que em arco de volta inteira, para retomar uma arquitectura dos primórdios, que renasceu pelo Renascimento, gloriosamente, e que desdouramos assim, hoje, puerilmente, a merecer tau-tau.…

Os serviçais públicos
Alberto Gonçalves
DN, 20/11/16
Não é por conselho do meu médico de família, o qual aliás desconheço, que em geral não vejo "informação" política nas televisões. Nessa matéria, confesso automedicar-me para evitar fenómenos precoces de degeneração mental. No outro dia, furei o boicote e imprudentemente apanhei com cinco minutos de um "debate". Moderado por José Adelino Faria, incluía o deputado ou ex-deputado do PSD José Eduardo Martins, o grande historiador e grande ex-promessa do trotskismo Rui Tavares e um mocito chamado Adão não sei quê.
A certa altura, o moderador pede ao mocito que compare o famoso populismo do sr. Trump com o menos famoso populismo do Podemos, do Syriza e do Bloco de Esquerda. O mocito recusa compará--los, sob o argumento - cito de cor - de que, ao contrário dos partidos nomeados, o sr. Trump é anti-semita, e isso, principalmente isso, o mocito não admite. Aliás, o mocito adverte que desde a eleição americana, e só desde então, o anti-semitismo regressou em força à Terra.
Não sei se o mocito sofre de percepção limitada (é burro), pseudologia fantástica (é aldrabão) ou pratica uma modalidade alternativa de comédia (é génio). O facto é que, mesmo num meio em que a mentira descabelada é língua franca, não me lembro, nem sequer nas intervenções do dr. Louçã, de alguém se aliviar de tantos e tão desmesurados delírios em tão pouco tempo. É verdade que Adelino Faria e Eduardo Martins tentaram, sem demasiada convicção, desmentir a enxurrada de asneiras. O mocito permaneceu imperturbável. Os idiotas têm essa vantagem. Ou os charlatães encartados. Ou os génios.
Não adianta, pois, dizer ao mocito que o sr. Trump, que será imensas coisas desagradáveis e possivelmente perigosas, não é, que se saiba, anti-semita, apesar de ter sido apoiado por gente que o é (há uma diferença). Ou esclarecer o mocito de que a filha, o genro e alguns dos principais conselheiros do sr. Trump são judeus. Ou elucidar o mocito sobre a promessa do sr. Trump de mudar a embaixada americana para Jerusalém. Ou lembrar ao mocito o júbilo do primeiro-ministro israelita ao congratular o sr. Trump pela vitória.
E ainda que o sr. Trump fosse anti-semita, de que modo sairia desqualificado da comparação com o Syriza, que além de coligado com um partido neonazi possui dirigentes que acusam os judeus de incendiarem - metaforicamente, espero - a Grécia com os candelabros do Hanukkah? E da comparação com o Podemos, cujos sobas envergam lenços palestinianos, veneram o Hamas e, na melhor tradição de Goebbels, "desvendam" os "interesses" judaicos "ocultos" nos filmes da Disney? E da comparação com o BE, rival dos comparsas acima em matéria de "anti-sionismo", a versão "correcta" do anti-semitismo de sempre?
Como o mocito ignora ou finge ignorar isto, não vale a pena informá-lo de que o anti-semitismo não voltou ao Ocidente na semana passada: é há muito dominante nos votos da ONU, nos boicotes de universidades e nas estatísticas dos crimes de ódio. Também não vale a pena aguardar que o poder, qualquer poder, ganhe vergonha e feche uma RTP hoje quase totalmente ocupada por funcionários da propaganda oficial: o mocito é apenas um entre inúmeros moços de recados. Mas quando orgulhosa e descaradamente referem o célebre "serviço público", podiam explicitar o "público" que servem. Pensando melhor, não é preciso: já fazemos uma ideia.
Sexta-feira, 18 de Novembro
A criança na primeira fila
Não é costume divulgar-se as conversas privadas entre estadistas. O breve - e, por causa do embaraço, interminável - pedacinho conhecido do encontro do nosso presidente com a rainha da Inglaterra mostram porquê.
Despachado o protocolo ("É uma honra" e tal), o prof. Marcelo lembra as visitas de Isabel II a Portugal e desata logo a chamar velha à senhora, ao notar que aquando da primeira visita ele era uma criança. Pasmada com tamanha falta de tacto, a rainha adopta o sarcasmo que tenta manter até ao fim daquela espécie de diálogo: "Acredito..." O prof. Marcelo, porém, não apanha a indirecta e prossegue impávido, agora a descrever o cenário: "O Terreiro do Paço, aquela grande praça..." E a rainha, a fingir que em 59 anos não voltou a pisar outra praça nem a pensar noutra coisa: "Sim..." E o prof. Marcelo: "A carruagem..." E a rainha, divertida por alguém imaginar que ela recordaria uma carroça específica: "Sim..." E o prof. Marcelo: "Com o general Craveiro Lopes..." E a rainha, que inexplicavelmente não parece ter presente essa incontornável figura da história contemporânea, ameaça trocar o sarcasmo pelo receio: "Hm, hm." Em roda livre, o prof. Marcelo desce ao pormenor ("Eu estava lá, em criança, na primeira fila"), na esperança de que Isabel II o interrompesse: "O pequenito com suspensórios? Ai era você?" Mas a rainha, quase em pânico, lança um "A sério?" e, enquanto dá um passo atrás, pensa: "Ele tem de estar a brincar!" Nisto, o prof. Marcelo, que só brinca, salta para a visita de 1985, na qual, garante, foi convidado para jantar no Britannia porque liderava a oposição. Não liderava nada, provavelmente ninguém o convidou e, a julgar pelo fim abrupto do vídeo, de certeza que o encontro acabou aqui, com a monarca em fuga a gritar por auxílio ("Ó da guarda!", como diria Craveiro Lopes).
Moral da história? A pândega com Fidel mostrou que o prof. Marcelo devia visitar exclusivamente torcionários tropicais, onde os "afectos" não destoam. Vergonha por vergonha, pelo menos os ensaios do dr. Sampaio não passam a fronteira.
Sociólogo

Tempo de desporto para os hinos



É verdade que já não se aprende o hino nacional nas escolas, tendo embora os alunos uma disciplina chamada de Educação Cívica, creio que mais centrada no aluno como ser humano com a sua história para contar, a escola tornando-se assim espaço de mexerico, próprio desta sociedade aberta ao eu, onde os temas do respeito pelos valores da cidadania e do respeito pátrio são soterrados na educação para a sexualidade e para os casos da afectividade ou dos desafectos disciplinares ou familiares. De facto, dantes havia mais contenção emotiva, mais dignidade pessoal, julgo, no espaço escolar, mas desde que se abriram as comportas da afectividade nesse espaço, na falsa equiparação entre os mundos docente e discente provocadora de distúrbio e desatenção, dificilmente o ensino atingirá os objectivos a que se propõe, de real interesse pelo saber, além do respeito pela noção de “pátria”, com a sua história e os seus símbolos que a dignificam. António Bagão Félix o informa, no belo artigo de ironia contra a nossa insensibilidade atropeladora da letra do hino que se aprende eventualmente na idade adulta, caso seja necessário o seu conhecimento. Na realidade, aprendido na infância, ele não mais esqueceria, tal como as tabuadas.
Um belo artigo o de Bagão Félix, irónico mas educativo. Acrescento-lhe o de Eça, d’ Os Maias, que também não respeita o “Hino da Carta”, na linguagem libertina de um Ega, naturalmente corrosiva e ponto de partida desenvolto para a intelectualidade parola de tantos reformistas de hoje e ontem.

Opinião
Hinos e hino (o nosso)
Hoje as crianças e jovens de Portugal dificilmente soletram A Portuguesa, quase ignorada na escola e substituída por outros sinais néscios e apelativos do “futuro”.
António Bagão Félix
Público, 18 de Novembro de 2016
1. Futebol sempre dominante. Nestes últimos dias, em forma de selecções.
Com as múltiplas transmissões televisivas, temos jogos com interesse entre zero e alguma coisa. Confesso que não consigo, salvo raras excepções, ver uma destas partidas de fio a pavio. Passo por lá e logo salto para... um livro.Advertisement
No entanto, há um momento solene que aprecio. Antes dos jogos. Refiro-me à cerimónia dos hinos das nações representadas. Há hinos muito expressivos e belos, as câmaras filmam detalhes interessantes, desde o modo diverso como jogadores sentem (ou não) o hino até às bancadas, ainda que, aqui, em tom mais anárquico.
Há dias, por mero acaso de zapping, ouvi os hinos no jogo Liechtenstein-Itália. Com um tão curioso, como surpreendente momento, relacionado com o hino italiano — Fratelli d’Italia —, para mim o que mais me encanta. Como o dito hino teimava em não ser reproduzido pelos altifalantes, aconteceu que os transalpinos nas bancadas e os jogadores perfilados o entoaram, com o habitual entusiasmo. Só depois veio a gravação e, de novo, as vozes de todos. Uma espécie de duplo hino que teve no capitão, Buffon, o seu intérprete pleno de alma, transbordante de expressividade e de energia.
Mas a surpresa — para mim — não iria ficar por aí, ao ouvir o hino do pequeno principado. E que composição era? O hino britânico (God save the Queen), ainda que, obviamente, com outra letra em alemão, Oben am jungen Rhein (“Acima pelo jovem Reno”).
Há mais hinos em parte “plagiados”. O uruguaio tem algumas notas musicais da ópera Lucrezia Borgia (1833), de G. Donizetti. Há insinuações sobre outros, como os da África do Sul, Argentina e Bósnia.
Por sua vez, a Finlândia e a Estónia têm o hino com a mesma música, de autoria de um... alemão. Por falar em alemão, a melodia do seu hino é do célebre compositor alemão Joseph Haydn (1797).
Por fim, o caso singular do hino espanhol (Marcha Real), que não tem letra. Daí os jogadores não terem necessidade de a aprender, de afogadilho.
2. Bem sei que bandeiras e hinos vêm sendo desvalorizados, seja pelo seu uso indevido e inoportuno, seja pela inflação pacóvia do seu abuso (da bandeira), seja por omissão, descuido e ignorância.
De há alguns anos a esta parte, só quase me recordo de ouvir o hino nacional no futebol entre selecções (ainda que à mistura com javardices e impropérios) e em esparsas cerimónias públicas a que já poucos dão atenção a não ser por obrigação e outros teimam em desrespeitar, ao quebrar, alarvemente, o silêncio durante a sua audição. Houve até já anúncios publicitários com versões parcelares e abastardadas do nosso hino.
Hoje as crianças e jovens de Portugal dificilmente soletram A Portuguesa, quase ignorada na escola e substituída por outros sinais néscios e apelativos do “futuro”. Quando a escola se desvaloriza, tudo se torna “escola”.
De vez em quando, também se ouvem telemóveis com A Portuguesa, disponibilizada pelas operadoras em concorrência com qualquer dos muitos toques “pimba” que por aí abundam para desgraça dos nossos ouvidos.
Sou dos que se levantam quando toca o nosso hino, mas vejo muita gente que fica como se nada se passasse. Perante os símbolos pátrios tenho uma posição de respeito, não por um qualquer nacionalismo exagerado, mas antes pela consideração por valores, símbolos e desígnios que não podem ser alienados por fazerem parte do património incorpóreo de Portugal.
Entre “as brumas da memória” ainda há espaço para respeitar “os egrégios avós” desta Nação de quase nove séculos. 

Do capítulo X de Os Maias: episódio As corridas de cavalos
«Nesse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan molengão de tambores e pratos, o hino da Carta, a que se misturou uma voz de oficial e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, El-Rei apareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de veludo, e chapéu branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a senhora espanhola, essa, tomou o óculo do regaço de D. Maria, e de pé, muito descansadamente, pôs-se a examinar o rei. D. Maria achava ridícula a música, dando ás corridas um ar de arraial... Além disso, que tolice, o hino, como num dia de parada! - E este hino, então, que é medonho, dizia Carlos. A Sr.ª D. Maria não sabe a definição do Ega, e a sua teoria dos hinos? Maravilhosa!
- Aquele Ega! dizia ela sorrindo, já encantada.
- O Ega diz que o hino é a definição pela música do carácter dum povo. Tal é o compasso do hino nacional, diz ele, tal é o movimento moral da nação. Agora veja a Sr.ª D. Maria os diferentes hinos, segundo o Ega. A Marselhesa avança com uma espada nua. O God save te queen adianta-se, arrastando um manto real...
- E o hino da Carta?
- O hino da Carta ginga, de rabona.
E D. Maria ria ainda, quando a espanhola, sentando-se e repousando-lhe tranquilamente o binóculo no regaço, murmurou:
- Tiene cara de buena persona.
- Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excelente!»