sábado, 3 de março de 2018

História curda, história turca, focalizações…

SIVAN ZERDESTI rebela-se, no seu artigo contra o embaixador da Turquia em Portugal, que escrevera falsidades sobre a participação da Turquia no combate aos terroristas, que, ao que explicou, não era contra o povo curdo, e conta a história milenar do povo curdo – do crescente fértil, muito anterior a Homero ter exaltado as proezas de tantos heróis gregos. Limito-me a transpô-la, mais os comentários que o aplaudem. Um povo fraccionado, dividido entre quatro Estados — Turquia, Síria, Iraque e Irão – lutando pela sua dignidade. Erdogan, a maior ameaça à estabilidade do Médio Oriente, segundo escreve Sivan Zerdesti, apoiado com grande empatia por três comentadores. Mais uma História na História.

OPINIÃO A propaganda e as mentiras do embaixador da Turquia em Portugal
A maior ameaça à integridade territorial da Síria e à estabilidade no Médio Oriente chama-se Erdogan.
SIVAN ZERDESTI                 PÚBLICO, 28 de Fevereiro de 2018
No passado dia 1 de Fevereiro, Hasan Gögüs, embaixador da Turquia em Portugal, escreveu uma crónica no jornal PÚBLICO intitulada "A operação militar da Turquia não é contra os curdos". Nela, afirma que "a Turquia combate actualmente várias organizações terroristas" e "nenhum país pode tolerar a presença de qualquer elemento terrorista nas suas fronteiras". No meu direito de resposta, pretendo mostrar quem são os verdadeiros terroristas e quais os "sucessos" das duas operações militares que Hasan Gögüs refere.
O povo curdo é um povo milenar que habita a região nomeada Curdistão, que faz parte da área conhecida como Crescente Fértil há mais de 3000 anos. Trata-se de uma zona geocultural do Médio Oriente reconhecida como maioritariamente curda. Desde 2012, com a retirada do exército sírio (SAA) e do aparelho do Estado dos territórios a norte do país, uma estrutura político-social emergiu para ocupar o vazio deixado pelo regime sírio e estabelecer uma zona autónoma segundo um novo modelo de organização social intitulado Confederalismo Democrático.
A Federação Democrática do Norte da Síria (DFNS) é composta por povos de várias etnias — curdos, assírios, turquemenos, tchetchenos, árabes, entre outrose busca implementar um modelo social que dê uma maior representatividade à rica herança cultural que compõe o Médio Oriente, ao mesmo tempo que procura estabelecer uma convivência pacífica entre povos que vêm sendo massacrados ao longo de séculos de guerras imperialistas e de colonialismo ocidental. Sinal desse colonialismo é o próprio Curdistão que, aquando da divisão do império otomano no fim da 2.ª Guerra Mundial, ficou esquecido pelas grandes potências e ficou dividido entre quatro Estados — Turquia, Síria, Iraque e Irão.
Em 2014, Kobane escreveu as páginas da história tornando-se um símbolo da resistência curda. Com o ISIS a rodear todo o norte da Síria, a população de Kobane decidiu resistir e enfrentar o grupo takfiri, tomando as armas. Na defesa de Kobane, 80% das pessoas que resistiram durante 134 dias aos avanços jihadistas eram mulheres da Unidade de Protecção das Mulheres (YPJ), que no dia 26 de Janeiro de 2015 anunciaram a libertação da cidade. Essas mulheres tornaram-se os símbolos do modelo filosófico em que se baseia o Confederalismo Democrático — Ecologismo; Anti-Patriarcado; e Comunalismo.
Hasan Gögüs mente ao afirmar que a DFNS pretende violar a integridade territorial da Síria. Mente igualmente sobre os sucessos da Operação Escudo do Eufrates. Quem é reconhecido internacionalmente por violar a integridade territorial de vários países é a própria Turquia. Relembro os territórios ocupados no Chipre e na região de Hatay, zona que historicamente fazia parte da Síria e que, com a divisão do império otomano, foi ocupada pela Turquia. O regime sírio continua até aos dias de hoje a não reconhecer a zona como sendo turca. Operação Escudo do Eufrates é, na realidade, o início do imaginário político do neo-otomanismo e da política expansionista e genocida do regime governado pelo AKP com o apoio do partido de extrema-direita MHP. Ex-combatentes do ISIS e de grupos locais vinculados à Al-Qaeda como a HTS emitiram várias confissões às Forças Democráticas Sírias (SDF) onde indicavam que se tinham misturado com a população local em Jarablus durante a campanha do Escudo do Eufrates para assim se integrarem nas milícias controladas pelo regime turco. Combatentes do ISIS também indicam que na mesma campanha não ofereceram qualquer tipo de resistência às ofensivas turcas. Várias organizações não-governamentais também demonstraram as várias ligações entre o ISIS e a Turquia para a venda de petróleo e o cruzar de fronteiras de forma livre de complicações.
A maior ameaça à integridade territorial da Síria e à estabilidade no Médio Oriente chama-se Erdogan, graças ao seu apoio a bandos de ideologia salafista e aos seus bombardeamentos e assassinatos que têm massacrado a população curda, dentro e fora de portas. Em Bakur (Sudeste da Turquia), a população curda vem sendo massacrada há décadas, com mais de 40.000 vítimas curdas nos últimos 30 anos. A política de terra queimada aplicada pelo regime do AKP deixou as cidades de Mus bedlîs, Sûr, Dersim, Farqîn, Cizîr, Sirnex, Bîsmîl, Silopîya, Nisêbîn, Sêrt, Gever, Colemêrg, Hezex completamente destruídas, provocando deslocações massivas de refugiados. Se nos situarmos no pós-golpe de Estado, mais de 134.194 pessoas foram demitidas da função pública, pelo menos 100.155 foram detidas e 50.142 encontram-se na prisão. As instituições internacionais têm amplamente documentados os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos em Bakur, onde centenas de pessoas, entre elas dezenas de crianças, morreram às mãos do exército turco.
No passado dia 20 de Janeiro, o regime turco anunciou uma operação militar terrestre e aérea que visa invadir Afrin, em cooperação com o Exército Livre Sírio (FSA), conhecidos no Ocidente como “rebeldes moderados” — Ahrar al Sham, Partido Islâmico do Turquestão Oriental, Tahrir al Sham, etc. —, grupos locais da Al-Qaeda que estiveram anteriormente em aliança com o ISIS. Existem também diversos vídeos que mostram um comboio militar turco a dirigir-se à cidade de Idbil escoltados pelo exército do regime e pela Tahrir al-Sham. Afrin é uma das poucas regiões que passou incólume à chacina de sete anos em que se transformou a guerra na Síria, sendo, portanto, uma mentira a afirmação do embaixador de que estão a ir "salvar os irmãos sírios". É, na verdade, mais uma desculpa para exterminar um povo milenar e alterar a estrutura demográfica da zona. Segundo censos do regime sírio, Afrin sempre foi considerada uma região etnicamente curda, na qual mais de 80% da população é de origem curda. Historicamente, toda a zona entre as montanhas de Zagros e Tauros é considerada como a terra dos curdos.
O Direito tem dois pesos e duas medidas para o embaixador da Turquia, que defende a invasão turca apelando ao Direito Internacional e às resoluções do Conselho de Segurança, quando a mesma Turquia está a violar as normas do Direito Internacional ao bombardear população civil e ao destruir zonas residenciais e apagar a história cultural da zona. Pelo menos 300 pessoas morreram desde o início da operação e mais de 25.000 foram forçadas a refugiar-se nas montanhas, enquanto a destruição de zonas arqueológicas como Nabi Hori e do templo de Ain Dara, construído em 1300 a.C., é levada a cabo. Nas últimas semanas surgiram os primeiros relatos do uso de napalm contra a população civil, também proibido pelo Direito Internacional. Importa também falar do facto de que desde o início da operação militar mais de 700 pessoas foram presas na Turquia por criticarem publicamente — em jornais ou redes sociais — a operação militar em Afrin.
A forma como o embaixador termina a sua crónica, ao escrever que a guerra da Turquia não é contra um grupo étnico em particular, mas sim contra os "terroristas do PKK-YPG-KCK", é prova da decadência deste regime. A hipocrisia e a propaganda devem ser denunciadas e combatidas. Termino o meu direito de resposta afirmando que a comunidade internacional e todas as pessoas que se dizem defensoras dos direitos humanos devem erguer-se em solidariedade com o povo curdo e condenar publicamente a agressão do regime turco ao povo curdo e à integridade territorial da Síria.
Comentários
Mário Moreno
Bom artigo sobre a situação real... Mas para a Turquia o PKK, são terroristas... Mas, o papel da Turquia na guerra da Síria e do Iraq, vai muito para além disso... Basta ver que era a porta de entrada de jiadistas do Desh e EI... Se fazia pela Turquia... Com a complacência da Nato e dos países ocidentais que sempre omitiram esse facto... Porquê?
Luís Miguel terra alheia 28.02.2018
Confesso-me admirado (mas satisfeito) ao ver o Público dar voz ao contraditório relativamente ao conflito sírio. Por uma vez, desviou-se da versão oficial. Destaco: «A política de terra queimada aplicada pelo regime do AKP deixou as cidades de Mus bedlîs, Sûr, Dersim, Farqîn, Cizîr, Sirnex, Bîsmîl, Silopîya, Nisêbîn, Sêrt, Gever, Colemêrg, Hezex completamente destruídas, provocando deslocações massivas de refugiados.» O silêncio sobre estes acontecimentos no sudeste da Turquia é praticamente total, mas em que diferem eles das campanhas de Alepo-leste e agora da Ghouta oriental, a não ser pela maior dimensão dos primeiros? Ou dos bombardeamentos americanos em ar-Raqqa, igualmente silenciados, que reduziram a cidade a escombros?
Joao Portugal 28.02.2018
Li agora que o Turco se gaba de ter "eliminado" já 2184 em Afrin... não sei quantas serão civis, imagino que poucas pois tenho notado que os curdos evacuam as populações das povoações atacadas... Silêncio nos media de "referência" ocidentais...
Joao Portugal 28.02.2018
Ao contrário os media falam e falam e apelam ao sentimento pelos que morrem em Ghouta, de onde os terroristas não os deixam sair, onde os terroristas os usam como escudos humanos, onde os terroristas os metem em jaulas em cima de veículos para acompanharem as deslocações e operações dos terroristas… E os sebentos políticos choram, e os trauliteiros pró-terroristas choram, e os media alimentam o choro… Mas sobre os curdos em Afrin, silêncio e omissão apoiando o aliado Turco…
Joao Portugal 28.02.2018
Um abraço Sivan. Lamento mas não vai encontrar simpatia por aqui para a defesa dos Curdos em Afrin. Por aqui pupulam os direitotes pró-guerras americanas e dos seus aliados... aliados Turcos e da restante trupe bombista da Nato. Lamento Sivan, mas malta por aqui prefere apoiar todos os terroristas, wahabitas, turcos, americanos, sauditas, israelitas, todos... apoiam todos, menos as populações que se defendem na sua terra perante as invasões estrangeiras.
Joao  Portugal 28.02.2018
Absolutamente caro Sivan! O caro salienta as várias "encurvaturas" manipuladoras (como eu lhes chamei no texto turco) do Turco. Ainda bem que alguém fala na primeira pessoa sobre as sebentices turcas de apoio aos jihadistas wahabitas ...
Joao Portugal 28.02.2018
Mas repare… esta gentalha, desde a generalidade dos políticos ocidentais, aos media, aos trauliteiros belicistas de serviço, todos estão empenhados em apoiar o Turco, após alguns dias de espera, todos apoiam o Turco… por omissão … por manipulação e por branqueamento das suas sebentices…
Joao Portugal 28.02.2018
Portanto meu caro Sivan, tudo indica que os curdos estão de novo sós, quanto muito neste momento encontram algum apoio quase só simbólico no governo sírio…
Joao Portugal 28.02.2018
E já agora caro Sivan… e os seus aliados USA? Andaram os curdos a morrer para os USA conquistarem a margem esquerda e todos os poços de petróleo e gás sírios …. e… e nada? Nenhum apoio dos USA?

sexta-feira, 2 de março de 2018

Colin Firth



A capa do Público de 27/2 apresenta o quadro de Vermeer “Rapariga com brinco de pérola”, excelente apelativo para expressivo texto no interior do jornal. E de facto, o artigo de Lucinda   Canelas, «Como é que Vermeer pintou esta Rapariga? A ciência vai tentar explicar, 350 anos depois» é ilustrativo não só do valor e reconhecimento mundial do quadro, que, encontrado em mau estado de conservação, é restaurado e agora sujeito técnicas de análise, como, pelo mistério e beleza da modelo, logo originando precioso filme, onde o quadro – certamente que em reprodução – foi vastamente visto e romanceada a história da sua modelo, humilde mas sensível colaboradora do seu patrão Vermeer no fabrico das tintas e objecto de intenso ciúme da mulher deste. O meu grande espanto e prazer foi, contudo, ter reconhecido no actor com o papel de Vermeer, Colin Firth, tantas vezes visto na série “Orgulho e Preconceito”, ao lado da tão expressiva Jennifer Ehle, de uma história de amor do século XIX. A televisão fez-me reencontrar Colin Firth em vários outros filmes e o prazer pela sua actuação, geralmente humorística - “The importance of beeing Earnest”, os "diários de Brigit Jones", "Mamma Mia", "Nanny McPhee" e outros mais – proporcionam facetas de transporte para mundos de fantasia que nos põem de bem com a vida. Momentaneamente, que esta é mais dada à desgraça.


Como é que Vermeer pintou esta Rapariga? A ciência vai tentar explicar, 350 anos depois
Os cientistas que agora vão estudar este retrato foram buscar tecnologia de ponta e querem saber que materiais usou este artista do século de ouro holandês. No fim, garantem, será como ver Vermeer trabalhar.
LUCINDA CANELAS                                                
PÚBLICO, 27 de Fevereiro de 2018
Passaram quase 25 anos desde que Rapariga com Brinco de Pérola, uma das mais celebradas pinturas da idade de ouro holandesa, esteve sob o microscópio, sujeita ao escrutínio de historiadores de arte e restauradores. Agora, este retrato de Johannes Vermeer, imagem de marca do museu Mauritshuis, em Haia, volta ao estirador para ser examinado com recurso às mais modernas tecnologias. E o que querem com este diagnóstico os investigadores? Perceber, explica a galeria no seu site, como foi pintado e com que materiais, nada mais.
Os trabalhos de análise, todos com base em técnicas não invasivas, vão prolongar-se até 11 de Março e decorrerão à vista do público. Em vez de pegar na tela e de a levar para os laboratórios deste museu que guarda uma das melhores colecções de pintura holandesa do mundo, a equipa do Mauritshuis resolveu construir na sala onde habitualmente é exposto uma caixa de vidro em que os conservadores vão trabalhar 24 horas sobre 24 horas, actualizando diariamente os relatórios da intervenção, dando conta do que vão descobrindo sobre os métodos daquele que permanece como um dos mais misteriosos mestres da pintura do Norte no século XVII.
O projecto, a que deram o nome de Girl in the Spotlight (qualquer coisa como “Rapariga sob os holofotes”) e que não inclui quaisquer trabalhos de restauro e conservação, recorre a uma série de técnicas exploratórias (tomografia de coerência óptica, microscopia digital, fluorescência de macro raios-X), algumas delas do campo da medicina, para reunir um enorme manancial de informação que não implica qualquer recolha de amostras para saber mais sobre os óleos e pigmentos que o artista usou há 350 anos. 
Abbie Vandivere, conservadora-chefe de pintura da Real Galeria de Pinturas do Mauritshuis, nome oficial do museu, dirige esta equipa de investigação que inclui técnicos de várias instituições nacionais e internacionais, como as universidades de Antuérpia, Delft e Maastricht, a National Gallery de Washington e o Instituto dos Países Baixos para a Conservação, Arte e Ciência, que traz consigo o Rijksmuseum.
“É uma honra colaborar com uma equipa como esta”, disse Vandivere, num comunicado do museu, congratulando-se com o facto de à experiência dos especialistas poder juntar “tecnologia de ponta”: “Durante duas semanas o museu terá um dos centros de pesquisa mais avançados do mundo.” No fim deste projecto, acredita a conservadora, Rapariga com Brinco de Pérola estará certamente entre as “obras mais bem documentadas” de sempre (na corrida a este “título” estarão, certamente, Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e Guernica, de Pablo Picasso).
No final, explicou ao diário norte-americano The New York Times Joris Dik, um investigador da Universidade de Tecnologia de Delft que integra a equipa, “teremos uma espécie de Google Earth em que se pode clicar nas distintas camadas e ampliar ou reduzir para ver diferentes elemetos em cada uma delas”.
Rapariga com Brinco de Pérola (c. 1665) está desde 1881 em exposição no museu de Haia, instalado num edifício do século XVII no centro da cidade e inaugurado há quase 200 anos. Teve, no entanto, de esperar mais de cem para se transformar na estrela que é hoje, sendo o principal íman para boa parte dos 400 mil visitantes que o Mauritshuis recebe todos os anos, apesar de na sua colecção se encontrarem outras pinturas incontornáveis da arte holandesa do século XVII, como A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt, e O Pintassilgo, de Carel Fabritius, um homem que teve o autor de A Ronda da Noite como mestre e Vermeer como aluno.
À grande popularidade que Rapariga com Brinco de Pérola agora tem não será estranha, porventura, a digressão que fez, com outras obras desta galeria, pela Itália, pelos Estados Unidos e pelo Japão quando o museu, privatizado em 1995, fechou durante dois anos para ampliação.
Um romance e um filme
A obra de Johannes Vermeer (1632-1675) – um óleo sobre tela com dimensões modestas (44,5X39 cm) – foi comprada num leilão no final do século XIX por pouco mais de dois florins (hoje, cerca de um euro) e em muito mau estado. Só em 1994 seria objecto de uma complexa operação de restauro que lhe deu o aspecto – e o brilho – que hoje tem. No ano seguinte fez parte de uma exposição que juntou o museu de Haia e a National Gallery de Washington, o seu passaporte para a fama, devidamente carimbado quando, em 1999, Tracy Chevalier publicou o romance Rapariga com Brinco de Pérola, que mais tarde foi adaptado ao cinema por Peter Webber.
Neste filme de 2003, a actriz Scarlett Johansson é a jovem criada que no livro serve de modelo a Vermeer (papel confiado a Colin Firth), um artista perseguido tanto pela ganância da sogra como pelos ciúmes da mulher, perfeccionista até à obsessão e claramente atormentado pela beleza da rapariga que não pode deixar de pintar.
Os especialistas dividem-se quanto ao modelo a que o artista terá recorrido nesta Rapariga com Brinco de Pérola. Para uns, é claro que se trata de uma amante ou de uma das filhas (se for este o caso, não lhe terá faltado por onde escolher, já que o artista teve 15 filhos e, dos dez que não morreram ainda bebés, sete eram mulheres), para outros, é simplesmente um retrato que partiu da imaginação de Vermeer, sem que a esta jovem sedutora corresponda uma mulher real.
Garantiu já Emilie Gordenker, directora do museu Mauritshuis, que o novo projecto de investigação não pretende afastar-se das provas físicas, materiais, para entrar no domínio da interpretação e criar ou apoiar teorias sobre a identidade da modelo deste retrato. “Uma das coisas que faz com que este quadro seja tão espectacularmente atraente é o facto de não sabermos [quem é ou sequer se existe]”, disse ao New York Times.
O que Vermeer nos dá nesta obra conhecida como “Mona Lisa do Norte” – o nome que hoje tem integra uma lista de que fazem parte outros como Um Retrato ao Estilo Turco, ou os mais descritivos Jovem com Turbante e Cabeça de Jovem – é uma mulher que parece interpelar quem a olha, de turbante azul e amarelo na cabeça, lábios entreabertos, brilhantes, e um brinco de pérola (há quem defenda que se trata de um pendente de metal, provavelmente prata, ou até de vidro veneziano envernizado por causa da forma como o artista pinta a luz a reflectir-se nele). Se existiu ou não, pouco importa. O que interessa, defende Abbie Vandivere, a conservadora-chefe do museu de Haia, é o que pode ensinar-nos ainda sobre a forma como Vermeer trabalhava, como pensava. E isso, quando se trata de um artista que pintou como poucos a mulher na intimidade da casa e que deixou apenas cerca de 30 obras, já não é nada mau.


quinta-feira, 1 de março de 2018

Curiosidades



Também conheço vários casos de familiares e amigos e simplesmente conhecidos, que experimentaram os efeitos das medicinas alternativas, gastando “rios” de dinheiro e se tramaram. A doença foi avançando e não perdoou, ou interromperam a tempo regressando à medicina científica e assim melhorando.
Mas a maior parte dos comentaristas é a favor das “medicinas” asiáticas e vem à liça acusar e defender a medicina oriental.

EDITORIAL
O elogio da ignorância
Há certamente terapias que nasceram no oriente que são aplicadas pela medicina, e estamos todos muito agradecidos por isso – mas a subtileza das palavras não nos pode distrair do essencial.
DIOGO QUEIROZ DE ANDRADE                
PÚBLICO, 28 de Fevereiro de 2018
O governo decidiu viabilizar a criação de uma licenciatura em medicina tradicional chinesa, abrindo caminho ao reconhecimento de praticantes de uma “medicina” que dispensa o conhecimento científico e se baseia em crenças em vez de factos. A linguagem é essencial, como bem sabe o legislador. E por isso vale a pena citar a portaria que autoriza a aprendizagem das “terapêuticas não convencionais” para um “exercício de profissão”. Lá convidam-se, na prática, equiparados a médicos a promover teorias aleatórias graças a uma aprendizagem em que se discutem teorias como “Os seis níveis, as quatro camadas, os três aquecedores”. E é isto que vai concorrer com a prática médica do Sistema Nacional de Saúde.
Há certamente terapias que nasceram no oriente que são aplicadas pela medicina, e estamos todos muito agradecidos por isso – mas a subtileza das palavras não nos pode distrair do essencial. A saúde é e tem de continuar a ser feita por médicos devidamente credenciados, não por charlatães com boa (ou má) vontade que ganham a vida à conta da ignorância alheia. Nada contra o acumulado de sabedoria oriental que deriva para a verdadeira medicina e para a melhoria do bem estar individual, que deve até ser promovida junto dos actuais corpos clínicos para que chegue a mais cidadãos. Mas é importante estar contra todo o somatório de ignorantes e charlatães que promovem vigarices à conta dos incautos. Já agora, porque não uma licenciatura em astrologia? Certamente que a taróloga Maya e o professor Karamba teriam prazer em participar na definição do corpus científico destas matérias.
A sociedade é democrática e cada um é livre de acreditar no que quiser: nos anjos da guarda, nas terapias homeopáticas, nas cartomantes, na herança nigeriana que chega por email, nos extraterrestres que vivem debaixo da terra, nas regressões a vidas passadas, nos duendes, no chá de beterraba ou nos lobisomens. Cada um dos crentes nestas e noutras coisas do género tem todo o direito de gastar o seu dinheiro a consumir e promover estas ideias, desde que elas não contenham ilegalidades. Ou seja, numa sociedade livre cada um tem direito a fazer valer a sua própria irracionalidade, desde que não afecte os outros. O que não se pode esperar é que sejam as entidades oficiais a validar estas formas de exploração privada, porque isso põe em causa a superioridade do sistema científico no qual está construída a nossa civilização. E é tão grave ter Donald Trump a admitir que as vacinas provocam autismo como é ter o governo português a promover oficialmente a ciência as formas de medicina tradicional chinesa.
O maior inimigo de uma sociedade aberta é o legislador ignorante. Esta deriva anti-científica que se tem vindo a intensificar nos últimos anos não prenuncia nada de bom para o futuro. E continua a avolumar-se o paradoxo de vivermos numa sociedade do conhecimento, mas de forma voluntariamente ignorante. 

Alguns comentários
Manuel Dias Lisboa 
Lydia Gouveia   A acupunctura é uma das técnicas/valências da MTC, existem outras: a Moxibustão,a massagem Tuina, a dietética, a Fitoterapia. A acupunctura certamente pelo seu impacto visual acaba por ser a técnica mais conhecida logo mais abordada. Mas todas elas são importantes e usadas consoante a necessidade do caso clinico apresentado. é uma área demasiado vasta para ser resumida à acupunctura e se resumir a uma técnica terapêutica a anexar a uma área da saúde já existente. Dai a importância de uma licenciatura sólida que possa garantir aos utentes um serviço de saúde fiável. E se quer minha opinião (e por ter estudado ambas as medicinas convencional e chinesa) 4 anos é bom mas não é o suficiente e então uma pós-graduação de 2 semestres em acupunctura é claramente insuficiente até mesmo para médicos!!
Minhoto  Minho/Galiza 
Minhoto   Minho/Galiza  Caro: os médicos têm é medo que os congressos da classe se passem a realizar em Vilar de Perdizes, com o alto patrocínio do Padre Fontes.
Lydia Gouveia 28.02.2018  Que titulo soberbamente escolhido! Este artigo é de facto um elogio de ignorância extrema, é triste que um sub-director de um jornal tão emblemático como o Público se permite escrever um artigo no qual não se verifica qualquer analise imparcial, qualquer investigação do objecto abordado... Gostaria de informar o Sr .Andrade do seguinte: - Desde 1997 que a OMS reconhece e recomenda a Acupunctura (exercício da MTC) para o tratamento de 184 patologias. - Existem milhares de estudos RCTs que comprovam a sua eficácia. - Diversas faculdades de medicina em Portugal e no estrangeiro ministram Pós graduações em Acupunctura (estarão os nossos médicos a enveredar para um lado oculto?!!) - Vários hospitais propõem consultas de Acupunctura para a dor. Estará a Ordem dos Médicos a permitir exercício infundado?!
Margarida Paredes   Salvador da Bahia
Zut Mut 28.02.2018  Também a medicina convencional, Margarida, baseada em testes estatísticos de hipóteses e de independência de factores. Como suposta cientista social devia conhecer sobejamente essas ferramentas, mas infelizmente, como já mostrou muitas vezes, em vez de ciência apenas aproveita o seu lugar para fazer guerrilha política.
Incompetente  Barracão nº 33 
Ilda Martins 28.02.2018 Comparar Homeopatia ou Medicina tradicional chinesa com cartomantes ou duendes é deveras sem sentido e demonstra total desinformação ou conhecimento de causa. E usar isso como argumento para refletir a sua opinião parece-me sinceramente cru. Charlatães ou ignorantes existem em qualquer parte, até mesmo na medicina convencional, porque diz respeito ao foro individual. Não sendo da área, sempre tentei e tento informar-me sobre este tema. A verdade é que, a minha experiência de contacto com um médico pediatra (sim graduado), com mais de 30 anos de prática em homeopatia, tem-me demonstrado factos, um elevado conhecimento por parte do profissional e não apenas crenças deste tipo de terapêuticas. Isto não significa ser radical quanto à medicina dita convencional. A união mais eficaz. Informe-se!
Zut Mut 
Ilda Martins  
JP  Lisboa  "Comparar Homeopatia ou Medicina tradicional chinesa com cartomantes ou duendes é deveras sem sentido e demonstra total desinformação ou conhecimento de causa" - com duendes até concordo. Mas a cartomancia é uma "arte" com mais de seis séculos e há gente que jura que a coisa funciona. Nesse sentido, qual é o problema de compará-la à homeopatia, que foi inventada há pouco mais de duzentos anos? Também podemos ir buscar a bem mais velhinha astrologia, com raízes tão antigas como as da medicina tradicional chinesa. Porque havemos de distinguir duas "artes" igualmente ancestrais e baseadas em conceitos com idêntica validade científica?
João Beles  
Zut Mut 28.02.2018 Para além de enxaquecas e talvez uma ou outra situação clínica, não se mostrou haver vantagem em usar a acupunctura em relação ao efeito placebo, consulte por exemplo o site da Cochrane, onde são apresentados os resultados de testes independentes de diferentes terapias. Claro que os adeptos das "medicinas" tradicionais podem publicar as os artigos duvidosos que quiserem em revistas publicadas e revistas pelos próprios, mas tipicamente os métodos são muito questionáveis e os resultados não são replicáveis independentemente.