segunda-feira, 26 de março de 2018

Salazar sabia



Mais um texto revelador de um espírito isento e aberto, de erudição filiada em ideais democráticos aprofundados nas leituras específicas, repudiadas em tempos idos e que se mantêm hoje, em seguidismo de aparência farfalhudamente generosa, mas, entre nós cá, bastante desordeira e de uma utopia feita preferentemente de emoção e carinho de visibilidade e espectáculo, mais do que de estudo e reflexão. Não, certamente, o que se passa com Francisco Assis, com a visão multifacetada, não ofuscada pelo radicalismo das ideias feitas, revelando o papel apaziguador da mulher de Soljenitsin - o denunciante da política criminosamente totalitarista de Estaline -  a qual defende o papel de Putin na condução dos destinos do seu mundo, a que o da Europa deverá estar vinculado, em defesa dos princípios de poder numa sociedade educada, o que Francisco Assis parece aprovar. O comentário seguinte presta-lhe homenagem, que transcrevo:

 Setúbal 22.03/18
Artigo de opinião lúcido. De rara acuidade, num Ocidente que se limita a copiar "ad nauseum"
preconceitos contra a Rússia, ainda vista como o Grande Inimigo do mundo ocidental. E há que ter presente: no mundo ocidental movem-se interesses geoestratégicos e industriais-militares que precisam de um ou de vários inimigos. Ou os povos poderão indignar-se (revoltar-se mesmo) contra os gastos militares em sociedades com tantas carências sociais. Só temos um planeta, a nossa casa comum. Muitos parecem esquecê-lo. Reforço a ideia: excelente artigo, tanto sobre a Rússia, como sobre o Brasil. Precisamos de gente que não tenha medo de pensar. José Gil dizia que o mal dos portugueses é a sua «não-inscrição». Neste artigo vemos alguém que se inscreve. É bom sinal.

Também num livro de António Ferro, que colho entre os que meu pai deixou, encontro as entrevistas daquele a Salazar, comprovativos do saber e inteligência do estadista, pese embora a ironia generalizada hoje contra António Ferro que se tornaria o “propagandista do Salazarismo”. A verdade é que, do que tenho lido, sinto quanto Salazar foi, de facto, um espírito arguto e erudito, e não resisto a transcrever um passo desse livro de António Ferro, denunciador dos ideais comunistas, que Soljenitsin tão bem explicitou no seu “Gulag”, entre outras obras que não li:

«MEDIOCRIDADE»
«Junto agora um post-scriptum ao capítulo:
- Não acha picante o falso ardor com que certas personalidades e órgãos da democracia defendem o comunismo? Como se o comunismo não fosse um dos maiores inimigos da democracia…
- Claro está, concorda Salazar. Quem defenda o comunismo, ou quem pretenda converter-se a essas ideias, tem de renunciar, se a sua atitude é sincera, à defesa da liberdade… Liberdade e Comunismo são duas ideias antagónicas.
Acrescento:
- Contradição tão assombrosa, afinal, como se essas personalidades e órgãos começassem, de repente, a defender a Ditadura…
…- Retórica, mentalidade de comício, processos eleiçoeiros, que nos inferiorizam, que são os maiores obstáculos para uma obra desempoeirada, renovadora e sã. Poinsard, que fez um inquérito à vida portuguesa há vinte e tantos anos, a convite do Sr. D. Manuel, viu-nos como somos, à luz duma boa observação. Fazendo justiça às nossas qualidades, acreditando no nosso futuro, ele impressionou-se principalmente com o nosso provincianismo, com a nossa mediocridade, mediocridade na indústria, no comércio, na agricultura, na vida política, no jornalismo, na arte e na literatura de então. Muito se tem falado desde esse momento, mas é preciso não parar, é preciso lutar continuadamente contra a falta de elevação nas ideias e nas atitudes, contra essa mediocridade de processos, que atinge, por vezes, as inteligências mais altas e os valores mais sérios…. » (António Ferro, "Salazar")

Sim, Salazar sabia, e hoje ainda confirmaria, e não só com o ensino como está, mas …

O artigo de  OPINIÃO de FRANCISCO ASSIS:

Da Rússia ao Brasil
Marielle Franco foi executada porque há uma parte significativa dos poderes fácticos brasileiros que se recusa a aceitar tudo aquilo que ela representava.
PÚBLICO, 22 de Março de 2018
1. Três dias depois da anunciada reeleição de Putin para a presidência da Rússia, Natalia Soljenítsin, a viúva do grande escritor que tanto contribuiu para a degradação da ideia comunista no Ocidente e para o fim da União Soviética, concedeu uma entrevista a um jornal diário francês. Natalia contribuiu significativamente para a construção da monumental obra do marido. Tal como ele de formação matemática, renunciou a uma brilhante carreira nesse domínio para se consagrar a um trabalho conjunto que adquiriu proporções extraordinárias.
O seu olhar sobre o presente russo é de tal ordem lúcido e penetrante que nos ajuda a compreender uma realidade que à primeira vista se nos revela deveras estranha. A sua análise começa por uma referência à interpretação que Alexander Soljenitsin fazia da revolução de Fevereiro de 1917 que aboliu o regime czarista e abriu as portas para uma frágil e muito curta experiência democrático-liberal. Essa interpretação assentava na tese da pré-existência de um confronto fatal entre o poder e os sectores mais educados da sociedade russa. Esse confronto revelou-se de tal forma radical que inviabilizou qualquer possibilidade de obtenção de um compromisso. Foi nesse contexto dramático que germinaram as condições favoráveis à instauração de um regime radicalmente novo de natureza totalitária e anti-humana. Passando para o presente, Natalia Soljenitsin considera que a Rússia tem como principal desafio precisamente o de evitar a reedição de um quadro de contraposição insanável entre aquilo que ela define como a sociedade educada e o poder. Por isso mesmo não se coloca numa posição de rejeição absoluta do actual poder que Putin encarna. Reconhecendo o seu carácter autocrático, ela entende que através do diálogo será possível encaminhá-lo num sentido democrático. Explica o sucesso de Putin pelos erros cometidos internamente na primeira fase do período pós-soviético e pela atitude arrogante adoptada pelos países ocidentais, a qual teve o efeito de provocar um sentimento de humilhação nacional. É particularmente dura em relação à NATO, nomeadamente no que se refere à forma como tratou a questão da Crimeia muito antes dos recentes acontecimentos que conduziram à reintegração deste território na nação russa.
Natalia Soljenitsin tem razão no diagnóstico que elabora sobre o passado recente e o presente, revela uma condescendência excessiva em relação ao poder autocrático de Putin, mas alerta para algo de extrema importância: o Ocidente não deve cortar as pontes para um diálogo com a Rússia. Putin tornou-se uma figura proeminente porque restaurou a primazia do poder central contra a arrogância de uma parte da nova oligarquia e impôs a ordem nas ruas. Fê-lo de uma forma autoritária, prescindindo da construção de um Estado de Direito, com o que isso significa de denegação do respeito pelos Direitos Humanos e de favorecimento de um clientelismo profundamente anti-democrático. Apesar de tudo isto ser verdade, e de dever ser devidamente denunciado e contrariado, o mundo Ocidental deve manter a preocupação de não atirar os russos para a área de influência chinesa. Para evitar que tal aconteça, exige-se um esforço diplomático especialmente subtil, firme na afirmação dos valores democrático-liberais e inteligente na compreensão da singularidade nacional de um país que ainda vive num período assombrado pela memória dos seus múltiplos traumas históricos. Não é fácil superar os efeitos provocados, entre outras coisas, por uma tragédia totalitária que ocupou quase todo o século XX.
Não é possível ter a certeza de que Natalia Soljenitsin tenha razão nas suas advertências e nos seus prognósticos, mas vale a pena meditar no que ela diz, até por respeito pelo que foi o seu percurso excepcional de grande combatente contra o totalitarismo soviético. O desastre russo seria também de um certo modo um grande desastre Ocidental. Talvez ainda possamos ir a tempo de o evitar.

2. É cada vez mais penoso escrever o que quer que seja sobre o Brasil. O assassinato da Vereadora Marielle Franco, ocorrido às nove da noite, em pleno centro do Rio de Janeiro, revela o grau de apodrecimento institucional a que chegou um país que é uma das principais potências políticas e económicas do mundo contemporâneo. Nalguns aspectos o Brasil aproxima-se assustadoramente do estatuto de um Estado falhado, incapaz de garantir a segurança dos seus cidadãos, completamente vulnerável na protecção dos defensores dos direitos Humanos. Marielle Franco foi executada porque há uma parte significativa dos poderes fácticos brasileiros que se recusa a aceitar tudo aquilo que ela representava: a emancipação dos habitantes das favelas, das mulheres, da população de remota origem africana, das minorias sexuais. Esse Brasil atávico e preconceituoso é o principal obstáculo à plena afirmação de um país que pelo seu outro lado criativo e ousado suscita a admiração de uma grande parte do mundo. A morte de Marielle foi especial, como singular foi a sua vida, e como tal despertou uma comoção universal única. Permitiu lembrar outras mortes mais anónimas, igualmente trágicas que têm marcado o quotidiano de um país imerso numa violência insuportável. O pior de tudo é que não se vislumbra qualquer sinal positivo para o futuro imediato do Brasil.

domingo, 25 de março de 2018

Convulsão



Uma Editorial – de Manuel Loff – dando conta dos destrambelhos de Donald Trump, a abrir caminho para uma próxima guerra, sem ninguém a contrariar manobras de alguém pretensioso e desequilibrado que não crê em desastre ambiental. Uma Crónica de António Barreto, mais uma vez exprobando imprevidências e más políticas e má Justiça  nacionais, além de uma foto alusiva à degradação da nobre zona do Rossio, o Teatro D. Maria II, airoso e nobremente artístico, transformado em espaço de repouso exterior, como mostra a fotografia, pés pendendo de gente escarrapachada na amurada, discutindo da vida, indiferente à arte …
Ai das gerações que seguem, ai da nossa Terra, das nossas terras, dos nossos sucedâneos, filhos dos nossos filhos, a quem cantamos com entusiasmo sempre os “parabéns a você”, desejando felicidades e vida longa! Que estamos a preparar? Como se defenderão eles? Recordemos Adamo e a sua “Queda” da neve, por motivos de afastamento amoroso, esse, por motivos de susto, nós:

Tombe la neige
Salvatore Adamo, Laurent Voulzy

Tombe la neige
Tu ne viendras pas ce soir
Tombe la neige
Et mon coeur s'habille de noir
Ce soyeux cortège
Tout en larmes blanches
L'oiseau sur la branche
Pleure le sortilège
Tu ne viendras pas ce soir
Me crie mon desespoir
Mais tombe la neige
Impassible manège
Tombe la neige
Tu ne viendras pas ce soir
Tombe la neige
Tout est blanc de desespoir
Triste…

Editorial
Os senhores da guerra
Se o nomeado para a CIA é o ideal para satisfazer a sede nacional-populista do Presidente, o homem que agora segreda ao ouvido do Presidente é perfeito para fomentar acções militares.
MANUEL LOFF
PÚBLICO, 24 de Março de 2018,
Já não há dúvidas sobre a estratégia: Donald Trump quer ir para a guerra. A nomeação de John Bolton para conselheiro de Segurança Nacional é a confirmação de que a ideia de um conflito militar agrada ao Presidente. Bolton quer bombardear o Irão, atacar a Coreia do Norte e esvaziar as Nações Unidas de competências e fundos.
Os “falcões” tradicionais da política externa gostam de usar a força, mas por regra recorrem a ela como um recurso para algo: para conseguir sentar à mesa de negociações um adversário, para ganhar poder negocial visando uma estratégia de longo prazo ou para assustar potenciais inimigos. Bolton não. Bolton quer apenas que a América ponha o mundo a arder — porque pode. O conceito de diplomacia sem bombas é algo que o novo conselheiro de Segurança Nacional desconhece e se mostra repetidamente incapaz de entender.
E é este homem que vai agora sentar-se numa Administração que está cercada e que cada vez tem menos margem de manobra. É cada vez mais expectável que, quando a situação apertar, Trump opte por iniciar um conflito que desvie as atenções do processo judicial. Agora tem na equipa o homem ideal para liderar esse processo: John Bolton. Se o nomeado para a CIA é o ideal para satisfazer a sede nacional-populista do Presidente, o homem que agora segreda ao ouvido do Presidente é perfeito para fomentar acções militares. Este movimento é o sinal do isolacionismo que vai colocar os EUA longe dos aliados e distante das instituições internacionais. Um conflito com o Irão ou a Coreia do Norte, os alvos preferenciais de Bolton, será uma desgraça para o planeta e irá isolar ainda mais os EUA. Mas é o cenário cada vez mais provável.
Como uma guerra com a China seria inviável, Trump tomou a única opção possível para atacar Pequim: lançou tarifas sobre a importação de alumínio e o aço, isentando todos os grandes produtores, excepto o gigante asiático; ao mesmo tempo colocou obstáculos ao investimento de empresas tecnológicas chinesas num montante que pode chegar a 50 mil milhões de dólares. A China poderá responder com a imposição de tarifas na agricultura e na indústria, garantindo como consequência um aumento do desemprego, que irá afectar o eleitorado tradicional de Trump. Esta permanente instabilidade é a modalidade preferida de uma Casa Branca que não gosta do mundo actual e que quer mudá-lo através do reforço do Estado-nação. Daí as guerras.

A prova de fogo
ANTÓNIO BARRETO               
 DN, 25/3/18
Os incêndios de floresta de 2017, dos piores da história de Portugal, dos mais mortais da Europa e do mundo no último século, deixaram feridas não cicatrizadas nas famílias, nas autarquias, nos campos e na natureza. Assim como na segurança colectiva e na confiança dos cidadãos. Agora, há relatórios de investigações, ao que parece competentes e independentes. O que, mesmo havendo polémica, como em tudo, já é um progresso. A conclusão essencial é devastadora: confirma-se, se é que era necessário, o falhanço dos sistemas de prevenção, de protecção e de socorro. Por outras palavras, a segurança foi muito deficiente. Mas aplaude-se o pagamento de indemnizações, o que, além de humano, é o reconhecimento de responsabilidades.
Há também relatórios sobre o desaparecimento de armas e munições das Forças Armadas e das polícias. Relatórios mais discretos e não inteiramente públicos, não se percebe porquê. A conclusão primordial, a partir do que se sabe, comprova o que era evidente: fracassaram os sistemas de vigilância e de segurança.
O problema da segurança colectiva é muito grave. Dos mais sérios que se conhece. Mas, entre nós e nos tempos que correm, questão tão séria quanto a da segurança é certamente a da Justiça e do Estado de direito, o que implica apuramento de responsabilidades e capacidade de correcção de erros e negligências. Eis por que os próximos meses serão absolutamente decisivos. Serão a prova dos nove e a prova real para a nossa justiça. Poderemos verificar se tudo será diluído pelo sistema político e pela ineficiência. Ou se, pelo contrário, por uma vez, a justiça vai até ao fim.

As minhas fotografias
Residentes no Teatro Nacional D. Maria, em Lisboa.
Há uns anos que parte do Rossio, ruas adjacentes e Largo de São Domingos se transformaram em ponto de encontro de africanos, muçulmanos, asiáticos e, por vezes, uns europeus. Nos acessos ao teatro, há sempre uns velhotes a descansar ao sol, a jogar às cartas, a conversar, a intrigar, a trocar notícias de outros continentes. Ali perto, fica A Ginjinha, frequentada mais por turistas e lisboetas. Lojas de roupa “étnica”, produtos longínquos e géneros exóticos dão cor e vida. Todo aquele local encontra-se hoje em mudança. Há vários riscos para a evolução futura daquele bairro e daquelas paragens. Transformar-se em bairro degradado e marginal é uma hipótese. Outra é a da operação de limpeza étnica. Qualquer delas é odiosa. Manter a doçura cosmopolita e cuidar da qualidade urbana, preservar a humanidade, tratar da beleza do sítio e garantir a limpeza e a segurança… Estas seriam as boas hipóteses. Sempre as mais difíceis.
fotografia de antónio barreto

Obcecados com as questões sociais (os de esquerda) ou económicas (os de direita), os governos portugueses estão a deixar instalar-se uma deriva de impunidade e de ineficiência da justiça. O assunto é sério: é a erosão do Estado de direito.
A segurança colectiva e a protecção civil constituem apenas um capítulo da fragilidade crescente do Estado. A privatização e a reprivatização de empresas e grupos, feitas em condições de poucas garantias, deixaram o país mais fraco. Até porque, em certos casos, algumas privatizações tiveram como destinatários Estados estrangeiros, o que é irónico e arriscado. Um Estado fraco e endividado vende de qualquer maneira.
Coladas às operações de privatização, as desventuras da banca portuguesa aumentaram a fragilidade do país. Constituíram a mais drástica destruição de valor levada a cabo na história recente, só comparável aos efeitos económicos da revolução de 1975 e às consequências económicas da descolonização. Além desse estranho fenómeno que é o da destruição de valor, assistimos, nas sucessivas crises bancárias, à apropriação de recursos e ao desvio de capitais, mais próprios do roubo do que da falência. Como muitos desses bens e recursos eram de milhares de pessoas, vieram os contribuintes compensar as vítimas dos assaltos. É uma nova figura de culto em Portugal: os custos públicos dos roubos privados.
Com a destruição de valor e o roubo de capitais, verificou-se ainda, sob a capa da internacionalização, um autêntico massacre de empresas que tinham conseguido uma posição interessante em áreas de inovação e desenvolvimento, como no caso dos cimentos, das telecomunicações e da energia. Esta reconversão de serviços públicos e de grupos nacionais em redes internacionais foi levada a cabo por gestores sem escrúpulos. Nada do que precede se fez sem intervenção directa do Estado, sem a colaboração de governos e sem a cumplicidade de governantes.
Mais uma vez: a Justiça em causa. Há, na verdade, dos incêndios às armas, entre o BES e o BPN, entre a PT e a EDP, entre Angola e a China, entre o Brasil e a Venezuela e entre os vários grandes processos em curso, verdadeiras causes célèbres, um fio condutor: é o da ineficiência da Justiça.
Tudo está em saber se a democracia e o Estado de direito podem sobreviver à ausência da Justiça.
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sábado, 24 de março de 2018

Um soneto para A. G.



Camões era, na verdade, um pinga amor atormentado, em busca de uma utópica felicidade que não soube exprimir, ao que afirmou, nos seus versos, e que só as experiências de cada um farão compreender na sua sublimidade e malogro. Leiamo-lo:
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Lembrei-me do soneto, não pelo seu tema de um Amor que no tempo de Camões mal poderia aventurar-se por outro campo que não fosse o da espiritualidade, mas a propósito do verso «Verdades puras são, e não defeitos», que aplico à verrina de um homem do nosso tempo, escritor de tanta sagacidade e coragem, para desmascarar as perversões e hipocrisias deste seu tempo em que os instintos e a má fé se combinam sordidamente, nas profusas manifestações da sua visibilidade. Alberto Gonçalves é esse homem, mais uma vez um texto seu o demonstra, impiedoso e certeiro.

Uma vítima entre 60 mil
OBSERVADOR, 24/3/2018
Dado que Marielle Franco partilhava uma religião que se limita a considerar a vida dos fiéis e a desprezar as vidas restantes, o barulho selectivo e sonso em volta da sua morte é inteiramente adequado
Há dias, o homicídio de uma vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, causou particular consternação em Portugal. Da indignação nas ponderadas “redes sociais” a votos de pesar no parlamento, o assunto dominou a actualidade durante os dois ou três dias da praxe. Porquê? O que distinguia uma vítima de quem, suponho, 99,95 dos portugueses nunca ouvira falar?
Não foi o facto de ser brasileira. Em termos quantitativos, o Brasil é, com impecável avanço, o país com mais assassínios no mundo, e o décimo quarto qualitativamente. A cada ano, mais de 60 mil pessoas são por lá mortas a tiro ou métodos alternativos, sendo o Rio um lugar bastante prolífico na matéria. A circunstância de o Brasil possuir, desde o sr. Lula, uma legislação altamente restritiva no que respeita à posse de armas de fogo é apenas um pormenor, decerto irrelevante. Relevante é a habitual ausência de comoção deste lado do Atlântico.
Não foi o facto de o crime ter tido uma provável motivação política. Na vizinha Venezuela, são frequentes as matanças por razões “ideológicas”, com ou sem aspas, e nenhuma comove os portugueses “oficiais”. Mesmo no Brasil, e mesmo no universo da política municipal, só em 2017 foram abatidos perto de 40 autarcas, de filiações diversas e por motivos sortidos. Nem um suscitou a atenção da Assembleia da República.
Não foi o facto de a dona Marielle ser “favelada”, impostura repetida nos obituários e desajustada a uma cidadã que trepou pela escada social e pela política. Além disso, “favelados” a sério são alvos preferenciais da cultura de violência predominante no Brasil e não consta que estimulem vigílias em Lisboa.
Não foi o facto de a dona Marielle ser, conforme lembraram os “media” com curioso frémito, “mulher, negra e lésbica”. Entre as resmas de cadáveres baleados ou esfaqueados no Brasil, é estatisticamente impossível não haver milhares pertencentes a mulheres, muitas delas negras, algumas lésbicas, cujo triste fim não mereceu lamentos de cançonetistas e homenagem de deputados. Além disso, seria grotesco que, nestes “inclusivos” tempos, o género, a “raça” ou a orientação sexual influenciassem a piedade ou a indiferença das massas.
Não, senhor. O homicídio da dona Marielle provocou rebuliço porque a senhora era “activista”, suave código para “comunista” e autorização, ou ordem, para luto carregado. Uns mandam e, por convicção, medo, contágio ou perturbação, os demais obedecem. Tivessem as balas atingido um democrata comum, dos que prezam a liberdade e ninharias afins, o caso passaria à obscuridade com discrição e a ajuda de dois terços da AR: a unanimidade fúnebre abençoa unicamente os que combatem injustiças discutíveis em prol de injustiças inomináveis. Absurdo? Nada. Dado que Marielle Franco partilhava uma religião que se limita a considerar a vida dos fiéis, e a desprezar as vidas restantes, o barulho selectivo e sonso em volta da sua morte é inteiramente adequado.
Notas de rodapé:
1. Depois do ministro das Finanças, soube-se que o dr. Costa também pediu bilhetes para a bola. Em paragens menos folclóricas, o pedido seguinte seria o de desculpas, e talvez o de demissão. Por cá, é uma tradição respeitável, um pretexto para gracejos no parlamento, um pormenor imune a juízos de valor, uma simples pincelada na vasta aguarela da portugalidade. O mistério nem é tanto o sermos governados por burgessos, ou os burgessos se divertirem à nossa custa. O mistério é nós gostarmos.
2. É como a história do sujeito que faleceu com um resfriado agravado pelo camião que lhe passou por cima. Já sabíamos que os incêndios do ano passado haviam sido provocados por um raio despropositado, eucaliptos imaginários, a perfeita “tempestade de fogo” (?), alterações climáticas, agiotas da madeira, o sr. Trump, a incúria das populações, maluquinhos da aldeia, o governo de Passos Coelho, a ausência de cabras “sapadoras”, a seca, a desdita, etc. Soube-se agora de uma insignificância que é capaz de ter qualquer coisa a ver com o assunto: entre Março e Outubro, o governo recusou total ou parcialmente sete avisos da Protecção Civil para a necessidade de mais bombeiros e aviões no terreno. No meio destas curiosas desavenças burocráticas morreram cento e tal pessoas, fora trocos materiais. Das que sobreviveram, e a julgar pelas sondagens, uma boa parte continua a apoiar o PS, e outra parte rechonchuda apoia as seitas que apoiam o PS (PSD “moderado” incluído). São livres disso. Não se livram é de confundirmos os lamentos pela tragédia com um cinismo cruel e até um bocadinho demente.
3. Ao contrário de alguns, não me parece mal que uma criatura como o sr. Fernando Rosas ande a tossir palavreado pelas televisões e pelos jornais. Para ser sincero, até acho pedagógico: a presença dele ilustra na perfeição o caldo de subserviência e miséria a que chegou o chamado “espaço mediático” nacional. A título de exemplo, há dias o sr. Fernando Rosas decidiu que o CDS só tem um dirigente gay porque “é moderno”. Dos portentos intelectuais do BE, uma pessoa habitua-se a ouvir quase tudo. Porém, nunca tinha ouvido que, à semelhança da cor dos suspensórios do sr. Fernando Rosas, a homossexualidade é uma questão de moda. A ser verdade, há sujeitos que, embora propensos a entusiasmar-se com a Amy Adams, resignam-se ao apresentador Malato porque as tendências Primavera/Verão assim obrigam. A ser mentira, não é, apesar de tudo, das maiores proferidas por cabecinhas do BE. Claro que, na boca de um político de “direita”, a frase seria uma exibição de ódio e intolerância. Na boca do sr. Fernando Rosas, à solta na coutada do macho esférico, a atoarda passou, salvo por uns exaltados que no Facebook exigem a punição da personagem. Esquecem-se de que, dia a dia, hora a hora, instante a instante, a personagem já sofre o pior dos castigos: ser o sr. Fernando Rosas.