sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Segue-se o bitcoin das malfeitorias permitidas



E a crónica em vários andamentos, de Salles da Fonseca, sobre o estranho de uma progressão histórica e social, a nível mundial a partir da segunda guerra do passado século, e sob o influxo de um avanço tecnológico de uma acuidade implacável, acompanhado por conceitos de liberdade e igualdade raiando a irracionalidade - pois que nem na restante natureza viva se observam - chegou ao seu fim, com fotos de autêntico horror, cabeças e membros decepados, espalhados no chão do ódio, é certo que dos exterminadores islâmicos, ambiciosos de difusão mundial do seu insaciável culto. Em Moçambique, de um povo ordeiro que se ia pouco a pouco desenvolvendo, e de quem não esquecemos esses pedidos dos criados ou empregados que a tantos de nós suplicavam que os trouxéssemos também, no atropelo do mísero “retorno”, talvez cientes do resultado dessa independência que os beneméritos da doutrina unilateralmente fraterna lhes prometiam, seria esse que as fotos de Salles da Fonseca exemplificam. Sim, abandonámo-los às prepotências dos seus novos governantes, nós próprios abandonados às prepotências, embora mais contidas, dos nossos. E o resultado tem-se visto, em Angola, em Moçambique, nos desequilíbrios sócio-económicos e nos atropelos da irracionalidade e da perfídia.
Na nossa orientação democrática, de que Salles da Fonseca extrai as lições de uma malignidade à solta, num balanço de profunda indignação, apelando para a responsabilidade dos homens – inutilmente, é verdade, de tal modo a cegueira nos afronta, fruto de um crescendo de ignorância – meditemos no mal que estamos a causar às gerações futuras, que têm perdido valores e consciência humana, cada vez mais debruçados sobre as suas maquinetas manipuladoras, numa insensibilidade e desumanização graduais, que não são menos responsáveis pela sua infelicidade próxima - e tão presente já. 
É preciso arrepiar caminho. Já.

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO,  31.01.19

- Já disse, não há tempo a perder, quero tudo e já!
Quem assim pensa não tem tempo para avaliar se os meios são legítimos para alcançar o objectivo e muito menos tempo tem para saber se os procedimentos são éticos. E não tem tempo para analisar a questão ética porque a ignora propositadamente ou – pior ainda - porque a desconhece em absoluto.
Então, para ter tudo imediatamente, há que ter os meios de pagamento para o efeito e, das duas, uma: ou os herda ou os cria.
A herança pode, contudo, não ser suficiente para o financiamento das ambições (que podem ser desmedidas) e, portanto, lá vai o ambicioso ter que criar mais riqueza.
A criação (de riqueza) é, contudo, confundida amiúde com posse (da dita riqueza) sendo que esta segunda pode resultar da produção propriamente dita ou do roubo, tendo este a ver com a posse de algo por meio ilegítimo.
Então, estamos numa de que quem tudo quer de imediato e não olha a meios para alcançar fins, não hesita em recorrer a todos os expedientes para satisfazer as ambições. Daí, à trafulhice, não dista muito ou não dista mesmo nada.
E o que é que está a dar lucros que se vejam?
Tem tudo a ver com o risco: quanto mais arriscado um negócio, maiores perspectivas de lucro ele apresenta. E se o risco passar para as bandas da ilegalidade, então as margens são ainda mais altas.
A tentação é grande e há muito quem se sinta tentado.
Mas há «coisas» que por aí andam, de que muita gente fala às claras, mas que também me fazem muita confusão. Refiro-me ao «bitcoin» cuja publicidade nos entra pelos e-mails a oferecer lucros chorudos num piscar de olhos.
Moeda virtual, quem a emite e quem lhe garante um valor? E o valor que alguém lhe atribui, como é calculado?
Eis um tema sobre que eu gostaria de ouvir o «Banco de Portugal» a transmitir uma ou outra informação e, no seu silêncio, que fale o «Banco Central Europeu» ou, mais sofisticado ainda nos dias que correm, o «Banco de Inglaterra».
Aos gananciosos não lhes chega o «narcodólar» e inventaram agora uma nova moeda falsa.
E é neste mundo que vivemos - não há dúvida, o maligno anda mesmo à solta.
Quem quiser, que se arrisque mas se tudo der para o torto, que não se queixe pois o risco é a alma do negócio, muito mais do que o segredo.
(continua)

1 comentário
Adriano Lima 31.01.2019 :
 O maligno é uma constante da realidade humana, em tudo e mais alguma coisa. O homem vai fazendo evoluir continuamente as suas técnicas em tudo e mais alguma coisa, mas o "maligno" está-lhe impregnado na mente ao mesmo tempo que lhe anestesia o coração. O maligno não tem nada de metafísico, está mesmo em nós, na nossa natureza. Fico à espera de mais dados sobre o bitcoin, que parece ser novo estratagema do dito cujo.

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO,  01.02.19
 Dos temas que abordei neste conjunto de crónicas relativas à liberdade do Maligno
. ascensão da China,
. invasão muçulmana da Europa e correspondente «revivalismo» sunita,
. tensão totalitária na Turquia e na Venezuela,
. bitcoin e narcodólar,
façamos um caldinho do revivalismo sunita, da tentação totalitária e do narcodólar e vejamos no que dá:

Imagens bem recentes, que me chegaram há muito poucos dias, relativas aos ataques terroristas muçulmanos na Província de Cabo Delgado no extremo norte de Moçambique.

Alguém fica com dúvidas de que o maligno anda por ali à solta?
Com que objectivo e instigado por quem? Aceitam-se pistas.
Fevereiro de 2019
FIM
COMENTÁRIO:
 Anónimo  01.02.2019:
   Horror !


Histórias de encantar


Uma bonita história de sucesso futuro nosso, este das pontes entre Portugal e o Japão, que me faz copiar um excerto da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto sobre a primeira espingarda no Japão, que foi oferecida por Diogo Zeimoto ao nautaquim, príncipe da ilha japonesa de Tanixumá, que muito a prezou e por ela mandou fazer milhares.
Eis alguns passos, do capítulo 14 de “Peregrinação”, com Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa (in “Textos Literários”), confirmativos do nosso pleno mérito (por glórias passadas), em participar no projecto das actuais pontes comerciais, segundo informação de CECILIA MALMSTRÖM, que oxalá Deus a ouça, por ora, pois nunca se sabe o preço futuro destes acordos, negociantes que costumamos ser, de proveito mais pessoal do que comunitário, e por esse motivo, pouco lucrativos em termos nacionais, é ponto assente.
Para mim, foi delicioso rever o texto de FMP, e por isso o copiei, num esforço participativo (titânico) para o encaminhamento das negociações sobre a ponte comercial, lembrando pioneirismos passados, a merecer galardão.

 Peregrinação”, cap. 134:
“… Nós, os três portugueses, como não tínhamos veniaga em que nos ocupássemos, gastávamos o tempo em pescar e caçar, e ver templos dos seus pagodes (= deuses, ídolos), que eram de muita majestade e riqueza, nos quais os bonzos, que são os seus sacerdotes, nos faziam muito gasalhado, porque toda esta gente do Japão é naturalmente muito bem inclinada e conversável.
No meio desta nossa ociosidade, um dos três que éramos, por nome Diogo Zeimoto, tomava alguas vezes por passatempo tirar com ua espingarda que tinha de seu, a que era muito inclinado e na qual era assaz destro. E acertando um dia de ir ter a um paul, matou ele com a munição uas vinte e seis marrecas.
Os japões, vendo aquele novo modo de tiros, que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautaquim, que neste tempo estava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual, espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paúl onde andava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas e dous chins carregados de caça, fez disto tamanho caso, que em todas as cousas se lhe enxergava o gosto do que via, porque, como até então nunca se tinha visto tiro de fogo, não se sabiam determinar co que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria..
O Zeimoto, vendo-os tão pasmados e o nautaquim tão contente, fez perante eles três tiros em que matou um milhano e duas rolas; e por não gastar palavras no encarecimento deste negócio e por escusar de contar tudo o que se passou nele, porque é cousa para se não crer, não direi mais senão que o nautaquim levou o Zeimoto nas ancas de um quartão (= cavalo curto e grosso, quase quadrado) em que ia, acompanhado de muita gente e quatro porteiros com bastões ferrados nas mãos, os quais, bradando ao povo, que neste tempo era sem conto, deziam:
- O nautaquim, príncipe desta ilha Tanixumá e senhor de nossas cabeças, manda e quer que todos vós outros, e assi os mais que habitam a terra dantre ambos mares, honrem e venerem este chenchicogim (=Termo japonês que significa “homem da Índia”. Assim se chamava aos portugueses, por irem da Índia para o Japão) do cabo do mundo, porque de hoje para diante o faz seu parente, assim como os facharões (=companheiros) que se assentam junto de sua pessoa, sô pena de perder a cabeça o que isto não fizer de boa vontade.
A que todo o povo, com grande tumulto de vozes, respondia: - Assi se fará para sempre
E chegando o Zeimoto com esta pompa mundana ao primeiro terreiro dos paços, descavalgou o nautaquim e o tomou pela mão, ficando nós os dous  (F. Mendes Pinto e Cristóvão Borralho) um bom espaço atrás, e o levou sempre junto de si, até ua casa onde o assentou à mesa consigo, na qual também, por lhe fazer a maior honra de todas, quis que dormisse aquela noite, e sempre dali por diante o favoreceu muito, e a nós por seu respeito em algua maneira.
E entendendo então o Diogo Zeimoto que em nenhua cousa podia milhor satisfazer ao nautaquim algua parte destas honras que lhe fizera, nem um que lhe desse mais gosto que em lhe dar a espingarda, lha ofereceu um dia que vinha da caça com muita soma de pombas e de rolas, a qual ele aceitou por peça de muito preço, e lhe afirmou que a estimava muito mais que o tisouro da China, e lhe mandou dar por ela mil taéis de prata, e lhe rogou muito que lhe ensinasse a fazer a pólvora, porque sem ela ficava a espingarda sendo um pedaço de ferro desaproveitado, o que o Zeimoto lhe prometeu e lho cumpriu.
E como dali por diante todo o gosto e passatempo do nautaquim era no exercício desta espingarda, vendo os seus que em nenhua cousa o podiam contentar mais que naquela de que ele mostrava tanto gosto, ordenaram de mandarem fazer por aquela outras do mesmo teor, e assi o fizeram logo. De maneira que o fervor deste apetite e curiosidade foi dali por diante em tamanho crescimento, que já quando nós dali partimos, que foi dali a cinco meses e meio, havia na terra passante de seiscentas.
E despois, a derradeira vez que me lá mandou o vizo-rei D. Afonso de Noronha com um presente para o rei do Bungo, que foi no ano 1556, me afirmaram os japões que naquela cidade de Fucheo, que é a metrópoii deste reino, havia mais de trinta mil. E fazendo eu disto grande espanto, por me parecer que não era possível que esta cousa fosse em tanta multiplicação, me disseram alguns mercadores, homens nobres e de respeito, e mo afirmaram com muitas palavras, que em toda a ilha do Japão havia mais de trezentas mil espingardas, e que eles somente tinham levado de veniaga para os léquios, em seis vezes que lá tinham ido, vinte e cinco mil.
De modo que por esta só que o Zeimoto aqui deu ao Nautaquim com boa tenção e por boa amizade, e por lhe satisfazer parte das honras e mercês que tinha recebido dele, como atrás fica dito, se encheu a terra delas em tanta quantidade, que não há já aldea nem lugar, por pequeno que seja, donde não saiam de cento para cima, e nas cidades e vilas mais notáveis não se fala senão por muitos milhares delas. E por aqui se saberá que gente esta é e quão inclinada, por natureza, ao exercício militar, no qual se deleita mais que todas as outras nações que agora se sabem.
Peregrinação, cap. 134


OPINIÃO
Construir pontes entre Portugal e o Japão
O Acordo de Parceria Económica entre a União Europeia e o Japão proporcionará um impulso económico vital tanto à UE como a Portugal.
CECILIA MALMSTRÖM
PÚBLICO, 1 de Fevereiro de 2019, 6:43
Corre por aí uma história: o mundo está para fechar. Há quem exija novas fronteiras, muros e divisões, alegando que isso é inevitável. Após décadas a estabelecer ligações, a reforçar laços e a aproveitar oportunidades, afirmam que, agora, é tempo de voltar atrás. Isto podia ser uma narrativa convincente, mas na realidade não passa de ficção.

Embora haja algumas excepções marcantes – há quem esteja a dar o seu melhor para fechar fronteiras –, a tendência é ainda esmagadoramente no sentido de mais contactos e de maior cooperação. Alguns separam-se, mas muitos mais se juntam e ganham força. A UE é um grande exemplo de como são possíveis as soluções 'win-win', em que todos ficamos a ganhar, em especial no que toca ao comércio. Negociar com uma voz comum, em nome de 500 milhões de pessoas, coloca-nos numa posição muito mais forte.

Amanhã, a cooperação europeia em matéria de política comercial culmina num dos maiores êxitos da última década: a entrada em vigor do Acordo de Parceria Económica entre a UE e o Japão. Este acordo proporcionará um impulso económico vital tanto à UE como a Portugal. É o maior acordo comercial bilateral jamais negociado, cobrindo uma área com mais de 630 milhões de habitantes.

O Japão já é o 17.º maior parceiro comercial de Portugal fora da UE. O acordo derruba obstáculos para as empresas, como os direitos aduaneiros, e reduz a burocracia. Trata-se de uma boa notícia, em especial para as pequenas e médias empresas (PME). Estas representam 99% das empresas da UE. No caso português, das 898 empresas que exportam para o Japão, 87% delas são PME. E para além da redução dos obstáculos, a UE inclui disposições especiais para ajudar as empresas mais pequenas a aceder aos mercados.

As pequenas empresas criam 85% dos novos postos de trabalho na UE, daí que o seu acesso reforçado ao comércio seja um motor para o crescimento do emprego. Actualmente, em Portugal, há quase seis mil empregos que dependem das trocas comerciais com o Japão. Extrapolada à escala da UE, esta realidade traduz-se em quase 740.000 postos de trabalho. O comércio externo da UE representa 36 milhões de postos de trabalho em toda a Europa. Em média, estes empregos também são melhores, com salários 12% mais elevados. O comércio livre tem sido um motor do emprego e do crescimento na Europa – e nisso somos bons.

Nos últimos anos, temos apostado decididamente na modernização da nossa política comercial. O acordo entre a UE e o Japão é um acordo comercial de vanguarda que comporta disposições que promovem as tecnologias verdes, normas jurídicas sólidas para proteger os direitos dos trabalhadores, a abertura do mercado dos serviços no Japão, bem como a possibilidade de as empresas da UE participarem em concursos públicos, nomeadamente para contratos no setor ferroviário. O Japão compromete-se a respeitar as normas internacionais sobre veículos automóveis, o que facilitará muito a exportação de automóveis para o Japão. O acordo garante ainda o respeito pela propriedade intelectual e confere proteção a mais de 200 especialidades certificadas da UE – incluindo o Queijo de São Jorge e a Pêra Rocha do Oeste.

Todos estes benefícios são importantes para a economia portuguesa, mas convém relembrar que este acordo ultrapassa a esfera da economia: trata-se também de uma aliança estratégica. Quando alguns fecham as suas portas, é importante que os que acreditam na abertura se juntem. Temos de ser capazes de demonstrar os benefícios da cooperação e defender as instituições que estiveram na base da estabilidade mundial durante décadas.

Depois de anos de instabilidade e de guerra, os que nos precederam construíram instituições para reforçar a nossa segurança económica e política: as Nações Unidas, para a cooperação política, e a Organização Mundial do Comércio (OMC), para criar um ambiente previsível para o comércio internacional. Não podemos voltar ao comércio de outros tempos – com guerras comerciais vingativas, direitos aduaneiros a flutuar ao sabor das retaliações e a ausência de regras para os serviços ou a propriedade intelectual. O sistema actual não é perfeito, mas não podemos dar-nos ao luxo de o perder. A Europa está disposta a defender estas instituições, e o Japão está connosco. Este acordo comercial vai reforçar os nossos laços e abrir caminho a uma cooperação aprofundada em domínios como a reforma da OMC.

Nos próximos anos, vamos ter de enfrentar uma dura realidade. Em breve, mais de 90% do crescimento mundial vai ocorrer fora da UE. Os nossos concorrentes estão a construir alianças e a reforçar posições. Tanto os nossos acordos comerciais bilaterais como a OMC são essenciais para garantir que a globalização decorre de uma forma justa e assente em regras.

Se quisermos manter a nossa posição de liderança, temos de estreitar os laços que nos permitirão resistir nas águas revoltas da política mundial. O nosso acordo com o Japão é um desses laços, na medida em que reforça a nossa economia e a economia dos nossos parceiros japoneses, ao mesmo tempo que nos permite criar um círculo de amigos que partilham os mesmos princípios e que será vital para o futuro.


A fatalidade do nosso mal



Não somos indiferentes ao mal, o que me parece é que pertencemos a uma nação em que, mais do que explorar as questões, aprofundando-as e habituando-nos a discutir-lhes os contornos, fixando-lhes os dados, nos limitamos a um falazar subjectivo de repúdio ou apreço, de pura parlação coscuvilheira e imprecisa, que a preguiça mental nos impede de definir com rigor. Pertencemos antes àquela categoria de pessoas que admiram as flores vagamente, sem lhes conhecer o nome, exaltando a paisagem na sua globalidade - forjadora, sim, de arroubo lírico - mas não a amando nem conhecendo, no pormenor da sua realidade. Como, de resto, nas questões da arte, e por aí fora. Julgo que a nossa educação, durante séculos descuidada, tem a ver com todos os problemas de paralisia social e económica que apontam João Miguel Tavares e os seus comentadores, mas paralisia também nos valores morais e cívicos, reflectindo uma despudorada ausência de princípios, acrescida de uma descontrolada vaga de indisciplina e deseducação. O certo é que nos sentimos viver num atoleiro, que sai continuamente hoje à luz, pelo escândalo mediático, no despudor de tanta trafulhice e infâmia. Na sua profissão de jornalista, João Miguel Tavares habituou-se a investigar e a trazer à cena os casos da sua pesquisa e da sua crítica. Admiramo-lo, na tentativa hercúlea de esclarecer e condenar. Mas, assim como assim, a coisa está-nos na massa do sangue, tal como a predilecção pelo álcool, em que saímos vencedores, segundo estatísticas recentes. Pobre do nosso país!

OPINIÃO
Não ouça o mal, não fale do mal, não veja o mal
Perante tamanho escândalo na Caixa, alguém escuta um burburinho sequer vagamente parecido com aquele que ouvimos quando o VAR falha um fora de jogo no Porto-Benfica?
PÚBLICO, 29 de Janeiro de 2019

Se alguém me perguntar qual é o grande problema de Portugal, aquele que mais contribui para a sua paralisia social e estagnação económica, a minha escolha não vai para a escassez de produtividade, nem para a falta de formação, nem para o peso da dívida. O maior problema português é a incapacidade em aprender com os erros cometidos, em inscrever na memória colectiva as consequências dos grandes falhanços nacionais, em reflectir seriamente sobre aquilo que se passa à nossa volta, e em punir (seja politicamente, seja judicialmente) os responsáveis por falhanços catastróficos.
A grande tragédia portuguesa não está tanto no número e na dimensão das nossas asneiras, mas na forma como elas adormecem num limbo de espanto e de indignação, sem que jamais consigamos arrancar dali uma força transformadora, que ao menos obrigue a que as coisas sejam diferentes no futuro e que os erros do passado não se repitam. Ficamos todos a resmungar, estacionados no “como foi possível?!?”, e nunca damos um passo em direcção ao mais importante de tudo: analisar o que aconteceu para que não volte a acontecer.
Portugal é um dos maiores especialistas internacionais nesta espécie de inimputabilidade, e o caso da Caixa Geral de Depósitos é um excelente exemplo daquilo que estou a dizer. Nós já conhecíamos os milhares de milhões de euros que lá tinham sido enterrados, mas o relatório preliminar da auditoria à CGD é absolutamente chocante quanto aos métodos: são empréstimos de centenas e centenas de milhões de euros feitos sem uma avaliação séria do risco, ou contra o conselho das equipas que avaliaram esse risco, ou sem garantias de quem pediu o dinheiro emprestado, ou sem a necessária documentação. Não foi apenas um grande conjunto de asneiras – foram procedimentos criminosos que delapidaram o património do banco e exigiram aos contribuintes portugueses mais um esforço hercúleo na sua recapitalização. O dinheiro que se esvaiu na Caixa não se deveu a negócios que inesperadamente correram mal. Deveu-se a negócios que previsivelmente correram mal.
Estes são os factos. Que consequências tiramos deles? Se depender dos nossos políticos, da própria Caixa ou do Banco de Portugal, as consequências são zero. Nicles. Nenhumas. E nada – nem sequer os roubos colossais – é mais chocante do que isso. O banco público português esbanjou quatro mil milhões de euros em seis anos, e não parece haver um só grupo parlamentar genuinamente interessado em apurar até ao último detalhe o que se passou. O PS não quer porque isso demonstra que a governação de Sócrates foi o maior assalto ao Estado desde Alves dos Reis. O PSD e o CDS querem pouco porque a CGD sempre foi o paraíso do Bloco Central. E o PCP e o Bloco não querem lá muito porque bater em instituições públicas é coisa de neoliberais. Quem sobra? Quem nos defende? Quem analisa tudo isto para que nunca mais volte a acontecer? Ninguém.
OK, melhoraram-se alguns procedimentos internos no Banco de Portugal. A CGD está mais abrigada de boys incompetentes. E a auditoria segue para o Ministério Público, provavelmente para concluir que a maior parte dos crimes já prescreveu. Mas, perante tamanho escândalo, alguém escuta um burburinho sequer vagamente parecido com aquele que ouvimos quando o VAR falha um fora de jogo no Porto-Benfica? Tal como os três macacos sábios, nós somos aconselhados a não ouvir, a não ver e a não falar. Infelizmente, se de macaco isto tem muito, de sábio não tem nada.

COMENTÁRIOS:
JORGE COSTA, Terras do Norte...  JMT, mais uma vez um EXCELENTE!! artigo a tocar na ferida da nossa sociedade.
Raquel Azulay, 29.01.2019 " O PS não quer porque isso demonstra que a governação de Sócrates foi o maior assalto ao Estado desde Alves dos Reis. O PSD e o CDS querem pouco porque a CGD sempre foi o paraíso do Bloco Central. E o PCP e o Bloco não querem lá muito porque bater em instituições públicas é coisa de neoliberais. Quem sobra? Quem nos defende? Quem analisa tudo isto para que nunca mais volte a acontecer? Ninguém." / //// Certíssimo, JMT. Mantenha esta admirável equidistância, caro JMT. Fica-lhe muito bem. Agora percebo porque é que o Sr Presidente da Republica o convidou para as celebrações do 10 de Junho. Fez muito bem. Congrats. :)
Mario Coimbra, 29.01.2019: Parabéns JMT. Muito bom. Muito bom mesmo.
vpverissimo, 29.01.2019 : Tem muita razão, João Miguel. Mas que podemos nós, comuns cidadãos, fazer para debelar esse cancro nacional? Nós só votamos e nada mais. Mas vós jornalistas - tal como você e mais alguns fazem e muito bem - não devem deixar morrer o assunto, e fazer com que essa corja de bandidos seja expropriada de todos os bens e encerrada por muitos anos numa prisão de alta segurança e poucas condições.
Célio Carreira, 29.01.2019: Concordo com o autor. Em Portugal nada se inscreve, não existe memória colectiva, não se aprende com experiências enriquecedoras nem se corrigem erros passados, apenas se alimentam alguns traumas, para mal dos nossos pecados. Ecos de um salazarismo bolorento ou, indo mais atrás, fruto de uma malapata de raiz sebastianista? José Gil, no seu livro Portugal, Hoje - O Medo de Existir, afirma que somos o país da não-inscrição. Os portugueses não conseguem inscrever no seu percurso colectivo os factos mais marcantes da sua história, nem retirar das suas experiências bem sucedidas ou falhadas o cimento para alicerçar o presente e o futuro do seu país. Domina-nos um ressentimento vago, mas crescente, contra um inimigo imaginário, que afinal reside apenas dentro de nós. A cura do mal não é fácil.
albergaselizete, 9.01.2019 : Os erros passados constituem a linha basilar de orientação para os erros futuros. Que o diga a ex-banca portuguesa, a ex-PT, a ex-GALP, a ex-EDP, etç. Começou com as ex-companhias de navegação, e ainda não parou. O que é que se segue?
Célio Carreira, 30.01.2019 Meu caro, com os erros passados aprende-se a corrigir e a orientar o futuro. Só voltam a cair no mesmo erro os burros (não desfazendo dos simpáticos animais que assim se chamam). Aliás, por falar em animais (irracionais), a própria natureza se encarrega de os fazer ganhar experiência e emendar certos comportamentos que têm a ver com a sua sobrevivência. Se o bicho Homem, que tem pensamento racional, não aprende nada com os erros, então é mais burro do que se pensa (de novo não desfazendo desse simpático animal, que até é bastante inteligente).
Manuel, Seixal  Existe um tipo de corrupção muito integrada na nossa sociedade e sobretudo no poder político e administração pública que e quase impossível de provar mas também mina a confiança: o favor, o lobby, o amiguismo na escolha dos lugares. Nomear alguém por critérios de amizade ou preferências para um lugar onde vai ganhar milhares, porque mais tarde irá retribuir o favor, ou alguém seu próximo, é um dos principais cancros da nossa sociedade.
publico1234567 29.01.2019: "Quem sobra? Quem nos defende? Quem analisa tudo isto para que nunca mais volte a acontecer? Ninguém." - Os portugueses não votam? Para que serve o nulo em formato de protesto ("branco" não porque pode ser aldrabado e "não votar" é dar o nosso voto a quem "eles" quiserem, como já se viu em eleições anteriores em que apareceram eleitores para votar e , como não era usual fazerem-no, já tinha sido usado o seu número de eleitor para votar)
Raquel Azulay, 29.01.2019  A malta vota mas pouco ou nada muda.
DNG,  Lisboa 29.01.2019 "Portugal está em 10º lugar no ranking das democracias a nível mundial, segundo o Relatório da Democracia de 2018, o segundo relatório anual do projecto Variedades da Democracia (V-Dem), concretizado através de uma rede global de investigadores e peritos com sede na Universidade de Gotemburgo, que avalia a qualidade da democracia em 201 países de todo o mundo" in Público. Nem tudo é mau segundo a liturgia do modo de vida de Jota...
Gnôthi Sautónn:   Europa, Paz e Democracia29.01.2019 CQB! Cáustico quanto baste. Diz-se por aí à boca pequena que João Miguel Tavares é de direita. Pois que seja. Mas não tem papas na língua. Espero que não soçobre e de um ou de outro modo, nem que com muita diplomacia à mistura, demonstre a sua causticidade no próximo 10 de Junho.
Carlos Brigida, Alges 29.01.2019 :  É um artigo oportuno e coloca um tema / questão central: como é que as sociedade aprendem, e porque umas aprendem mais ou melhor e outras não !? A resposta é difícil e complexa. Há investigação feita e publicada (sobretudo em língua inglesa) mas não seriamente integrada na nossa discussão pública. Desde já uma achega, a aprendizagem ao nível de uma sociedade não resulta de uma 'vontade de aprender' . Acontece por necessidade, imposta por factores do ambiente económico, político e cultural, e interioriza-se como vontade ... Mas mesmo com a nossa iliteracia e a pouca necessidade e vontade de a superar, sempre é possível introduzir algumas melhorias; no lugar onde os erros foram cometidos, mantendo as atenções ai focadas e cometendo erros semelhantes ou piores fora da atenção mediática
AndradeQB, Porto 29.01.2019 : De facto, a atitude liderante dos portugueses faz lembrar alguém com cirrose hepática alcoólica a despejar garrafas de bagaço goela abaixo. A partir de determinados níveis de degradação já não há retorno. Como se começa a perceber, e como o alerta António Barreto num seu artigo recente, ainda não vai ser desta.
Henrique Duarte, Portugal 29.01.2019: Bem resumida a essência do problema: «A grande tragédia portuguesa não está tanto no número e na dimensão das nossas asneiras, mas na forma como elas adormecem num limbo de espanto e de indignação, sem que jamais consigamos arrancar dali uma força transformadora, que ao menos obrigue a que as coisas sejam diferentes no futuro e que os erros do passado não se repitam. Ficamos todos a resmungar, estacionados no “como foi possível?!?”, e nunca damos um passo em direcção ao mais importante de tudo: analisar o que aconteceu para que não volte a acontecer
OldVic, Música do dia: "Haja o que houver" (Madredeus) 29.01.2019: “Mas, perante tamanho escândalo, alguém escuta um burburinho sequer vagamente parecido àquele que ouvimos quando o VAR falha um fora de jogo no Porto-Benfica?”: de modo nenhum, e por causa desta imaturidade cívica continuamos a ser um país onde o mérito fica no banco de trás, quando não fica na beira da estrada. E em última análise, a culpa é nossa, porque o poder de mudar as coisas também é nosso. Se não o usarmos, outros o farão, com ou sem legitimidade, e nós pagaremos a conta.
Manuel Dias, Lisboa 29.01.2019: Excelente análise. Mais uma vez a ilustração de que a explicação mais sempre tende a ser a que está mais próxima da verdade.