domingo, 24 de fevereiro de 2019

Heróis do tempo



De ontem. De hoje. Arnaldo Matos, na pena brilhante de Pacheco Pereira, insinuando azedumes, num historial enriquecedor, a merecer críticas e apreços de comentadores acompanhantes desse passado, com uma sinistra figura que me lembro de me causar engulhos, por atraiçoar princípios que sempre respeitei. Quanto a Vasco Pulido Valente, ele se debruça sobre os casos e as personagens da história da semana, por cá, pela Espanha, pela Rússia e a Europa com a visão drástica do costume, infelizmente mais diminuta, que lhe merece comentários de apoio ou de oposição, nem sempre isentos de sectarismo. E os comentadores de Pacheco Pereira a acrescentar saberes, trazendo à baila tanto do passado de um repúdio incontornável, a encaminhar-nos para um futuro de pesadelo que igualmente o é.
I – OPINIÃO: Diário
Vasco Pulido Valente diz que "a direita não tem nada a agradecer" a Assunção Cristas. "A tentativa falhada de encurralar Rui Rio, com uma moção de censura, fez o CDS cair no ridículo – e o pior que pode suceder a um partido político é cair no ridículo"
VASCO PULIDO VALENTE
PÚBLICO, 23 de Fevereiro de 2019
As trapalhadas com o túmulo de Franco mostram bem a natureza política do governo Sánchez. Dentro ou fora do túmulo, Franco divide a Espanha como em 1936. Já se ouvem nos comícios as palavras de ordem da guerra civil. Na direita, o “Arriba España!” e, na esquerda, o “No pasarán!”.
17 de Fevereiro
Rui Rio no Conselho Estratégico Nacional (1.500 conselheiros). Não gosta de conflitos partidários e do “bota abaixo”, nem da imprensa “imediatista”, e desconfia do Estado central, em particular, da justiça e do fisco. Acredita numa receita infalível para governar e num consenso nacional para apoiar essa receita. É um homem austero, solitário e discreto, que nunca apresentou a sua família aos portugueses. No fundo, é um rústico educado, tal qual como Salazar, com quem, de resto, partilha uma visão do mundo provinciana e pobre, agora ligeiramente modificada pela democracia. Talvez não se deva subestimar o que ele representa para boa parte do país.
18 de Fevereiro
Como parar a berraria de João Galamba em prime time? Simples: metê-lo no governo, porque, como se viu, ele não resiste ao carro, ao motorista e ao V. Exa. – e agora espalha em sossego as suas baboseiras pela paisagem.
O dr. António Costa, de cuja habilidade política nunca fui um crente, tem um dedo especial para o partido. Nesta remodelação despachou, com muita propaganda, dois ministros supranumerários para a “diletância política” de Bruxelas, e garantiu provisoriamente a unidade do partido, promovendo ao governo os chefes do radicalismo de esquerda, Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro. E, para nada faltar, não se esqueceu de guilhotinar em público o “centrismo”, na melancólica pessoa de Francisco Assis.
19 de Fevereiro
O resvaladiço Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, foi à televisão. Conheço o género: é o general que no dia da derrota, perante os mortos e os feridos, vem dizer que sempre cumpriu o Regulamento de Disciplina Militar.
20 de Fevereiro
A presença constante de Cristas na televisão e nos jornais não substitui uma política. A tentativa falhada de encurralar Rui Rio, com uma moção de censura, fez o CDS cair no ridículo – e o pior que pode suceder a um partido político é cair no ridículo. A dra. Assunção Cristas tem de perceber que as coisas não se movem a gesticulação, e que ela não tem atrás de si um batalhão de 80 deputados. Onde está, afinal, a prometida “modernização” do CDS e o “entusiasmo” que iria crescer até às eleições? O espectáculo patético na Assembleia da República só mostrou o desânimo e a desordem da sua pequena tropa. A direita não tem nada a agradecer-lhe.
21 de Fevereiro
Sob forma de ameaça, Putin declarou a paz: não tenciona pôr na Europa mísseis de curto e médio alcance, a não ser que Trump ponha lá os dele. Putin sabe perfeitamente que a Europa é a última das preocupações de Trump, como se viu a semana passada na reunião da NATO, onde o discurso do vice-presidente Pence foi tão agressivo que ninguém se atreveu a aplaudi-lo.
O que está em jogo entre a “Europa” e a Rússia é a Ucrânia e o Báltico. Uma guerra que só interessa à Alemanha e que, definitivamente, não interessa à América.
A elite cosmopolita tem de se habituar a estas realidades rudes. 
22 de Fevereiro
O Presidente da República já limpou as mãos do marido e da mulher, e do pai e da filha. Mas não há só isto, há também o “primo direito”, João Cravinho (filho de João Cravinho) e dois amigos da casa, o ministro do Interior, Eduardo Cabrita, e o ministro da Economia, Siza Vieira. Isto, a mim, não me espanta. Não indica qualquer espécie de maldade, só demonstra o enorme abismo que separa, e (excepto por Soares) sempre separou, a direcção do PS do resto da sociedade portuguesa. Os socialistas, coitados, governam com quem conhecem, e não conhecem muita gente.
COMENTÁRIOS:
Manuel Sobreiro, Lisboa: Eu gosto. Muito mais, pelo menos, do que dos comentários que lhe querem seguir os estilo mas não as ideias.
Espectro, Matosinhos: Prefiro Vasco ao inimigo Público, aqui do Público, redundância perdoada pelo V. generoso humanismo. Rio-me mais e melhor! LOL
r m: Muito bem visto.
PdellaFTerra : Rui Rio não é um rústico. Pode ter muitos defeitos, mas não esse. VPV tem destes disparates, talvez fruto de um qualquer complexo de inferioridade. Rio pode é ter uma cultura pouco dada às humanidades, o que é um grande defeito como político, a meu ver. É economista, mas poderia ser um engenheiro mecânico: interessa-lhe é que a máquina funcione, mas não passa daí.
12:45: O CDS e os seus boys azul cueca há muito que são ridicularizados. Já ninguém os leva a sério.
José P., Lisboa: Pífio para uma semana tão cheia. Não diz nada sobre os enfermeiros? Percebe-se…
bento guerra: Tudo poder ser interpretado ao contrário do que escreve VPV e não seria surpresa. Tem de afinar mais, para a semana
Armando Heleno, MOGOFORES (Anadia): No género de ópera bufa, não temos melhor.
II – OPINIÃO: Arnaldo Matos encontra a Ceifeira
A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo de Matos tinha aí um papel decisivo.
JOSÉ PACHECO PEREIRA
PÚBLICO, 23 de Fevereiro de 2019,
Não há nada como morrer para passar de besta a sábio, e este é um velho hábito português típico de um país que, não respeitando nada, está sempre pronto para o salamaleque fúnebre. Presumo que aqui no PÚBLICO acrescento este “ruído” a várias páginas celebratórias, e por isso hesitei em escrevê-las. Mas a alternativa não era brilhante, e aqui vai. veria com ironia a sucessão de elogios fúnebres que está a receber. Passou, morrendo, para a galeria da “situação”, ou seja, dos perversos políticos que mandam nesta nação que o “povo” populista, representado por intelectuais com o mesmo adjectivo, verbera. Mas deixemos as asneiras, e tentemos falar do homem, do percurso e do tempo que começa agora a encerrar-se por obra da Ceifeira.
Arnaldo Matos foi um activo militante do movimento estudantil que se destacou não só na sua escola, a Faculdade de Direito, mas no movimento federativo, particularmente nas chamadas “reuniões interculturais” e nos seminários de estudos associativos. Com o seu nome escreveu sobre a “cultura universitária”, em conjunto com Eduardo Prado Coelho, Jorge Veludo, Hélder Costa e outros. Destacava-se pelas suas qualidades de orador e pela escrita. Mas, a breve prazo, deixou de poder ter “legalidade” e mergulhou na vida clandestina.
Fez parte da Esquerda Democrática Estudantil (EDE), que funcionou como organização de transição para muitos quadros do PCP no meio estudantil insatisfeitos com as posições “reformistas” do partido, que depois evoluiu para o MRPP, embora na história “oficial” do MRPP sempre se tivesse negado essa génese. O MRPP foi a mais importante organização da segunda vaga da extrema-esquerda, que já não era moldada pela luta pela ortodoxia do marxismo-leninismo nos partidos comunistas que caracterizara a ruptura sino-soviética, mas sim pela influência decisiva da Revolução Cultural. Na verdade, a designação de maoísta tem muito mais sentido para estas organizações a que os franceses, falando da cause du peuple, chamavam “mao-spontex”.
O maoísmo do MRPP era total: das palavras de ordem — “fogo” sobre isto e aquilo, do “quartel-general” ao “revisionismo” e ao “neo-revisionismo”, etc. —, das gravuras copiadas dos chineses com os operários portugueses de olhos em bico, dos títulos dos jornais aos murais. Só o MRPP intitularia um jornal clandestino Yenan e colocaria o próprio Arnaldo Matos e o general Eanes naqueles grupos em marcha decidida para a frente, bandeiras e fuzis, em perfeita hierarquia de soldados, operários, camponeses e pequena burguesia revolucionária, a caminho do comunismo. O MRPP tornou-se icónico, hoje dir-se-ia viral, com as suas imagens, palavras e cores, que identificavam de imediato a organização. O MRPP foi por excelência o produtor do folclore da revolução dos anos 70 a 80.
E o MRPP foi capaz, durante quase uma década, de recrutar e mobilizar muitos estudantes e intelectuais, jornalistas e jovens operários radicalizados, principalmente em Lisboa e na sua cintura industrial. Nos meios da cultura, do cinema, das revistas culturais, nas organizações de jornalistas, e em muitas redacções, o MRPP estava lá em força. Não surpreende, por isso, que tantas pessoas da elite intelectual e política tivessem na sua biografia a passagem pelo MRPP. Já no Porto e em Coimbra permaneceu uma organização residual, pouco competitiva com o Grito do Povo, a outra organização mao-spontex.
A agressividade política do MRPP levou-o a ter um papel no incremento de acções de rua de confronto directo com a polícia antes do 25 de Abril e a começar a ter presos. Depois do 25 de Abril, entrou em choque com o MFA, tendo sido a única organização que foi sujeita a uma prisão em massa por parte dos militares no poder, com a preciosa ajuda do PCP, que os considerava “contra-revolucionários” e agentes da CIA. Arnaldo Matos foi igualmente preso e gerou um grande movimento exigindo a sua libertação.
O MRPP detinha nesses anos do PREC uma considerável influência política, na contestação a novos envios de soldados para as colónias, na influência sobre a Fretilin, na acção em certos sindicatos, e na peculiar posição que assumiu que o colocou próximo do PS e de um grupo de militares ligados a Eanes, na resistência ao PCP e às outras organizações da extrema--esquerda, como a UDP. A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo Matos tinha aí um papel decisivo.
Outro aspecto muito sui generis do MRPP era o modo bem pouco leninista como se entrava e saía da organização, como foi o exemplo do próprio Arnaldo Matos, que, em luta pela “linha vermelha” contra a “linha negra”, se afastou da organização, sempre com uma pertença ambígua. Dedicou-se durante longos anos à sua profissão de advogado num grande escritório de advogados, para voltar recentemente de novo ao MRPP, envolvido numa luta fratricida e excessiva com Garcia Pereira. Arnaldo Matos escreveu coisas inomináveis, quase obscenas, sobre os seus adversários, usando o pseudónimo de “Espártaco”, e a violência dos textos marcou os seus últimos anos de vida.
Contrariamente ao que se diz por aí, eu nunca fui membro do MRPP, uma daquelas falsidades que nunca morrem nas redes sociais, mas tinha relações cordiais com o Arnaldo Matos. Ainda há poucos meses encontrei-me com ele na sede do MRPP para recolher documentação para o Arquivo Ephemera, que ele sempre ofereceu. Ele atacou-me no Twitter por causa da inexistente censura a Mapplethorpe em Serralves, mas estes ataques, quase todos os ataques, fazem parte do lado para onde eu durmo melhor. Mas eu sei muito bem como tudo na história acaba por repousar, maldades e bondades. Eu não queria estar no Inferno quando chegar o camarada Espártaco. O Diabo que se cuide.
COMENtÁRIOS
José Cruz Magalhaes, Lisboa: A crónica de JPP,a propósito do desaparecimento de Arnaldo Matos, transportou-me para o início da década de setenta ,do século passado, sem passar por Maio, ou por 1968 .Revi o encerramento das Associações de Estudantes, o assalto e a destruição do equipamento da Associação de Medicina e o assassinato de Ribeiro Santos, em 12 de Outubro, na velha faculdade de Economia da Rua do Quelhas. Depois, dei por mim a concluir que este tipo, que se licenciou em Direito e que se autointitulava o grande dirigente da classe operária construiu um percurso e uma imagem, ao pontapé e à canelada, que pouco acrescentou ao país que já não é e, se calhar nunca terá sido aquele que proclamava querer revolucionar.
Victor Nogueira, Setúbal : EM TEMPO: Afirma JPP "A intransigência pública do MRPP não o impedia de ter capacidade para conversar e conspirar com organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda. Arnaldo de Matos tinha aí um papel decisivo." E ao leitor caberá questionar: Que "organizações e grupos bem longe da extrema-esquerda," eram esses com os quais AM e o MRPP "tinham capacidade para conversar e conspirar? Conversar sobre quê e conspirar com que objectivos? Bem longe da extrema esquerda situa-se a extrema-direita, por natureza, contra-revolucionária? É que JPP não se refere seguramente aos "moderados" do PS, dos "nove" e a Eanes e ao 25 de Novembro!
nelsonfari, Portela-Loures: Expliquem-me: um gajo que viveu sempre nos corredores do poder (Deputado em S.Bento, Deputado em Bruxelas, conselheiro de Cavaco, com as fronhas metidas nas lutas intestinas do PSD) nas horas vagas escreve livros sobre os símbolos das organizações partidárias de extrema-esquerda, "As armas de papel...", tem o arrojo de escrever de forma não autorizada a biografia política de Álvaro Cunhal e, cúmulo dos cúmulos, perora sobre a clandestinidade em "A Sombra - estudo sobre a clandestinidade comunista", ao mesmo tempo que frequenta os media dominantes? Não bate a bota com a perdigota. O homem tem uma frustração na vida: não ter conseguido ser comunista. Mas isso não se aprende: nasce da vida que temos, daquilo que genuinamente vemos, ouvimos e lemos. E, desta forma, não nos podem enganar Cuidado.
José Cruz Magalhaes, Lisboa: Não sei se terá percebido que quem morreu foi Arnaldo Matos. JPP está bem vivo, continuando a fazer o que faz de melhor, a história dos anos de todos os vivos que, para o bem ou para o mal, foram construindo a memória recente deste nosso país.
nelsonfari, Portela-Loures: Ó senhor Cruz tenha paciência: respeite as opiniões dos outros. Eu opino de acordo com a minha visão do mundo. Faça o mesmo, senhor Cruz. Para além da "História" escrita pelo Snr.Pacheco existem outras "Histórias" e outras interpretações da realidade, Passe bem. E não seja vaidoso: eu não caio no lugar feio de lhe estar a descrever a história...escolar.
José Cruz Magalhaes, Lisboa: Oh,meu caro senhor Nelsonfari ,foi para respeitar as opiniões dos outros,de todos eles e,não só dos correligionários que procurámos e procuramos construir a democracia.E quanto ao Pacheco Pereira não é a opinião de nenhum dos dois que, realmente,conta,mas aquilo que vai construindo para memória dutura.
Caetano Brandão, MATOSINHOS: Bem PP mais uma vez com uma cultura acima da media e bem escrito.
José Carvalho: Muito obrigado, Pacheco Pereira, pela sua excelente análise. Consegue de forma transparente e lúcida relembrar a época de todos os contrastes e de todos os disfarces. Que bom que é saber que Pacheco Pereira conheceu aqueles tempos conturbados (e maravilhosos igualmente!) e com todo o realismo e calma nos indica quem era quem, ( aliás, quem não era quem dizia e deveria ser.) Por isso, a quem se lembra, como eu, a sigla não parava em MRPP. A História ainda vai dar a conhecer outros pormenores sobre alguns "revolucionários". Parabéns
João Borges, Porto: O Arnaldo era um incendiário e um teórico. Só neste país dá-se crédito a figuras como esta. Se fosse da extrema-direita já estava preso há muito tempo.
nelsonfari, Portela-Loures : O que se pode dizer é que Arnaldo Matos nunca se sentou "à mesa dos poderosos. Foi sempre da margem esquerda, sem intersecção alguma com Pacheco Pereira e Bloco de Esquerda. Veja-se, hoje, o ridículo do comentador Louçã, presente em lugares da poderosa burguesia - a Sic,o Expresso, o Conselho de Estado presidido pelo filho de Baltazar Rebelo de Sousa. Louçã consegue ser mais ridículo que Pacheco Pereira...Pois, eu conheço, "As Armas de Papel...", o livro sobre a clandestinidade e a sombra (que Cunhal ou Dias Lourenço escreveriam muito melhor). O facto é que chegados aqui. JPP não nos consegue explicar a razão do salário médio em Portugal ser de 890 euros/mês e eu pergunto se esta verba dá para viver condignamente. E JPP continua a masturbar-se com os seus "feitos" e os seus "conhecimentos"...
nelsonfari, Portela-Loures: JPP nunca foi membro do MRPP. Foi, sim, membro da Organização Comunista Marxista Leninista de Portugal, nos intervalos das aulas no Liceu Alexandre Herculano-Porto, tal como Louçã, nascido sete anos depois em 1956,nos intervalos das aulas do Liceu Padre António Vieira-Lisboa, o fazia na LCI trotskista. Não puseram os pés na Guerra Colonial (Louçã tinha 18 anos em 1974 não podia mas JPP, com 25 anos em 1974 deve ter metido uma cunha por via militar para escapar à tropa e à Guerra, a menos que tenha arranjado uma especialidade na secretaria). Pseudo-revolucionários. Cunhal e outros comunistas tiveram vidas diferentes. Soares, pelo menos, conspirava com os amigos na França e na Alemanha. Sorte a nossa: temos de levar com isto semanalmente. JPP só engana os incautos nascidos depois de 1960.
Francis Delannoy: o partido do doutrinador de lusitanos analfabetos, não tem um passado exemplar no seio do seu partido, houve portugueses da pior espécie..a fazer politica e a endoctrinar jovems.. Romeu Francês, antigo militante do MRPP, que depois seria condenado em processos de burla, falsificação de documentos, abuso de confiança e fraude fiscal, que acabariam por ditar a sua expulsão da Ordem dos Advogados. essa gente do mrpp, tem um passado bem sujo da traiçao..defenderam uma doctrina chinesa, querendo implantar a democracia chinesa do maio tsé tung em portugal enquanto os chineses andavam a infiltrar os territorios do ultramar, formando os rebeldes ao combate e fornecendo armas aos rebeldes de maneira ilimitada de mozambique a guinée bissau para matar jovems soldados portugueses..
DSM, Não foi este Arnaldo Matos , que em Macau, como Oficial Miliciano, usava o uniforme nº1 e creio que foi comissário da Mocidade Portuguesa, com direito a foto no Clube Militar?
ainda mais vermelho, não tem outra opção...kkkk...

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Já o Génesis assim contava



Vidas, nomes, sequências… A sucessão de nomes que vão construindo a bíblia socialista, na investigação e execução de João Miguel Tavares… (Adenda à crónica anterior – de Alberto Gonçalves). João Miguel Tavares demonstra cabalmente como o socialismo em democracia é parente bem aforrado da velha monarquia hereditária. Uma lição de história pátria sobre como se governar em pujança, lembrando também o ritmo compassado dos estatuários que já Vieira imortalizara e António Gedeão faz irromper em batuque de subsistência. O nosso.
Poema da Pedra Lioz 
Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Catanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.
Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca…truca…
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.
Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.
No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaro celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgaseados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.
Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o truca…truca…
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.
No desmedido caixão,
grande sonhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.
OPINIÃO
A lista de convidados para os anos de António Costa
Será preciso recuar até ao reinado de D. Carlos para encontrar uma corte com o nível de consanguinidade do governo de António Costa. Portugal é, neste momento, a república mais aristocrática do mundo ocidental.
JOÃO MIGUEL TAVARES PÚBLICO, 23 de Fevereiro de 2019
A lista de convidados para os anos de António Costa, também conhecida como Governo de Portugal, continua a impressionar-me a cada remodelação. Não sei se hei-de louvar a autoconfiança do primeiro-ministro ao fazer estas nomeações, se criticar o seu descaramento. Talvez com a ilustre excepção da Casa Branca de Donald Trump, não há certamente outra democracia ocidental que tenha o número de relações familiares do Conselho de Ministros da República Portuguesa – e se alargarmos a análise dessas relações a toda a família socialista, os resultados são de cair o queixo. Será preciso recuar até ao reinado de D. Carlos para encontrar uma corte com o nível de consanguinidade do governo de António Costa. Portugal é, neste momento, a república mais aristocrática do mundo ocidental.
Embora já tenha feito este exercício há ano e meio, vale sempre a pena actualizá-lo para memória futura. Ele demonstra na perfeição porque é que o termo “oligarquia” se tornou a expressão favorita de tanta gente, e porque é que o Partido Socialista, mais do que um herdeiro da Primeira República, é devedor de um certo espírito monárquico (veja-se a postura do presidente-rei Mário Soares, cujo filho também fez parte deste governo até prometer muito aristocraticamente um par de bofetadas marialvas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente), que o ajuda a olhar para si próprio como o verdadeiro, o autêntico e o genuíno dono da democracia portuguesa. O PS nem sempre está no governo, é verdade, mas quando não está faz questão de sublinhar que os outros não têm a necessária legitimidade, e quando está faz questão de provar que os outros não têm a necessária hereditariedade.
Vamos, então, à menos republicana lista do partido que mais se orgulha de ser republicano. Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência, é filha de José Vieira da Silva, ministro da Segurança Social. João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho. António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS. Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, é marido de Ana Paula Vitorino, ministra do Mar. Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, escolheu recentemente o advogado Eduardo Paz Ferreira para presidir à comissão que vai renegociar a concessão do terminal de Sines (em cima da mesa: 100 milhões de euros para expansão do terminal). O advogado Eduardo Paz Ferreira é marido da ministra da Justiça, Francisca Van Dunem.
Maria Manuel Leitão Marques, que agora deixou o governo, irá ocupar em Junho o cargo de deputada do PS no Parlamento Europeu. Esse cargo já antes foi ocupado pelo seu marido, Vital Moreira. A mulher do eurodeputado Carlos Zorrinho, Rosa Matos Zorrinho, deixou de ser secretária de Estado da Saúde, mas foi, entretanto, nomeada para presidir ao conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central. Guilherme Waldemar d’Oliveira Martins, filho do ex-ministro Guilherme d’Oliveira Martins, também deixou agora de ser secretário de Estado das Infraestruturas, após António Costa ter nomeado para ministro do Planeamento o seu amigo Nelson de Souza. Nelson de Souza vai juntar-se no governo ao grande amigo Pedro Siza Vieira, ministro-adjunto. Há ainda outro grande amigo, Diogo Lacerda Machado, que nunca quis ir para o governo, mas foi ajudando bastante, até acabar administrador da TAP. Pergunto: alguém acha isto normal? Jornalista

Falamos de vida



Eterna, para Sequeira Costa. Morreu ontem, conheci-o quando aos alunos eram distribuídos bilhetes para os concertos integrados no Círculo de Cultura Musical, em Lourenço Marques. A sensação de impecabilidade e educação de gentleman perdurou sempre em nós, leigas que éramos. Não posso deixar de transcrever a homenagem que outros lhe prestaram, Artur Pizarro em sentida Crónica.
Também morreu ontem Arnaldo de Matos e Alberto Gonçalves lhe traça o perfil, juntamente com outros perfis da sua mordacidade sem mancha – BRUTAL – segundo um seu comentador: A. Costa e o vergonhoso dos seus conluios nepóticos, Sócrates e o vergonhoso do seu carisma de infantilidade despótica.  E, last but not least, o nosso PR com o seu estatuto parolo de omnipresença.
I - GOVERNO
A famiglia não se escolhe? /premium
ALBERTO GONÇALVES           OBSERVADOR, 23/2/19
Se ainda não se restringiu o executivo aos parentes consanguíneos ou afins do dr. Costa, eventualidade que defenderia com empenho, a verdade é que se realizaram amplos progressos na área do nepotismo
O dr. Costa aproveitou a remodelação do governo para estreitar laços familiares. No Twitter, Nuno Sá (que desconheço em absoluto) deu-se à trabalheira de elaborar um gráfico com as relações de parentesco entre governantes nacionais e regionais, deputados e funcionários da câmara de Lisboa. No final, exausto após considerável gatafunhada de nomes e setas, confessou já ter desistido de actualizar o gatafunho e já se ter perdido sobre quem é quem. O prof. Marcelo, que no fundo aceita tudo, acha que tamanha promiscuidade advém do “mérito próprio” dos envolvidos. É uma perspectiva. Uma segunda perspectiva entende que o favoritismo é uma miséria típica dos trópicos, um descaramento digno da Coreia do Norte ou uma garantia de fidelidade habitual na Camorra. A minha visão é como sempre intermédia e moderada.
Basta contemplar as carreiras, as proezas, as caras e, haja misericórdia, o aspecto das personagens em causa. Se fizerem muita questão, contemplem os resultados. É evidente que o governo – e respectivas metástases – é uma calamidade, uma anedota sem graça que, à conta da inépcia, da manha e de ambições pelintras, não tarda devolverá o que sobrar do país aos braços do FMI ou, se os alemães se aborrecerem, de Deus nosso senhor. Para qualquer pessoa medianamente civilizada, pertencer a semelhante bando constitui uma mancha no currículo insusceptível de apagar através de uma lixa tipo 40. Seria um embaraço, uma fraude íntima, uma traição à consciência: ninguém com um pingo de vergonha aceitaria o convite. Por coincidência, sucede que o dr. Costa também jamais convidaria alguém assim, preferindo distribuir o “prestígio” (digamos) por irrelevâncias de escassos princípios, as exactas irrelevâncias que sentaria para jantar lá na sala – na presunção de que a habilidade do primeiro-ministro para negócios imobiliários lhe permite uma mesa do tamanho de um hangar.
E isso é bom ou mau? Ambas as coisas. É mau porque não é bom estarmos nas mãos de gente tão deplorável. É bom porque não é mau que a peçonha fique limitada a uns poucos eleitos (ou nomeados, para sermos rigorosos). Na sua infinita – e assaz discutível – sabedoria, o povo explica as vantagens de duas cavalgaduras se juntarem para uma vida em comum: assim só se estraga uma casa. Se ainda não foi possível restringir o executivo aos parentes consanguíneos ou afins do dr. Costa, eventualidade que eu defenderia com empenho, a verdade é que se realizaram amplos progressos no sector do nepotismo. Neste momento, o enxovalho de partilhar o ranço do governo só estraga seis ou sete casas. Claro que estas serão responsáveis por estragar, por diferentes vias, os milhões de casas restantes. Mas esse é assunto com o qual os portugueses estão, ou deviam estar, familiarizados.
Notas de rodapé
1. Em entrevista à conhecida publicação Azul-Ericeira Mag, o conhecido “eng.” Sócrates discorre acerca da terra que recentemente adoptou como sua: “Eu gosto deste mar bravo, forte da Ericeira. Há quem prefira os mares mais calmos e quentes, o que não é a minha preferência. Eu gosto dos mares fortes, agitados, ameaçadores! Não tomei ainda banho neste mar, mas gosto da Ericeira nos dias de Inverno”. Afirmou o ainda mestre em Ciência Política que a vila convida à “introspecção, à reflexão, ao passeio e à contemplação”. Deste paraíso, onde “introspecta”, reflecte, passeia e contempla, o ex-arquitecto (estilo contemporâneo) lamenta “alguns exageros arquitectónicos que foram cometidos nas décadas de 80 e 90” que “não são de muito bom gosto”. No geral, porém, o popular escritor garante que aquilo está repleto de “identidade” e de “sentadas nos bancos a lerem livros e a olharem para o mar”, proezas dificílimas de realizar em simultâneo e propiciadoras de uma “fuga”, rumo a “um certo equilíbrio interior e a convivência connosco próprios”. E tudo isto “por acaso”, jura o pioneiro das ventoinhas em Portugal: “Vim porque o meu primo tinha aqui uma casa desabitada e me convidou a vir viver para aqui. E eu aceitei. É uma boa casa, aprazível”. O primo, que recebeu a casa de um empresário angolano também arguido na Operação Marquês, “é muito querido”. Mas não tanto quanto o “eng.” Sócrates.
2. Morreu Arnaldo de Matos. Certos democratas achavam-lhe graça, sobretudo desde que o sujeito desatou a disparar insultos para os antigos camaradas ou para os eternos concorrentes das fascinantes catacumbas marxistas. Eu não. O tom burlesco e desprendido não escondia, muito pelo contrário, o que ali estava: um fanático que, se pudesse, despacharia um mundo de “inimigos” a tiro – ou método pior. Na hora da morte, o prof. Marcelo chamou-lhe “um defensor ardente da liberdade”. Por acaso, era exactamente o oposto: como de costume, o prof. Marcelo falhou por pouco.
COMENTÁRIOS
Professor Pardal: Claro que não se escolhe. Já nomear, isso é outra conversa. E muita abundância. São as virtudes do socialismo. Aquelas virtudes que, invariavelmente, descambam em "Venezuelas" ou em "Coreias do Norte". Ironicamente, se uns reprimem quem lhe quer dar ajuda, os outros desesperam por ela. 
Tentei arranjar, cá no burgo, a Azul-Ericeira Mag. Nunca ninguém ouviu falar em tal coisa. Isso resume a importância actual da personagem. Ou então a Maria Narciso esgotou a tiragem.
O grande educador faleceu, paz à sua alma. Having said that, estou com o Alberto. A um gajo que era capaz de me fuzilar por não pensar como ele não acho graça nenhuma. Good riddance
Rui Krull: BRUTAL!
Tokugawa Ieyasu: Pois é. O Povo está farto. Farto a uma escala nunca vista. Até mesmo muitos funcionários públicos (por muita gente vistos como a "guarda pretoriana" do actual sistema político estão já fartos do colossal nível de corrupção e banditismo que grassa neste país. Muitos desses funcionários, infelizmente, são também reféns deste estado de coisas.
Já conheci casos de funcionários de câmaras municipais que, por ousarem criticar as decisões do "glorioso líder" Costa sofreram vários níveis de pressão ou humilhações, chegando mesmo ao ponto de serem ostracizados e evitados por outros colegas de trabalho. A "chibaria" e "bufaria" é uma constante nos organismos públicos. Mas muita gente está farta, repito. E não só neste país. As próximas eleições europeias vão abalar a actual UE. E as legislativas portuguesas em Novembro serão extremamente interessantes de assistir. Isto, se ainda houver eleições. Porque, com o rumo que isto está a levar, não é de descartar a hipótese de em Novembro estarmos sujeitos a um Estado de Emergência e nas mãos de uma nova Junta de Salvação Nacional.
Artur Campos: Ó Elvas, ó Elvas, família á vista... O sexta à noite explica como numa câmara, curiosamente socialista se consegue colocar tantos familiares...um fartote de ética republicana e socialista.
Rui Krull: ... E achando-se diante do CRIADOR, Este disse-lhe:  - ...Oh Arnaldo, andavas armado em THOR, tanta ameaça contra o CAPITAL, tanto barulho, tanto tempo perdido, ...,tinhas-te aliado àquele ali ao canto que aguarda pelo Grande Embarque e que diziam que era "FIXE" e tinhas antecipado e assegurado um CAVIAR GERINGONCEIRO de tipo mais CHOP-SUEY e LICHIAS ,...,  ,...,deita a tua foice e o teu martelo ali na forja e vai-te sentar ao lado dele...
victor guerra: Mas.é preciso ir à sede do PS e preencher uma ficha.
II - NOTÍCIA:
Morreu Sequeira Costa, pianista “sem décadas nem séculos” O pianista morreu aos 89 anos, nos Estados Unidos. Foi um dos nomes mais significativos do piano português no século XX, tendo fundado o Concurso Internacional Vianna da Motta. O pianista português José Carlos Sequeira Costa morreu nos Estados Unidos, onde residia, aos 89 anos, vítima de cancro, confirmou hoje à Lusa fonte próxima da família
MIGUEL A. LOPES/LUSA, Autores
O pianista português José Carlos Sequeira Costa morreu nos Estados Unidos, onde residia, aos 89 anos, vítima de cancro, confirmou hoje à Lusa fonte próxima da família.
Distinguido em 2004 com a Grã-Cruz da Ordem Infante D. Henrique pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, Sequeira Costa foi um dos nomes mais significativos do piano português no século XX, tendo fundado o Concurso Internacional Vianna da Motta, de quem foi aluno.
Em 1951, Sequeira Costa venceu o Grande Prémio de Paris no Concurso Internacional Marguerite Long, tendo desde então sido um dos nomes de maior projecção nos palcos internacionais. A convite de Dimitri Chostakovitch fez parte do primeiro júri do Concurso Internacional Tchaikovsky, em Moscovo, no ano de 1958. A partir daí integrou sempre o júri dos mais prestigiados concursos internacionais de piano e orientou numerosas masterclasses de piano um pouco por todo o mundo. Muitos alunos seus distinguiram-se de forma notável em competições pianísticas e em áreas de ensino. Desde 1976 que era professor de piano na Universidade do Kansas, nos Estados Unidos. Em 2004, disse à jornalista Ana Sousa Dias, em entrevista na RTP, que, por ter “abraçado inteiramente o espírito de Beethoven” ao dedicar-se à interpretação da integral das sonatas do compositor alemão, se sentia “para além da vida humana já”.
Sequeira Costa classificava Bach como o “sol de todos os compositores” e destacava Liszt como estando entre os seus criadores preferidos, por ter sido seu “avô espiritual”, ao ter ensinado Vianna da Motta. Como intérprete, actuou com múltiplas orquestras de prestígio, e lançou discos tocando obras de muitos compositores, entre os quais as integrais de piano e orquestra de Schumann, Chopin e Rachmaninov.
“A chamada inspiração não existe. A inspiração é o resultado de um trabalho afincado, premeditado. Talento há, felizmente que é raro. Porque hoje em dia há milhares de pianistas, então os asiáticos estudam 25 horas por dia e não serve para nada, porque não têm o talento necessário como têm os europeus, mas isso é normalíssimo porque a nossa cultura de Beethoven, Bach, Chopin, era no centro da Europa”, disse à RTP, na altura. O anúncio da morte do pianista foi feito na página do Facebook de Artur Pizarro, que foi aluno do pianista e pedagogo.
II - CRÓNICA
"Oiço frequentemente a sua voz nos meus pensamentos" Sequeira Costa (1929-2019), um dos poucos últimos exemplos do que é ser Artista num mundo de entertainers.
PÚBLICO, CULTURA-ÍPSILON, 23/2/19 - Estoril, 22 de Fevereiro de 2019
22 de Fevereiro de 2019: A minha relação com o pianista Sequeira Costa começou em 1974, quando lhe fui apresentado como possível aluno. Aceitou-me como o seu mais jovem aluno de sempre e aí começou uma relação que continuará até ao dia em que eu próprio respirarei pela última vez.
As primeiras experiências como ouvinte de Sequeira Costa, pianista, foram em Lisboa, em locais como a Fundação Calouste Gulbenkian e Teatro Municipal São Luiz. Mais tarde teria a oportunidade não só de o ouvir em vários palcos pelo mundo fora, mas também de partilhar palcos em concertos e recitais a dois pianos, inclusive duas gravações comerciais que efectuámos juntos.
Um pianista que ainda hoje é celebrado nas salas de concerto e escolas de música mais relevantes do mundo, muitas das suas interpretações continuam sendo referência. O seu Carnaval de Schumann, 24 Estudos de Chopin, Sonatas para piano de Beethoven, alguns andamentos da Suite Ibéria de Albéniz, estudos transcendentes de Liszt, sonata e lendas do mesmo compositor, obras do seu querido mestre, Vianna da Motta, mostram-nos um fiel músico totalmente dedicado à sua Arte, encontrando a excelência e o sublime na sua produção pianística e musical.
A minha época formativa como discípulo de Sequeira Costa, pedagogo, começou quando eu tinha cinco anos e, apesar de algumas interrupções, continuou até aos 21 anos.
Ensinou-me desde o mais básico saber como colocar as mãos no piano, independência digital, escalas e harpejos, até ao repertório mais avançado como a sonata em si menor de Franz Liszt ou o terceiro concerto de Serguei Rachmaninoff. A sua metodologia técnica e musical são lendárias pela sua riqueza, inteligência e também exigência. Nenhum passo era dado ou tolerado sem que o passo anterior estivesse construído e compreendido de forma sólida e completa! Não nos dava meramente os resultados pretendidos, mas mostrava aos seus alunos como seguir e procurar o caminho que nos levasse a esses mesmos resultados. Um respeito, método e disciplina que hoje em dia já não são tolerados, aceites ou entendidos...
Hoje, não só quando dou aulas, mas também quando eu próprio toco em casa ou em palco, oiço frequentemente a sua voz nos meus pensamentos, repetindo ensinamentos que continuam a amadurecer dentro de mim. Sorrio quando vejo instruções suas nas minhas partituras, escritas nos anos 70 e 80, prevendo que mais tarde necessitariam de ser adaptadas de maneiras diferentes, adivinhando já nessa altura o que efectivamente hoje faço... É uma voz que me acompanha e me mantém interessado, entusiasmado, motivado, seguindo os seus ensinamentos e adaptando-os ao meu presente e futuro! É esse o legado do verdadeiro Mestre! Ontem não só faleceu uma pessoa muito importante no meio musical internacional, morreu um dos poucos últimos exemplos do que é ser Artista num mundo de entertainers ... Pianista (COMENTÁRIO: joorge,  22.02.2019 :A prova de que para falar de artistas só artistas. O resto é palha.