quinta-feira, 28 de março de 2019

Acompanhámos pelo mapa



E também valeu a pena, a internet favorecendo-nos com muitas imagens e mapas das várias paragens: Salalah, no Sul, em Omã, Djibuti, no lado de lá, africano, do estreito de Aden – e o Mar Vermelho, e Meca, “até Aqaba, já na Jordânia, tudo pode acontecer”. Uma viagem de risco, com os snipers tunisinos protectores, que os tempos não estão para brincadeiras. Mas por isso admiramos a garra dos espíritos curiosos que, generosamente, partilham.
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 27.03.19
UM QUASE DIÁRIO DE BORDO À MINHA MANEIRA
14/03/19, 05:08 - Vamos aportar a Salalah onde entrarão os snipers a bordo para nos protegerem na zona perigosa.
A "trincheira" que me está destinada é no casino, atrás duma slot machine. Eis por que associo pirataria a "Bally", o modelo da máquina.
Os snipers mandaram dizer ao Comandante do barco que ultimamente não tem havido pirataria e que com navios de cruzeiro nunca houve. Que talvez seja desta...
17:30 Os snipers são 14 tunisinos e estão autorizados a atirar a matar TUDO o que vejam a mexer na água e de que desconfiem. Cruzei-me na escada do portaló com dois deles e garanto que NÃO será nos próximos dias que tenciono nadar à volta do navio. Desta vez opto pela piscina.
16/03/19, 20:15 - Frente a Djibuti, devemos passar o Estreito de Áden nas próximas horas. Até agora, sem problemas mas a rapaziada sniperiana tem infravermelhos para nos guardar a noite.
17/03/19, 08:25 - Em plena luz do dia (são 11,21 h da manhã), foram avistados 2 grupos de piratas que não se aproximaram para cá de uns 500 metros. Foi giro ver os vigilantes e os snipers a postos mas não chegámos a ser mandados para o interior do navio porque os putativos assaltantes se afastaram. E isto já no Mar Vermelho, não no Golfo de Áden que é a zona mais problemática.
12:11 - Tudo se esfumou... Já o Almirante sem medo dizia "É só fumaça". Pode ser que logo à noite a "coisa" melhore.
14:14 - Até Aqaba, tudo pode acontecer. Só lá é que sairão os snipers.
18/03/19, 09:51 - MISTÉRIO
Pelas 3,30 h desta madrugada, calou-se de repente a música da discoteca e os foliões foram mandados "recolher a quartéis" SEM percorrerem os decks exteriores.
Eu dormia o sono próprio de quem tinha levado uma grande tareia (uma massagem forte ao corpo todo ministrado por uma filipina com 1,40 m de altura mas com uns polegares lancinantes).
Pela nesga duma cortina, houve quem percebesse que estávamos acompanhados por outro navio e que ambos estávamos parados, apenas com os motores em ponto morto.
A Graça ouviu barulhos (que não identificou) contra o casco.
E eu dormia... Que pena! Perdi toda a adrenalina correspondente a tal mistério. A ver se alguém da tripulação solta a língua... Se sim, contarei.
15:49 - Navegamos agora frente a Djedah, o mesmo é dizer Meca. Eis por que me lembrei da expressão "se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Assim, não sabendo ainda o que se passou a noite passada, vou agora mesmo à procura dos vigilantes e dos snipers para lhes perguntar. Devem estar no deck 8, o que coincide com o do bar. Melhor porque en passant... molha-se a palavra.
19/03/19, 07:10 - Pelas 4 da manhã, fui acordado por um cheiro forte que circulava pelo ar condicionado. Parecia cheiro a combustível. No nosso deck, só há camarotes exteriores mas os janelões (enormes) são fixos, não se podem abrir. Fui ao corredor tentar averiguar qualquer coisa e encontrei um membro da tripulação que andava de nariz no ar a fazer tanto como eu.
Deixei ficar a porta do camarote aberta para o caso de termos que sair à pressa mas, passada uma meia hora, o cheiro desvaneceu-se e desapareceu.
Eis como se mata uma quantidade enorme de gente adormecida se no sistema de ar condicionado algum danado puser um gaz letal.
Vou pedir uma explicação ao Comandante.
08:42 - O Comandante disse que tinham estado a pintar uma sala interior e que o cheiro vinha daí. Mandei dizer que o cheiro era de fuel, não de tintas.
Pediram desculpa e garantiram que a coisa não voltaria a acontecer.
É o que se vai ver...
20:20 - Há duas noites, o barco parou e houve barulhos que a Graça não conseguiu identificar. Soubemos hoje que estavam à nossa frente 3 ou 4 barcos suspeitos. Com os snipers devidamente a postos, o Comandante mandou fazer alto para ver no que a "coisa" dava. Deu que os ditos suspeitos saíram da nossa rota para distâncias consideradas seguras e passámos sem mais histórias. Já lá vão quase 48 horas e eu só tenho pena de ter passado por tudo isto sem me aperceber de nada.
20/03/19, 18:56 - Hoje de manhã, quando acordámos, estávamos atracados em Aqaba, extremo Sul da Jordânia. Desembarcámos e encamionetámos numa viagem de 2 horas até Petra. Paisagem que me deixou na dúvida entre a Lua e Marte. E, mesmo assim, há quem tente a agricultura. Porquê? Porque não devem saber fazer mais nada.
Pergunta: Como é possível que a moeda jordana, o Dinar, valha US$ 1.50?
Resposta: Aldra! Valor determinado por Decreto, não pelas forças naturais da Economia.
Contarei mais quando chegar a casa.
Zarpamos hoje para - não sei bem quando - passarmos frente a Sharm el Sheik, extremo Sul da Península do Sinai, para nos fazermos de seguida ao Canal do Suez.
21/03/19, 10:56 - Estamos sentados no convés da popa a fugir do vento que sopra pela proa. A nascente (estibordo), as ondas do Golfo do Suez; a poente, a costa africana do Egipto.
A velhota baixinha sentou-se perto de nós, ao meu lado, pôs os pés em cima da banqueta que tinha à frente e ficou a olhar para o mar que foge por baixo de nós. Fez-me lembrar a minha Professora de geografia que no liceu nos falou dos tubarões que infestavam o Mar Vermelho e o Suez durante a viagem que fizera de Goa para Lisboa. Cheguei-me à amurada e só vi água.Virei-me para ela e disse-lhe em castelhano (a maior parte dos passageiros são espanhóis) e depois em inglês que não havia tubarões. Não respondeu nem sequer acenou um cumprimento. Deixei passar. Ou é superior e não me considera merecedor de conversa ou é apenas malcriada. Daí a pouco, aproxima-se outra velhota e gesticula qualquer coisa que não entendi. Realmente, nunca aprendi língua gestual, não consigo comunicar com surdo-mudos.
22/03/19, 21:27 - Demorámos 12 horas a percorrer o Canal de Suez no que foi um percurso interessantíssimo. Durante a parte desértica, chama a atenção uma linha verde paralela a ambas as margens que é claramente uma tentativa de combate ao deserto. Essa linha avista-se nitidamente mesmo em zonas onde nada mais existe. Mas na margem ocidental, a africana, sempre vão aparecendo povoações - umas pequenas e outras de certa dimensão. Nessa margem, a partir de certa altura, tudo passa a verde e a agricultura mostra-se pujante. É o delta do Nilo.
Na margem asiática, a do Sinai, a tal linha verde é contínua duma ponta à outra do Canal e o volume fantástico de obras em curso não a bule. Devem ser umas quantas cidades que vimos em plena construção para milhares e milhares de pessoas. Algumas delas são de vocação turística mas noutras vê-se pessoal da Engenharia Militar a trabalhar. Aqui no barco não encontrei quem me explicasse nada. A enorme ponte (parece a de VRSanto António) por baixo da qual passámos ainda não está inaugurada.
Seja o que for que esteja em construção, é muito grande e destinado a um desenvolvimento significativo do Sinai. Se tudo aquilo for agricolamente acompanhado com a equivalente dessalinização da água, admito que o futuro do Egipto seja risonho e que a malta passe a ter mais que fazer do que pensar em terrorismo.
Inch Allah!!!
23/03/19, 09:32 - Deixarei para mais tarde algumas reflexões que me ocorreram durante esta viagem que se aproxima do fim à velocidade de cerca de 15 nós.
Têm essas reflexões tudo a ver com as duas forças que se debatem nesta zona do mundo, a religiosa e a laica. Mas o conflito não é novo nem dá sinais de extinção imediata pelo que as minhas confabulações podem esperar mais uns dias.
Entretanto, para aligeirar um bocado a tensão provocada pela iminência pirática, fui à biblioteca do barco e meti-me por um romance de André Maurois (que não tive paciência para ler totalmente) mas donde tirei uma informação que chamou a minha curiosidade sócia histórica: "Foi pelas partes baixas de Luís XV que Mlle. Poisson foi alcandorada a Marquise de Pompadour".
Lembrei-me então de que a famosa loja lisboeta de roupa interior ostentando o título da Marquesa, se poderia, em alternativa e muito apropriadamente, chamar "La poissonnerie".
21:08 - Rumo ao Pireu (porto de Atenas), hoje à tarde passámos entre Rodes e Creta com tempo farrusco.
A caminho do restaurante, parecia que íamos grossos mas não chegámos a agarrar-nos às paredes. Não tínhamos bebido mas o mar quis dizer que estava lá em baixo.
Já sabemos que vai ser assim toda a noite e que só depois de passarmos o Cabo Sunion e entrando no Egeu é que a "coisa" vai serenar. Depois digo.
Para já, a festa continua com um concurso de sevilhanas que está animadíssimo.
Amanhã, logo pelas 7 da matina entramos pela terra de Péricles a dentro.
24/03/19, 12:13 – A viagem continua por outros bordos – os do barco ficaram no Pireu - e agora estamos a fazer horas no aeroporto de Atenas. Vá de petiscar uma moussaka e beber um copo ligeiro porque as bebidas fortes me fazem caspa.
No check in não me encontravam o lugar porque alguém nos ofereceu o upgrade. E num cruzeiro sem classes, já nos tinham feito upgrade na vinda. No barco, o nosso camarote também tinha muita classe. Assim, até eu gosto de uma sociedade sem classes.
21:04 - Ficámos a dormir em Madrid, só seguimos amanhã. É para quebrar o stress da pirataria.
Jantámos no hotel apesar de haver vários restaurantes nas redondezas.
Entretanto, chegou um casal de cães "Terra Nova" que estão a caminho duma exposição no México. LINDOS!!! Pretos e enormes, docemente mansos. Na recepção do hotel perguntaram-me o que é que eu pensava: se seriam os cães a dormir nas camas e os donos a dormir na banheira ou o contrário. Respondi que os perritos merecem dormir nas camas; os donos (um casal já de meia idade) que durmam na banheira, na retrete ou no bidé. Como quieran.

Março de 2019

COMENTÁRIOS
Anónimo 27.03.2019: Gostei... e invejei!
Anónimo 27.03.2019: Mais uma aventura, que sempre promete surpresas. Parabéns! Que tenham chegado bem e um abraço.

Somos os melhores



Há dias ouvi o Ricardo Araújo Pereira em chufas reiteradas ao “optimismo” balofo do Presidente da República, que o não deve ter visto nem ouvido, mas mesmo que o tivesse o não teria, já que o que me parece que ele tem mesmo é impudência, nenhuma lição lhe servindo, “pobre do lusíada, coitado!”, indiferente a críticas – neste caso a chufas que o puseram, no dito programa, de RAP, “Gente que não sabe estar”, a repetir sensaboronamente que “somos os melhores do mundo”. E ninguém o dissuade de envergonhar o país, com a autoridade do posto que ocupa, tirando selfies e dizendo baboseiras, o que é uma forma de conquistar votos, mesmo que seja à custa do ridículo com que enlameia o país. Somos os melhores do mundo, no futebol também se diz, quando perdemos os jogos, que ganhamos moralmente, ou que fomos injustiçados, etc.
Mas o texto de Rui Tavares, que começa por se socorrer de referências bibliográficas para desancar o país do outrora, que conquistou mundos, é certo, mas onde ele só viu sintomas de atraso, oportunismo manipulador e ostentação, (porque se tratava de classes mais “à direita”) país que não soube enveredar pelo trabalho sério, como fizeram os povos nórdicos, ao criarem condições estruturais para usufruírem inteligentemente das riquezas por nós conquistadas e desperdiçadas, a dada altura o texto de RT envereda pelo encómio, a lembrar o nosso PR com os seus encómios de mentirinha, nem sequer patrióticos, pois que patéticos, num espalhafato de adolescente mimada. Ao considerar que “Portugal tem condições suficientemente interessantes — geográficas, linguísticas, culturais e societais — para desejar ser não apenas uma sociedade em convergência com a média europeia, mas antes uma das sociedades mais desenvolvidas, cultas e iguais de uma das regiões mais desenvolvidas do mundo”, Rui Tavares, com tais contradições inesperadas, entre o que disse antes  e o que afirma agora, ou está “em gozação”, ou está em busca de qualquer outro cargo para si, sabendo que por cá o elogio é um bom meio de progressão na vida, e ele tem todo o direito de lutar pela sua. Mas a honestidade intelectual é fundamental, não é aceitável que ele não enxergue o que se está a passar neste país, e não só ao nível da educação, está visto.
OPINIÃO
Que fazer com este país?
Portugal tem condições suficientemente interessantes — geográficas, linguísticas, culturais e societais — para desejar ser não apenas uma sociedade em convergência com a média europeia.
RUI TAVARES     PÚBLICO, 27 de Março de 2019,
António Ribeiro Sanches, que deixámos na última crónica em 1759 escrevendo sobre Portugal as suas Cartas sobre a educação da mocidade, deixou implícito que o problema do país se resume essencialmente a um dilema: mão-de-obra barata ou valor acrescentado? Como vimos, a sua crítica precoce (para termos portugueses) à escravatura baseava-se desde logo só no facto de esta ser imoral — ou, nos seus termos, uma desumanidade — mas também incluía na sua análise as consequências de um modelo económico baseado na escravatura para o subdesenvolvimento cultural e social de Portugal. Enquanto as elites nacionais, no reino ou nas colónias, extraíam recursos humanos de África para que estes atravessando o Atlântico fossem extrair recursos naturais do Brasil, outros povos europeus manufacturavam os produtos mais complexos, mais intensivos em conhecimento e tecnologia, que o ouro luso-brasileiro ia depois comprar. No curto prazo os portugueses ficavam mais ricos; a longo prazo ficavam mais pobres, porque não tinham sentido necessidade de se educar para produzir com mais valor acrescentado.
Como descrevi então, esta tese atravessou os séculos — de Garrett a Passos Manuel, de Antero de Quental a António Sérgio — e de certa forma ela é relevante ainda hoje. Aludi na crónica anterior à forma como a crise de 2008 foi enquadrada em Portugal como uma luta entre duas desvalorizações. Uma, a desvalorização interna, consistia em competir com o resto da Europa e do mundo através dos salários mais baixos, simulando através deste mecanismo a antiga desvalorização do escudo que com o euro já não é possível fazer. A segunda era a desvalorização externa, que consistia em romper com o euro para poder desvalorizar o novo escudo, nunca se explicando bem que isso consistiria também num corte de salário. Ora, uma desvalorização — interna ou externa — é sempre um atalho. Fora de um momento de crise, um atalho não é um caminho de futuro para o país. E navegar à vista, fazendo um bocadinho de cada coisa, também o não é.
Um caminho de futuro só pode passar pelo contrário da desvalorização — de qualquer desvalorização, seja a da austeridade, seja a do rompimento com o projecto europeu — e projectar a médio prazo aquilo a que poderíamos chamar uma “Grande Valorização”. Há anos que defendo que essa grande valorização deveria passar por três eixos fundamentais — valorização das pessoas, do território e do conhecimento — e mais recentemente tenho defendido que ela seja precedida de um grande debate nacional que nos permita encontrar em conjunto as metas em cada um desses eixos. As medidas e as políticas específicas fariam parte, como é natural é desejável que seja, do terreno contencioso da política, em que cada partido ou cidadão escolheria as propostas e programas a defender. Essa pluralidade essencial não sai prejudicada, pelo contrário, pela existência de objectivos comuns. Foi assim que fizemos a primeira geração de políticas após o 25 de Abril, e foi assim que muitos países — da Irlanda à Finlândia — se têm conseguido modernizar.
Uma valorização das pessoas, do conhecimento e do território passa certamente pela realização de verdadeiras reformas. Não as reformas erradamente “estruturais” das falhadas políticas a curto prazo da desvalorização interna. Mas o tipo de reformas que permitam sustentadamente aumentar produtividade e fazer o país subir na escala de valor europeia e mundial. Essenciais seriam uma reforma do ensino superior, uma reforma da administração pública e a regionalização. Sim, eu sei que a última é politicamente uma batata quente, mas olhemos para um mapa com as regiões mais pobres e mais ricas da Europa e rapidamente veremos como se tornaram mais prósperas as regiões espanholas, de que a Galiza é uma ilustração, e como o Norte de Portugal ficou comparativamente mais distante destas. Uma valorização das pessoas passaria necessariamente por políticas de micro-economia, ajudando as empresas a incorporarem conhecimento e tecnologia na sua produção, e por um reforço das provisões de bens públicos por parte do estado, para não deixar ninguém para trás enquanto o país se tornasse mais produtivo e especializado. E um plano deste género não poderia passar por um rompimento com a Europa, mas antes pelo contrário por uma maior europeização da nossa economia e sociedade, sendo o estado um ajudante da sociedade civil e dos agentes económicos na captação de recursos europeus de uma forma mais simples, eficaz, e inclusiva do que se passa hoje.
No quadro desse debate nacional haveria talvez uma questão que apareceria mais tarde ou mais cedo. Essa questão é a da convergência com a média europeia — o Santo Graal das nossas políticas das décadas anteriores. Será preciso reflectir sobre se não é preciso ser bastante mais ambicioso do que apenas a convergência. Ou, em metáfora futebolística, se devemos continuar a jogar para o empate, maneira mais do que consabida de acabar a perder. Portugal tem condições suficientemente interessantes — geográficas, linguísticas, culturais e societais — para desejar ser não apenas uma sociedade em convergência com a média europeia, mas antes uma das sociedades mais desenvolvidas, cultas e iguais de uma das regiões mais desenvolvidas do mundo. Talvez precisemos de actualizar o nosso desafio como sociedade se queremos ir mais longe sem deixar ninguém para trás.
E é aí que o regresso a Ribeiro Sanches faz sentido. O Portugal do ciclo imperial foi um país que gastou todas as cartas sem conseguir dar um pulo de desenvolvimento. O Portugal do ciclo actual só pode contar consigo, com as suas gentes e com os que aqui quiserem viver e trabalhar, e com o seu território inserido no espaço político europeu. Terá chegado finalmente a altura de entender que só chegaremos “lá” com uma Grande Valorização daquilo que agora temos?
COMENTÁRIOS:
AA...Para a mentira ser segura ... tem que ter qualquer coisa de verdade,  Portugal 27.03.2019: Comentários muito interessantes sobre as razões do nosso crónico e secular atraso, apesar do ouro que choveu umas 3/4 vezes ao longo dos nossos 900 anos de história. Eis-nos chegados ao século XXI como o quinto país mais pobre da UE, e em risco de sermos ultrapassados pela Polónia e pela Hungria. O problema meus caros é a matéria prima das nossas gentes. Custa muito admiti-lo mas o povo é fraco, a sociedade civil é inexistente e os políticos, que temos gerado, é do mais rasca que há: completamente incompetentes e um bando de ineptos. A justiça não funciona e os corruptos de colarinho branco são totalmente inimputáveis. Para quem quiser ter uma vida melhor, terá que procurar outros valores que não existem por aqui. Portugal só tem sol e praia para oferecer. Triste sina a nossa. É a vida.
A NON DOMINO, Terra 27.03.2019 : Nada, neste artigo, é ideia nova. Anda-se a escrever isto há, pelos vistos, uns 300 anos. Nestas últimas 5/6 décadas não há governo, académico, publicista, comentadeiro, etc. que não diga o mesmo. Claro que comunistas serôdios (como o José+Jonas) vão buscar o tema estafado e arcaico do "orgulhosamente sós", versão PCP (não acham que o PCP não está cada vez mais parecido com o Salazarismo nas suas posições ultraconservadoras e autárcicas?). Uma ideia nova, por favor.


quarta-feira, 27 de março de 2019

Começou no Dubai



«Dubai é a maior cidade e emirado de mesmo nome dos Emirados Árabes Unidos. O Emirado de Dubai está localizado na costa do Golfo Pérsico, sendo um dos sete emirados que compõem o país. Dubai é o emirado mais populoso entre os sete emirados, com aproximadamente 2 262 000 habitantes.» Wikipédia
… E não são boas as notícias que Salles da Fonseca transmite sobre o Dubai, depois de esgotado o meio que despoletou o milagre de tal “criação” humana – não o cinema mas o petróleo. Sic transit gloria mundi. Outros aspectos cita, pouco atractivos, que têm a ver com os costumes, o atraso, o machismo, o consumismo também. Um texto desconcertante, pelo inesperado das informações, de nós desconhecidas, que julgávamos o tal Dubai dos formatos caprichosos, e que se ergueu surpreendentemente, no esplendor dos luxos, coisa para continuar a espraiar-se altivamente nas suas dunas. Não será assim. Mas o texto de SF não espanta: sagaz, variegado, de uma energia sadia, que mistura o riso e o sério, fluentemente, como uma foto de várias cores.
ARÁBIA FELIX – 2: _ HOLLYWOOD B
HENRIQUE SALLES DA FONSECA              A BEM DA NAÇÃO, 26.03.19
A questão que me coloco é a de saber se o Dubai é hoje uma réplica de Hollywood - não confundir com a inocente e lucrativa Bollywood de Bombaim - ou da Revolução Francesa. De uma coisa, não tenho quaisquer dúvidas: aquilo nada tem a ver com a Arábia.
E se quanto à obra edificada, temos que reconhecer que tudo foi feito rapidamente e com grande euforia, há agora que perguntar como vai ser o futuro quando é sabido que a última gota de petróleo foi chupada há 6 meses. Será o comércio suficiente para "segurar" todo aquele espalhafato?
Será o turismo capaz de financiar todo aquele estilo de vida? Conseguirão os Serviços lato senso fundamentar um novo modelo de desenvolvimento?
Duvido da plausibilidade de cada uma e de todas as hipóteses anteriores e temo que do "bluff" se passe para um realismo abissalmente contrário ao cenário que mais nos agrafaria, ocidentais. 
E se algo desagradar aos ocidentais - sobretudo aos presenciais ou às interpostas pessoas - que "seguram" tudo aquilo e lhes parecer que o sonho acabou e corre o risco de se transformar em pesadelo, não faltará ocasião para se perguntarem para que lhes servem as pernas e procurem novas paragens.
Sem os ocidentais, o Dubai tende a regressar ao reino medieval que era até há bem pouco tempo.
E porquê tanto negativismo neste meu prognóstico? Porque o meu diagnóstico é breve: nada daquilo tem qualquer coisa a ver com a Civilização Islâmica e nem sequer com alternativas orientais. Então, o meu leitor dirá que a China segurará o Dubai no dia seguinte ao abandono dos ocidentais. E eu respondo: tomara a China segurar-se a si própria, quanto mais segurar outros; o desinvestimento externo chinês já começou, o castelo de cartas já treme.
Como dizia o ceguinho, "a ver vamos..." mas, entretanto, fico muito céptico porque não vejo os súbditos (numa monarquia não há cidadãos mas sim súbditos) dubaianos a evoluírem no sentido de conseguirem substituir os ocidentais na componente produtiva da vida; na do consumo, sim, até nos ultrapassam.
Mas como nós sabemos por experiência própria, numa economia pouco produtiva (caso do Dubai depois de chupada a última gota de petróleo), o Consumo não é motor do desenvolvimento mas sim da bancarrota. Portanto, deveria haver um muito amplo debate sobre o novo modelo de desenvolvimento daquele Emirato. Só que a expressão "muito amplo debate" é típica de democracia e isso é coisa inexistente no Dubai.
Então, como dizia Karl Popper, "resta-lhes irem para o Inferno". E o "Inferno" muçulmano será por certo algo que se assemelhe à Revolução Francesa. Eis como se fecham as portas de Hollywood e se afia a guilhotina. Mas, por enquanto, tudo exibe pujança e dá gosto ver. E eles até mostram as fotos do antes e nós gostamos de ver o depois.
Os árabes chamam-se uma infinidade de nomes pois que "ibn" significa "filho" e eles ostentam a ascendência até quase ao Adão. Sim, claro, apenas a linha masculina. Perguntados, não me esclareceram de como se resolve o problema de quando a linha sucessória masculina de um «rei» é interrompida. Fiquei a crer que o problema é de resolução fácil: um golpito de Estado e ZÁS! Venha outro sem problemas no nome.
Mas este simplificou as coisas e reduziu tudo a Mohammed bin Rashid Al Maktoum o que, na prática, significa que ele tem Mohammed como nome próprio e que é filho de um tal Rashid da família Maktoum. Os Maktoum são há algumas gerações os donos daqueles areais que este transformou numa Hollywood nº 2 mas sem «woods» (pelo menos, por enquanto). Na intimidade, chamam-lhe apenas Sheikh Mohammed. Nascido a 15 de julho de 1949, é desde 2006 também primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos. É dono de 99,67% da Dubai Holding.
Então, foi a partir da década de 90 que o boom se deu e das dunas se fizeram arranha-céus, marinas, o aeroporto, a dessanilização da abundante água do mar, o ajardinamento (mais do que a arborização), as super-avenidas, o novo canal que atravessa a cidade, a "little Venice", a "Palmeira" que é um conjunto de linhas de areia devidamente consolidadas pela engenharia holandesa onde o luxo impera em casas boas, muito boas, óptimas e fantásticas, hotéis de muitas estrelas e etc.
O Emir tinha como objectivo fazer construir também outra "Palmeira" com o quádruplo do tamanho desta que existe e que me pareceu enorme mas o projecto ficou no tinteiro por causa da crise de 2008. Entretanto, está em construção (pela engenharia holandesa) um arquipélago artificial de 360 ilhas representando o mapa-mundo. Cada ilha será vendida em bloco. Se algum dos meus leitores tiver por aí uns milhões de Dólares ou de Euros, não deixe fugir esta oportunidade de ... os perder nas salsas ondas do Golfo Arábico.
Mas nem tudo é fútil. Assim, o Dubai passou a ser um centro de treino de camelos de corrida (as corridas propriamente ditas - e respectivo filet mignon que são as apostas - fazem-se no Abu Dhabi onde ficam as massarocas) e num centro de criação de ónixes (primos menores das palancas angolanas) contando-se por cerca de uma dúzia de animais - e disse! Mas se houvesse mais animais, seria perigoso fazer os rallies completamente desvairados em que nos levaram pelas dunas. Aí, sim, a adrenalina soltou-se em grande e numa das breves paragens que fizemos, uma velhota (um mês mais velha que eu) brasileira dizia-me: - Jovem (o jovem era eu) isto está a mortificar todas as frustrações da minha vida.
Depois de vermos o pôr-do-Sol do alto daquela duna muito conhecida naquele deserto, descemos por ela a baixo e entrámos num acampamento de beduínos para jantarmos e vermos um espectáculo de folclore. À falta de «mounting block», não consegui subir para o camelo que estava ali mesmo à minha espera. E a velhota a chamar-me «jovem»… O cameleiro disse-me para eu pôr um joelho no flanco do dromedário mas eu não sei o que é isso de montar à joelhada, não quis magoar o bicho com um joelho pelas costelas a dentro e desisti. Fica para quando eu for mais novo.Por aqui se vê a «gentileza» com que os animais são «acarinhados» pelos joelhos dos turistas e, pior, com o beneplácito e até incitamento dos cameleiros. Ou seja, não é por eu não saber falar árabe que não debato a filosofia kantiana nem a política monetária emiratiana com os cameleiros.
Contudo, do Dubai, o que levo de mais negativo é o machismo misógino dos fulanos que impõem às mulheres o uso de vestes tão abomináveis como as burkas e outras que tais. E não me venham cá dizer que são uma minoria; digam, sim, que são poucas no meio duma multidão estrangeira que não é muçulmana. Quase que passam despercebidas mas falta o quase para que desapareça a misoginia.
O que levo de mais positivo é a coordenação entre a embraiagem, o acelerador e o travão que o nosso condutor fazia durante o rally desvairado por aquelas dunas além…
Finalmente, a questão da nacionalidade. Não perca o meu leitor o seu tempo a pedir a nacionalidade dubaiana pois esta só é concedida a quem seja filho de pai e de mãe dubaianos de gema; se for filho de um só da gema e o outro da clara, não terá sorte nenhuma, mesmo que nascido no Dubai. Ser dubaiano é mister de honra rara. Por mim, dispenso.
Regressámos ao barco a horas decentes depois do jantar e do espectáculo e zarpámos antes da meia noite.   Continua no próximo capítulo.
COMENTÁRIOS:
Anónimo, 27.03.2019: Gostei muito, aliás como sempre. Fiquei desperta para alguns aspectos que desconhecia. Acho que nunca antes o tinha sentido tão cáustico na escrita. Fico à espera do próximo. .Bj
António Palhinha Machado: > Henrique Salles da Fonseca 27.03.2019:: Caro Cronista de Longa Distância,
Na realidade, os árabes (e, por extensão, boa parte dos muçulmanos) vão tendo vários nomes ao longo da vida, o que, nos tempos do Lawrence das Arábias, deixava os britânicos de olhos em bico e às aranhas. Quando atingem a idade adulta (eles ainda praticam activamente a rébora, coisa que entre nós, ocidentais, há muito caiu em desuso), adoptam um nome pelo qual passam a ser conhecidos: é a kunya (de onde pensa que vem a tão portuguesa "alcunha"?) que pode não incluir patronímicos. Ex: Yasser Arafat/ Mohammed Yasser Abdel Rahman Abdel Raouf Arafat al-Qudwa al-Husseini / tinha por kunya Abu Ammar. Tanto quanto sei, parte dos recifes artificiais para criar parques subaquáticos foi fornecida por uma empresa portuguesa, entretanto vendida a norte-americanos. Melhoras do olho (olho é órgão - a vista é função).
Henrique Salles da Fonseca  27.03.2019: Para quem, como eu, não saiba o significado de «rébora», aí vai a explicação que fui buscar ao Dicionário Priberam: rebora | substantivo feminino re·bo·ra |ó|
1. Confirmação. 2. [Antigo] Alvedrio, decisão. 3. Idade exigida por lei para certos actos. 4. Idade da puberdade.
5. O presente que o comprador de uma propriedade dava ao vendedor, além do preço estipulado.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
Anónimo  27.03.2019: Tudo se conjuga para um fim que não está longe. Depois, as areias do deserto, cobrirão as ruínas
António da Cunha Duarte Justo  27.03.2019: Muito obrigado pela crónica. Aprendi muito!