sábado, 27 de abril de 2019

“Isto é o Agildo”



Chegou por email o discurso do nosso PR, enviado por Salles da Fonseca, sem qualquer comentário seu, apenas sublinhados os passos que apreciou. O seu comentador concorda com os sublinhados, que são objectivos gerais, e com o discurso em si, de elogio aos ideais de Abril, sem qualquer intenção condenatória, que não se punha ali, nem certamente estaria nos seus propósitos encomiásticos, mesmo que pudéssemos vislumbrar qualquer emudecimento hipócrita que o politicamente correcto não permitiria ultrapassar. Só não concordo, no comentário de Adriano Lima, com a sua crítica ao discurso de Cavaco Silva, antecessor de Marcelo R.S., quando, como P.R., teve que prestar igual homenagem, referindo-se desbragadamente às pescas e à agricultura tão necessárias à nossa economia. Mas fora o discurso de um homem preocupado, que via o seu país a escoar-se em palavreado e más políticas. Uma lição, apenas. Esta de Marcelo também foi uma bonita lição, mas não nos satisfaz, evidentemente, no bla bla bla habitual de quem se esquiva a pegar o touro pelos cornos. E o touro é poderoso, em paleio, em desleixo, em solidão, em indiferença e desvergonha. É esse o touro. Bem sintetizado nos falsos discursos e cantares do cómico brasileiro “Agildo” que o “Canal Memória” vem reproduzindo, ultimamente,  à tarde.
 HENRIQUE SALLES DA FONSECA     A BEM DA NAÇÃO, 27.04.19
Discurso do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa em 25 de Abril de 2019
Passaram já 45 anos. 45 anos volvidos, que o rito se repita, que seja mais do que um rito. Que seja memória, que seja gratidão, que seja esperança, que testemunhemos aos resistentes de décadas, que testemunhemos aos jovens militares de então o nosso indelével reconhecimento. Aos que partiram, aos que permanecem entre nós, aos que nunca esquecerão o que fizeram, aos que, além disso, continuam a sonhar com um futuro melhor para Portugal.
Dir-se-ia que foi ontem, mas passaram já 45 anos. E há 45 anos quais eram as expectativas, os anseios, os desafios, as causas dos jovens de Portugal? Desse Portugal também jovem, apesar do milhão que havia votado com os seus pés, emigrando, recusando a vida sem liberdade, sem mais desenvolvimento, sem maior justiça social. Lembramos bem o que nos unia, a nós jovens, dos mais opostos pensamentos na alvorada da mudança. Unia-nos democracia em vez de ditadura. Liberdade em vez de repressão. Desenvolvimento integral e justiça social mais partilhada em vez de desigualdade económica, descriminação social, taxas confrangedoras de mortalidade infantil, de escolaridade e de infraestruturas básicas. Paz em África em vez de empenhamento militar sem solução política. Isto nos unia.
Muito do mais nos dividia. Os contornos concretos do regime político, o sistema de governo, a visão sobre a Europa e do Mundo, o papel do Estado, pessoas e organizações, o caminho, o fim, o ritmo da Revolução, o alcance da Constituição e como ela se devia conjugar com a Revolução, prolongando-a, moderando-a ou conformando-a. E como sempre acontece com as revoluções, cada qual cadinho de muitas, muito diversas, uns veriam os seus desígnios triunfar no instante inicial. Alguns, em vários trechos do percurso. Outros, na primeira versão da lei fundamental, outros ainda no somatório das revisões que a foram moldando a novos tempos e a novos modos. Em rigor, dos jovens de 74 nenhum pode dizer ter visto vencer tudo o que queria para o seu e nosso futuro.
Mas olhando ao caminho trilhado, justo é convir que todos acabaram por ver muito do essencial do seu denominador comum atingidoPortugal passou de ditadura para democracia, alargou-se a novos universos, tempos e modos. Superou indicadores de educação, de saúde, de habitação, de infraestruturas básicas, de Segurança Social, que condenavam à insuficiente produção educativa, à elevada mortalidade à nascença, a condições de vida e de protecção sem horizonte.
Construiu tudo isto com uma descolonização tardia em plena Revolução e que, por isso mesmo, desenraizaria tantos regressados e deixaria no terreno tantos anos de combates armados. Mas sabendo preparar a formação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e, pelo meio, começando a viver o repto da integração europeia. Ninguém ousará dizer que nessas décadas os jovens de 74 e com eles os mais antigos e os mais recentes não viveram uma aventura agitada, exigente, não linear, cheia de altos e baixos.
A Revolução dois anos. O arranque da democracia, primeiro com o Movimento da Forças Armadas mais seis anos. Depois, de base exclusivamente eleitoral a partir de 1982. A adesão às comunidades europeias, processo de oito anos, o lançamento da CPLP, mais onze anos. No entretanto, a aproximação do regime económico aos europeus durante quase 20 anos, dos quais inúmeros após a própria adesão.
Para muitas portuguesas e portugueses a descoberta da própria liberdade chegaria com a da democracia e uma e outra com a conversão de um império colonial de cinco séculos em membro de comunidades que, não sendo inéditas nas raízes, o eram nos seus contornos políticos, económicos e sociais. Claro que, no essencial, continuamos a ser o que sempre fomos. E bem, por corresponder à nossa vocação cimeira: plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes. Claro que por vezes assumimos essa viragem histórica singular que é encerrar um ciclo de cinco séculos como se de uma suave, natural e pacífica transição sem dor se tratasse. Nós, somos inexcedíveis nesse fazer de conta de que mesmo o mais difícil é fácil. E o mais profundamente diverso não passa de um subtil acidente de percurso.
Hoje, 45 anos depois, manda a verdade, porém que digamos, nós os jovens de 74, que continuamos a preferir a democracia, mesmo a mais imperfeita, à ditadura, mesmo a mais insensata. Que preferimos o reformismo, mesmo o mais arrojado, à ruptura demagógica feita de basismos ilusórios, de messianismos de messias impossíveis, de sebastianismos de passados que não voltam.
Que queremos mais, muito mais, da nossa democracia social e cultural. Melhor, muito melhor da nossa democracia política e económica, mas não estamos dispostos a esquecer o que fizemos para ultrapassar barreiras, exclusões e discriminações de há quase meio século. Esperamos mais, muito mais da Europa e da comunidade dos países falantes em português, mas não cedemos a tentações ou marginalizações serôdias, nem a xenofobias, nem a traumas pós-coloniais, seja quais forem os pretextos ou as seduções do momento.
Não vemos estes 45 anos como obra perfeita, completa, acabada, que nos deixe deslumbrados, auto-contemplativos, realizados, longe disso. Desejamos muito mais e muito melhor. Mas reconhecemos que valeu a pena o passo fundador. Valeu a pena o 25 de abril. Valeu a pena que mesmo aquilo ao longo das décadas custou a tantos de destinos sacrificados ou de metas ainda não realizadas. Valeu a pena. Quem o diz é um dos milhares de jovens desse início dos anos 70, então conhecedor das vicissitudes do estertor da ditadura, agora Presidente da República em democracia pelo voto dos portugueses.
E hoje? O que pensam? O que sentem? O que querem os jovens de 2019? Porque os regimes, em particular as democracias, não se quedam na visão dos passados, têm de saber responder aos desafios dos presentes e dos futuros. Para eles, para esses jovens, basta acenar com o existente em pós-descolonização, desenvolvimento e democracia? Ou os seus sonhos e as suas necessidades são muitíssimo mais fundos e vastos? Pós-descolonização? Sim. Visão universal? Sim. Querem-na se significar mundo mais aberto, mais dialogante, mais multilateral, mais inclusivo, mais contrário a clivagens que separem, que humilhem, que desumanizem.
Mas querem-no em actos, em gestos diários, em vivências quotidianas. Cá, lá, por todo o universo. Sabem que os tempos de medos explicam os fechamentos, a recusa do outro, do diferente, do estranho, mas nasceram e querem realizar-se numa universalização humana e humanizadora. Da diferença. Não sobre o proteccionismo da identidade forçada nos muros impostos. E não se conte com eles para passadas ou futuras clausuras, fronteiras, prisões, interditos de circular e fazer circular pessoas, ideias e projectos de vida.
Democracia? Sim. [Os jovens de 2019] não querem voltar a ditaduras, mas cultivam tantas vezes uma participação diversa, amiúde inorgânica, sempre mais digital. E queixam-se da dificuldade dos sistemas tradicionais saberem lidar com essas novas formas de agir, interagir, intervir, influenciar, aspirar a decidir. Essa sua inquietude torna-se apelo atractivo para ideias, movimentos, exigências, acelerações, disfunções, que a democracia nos seus contornos mais clássicos, de outro ritmo e de outra configuração tem de compreender e de fazer conjugar sob pena de se condenar a meras formas com cada vez menos conteúdo.
E não se conte com eles para passadas ou futuras sobrancerias, orgânicas, obsoletas ou ineficazes, clientelismos, adiamentos crónicos face a problemas sociais.
Desenvolvimento para mais e maior justiça social? Sim. Mas esses objectivos gerais e abstractos, valem menos neste final da segunda década do século XXI. Valem mesmo muito pouco se não forem acompanhados de escolhas, de passos, de marcos muito concretos e visíveis. E mais rápidos. Na educação, na saúde, na solidariedade social. E não se conta com eles para passadas ou futuras indiferenças ou resignações comunitárias. Os jovens de 2019 querem, além de tudo isso, respostas inequívocas para algumas perguntas urgentes.
Quando e como volta Portugal a querer ser uma sociedade a rejuvenescer? Pelos que nascem e pelos que recebe de fora. Digo bem. Pelos que recebe de fora e não a envelhecer a passo estugado, permitindo finalmente a todos os jovens no seu dinamismo social, os menos jovens na sua luta contra a guetização, numa esperança colectiva renovada. 
Quando e como esbatemos mesmo as desigualdades que ainda persistem, que continuam a minar a nossa coesão entre pessoas grupos e territórios? Sublinho, territórios. Que atrasam o desenvolvimento, esvaziam as descentralizações, juntam novos pobres aos velhos pobres.
Quando e como antecipamos o que aí vem nesta era de revolução digital no emprego e no trabalho perante mutações científicas e tecnológicas que vão em cinco, dez anos mudar os sistemas produtivos, dispensar pessoas ou re-arrumá-las nas suas actividades e perceptivas do amanhã?
Como e quando conseguimos explicar aos menos jovens, e que são muitos numa sociedade a envelhecer, que há mesmo alterações climáticas, que há mesmo deveres inter-geracionais, que as purgas pela chamada sustentabilidade do desenvolvimento não são bizantinices de meia dúzia de iluminados ou agitadores, uma moda dos mais jovens, uma mera manobra conspirativa vinda de fora para beneficiar das indecisões ocidentais ou europeias?
A maioria destas causas não existia, ou não era decisiva para os jovens de 74. Portugal era ele mesmo jovem. As desigualdades eram, de facto, mais chocantes. Mas acreditava-se que o crescimento económico, por si só, as iria resolvendo ou atenuando progressivamente. O digital era uma revolução inexistente. O futuro do trabalho e a atenção ambiental constituíam preocupações de minorias muito minoritárias. O desafio dos jovens de 25 de Abril de 74 era muito nacional e muito concentrado em três objectivos cimeiros: a paz em África e por isso a descolonização, a Democracia e o Desenvolvimento vistos a prazo mais curto.
O desafio dos jovens de 25 de Abril de 2019 é muito mais global, muito mais complexo, muito mais exigente na diversidade dos factores de que depende e do prazo alargado que envolve. Mais ambição na democracia. Mais ambição na demografia na coesão. Mais ambição na era digital e na antecipação do futuro do emprego e do trabalho. Mais ambição na luta por um mundo sustentável. Tudo com a economia a crescer, dependência pelo endividamento a diminuir, sensatez financeira a salvaguardar, acrescida de justiça no repartir.
Tudo sem excluir ninguém. Nem os menos jovens, como somos hoje os jovens de 74, nem os mais jovens. Ou seja, os jovens de hoje. Parece um programa impossível? Talvez. Mas a história faz-se sempre de programas, de ideais, de sonhos impossíveis. E a história de Portugal é a história de uma pátria que nasceu impossível. Uma impossibilidade com quase 900 anos. Porque haveriam de ser as gerações de hoje as primeiras a renunciar, a construir o impossível? Porque haveríamos de ser nós, precisamente nós, a não acreditar em Portugal? Que para sempre vivam os caminhos de liberdade, democracia e dignidade das portuguesas e dos portugueses que Abril desbravou, que para sempre viva Portugal.
 PS: Sublinhado nosso.  Henrique Salles da Fonseca
COMENTÁRIOS:
 Adriano Lima  27.04.2019  14:50: Ouvi em directo o discurso do PR mas aqui me foi dada a possibilidade de o ler com vagar e pausa, logo, com mais atenção. Concordo com os sublinhados do Dr. Salles da Fonseca, que naturalmente são feitos em função do seu critério sobre os pontos fundamentais do discurso. Penso que o discurso é digno de um democrata como é o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa. Como não podia deixar de ser, não aborda questões políticas concretas, nem tal se enquadraria numa cerimónia desta natureza. O foco deve ser precisamente o que foi preferido pelo PR, embora o seu antecessor no cargo tenha algumas vezes entendido de forma diferente. E ultrapassou os limites do exagero ao falar numa destas celebrações quase exclusivamente de pescas e/ou agricultura, coisa que quanto a mim brada aos céus. Celebrar o 25 de Abril deve ser celebrar os valores da democracia que foi restituída à nação, mas é também incluir uma palavra de incitamento sobre o que podemos ou devemos fazer para que ela se valorize em ordem à transformação positiva das nossas vidas. O PR fez ver que os desafios são múltiplos e imensos e nesse sentido a sua comunicação se dirige enfaticamente à juventude.

LIÇÕES DE MESTRES



É só ler e meditar. Saboreando. Revendo. Revivendo.

I – OPINIÃO: Diário
O 25 de Abril não se fez pela liberdade; fez-se para a tropa voltar para casa. E uma bela manhã, Álvaro Cunhal desembarcou em Lisboa imitando deliberadamente a chegada de Lenine à estação da Finlândia.
VASCO PULIDO VALENTE
PÚBLICO, 27 de Abril de 2019, 5:48
20 de Abril:
 Vi hoje, no “Governo Sombra”, um Otelo que nunca tinha visto. Um chefe militar que disse à comissão coordenadora do MFA “eu faço”, mandou e fez. Um quarteleiro, ligado ainda hoje à sua unidade de origem e muito amigo dos sargentos. Por outras palavras, apesar de toda a infantilidade política, um homem fiel à sua vocação.
21 de Abril:
 A lei da memória histórica, uma lei do PSOE, não pretende evocar a memória da guerra civil, pretende evocar uma fantasia da esquerda, que se tornou realidade para muita gente. É uma arma política, que hoje serve para aterrorizar os espanhóis com o espectro de Franco.
Mas o Vox não tem nada a ver com o que era a direita espanhola em 1936, nem com o que foi o regime franquista. Pedro Sánchez pensa que ganha votos, insinuando que uma coligação de direita seria inevitavelmente dominada pelo Vox, como a coligação de Hitler com os conservadores de Weimar. Não há nenhuma razão para se acreditar neste prognóstico. E há uma infinidade de razões para não se acreditar.
23 de Abril:
 Um indivíduo interrompeu ontem um pequeno comício de António Costa. Subiu para o palco e tentou tirar-lhe o microfone. Soube-se depois que era membro de um grupo internacional de ambientalistas, chamado Extinction Rebellion, que já paralisou o centro de Londres durante vários dias.
Apareceu a seguir um turco a falar português, apóstolo desse grupo, ameaçando o público com o fim do mundo. Estes movimentos apocalípticos são muito interessantes, porque persistem na sua forma de há dois mil anos para cá. O turco diz que a sua seita é radical, popular e aberta a todos. Como outro filho dessas terras longínquas, mais precisamente de Tarso, dizia aos primeiros cristãos. É consolador pensar que Paulo também acreditava que o fim do mundo estava próximo.
24 de Abril:
A sindicância que o governo abriu à Ordem dos Enfermeiros para tentar punir Ana Rita Cavaco pelo papel que ela teve nas greves do princípio do ano é um acto vingativo e sórdido. Pior: é uma perseguição política intolerável num regime democrático. Será que António Costa sabe disto? Espero que não.
25 de Abril:
É impossível explicar aos mais novos o que foi o 25 de Abril. Um exemplo. Quem agora compreenderia que uma assembleia, que era pouco mais que um tropel de gente e que mesmo os seus chefes não sabiam ao certo por quem era composta, decidisse a nacionalização da banca e dos seguros e, pior do que isso, a institucionalização do MFA como poder de Estado?
25 de Abril à noite:
Vieram à televisão uns militares caducos parecendo ofendidos por se chamar “selvagem” à assembleia do 11 de Março. E tentando esconder os fuzilamentos que lá propuseram personagens de peso, milicianos, anónimos, e um grupo extraviado do MRPP. Peço desculpa. Ainda me lembro de Álvaro Cunhal, num excitado comício, prometendo aos camaradas, que gritavam “uma só solução, fuzilar a reacção”, que não perdiam pela demora.
O delicodoce dia “inicial, inteiro e limpo” de Sophia de Mello Breyner foi a caverna dos ventos da violência. Os militares não tinham absolutamente nada de democrático. O 25 de Abril não se fez pela liberdade; fez-se para a tropa voltar para casa. E uma bela manhã, Álvaro Cunhal desembarcou em Lisboa imitando deliberadamente a chegada de Lenine à estação da Finlândia.
Colunista

II - ELEIÇÕES EUROPEIAS: Um país que parece mentira /premium
OBSERVADOR, 27/4/2019, 0:08404
Um punhado de criaturas que tem sonhos eróticos com a bóina do “Che” e os fatos de treino dos sobas de Caracas não constitui exactamente um “movimento”, digno de alerta na imprensa e tumultos na rua.
Um “grupo de cidadãos” criou um “movimento apartidário” para exigir “uma campanha limpa”, leia-se “sem mentira e desinformação”. Os subscritores, assaz preocupados com o que acontece na América e no Brasil, pretendem “bloquear e denunciar” as “notícias falsas nas redes sociais portuguesas”, de modo a votarem “sem a intoxicação de quem despreza a democracia”. Isto é o que vem no “Público”.
O que não vem no “Público” é que o “grupo de cidadãos” é uma dúzia de “personalidades” habituais em programas televisivos de variedades, que o “movimento apartidário” corresponde ao arco do poder que vai do PS actual ao BE de sempre, que a preocupação deles com os EUA e o Brasil não se estende à Venezuela ou à Coreia do Norte, que a denúncia e o bloqueio são métodos de regimes totalitários e indivíduos com patologias, que o desprezo dessa gente pela democracia já a intoxicou há muito e que o problema não são as “notícias falsas” – invariavelmente produzidas à “direita” –, mas as restantes.
Um primeiro problema, se a palavra não é exagerada, prende-se com as notícias que não chegam a sê-lo. Um punhado de criaturas que tem sonhos eróticos com a bóina do “Che” e os fatos de treino dos sobas de Caracas não constitui exactamente um “movimento”, digno de alerta na imprensa e tumultos na rua. No máximo, formam um caso de estudo psiquiátrico. No mínimo, um rancho de mimados convencidos de que o mundo lhes deve atenção e obediência a um “pensamento” (força de expressão) que ambicionam único. Se a imprensa teima em promover irrelevâncias, a imprensa que se divirta enquanto pode.
Porém, um problema imensamente maior que as notícias falsas são as notícias verdadeiras. É, por exemplo, verdadeira a notícia de que existe uma Associação dos Amigos dos Cemitérios, e que a dita se preparava para celebrar (hurra!) um protocolo com a câmara de Lisboa para, cito, “dinamizar iniciativas nos cemitérios da cidade”. Graças a um vereador do PSD, João Pedro Costa, soube-se igualmente que os Amigos dos Cemitérios são de facto amicíssimos do PS e, fatalmente, familiares do sr. César dos Açores, que só à sua conta enfiara três ou quatro nos corpos sociais daquela prestimosa associação. Com franqueza, perdi-me algures: não faço ideia se os parentes do sr. César, indivíduo abaixo de qualquer suspeita, se reproduzem como cavalos-marinhos ou se cada parente acumula 15 ou 16 cargos públicos. Certo é que, após viver à custa dos vivos, o clã decidiu alargar o expediente aos mortos. Expandir o “core business”, julgo que se diz.
E, novo exemplo, é verdadeira a notícia de que o “eng.” Sócrates desatou a insultar o ministro brasileiro da Justiça, depois de este ter referido vagamente o processo judicial da ex-criança que sonhava com ventoinhas. De caminho, ouviu escusadamente de Sérgio Moro um “não debato com criminosos pela televisão”. O “eng.” Sócrates, que fingiu tomar as dores do falecido estadista Lula, ainda não percebeu, e se calhar nunca perceberá, que, dadas as circunstâncias, o único comportamento que o beneficia é a ausência, na Ericeira ou em Vladivostok. Quanto à TVI, que lhe dá enorme palco para os trambolhões, sou eu que não percebo se é cúmplice ou coveira do homem.
E, também integrada no promissor estreitamento de laços com o “país irmão”, é verdadeira a notícia de que, numa passeata do Bloco de Esquerda, as filhas do empresário Camilo Mortágua cantarolaram umas rimas ao gosto popular que apelavam à morte do sr. Bolsonaro, e que a rábula revisteira causou relativo escândalo nos Facebooks do costume. Não vejo porquê. Se as meninas Mortágua abominam o presidente do Brasil, é da mais elementar sinceridade desejar a respectiva morte em ritmo de desgarrada. E se um autocarro as estrafegasse durante a cantoria eu não perderia dois segundos a lamentar a tragédia. E, sem sairmos da semana vigente, é verdadeira a notícia de que 60 mil pessoas, mobilizadas pelas igrejas católica e comunista, assinaram uma petição contra a abertura dos centros comerciais ao Domingo. Nuns casos, será por causa das famílias. Noutros, por causa dos trabalhadores. Era interessante descobrir o momento em que umas e outros concederam a uma pequenina amostra da população o direito de opinar em seu nome. Assim de repente, lembro-me de algumas famílias que preferem ocupar o ócio nos shoppings do que na missa, e de alguns trabalhadores que preferem ocupar o Domingo a trabalhar, possivelmente para evitar a família, os shoppings ou a missa. De resto, além do infantil ressentimento face aos símbolos do capitalismo, não há razão para fechar os centros comerciais e os hipermercados e manter abertos museus, campos da bola, restaurantes, hotéis, bares, pavilhões “multiusos”, portagens e, claro, igrejas, católicas e comunistas. Em prol da coerência, 60 mil pessoas, com família e trabalho, agradeceriam. Os nove milhões restantes calam e, pelos vistos, consentem.
E por fim é verdadeira a notícia de que, no 45º aniversário de “Abril”, voltaram as comemorações, as cerimónias, os discursos, as “lutas”, as “conquistas”, os cravos, os Zecas, as “Grândolas” e toda a tralha arrastada desde 1974. O folclore do 25 de Abril assemelha-se a um teste de decomposição de que os cientistas se esqueceram e deixaram o objecto de estudo apodrecer há décadas: os fungos são tantos que fundaram uma sociedade complexa no conteúdo e desagradável na aparência.
O problema, insisto, não são as notícias falsas. O problema é Portugal parecer mentira.

COMENTÁRIOS
maria perry: Excelente serviço público de AG ao mostrar, passo a passo, o processo de venezuelização de Portugal pela mão da geringonça. Os desejos de opressão da liberdade de imprensa e da morte de Bolsonaro mostra os verdadeiros instintos da extrema-esquerda que nos governa.  
Meu Genro Cor de Pele ....: Adorei a extensão do core business da familia Cesar. Bom de mais. As crónicas já mereciam um livrito no mínimo.....e a oposição que não aprende ou não lê....terrível.
Liberal Impenitente: No fundo, é muito positivo que haja tanta gente a querer calar muito mais gente, sabendo nós perfeitamente quem são os que querem calar e quem eles querem calar (um deles, naturalmente, que é Alberto Gonçalves). E por que é isso muito positivo? Primeiro porque mostra a verdadeira natureza desses "Ches", cheios de "generosidade" e de "elevados ideais". Segundo, porque mostra que eles sentem mesmo a doer que finalmente o povo irá falar nas urnas, e que não será para aplaudir o seu guterrismo requentado e geringonçado, será para correr com ele. Yes!
Lúcia Henriques: Muito bom, o artigo. Parabéns ao autor.


Fala quem sabe


Realmente, as populações das colónias, em que eu me incluo, foram muito ceguinhas relativamente aos espaços onde se fixaram. Sabíamos que pertencíamos a um povo pequeno que outrora cometera feitos valorosos, como se ensinava nas escolas, mais, é certo, a história, a geografia e a fauna e flora e as vias férreas e os afluentes das duas margens dos rios da nação mãe, do que os mesmos dos espaços colonizados, tirando as capitais e alguns genéricos, como por exemplo, o nome das ilhas dos arquipélagos que nos pertenciam e pouco mais. Lembro-me, sim, do meu pai, a preparar-se para um concurso de Fiel de Armazém, e a estudar distritos e circunscrições e pormenores tremendos que lhe fizeram obter o primeiro lugar. Mas acreditava piamente naquilo que eu própria ensinava e não punha em dúvida que a nação dilatada devia ser religiosamente conservada. Tive dois maridos e um cunhado que foram chamados a cumprir, o cunhado acompanhado da mulher, lá no norte de Moçambique, donde depreendi que não era tão grave assim, embora fosse na condição de médico, mas foram obrigados a entregar a filhita aos avós, na Zambézia, e isso magoou-nos. O meu segundo marido fizera a guerra em Angola, mas raramente falava nisso. Cumprira, como paraquedista e bem assim um primo seu. Dos colegas dos tempos do liceu, sabia de alguns, mais abastados, que se escusaram à tropa e à guerra de África, fugindo para França e outros países da sua devoção, donde, provavelmente, contribuíram para o agudizar desse problema das descolonizações, espertos e cultos que eram. E traidores. Mas só mais tarde vim a saber dos intelectuais, que, também instalados e bem, nas colónias, escaparam à guerra e conspiravam contra a pátria. Mais tarde quando tudo aconteceu. Caiu o Carmo e a Trindade, eu tinha cinco filhos, e a hecatombe que nos caíra em cima fez-me publicar um livrinho em 74, “Pedras de Sal”, dividido em duas partes – Antes do Golpe e “Depois do Golpe”, de diferente dimensão crítica que saíra, pouco antes do “Sete de Setembro” expressivo das reacções de quem não podia calar a voz inútil. Tempos!
Continuei a não calar, é certo, a mesma voz inútil, mas sinto prazer quando encontro vozes que também não se calam, mesmo quando tudo está perdido, e o país reduzido não pode mais erguer-se, apesar dessas vozes. Uma delas é a de Salles da Fonseca, sincero e leal e, provavelmente menos artilhado do que os seus dois comentadores, mais ou menos oponentes, a quem a frieza e a objectividade críticas dão outra amplitude aos acontecimentos. Prefiro a “cegueira”, que não cede.

 Henrique Salles da Fonseca
 26.04.19 
Em Abril de 1970, na minha recruta na EPI-Escola Prática de Infantaria, em Mafra, testemunhei (sem perceber do que se tratava) a incorporação de Cadetes que até então viviam no estrangeiro.
Muito mais tarde, já a tropa cumprida, percebi que se tratava de exilados políticos cuja missão passaria a ser a infiltração do Exército naquilo que seria a desmoralização progressiva das forças militares que Moscovo não conseguia, pela guerrilha, vencer em Angola e em Moçambique.
Eles estavam politizados; nós, não.
Como teria sido se nós estivéssemos politizados; o que se comemoraria actualmente?
Não por certo a manutenção das colónias mas certamente algo de bem diferente das desgraças por que quase todos eles passaram.
E nós, por cá?
Talvez não tivéssemos que afirmar que o 25 de Abril foi um golpe de Estado comunista executado por militares ingénuos que de política nada percebiam ou que, pelo contrário, estavam super-politizados no sentido de entregarem as colónias portuguesas ao Império Soviético.
Não teríamos talvez tido que esperar pelo 25 de Novembro de 1975 para dizermos que só então é que a democracia ficou assegurada, não teríamos talvez assistido à destruição da malha produtiva nacional, teríamos certamente tido a oportunidade de avançar resolutamente para uma política coerente de desenvolvimento e bem-estar em vez de andarem por aí aos gritos de propaganda menos balofa do que teria sido conveniente.
Se nós estivéssemos politizados, não sei como teria sido mas do que não tenho dúvidas é que teria sido muito diferente do que não comemoro em Abril.
Abril de 2019          Henrique Salles da Fonseca
COMENTÁRIOS:
 Henrique Salles da Fonseca  26.04.2019  12:59: Sorry mas em desacordo sobre alguns pontos. Se o Salazar não se tivesse agarrado ao poder e, ressequido e casmurro, não se tivesse colocado numa cegueira total sobre o problema Ultramarino que, como já então se via pelos exemplos Belga, Francês e Inglês, não tinha outra solução que não descolonizar a tempo e horas; se o Marcelo tivesse sido um político esclarecido e corajoso e tivesse tomado medidas com os militares que o apoiavam, nada do que aconteceu se teria provavelmente passado. Os militares deram aos políticos, em África, o tempo suficiente para que eles resolvessem o problema. Não o fizeram e é claro, quem se lixou fomos nós todos. Para passar a um regime democrático e civilizado tivemos que apanhar com o PREC, com o desmantelamento da débil economia nacional, com uma descolonização que nos fechou as portas do entendimento com as ex-colónias etc. Que Moscovo, no quadro da geopolítica internacional minava o sistema já todos sabiam. Razão, por isso, para lhes tirar o tapete debaixo dos pés a tempo e horas. Essa ideia da Nação una e indivisível da Europa até Macau só dá vontade de rir. Sempre me interroguei como isso ia sendo possível à medida que tudo se agravava. E falo com conhecimento de causa porque não só estive no Ultramar no serviço militar como, por razões profissionais, percorri África de lés a lés, ao longo da vida, incluindo as nossas antigas colónias. E viva a liberdade de expressão de pensamento, viva o sistema democrático e a Europa a que pertenço. Abr. Jorge Gaspar de Barros
 Adriano Lima  26.04.2019  16:29: É de importância fulcral esta interrogação do Dr. Salles da Fonseca: “Como teria sido se nós estivéssemos politizados; o que se comemoraria actualmente?”
Bem, se estivéssemos politizados, não apenas em 1974 mas a começar uns anos bem atrás, ter-se-ia provavelmente reflectido sobre a impossibilidade de continuar a querer manter a posse das colónias à força das armas. E obviamente o resultado teria sido procurar negociar uma solução política, sem a pressão dos acontecimentos, como aconteceu em 1974 e 1975, com o ónus ainda de um poder revolucionário pouco coeso.
Estava eu em Moçambique em Abril de 1974, a completar dois anos de permanência numa zona de combate, com a noção plena da inutilidade que fora a nossa acção ao longo de todo esse tempo. Durante o período da guerra colonial, não houve qualquer evolução nas nossas condições materiais (ao nível do armamento e equipamento) para ao menos criar-se um diferencial de poder qualitativo entre nós e o inimigo (de então). Basta dizer que a maior parte das baixas que sofríamos ocorriam em actividade logística (colunas de reabastecimento). As forças militares tinham de percorrer entre 80 e 100 kms para as funções de reabastecimento ou então para reduzir a distância entre os estacionamentos e as zonas onde eram lançadas acções ofensivas. Ora, ao inimigo bastava semear nos itinerários minas anticarro para retardar as nossas deslocações. Isso implicava (para nós) pesquisar permanentemente a presença de minas ao longo dos deslocamentos, às vezes com sucesso e outras não, o que ocasionava rebentamentos e perdas de vida. Se cada batalhão pudesse contar com 5 helicópteros, os riscos nos deslocamentos terrestres teriam caído para valores irrisórios e o rendimento e a eficácia da nossa actividade operacional e logística atingiriam expressão bem diferente.
Mas não, o poder político estava convencido de que enquanto houvesse carne para canhão (e militares obedientes), a coisa ir-se-ia aguentando. No fim, perante um inevitável descalabro militar, por absoluta impossibilidade de fazer melhor, o poder político atribuiria a responsabilidade ao exército, ou seja, aos militares.
O resultado foi, de facto, a lamentável descolonização que houve, sem plano e à pressa, o que, quanto a mim, é uma mancha na nossa honorabilidade política e militar. Mas atribuir as culpas a gente infiltrada nas fileiras militares é demasiado breve e simplificadora, embora alguns desses submarinos tenham tentado cumprir o seu “papel”, até 25 de Novembro, como sei por experiência própria.
Mas, voltando à premissa inicial, se a nação tivesse sido convenientemente politizada, de modo a induzir as melhores decisões ao poder político, provavelmente o país e as colónias teriam outras datas e outros motivos para comemorar. Milhares de mortes teriam sido evitadas e as economias de todos os envolventes não teriam conhecido as disrupções que houve.
Ainda assim, há quem pense que o desfecho poderia ter sido bem pior, se não fôssemos, ao fim e ao cabo, povos moderados nos nossos comportamentos e nas nossas acções. Conseguiu-se, apesar de tudo, salvar o nosso relacionamento com as colónias, havendo condições para se pensar que a lusofonia só não ganhará maior amplitude se não quisermos. Agradeço ao Dr. Salles da Fonseca a oportunidade que deu para o diálogo amigo e sincero entre todos.