quinta-feira, 2 de maio de 2019

“Posso esclarecer?”



Mais uma vez me sirvo de uma expressão do “Agildo”, do seu programa em reposição “Isto é o Agildo”, desta vez para comentar o esclarecimento que nos vem dar o Primeiro Ministro António Costa, a respeito dos SNS e interferência das PPP. Agildo falha nos seus compromissos para com os vários intervenientes da engrenagem representada e vai justificando os sucessivos erros do seu percurso de enviado para um qualquer recado gorado, com um “posso esclarecer?” velhaco, seguido do “Então esclarecerei”, responsável e delicado mas sucessivamente mais embrulhado, atestando, todavia, a impecabilidade da sua inocência e velhacaria. Não é o mesmo caso, contudo, o PM não está a esclarecer, sobre algo a que atribui mérito – o SNS e as PPP reservadas estas para o caso em que aqueles falhem, julgo. Os comentadores esclarecem melhor a questão.
Quanto ao PM, ele anda em campanha em causa própria, daí o seu aparecimento em crónica, para esclarecimento das nossas incompreensões, pois diz-se que os SNS não cumprem capazmente, por falta de verba. Trata-se, pois, em meu entender, de um trunfo oportunista justificativo, este seu artigo saído no Público, facilitador da sua vitória eleitoral.

OPINIÃO
Não perder a oportunidade de avançar
O Governo defende e privilegia a regra da gestão pública, assumindo que apenas pode recorrer à gestão privada em circunstâncias excepcionais e devidamente fundamentadas, supletiva e temporariamente.
ANTÓNIO COSTA
PÚBLICO, 1 DE MAIO DE 2019,
Comemoram-se este ano os 40 anos do SNS. A aprovação da Lei n.º 56/1979 concretizou o direito constitucional à saúde através da criação de um Serviço Nacional de Saúde universal, geral e gratuito.
Ao longo destes 40 anos, o SNS afirmou-se como uma das principais conquistas sociais de abril, cobrindo progressivamente mais território e mais serviços. Nestes 40 anos o SNS resistiu à tentativa de revogação pelo Governo da AD, que o Tribunal Constitucional inviabilizou, e à tentativa de descaracterização que a Lei de Bases da Saúde (LBS) em vigor prossegue ao considerar o apoio do Estado ao “desenvolvimento do sector privado da saúde (…) em concorrência com o sector público” (Base II, n.º 1, al. f) da Lei de Bases da Saúde de 1990).
Não se confunda o essencial com o acessório. O principal objectivo de celebrar os 40 anos do SNS com a aprovação de uma nova Lei de Bases é precisamente o de pôr termo a esta descaracterização, afirmando claramente que o recurso à contratualização com o sector privado e social da prestação de cuidados de saúde estão “condicionados à avaliação da sua necessidade”.
Na proposta de Lei de Bases da Saúde que o Governo apresentou na Assembleia da República assumem-se três prioridades:
Em primeiro lugar, aprovar uma Lei de Bases da Saúde para o século XXI, capaz de enfrentar os novos desafios da transversalidade da política de saúde, que reafirme o princípio da saúde em todas as políticas, que aposte na prevenção da doença e na inovação tecnológica, centrando-se nas pessoas e na sua participação.
Em segundo lugar, é uma proposta de lei que fortalece, inova e moderniza o SNS, promovendo a inovação e os níveis de autonomia, apostando na maior responsabilização da gestão e criando condições para uma crescente dedicação plena ao exercício de funções públicas.
Mas é, principalmente, uma Lei que reforça o papel do Estado e clarifica as relações deste com os sectores privado e social, afirmando a responsabilidade do Estado no garante e na promoção da protecção da saúde através do SNS e assumindo que a contratação de entidades terceiras é condicionada à avaliação da necessidade. Com esta clarificação, afastamo-nos dos princípios da concorrência entre público e privado que a direita fez aprovar em 1990 e que diluíram nos últimos anos os princípios estabelecidos na Constituição.
Depois de meses de trabalho sobre a nova LBS e a poucos dias de se iniciar a discussão das propostas dos partidos em sede de Comissão Parlamentar da Saúde, toda a controvérsia parece agora reconduzida a um único tema: o da admissibilidade das parcerias público-privadas (PPP) na gestão clínica dos estabelecimentos prestadores de cuidados de saúde do SNS. Mas a redução de todo o debate a este tema é errada por três motivos fundamentais:
Em primeiro lugar, porque diminui a importância do caminho que foi possível fazer durante este processo e dos compromissos a que havíamos chegado em temas fundamentais como “responsabilidade do Estado”, “descentralização de competências”, “taxas moderadoras”, “apoio ao cuidador informal”.
Em segundo lugar, é fundamental ter a noção da dimensão do tema que aqui estamos a debater. Num universo de 49 centros hospitalares e hospitais do SNS, quatro são geridos em regime de PPP (o contrato do Hospital de Braga termina no futuro 31 de agosto). Estes hospitais representaram, em 2018, menos de 5% do total da despesa em saúde. É efectivamente uma pequena parte do que todos os dias o SNS representa, mesmo na relação com o sector privado, onde as convenções atingem os 11.,6%.
Por fim, porque também neste tema da gestão pública, há compromissos alcançados que não podem ser desperdiçados. A proposta do Governo já era clara ao estabelecer que o “a gestão dos estabelecimentos prestadores de cuidados de saúde é pública”, apenas prevendo que ela pudesse ser supletiva e temporariamente assegurada por contrato com entidades privadas ou do sector social. Ou seja, o Governo defende e privilegia a regra da gestão pública, assumindo que apenas pode recorrer à gestão privada em circunstâncias excepcionais e devidamente fundamentadas, supletiva e temporariamente.
Esta é aliás a posição coerente com o que se estabelece no programa de Governo.  Foi assim que o Governo não criou - nem pretende criar- novas PPPs e das actuais 4 e únicas o ponto de situação é o seguinte:
A PPP de Braga terá gestão pública a partir de 1 de setembro; a PPP de Cascais teve o seu contrato prorrogado em janeiro de 2019 e está em desenvolvimento o concurso para uma nova parceria; as PPP de Vila Franca de Xira e de Loures estão em avaliação, no que toca ao desempenho do parceiro privado, e o Estado terá que tomar uma decisão sobre a sua manutenção, respectivamente em maio de 2019 e em janeiro de 2020.
Estão em causa situações em que não seja possível garantir a gestão pública, por exemplo, no caso em que não seja possível responder à internalização simultânea dos quatro contratos de gestão actualmente existentes. Porque para o Governo há um elemento que se sobrepõe a todos os outros:  a decisão de não renovar os actuais contratos de gestão em regime de PPP depende da capacidade que o SNS tenha de, em cada momento concreto, gerir um determinado hospital em condições pelo menos iguais, senão superiores, às que foram asseguradas pelo parceiro privado. O direito dos cidadãos à saúde deve ser a nossa prioridade.
Entretanto, o Grupo Parlamentar do Partido Socialista, em proposta de alteração, procurou ainda densificar o sentido da proposta de lei, defendendo: a gestão dos estabelecimentos prestadores de cuidados de saúde é pública, podendo ser supletiva e temporariamente assegurada por contrato de direito público, quando devidamente fundamentada.
Os processos negociais são de aproximação e de afastamento. E só estão concluídos quando estão concluídos. Não sendo impossível uma redacção ainda mais clara quanto à natureza pública da gestão.
Os compromissos que já alcançámos no âmbito da Lei de Bases contribuem para um SNS mais forte e resiliente, e essa seria a melhor forma de assinalar o seu 40.º aniversário, com medidas como a da exclusão do pagamento de taxas moderadoras nas prestações prescritas por profissional de saúde do SNS ou a criação de mecanismos de dedicação plena ao exercício de funções públicas. Com uma lei progressista, centrada nas pessoas e no seu acesso a cuidados de saúde de qualidade. Ninguém nos perdoará se perdermos esta oportunidade, mantendo em vigor a lei que PSD/CDS aprovaram em 1990. 
Primeiro-ministro
COMENTÁRIOS
AndradeQB, Porto 01.05.2019: Se eu tiver um pneumotórax, prefiro ter um hospital que me atenda, do que uma promessa de garantia virtual. Atendendo ao argumento do neocomunismo (a caminho do comunismo, mas só quando o Estado tiver condições de correr com todos os privados da face da terra) do primeiro-ministro, o que me vai esperar é a garantia no papel e a ausência de resposta na prática. Segundo esse princípio neocomunista, já aplicado ao ensino, e agora à saúde, os privados investem em infraestruturas e admitem trabalhadores para fazer de backup ao Estado. No intervalo da requisição do Estado nas alturas que este precisa, vai tudo para o congelador. Quando o Estado deixar de precisar definitivamente, desliga-se a corrente das arcas, mas com as portas fechadas, de maneira a acabar com essa subespécie de gente.
Fernando Costa, Lisboa 01.05.2019: Deve ser por isso que o primeiro ministro que criou o SNS (Mario Soares) nunca utilizou os serviços do SNS, e sempre que foi internado fê-lo nos hospitais “dos grandes grupos que fazem da saúde um negócio”. Também era um coerente defensor do ensino público contra o privado, mas fez fortuna com o elitista e privadíssimo Colégio Moderno, propriedade da sua família. E a esquerda caladinha.....
Fernando Costa, Lisboa 01.05.2019  Que eu saiba, a gestão “pública” é feita por indivíduos afectos ao PS (hipoteticamente, alguns do PCP e BE), que são tudo entidades privadas. Pior: são entidades privadas que não pagam impostos e legislam em causa própria.
A. Luís Fernandes Edmonton AB Canada 01.05.2019 : Fala do SNS, “forte e resiliente” mas irresponsável. O A. Costa não nos diz que as nossas PPP, mal definidas e geridas, são uma espécie de capitalismo sem risco pagas pelos impostos de todos, tenham elas bons ou maus resultados! Infelizmente os “maus” têm sido a norma! Assim, o nosso malabarista-mor embrulha-nos dizendo que o lado mau das PPP é da culpa do PSD e o lado bom do PS, que quer reformar sem realmente nos dizer como! E, à semelhança da burocracia irresponsável estatal, sem instituir mecanismos independentes avaliadores das mesmas! Entretanto na sua função principal e despercebida o seu governo comporta-se qual cavalo de Tróia da China vendendo infra-estruturas, recursos, e o futuro de Portugal aos novos patrões do mundo: o capitalismo do estado chinês!
mzeabranches, 01.05.2019 15:38: «Não perder a oportunidade de avançar»... Efectivamente Portugal não 'perde a oportunidade de avançar' rumo ao abismo, no que toca à sua língua! Insensível aos pareceres dos especialistas, ao sentir dos cidadãos e ao desleixo notório em que se encontra a nossa língua, este Governo mantém a imposição do AO90, sem inquietações, sem experimentar a menor dúvida (na linha de Cavaco Silva), seguindo acriticamente as opções de José Sócrates e de Passos Coelho! Devemos ser o único povo que despreza a própria língua! 'Quousque tandem, abutere patientia nostra?'
Nuno Silva, 01.05.2019 12:51: As PPPs da saúde são como as outras PPPs, ou seja, são buracos negros a prazo (e mais uma armadilha da direita, para acusar a esquerda de despesista no futuro). Se houver alguns ganhos de eficiência e poupança ocasionais na gestão privada, esta deve-se ao exclusivo cumprimento do contrato, mandando os doentes problemáticos e caros para os hospitais públicos. Além das regras de contratação promíscuas e de outros negócios por trás da cortina. Por isso não estamos a falar de ideologia nas PPPs, mas sim de astronomia (buracos negros).
Fernando Costa, Lisboa 01.05.2019: Então mas o cumprimento das contratualizações é a base das USF, unidades de saúde familiar, criadas pelo PS, apoiadas pelo PCP e BE, e até pelos outros partidos, altamente elogiadas e promovidas por toda a esquerda como sendo o maior avanço nos cuidados de saúde primários, desde o inicio do SNS. Se for ver a uma USF, SÓ se atendem os utentes contratualizados em lista e SÓ no número de consultas contratualizadas para cada horário. Era bom que falasse de assuntos que conheça.
Jorge Manuel da Rocha Barreira, V.N.Gaia01.05.2019: Quando se pergunta a um cidadão a sua opinião sobre este tema, a resposta que invariavelmente recebe é a de que " o que eu quero é ter serviços de saúde capazes e na hora" O SNS foi, de facto, uma das maiores conquistas de abril, mas ele tem que ser ajustado em cada momento, à real situação do país. Quero com isto dizer que terá de ser melhorado e complementado quando e com quem isso for possível. Agora quanto às PPP acho que são espúrias neste âmbito.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Exíguos, promíscuos, inócuos, insonsos - de cravo ao peito…



É o que apetece dizer, e mais ainda, lendo o texto magnífico de Helena Matos, corajosa e esclarecedora, certamente que farta das nossas baboseiras de bagunça em festejo, como meio apelativo de mais bagunça carismática, ao estilo de “tudo ao molho e fé em Deus”. Continuemos, pois, assim, exíguos, promíscuos… de cravo cada vez mais rubro, ao contrário do que escrevi um dia, em “Cravos Roxos”, de que transcrevo um passo de uma carta do meu Pai, de 30/6/74, texto “Nobre povo, nação valente”: «É perigoso nestes tempos de Liberdade e Democracia ser-se honesto e sincero e tu não sabes ser outra coisa. Os verdadeiros Democratas são sinceros e leais e respeitam a liberdade dos outros, mas não o são estes oportunistas arruaceiros que andam por aí aos berros empunhando cartazes e escrevendo frases indecentes nas paredes. Estes que tanto apregoam a Liberdade e a Democracia não são mais do que uma escória miserável do povo português que tudo é capaz de sacrificar às suas ambições e interesses pessoais. São asquerosos, mas nem por isso deixam de arrastar consigo multidões enormes de inconscientes que nunca souberam nem sabem o que querem….”
Bem me enganei no título do meu livro, os cravos estão cada vez mais rubros, no peito, altivamente visíveis, ou na mão, mais sorrateiramente propícios a eventual abandono, em manobra, pois, subserviente, (embora não plenamente convicta, ou mesmo envergonhada), aos nossos ritos carnavalescos.

O milagre dos cravos /premium
27/4/2019, 23
Basta colocar um cravo ao peito para os vigaristas passarem a incompreendidos; os ditadores a democratas e os actuais ministros a oposição. Já o BE esquece as PPP com Salazar e Bolsonaro.
Depois de assistir à última manifestação do 25 de Abril tenho a certeza de que os milagres acontecem nesta terra predestinada. Falo naturalmente do milagre dos cravos. Aliás estou mesmo convicta de que o milagre das rosas não é nada ao pé do milagre dos cravos. Álvaro Cunhal apoiava e admirava o terror soviético mas de cravo ao peito transformava-se num combatente pela liberdade. Jerónimo de Sousa pega num cravo pronuncia “Abril” com fervor beato e lá se esfumam os seus ditirambos sobre a Coreia do Norte e a mordaça que impõe ao movimento sindical. Aos militares então, a junção entre fardas e cravos garante-lhes o estatuto da santidade.
Não há incredulidade ou cepticismo que não se rendam diante do milagre dos cravos: em Portugal, basta colocar um cravo ao peito para os terroristas passarem a combatentes pela liberdade; os vigaristas a incompreendidos; os ditadores a democratas; os medíocres a intelectuais e os parasitas a solidários.
Mas a esta transfiguração a que já estávamos mais ou menos habituados, acresceu este ano um mistério que a teologia não explica mas a política esclarece: os ministros e os parceiros do Governo puseram cravo ao peito e de imediato deixaram de ser Governo para se tornarem oposição. Na avenida da Liberdade, cravo na mão, a ministra da Saúde já não é a ministra que tem de explicar como foram retirados nomes das listas de espera para se tornar numa manifestante defensora do mesmo SNS que deixa degradar a níveis nunca vistos. o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes transfigurou-se em jovem e desfilou com os manifestantes da Juventude Socialista que gritavam: “Queremos revolução, socialistas em acção“. Sendo certo que a única revolução que está por fazer em Portugal é precisamente a que derrube a ditadura fiscal presidida pela secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais, cabe perguntar se o senhor secretário de Estado dos Assuntos Fiscais quando miraculado em jovem manifestante nos toma por parvos ou se faz parvo? Por fim o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, desembaraçado do Porsche, além do cravo muniu-se de calças de ganga, o que para o caso faz do seu um milagre  ainda mais promissor.
Segundo o Expresso aconteceram ainda outras manifestações que não tenho força terrena nem fé qb para analisar, como ouvir as criancinhas ditas “afectas” ao PCP cantar  “Somos a esperança, em cada criança há sinais de mudança“. E é claro, tivemos Mariana Mortágua entoando rimas e Catarina Martins, que além de entoar também sabe fazer os gestos, transfiguradas em arrebatadas opositoras. De quê e de quem? Do Governo que como aqui assinala Cristina Miranda maquilha as contas da Segurança Social? Da transformação do aparelho de Estado numa rede familiar a que já nem os cemitérios escapam?… Nada disso. Opositoras de Salazar e Bolsonaro. Um longe no tempo – Salazar morreu em 1970! – e o outro, Bolsonaro, está a quilómetros de distância. Assim devidamente munidas dos seus demoniozinhos úteis, mais o Santo António, os cravos na lapela e o megafone, as dirigentes do BE protagonizavam não apenas o milagre de passarem de suporte do governo a contestatárias do sistema mas também levavam a cabo o exorcismo que as desembaraçava do fantasma da negociação das PPP.
Tendo em conta que apesar de tudo a descrença se pode instalar entre os assistentes destas transfigurações o  melhor será a manifestação do 25 de Abril passar da avenida da Liberdade para o Parque Mayer. A revista à portuguesa já viu coisas piores.

COMENTÁRIOS
Maria Emília Santos Santos: Óptimo artigo! Graças a Deus que ainda existem pessoas lúcidas, neste pobre país.
Nelson Santos: Muito bom artigo. Como de costume. 
Maria Emília Santos Santos: Grande artigo! Obrigada à autora! Escreva sempre, porque nós, que não escrevemos, estamos cheios de necessidade de ouvir verdades, porque estamos saturados de mentiras.
Fernando Prata: Excelente artigo, que me deixa arrepiado, ao constatar o estado de loucura em que o meu país vive. Só me recordo de tempos parecidos, há mais de 40 anos, no pós 25 de Abril de 1974.
Paulo Lopes: "...basta colocar um cravo ao peito para os terroristas passarem a combatentes pela liberdade; os vigaristas a incompreendidos; os ditadores a democratas; os medíocres a intelectuais e os parasitas a solidários." Excelente artigo. Parabéns.
Carlota Cardoso: Muito bom. Pena não escrever mais e mais vezes.
Carminda Damiao: Excelente análise.
André Silva:  “em Portugal, basta colocar um cravo ao peito para os terroristas passarem a combatentes pela liberdade; os vigaristas a incompreendidos; os ditadores a democratas; os medíocres a intelectuais e os parasitas a solidários.”: E - com a ressalva de com a necessária adaptação do “cravo” a cada realidade, não ser só em Portugal - numa frase assassina de tão verdadeira - HM diz tudo. Absolutamente extraordinário, e uma triste realidade.


“Somos um povo que cerra fileiras” está mais que visto



José Pacheco Pereira vê-se que está feliz, orgulhoso – não do caminho percorrido, nem sempre isento de censura, ele sabe-o, mas provavelmente da parte que tomou aquando dos “quarenta e cinco anos atrás”, que – hélas – já cá cantam, ou, como diz PP, regalado, “já estão no papo”, e nos dão prestígio até no estrangeiro, pioneiros que fomos, cá no Ocidente, a fazermos atentados de cravo ao peito, flor, de resto, desdenhada de PP. Repisemos, pois, como homenagem de perpetuidade, os versos conclusivos da “Gaivota” da Ermelinda Duarte, que se coadunam com o estado de espírito eufórico de PP, embora ele seja mais de exegeses malabarísticas, desdenhosas, com certeza desses simplismos de gaivotas surrealistas com asas de vento mais o coração de mar -- Somos um povo que cerra fileiras, . parte à conquista  do pão e da paz.   Somos livres, somos livres,  .não voltaremos atrás.
Não há que negar, o 25 de Abril tem mesmo nomeada, mas não sei se Trump foi informado disso neste mundo de relativismos tão sem jeito.

OPINIÃO
Outros 25 de Abril
As coisas podem mudar no futuro, porque o futuro é imprevisível, mas 45 anos já estão no papo.
JOSÉ PACHECO PEREIRA
PÚBLICO, 27 de Abril de 2019
O que dá vida ao 25 de Abril em 2019 é nele caberem várias causas para além da celebração da data de 1974. É já uma manifestação internacional, com presença de brasileiros, de catalães, de franceses, de alemães, alguns dos quais vivem em Portugal, e outros são turistas que sabem muito bem o que estão a fazer e não se ficam pelos monumentos nem pelas sardinhas. Quer as cerimónias oficiais, quer as chamadas “comemorações populares”, são interessantes de seguir para além do dilema que mobiliza os jornalistas quando não há mais nada para dizer: quem leva cravo e quem não leva. (De passagem repito que nunca levei cravo na Assembleia, primeiro porque não preciso de mostrar nada, segundo, porque não gosto da flor.) Na Assembleia já assisti a discursos ridículos em que, à direita, houve quem citasse Rosa Luxemburgo, depois de uma consulta apressada à Wikipedia, como tendo feito declarações em 1921, ou seja, dois anos depois de estar morta. E este lado oficial substituía-o muito bem por ver a Assembleia, Governo e autoridades “comemorar” o 25 de Abril com uma obra qualquer que passasse a ser ligada a esta data, um centro de saúde numa zona do interior, uma biblioteca, um jardim, mais uma linha de transportes públicos, etc. Em muitos casos é até mais barato do que as pompas militares e civis desse dia.
Mas a rua é de um modo geral mais interessante, numa manifestação mais “livre” e mais plural do que é costume, em que o PCP participa com um elevado número de militantes, mas não lhe dá o tom. Das Toupeiras ao BE, a outros grupos esquerdistas e de causas, ecologistas, feministas, LGBT, ou mesmo a participações individuais de um solitário com uma queixa ou uma causa, todos vão lá. É também uma manifestação mais diversa etariamente, com a participação de casais e famílias, num ambiente que vai da luta à festa.
Com imagens tiradas no 25 de Abril pelos voluntários do Arquivo Ephemera vamos revisitar o dia.
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1. A primeira imagem mostra uma pequena manifestação no dia 25 de Abril do Movimento dos Coletes Amarelos Portugueses com cerca de 20 pessoas. Ao manifestarem-se no 25 de Abril, fazem uma homenagem irónica ao significado da data, provavelmente não pretendida. As palavras de ordem da manifestação são aceitáveis embora contraditórias: “Corrupção = Prisão”, “IVA mais baixo”, “combustível mais barato”, aumento do salário mínimo”, “abolição das portagens das Scut”, etc.. Mas a afirmação, mais do que palavra de ordem, do cartaz que reproduzimos é que tem um imenso problema. “Aqui não há partidos”, ou seja, não há democracia. Ponto.
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2. A Iniciativa Liberal, que participa pela primeira vez, é um novo partido normalmente classificado à direita do espectro político. Mas, como se passa há muito com a dicotomia esquerda/direita, ela é muito pouco esclarecedora da complexidade da vida política dos dias de hoje. Como já escrevi, a dicotomia esquerda/direita não é heurística, não permite esclarecer muita coisa e, quando é aplicada, dá resultados simplistas ou confusos. Os libertários americanos, por exemplo, não querem Estado, mas querem a liberalização das drogas. Têm nas suas sedes Bakunine e Milton Friedman. Hoje, em Portugal, há muitos que se autodenominam liberais quando na realidade têm as mesmas causas de Steve Bannon, ainda que com palavras mais mansas. Mas esses não estiveram na manifestação do 25 de Abril, estiveram em suas casas a espumar contra o “marxismo cultural”, coisa que obviamente não sabem o que é.
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3. Os catalães manifestaram-se em Lisboa pelo direito à autodeterminação da Catalunha e em solidariedade com os presos políticos a ser julgados em Madrid por “sedição” e outros crimes que, no contexto das pessoas presas e das suas causas, são pretextos jurídicos para perseguições políticas. Se a acusação e os juízes se tomarem a sério no que dizem e no que fazem, vão ter penas da ordem de dezenas de anos de prisão. Na verdade, a causa dos presos políticos é a que no 25 de Abril deveria estar no âmago da manifestação, desde a frente até à rectaguarda. Pode haver quem não concorde com a independência da Catalunha, embora haja alguma hipocrisia em quem traga um autocolante ou um pin a favor de Rojava, o território curdo da Síria, ou do Curdistão. Mas os presos que foram libertados de Caxias e de Peniche sempre contaram com a solidariedade de estrangeiros, e devemos o mesmo aos catalães.
4. A última imagem mostra um miúdo a puxar para a frente uma senhora, que pode ser a sua mãe ou avó. Não sabemos as motivações da criança, pode ter feito este gesto porque estava farto da manifestação e queria ir-se embora depressa. Mas a imagem tem um valor simbólico. A senhora atrás viveu o 25 de Abril, a criança nem deve saber o que é. Não vou aqui repetir os lugares comuns sobre o futuro e o passado, mas lembrar que a memória e o sentido da memória dura muito pouco. Quem é que hoje sabe alguma coisa sobre os “bravos do Mindelo”? Conta-se pelos dedos da mão. Com o 25 de Abril, vai acontecer o mesmo, com o tempo, esse mestre da usura das coisas. Mas, ainda hoje, Portugal é diferente, e milhões de portugueses viveram e morreram desde 1832 de forma diferente, por causa dos “bravos do Mindelo”, e o mesmo se aplica ao 25 de Abril de 1974. As coisas podem mudar no futuro, porque o futuro é imprevisível, mas 45 anos já estão no papo.
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COMENTÁRIOS
FPS, Vale de Santarém 27.04.2019 21:06: Bravo, Bravo, meu caro José Pacheco Pereira!
Francis Delannoy, 27.04.2019 17:57: antigamente antes do 25 de abril a moda era calai vos que nós é que sabemos. hoje, depois do 25 de abril a moda é podeis falar à vontade , mas nós é que sabemos..
albergaselizete, 27.04.2019 22:58: «...mas nós é que sabemos...» e decidimos por todos, como melhor servir os nossos interesses. Dito de outra forma: a porcaria piorou e as moscas mudaram para varejas.
nelsonfari, Portela-Loures 27.04.2019 15:31: Quando acabam as manifestações JPP vai para casa e toma banho. Depois lá vai ele para a SIC palrar na "A Quadratura do Círculo", perdão, para a TVI e "A circulatura do Quadrado", confraternizar com os camaradas Jorge Coelho e António Lobo Xavier.
Joaquim Lopes, ERMESINDE 27.04.2019 14:26: Também me lembro de D. Nuno Álvares Pereira.
Colete Amarelo: Aqui mesmo 27.04.2019 14:24: O valor simbólico da imagem da criança com a suposta avó merecia mais do que uma alusão à efemeridade de tudo. O cravo que renasce neste dia, murcha na escrita de JPP.
Jorge Sm, Portugal 27.04.2019 14:01: Crónica deliciosa.
Jonas New York, 27.04.2019 13:35: A UE é o novo nazismo
agany, Setúbal 27.04.2019 13:10: Ainda persiste a cultura dos jeitinhos, das cunhas e dos padrinhos porque a democracia ainda não maturou.
Stony Brook NY, Marialva Beira Alta27.04.2019 12:00: Bonito ver o que cabe hoje no 25A. Ponho-me a imaginar o que será daqui a outros 45 anos e talvez se transforme numa celebração colectiva das liberdades individuais, quem sabe se não então uma forma de resistência disfarçada contra os descendentes do artigo 13. Como se dizia antes do primeiro 25A - viv'ó Benfica!
bento guerra, 27.04.2019 11:22: Podem limpar as mãos à parede.
Conde do Cruzeiro, Assinante.27.04.2019 16:14: Tens mãos?