terça-feira, 28 de maio de 2019

Sonho e realidade de mãos dadas



Nova aliança de textos que, pouco tendo em comum, tratam, dum modo global, do “HOMEM”, tout court. O “Homem” de Salles da Fonseca,filho dos ventos cálidos” do após guerra, que não soube construir a tal sociedade que pretendia, em que o Bem prevaleceria, o que é, definitivamente utópico. O “Homem“ das eleições europeias de 2019, ironicamente descrito por Rui Ramos, Homem – tantos deles! - conotado mais com a esquerda, é óbvio, sempre contra essa União detentora do capital que se atribuía aos que viviam na abundância injusta, porque criadora das desigualdades sociais, esquerda que hoje luta igualmente por esse lugar ao sol do Parlamento Europeu, onde poderá defender melhor os tais direitos das massas, ao que parece, mas igualmente obter para si própria o estatuto ansiado de detentora de proventos sempre ansiado para cada um e que esse “lugar ao sol” lhe fornece.
O problema do Mal, por tantos tratado ao longo dos tempos, uns a defini-lo e a criar regras para o combater, outros a explorá-lo como tema literário, é necessário pensá-lo, mas, como afirma Salles da Fonseca, muitas vezes a utopia das filosofias traz como consequência, atrocidades tenebrosas, como se tem visto. E a própria Terra é vítima fatal dessa luta pela melhoria do sentido da existência, criadora de superfluidades de prazer que conduzem às poluições demolidoras. Mas parece que os “Verdes” a vão salvar, as crianças já começaram a boicotar aulas no sentido da construção de uma Terra nova.
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 28.05.19
É em nome das utopias que se cometem as maiores atrocidades; é em nome do “homem novo” que se chacinam os inocentes; são a surpresa e o estado de choque que impedem as vítimas de atempadamente aniquilarem os verdugos.
                                       ***
Ainda não foi desta que o Bem venceu o Mal. E, contudo, não teria sido difícil se tivéssemos conseguido banir a inveja do léxico e das atitudes humanas.
Propositadamente, não me refiro aos pecados capitais nem às virtudes teologais numa sociedade distanciada das religiões. Seria pregar no deserto para as pedras ou nas margens do Adriático para os peixes de Santo António. Uma sociedade laicizada precisa de uma Moral e de uma Ética laicas, não de conceitos gnósticos que não prossegue ou que até persegue. Por isso me restrinjo à inveja cujo desaparecimento nós, os filhos dos ventos cálidos, não conseguimos banir.
E também não conseguimos afirmar uma base comum de conveniência que servisse todo o leque de alternativas de bem comum, a de fazer o bem sem olhar a quem.
- O que é que eu posso fazer a teu favor sem o prejudicar a ele, esse terceiro ausente?
- O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses que nem sequer conhecemos?
Numa sociedade laica não interessa saber se foi Buda ou Cristo que disseram aquilo; o mal foi não termos sido nós a dizê-lo e a praticá-lo. Pelo contrário, fomos nós que deixámos que as gerações seguintes à nossa se empenhassem no “carpe diem”, elevassem o ter em prejuízo do ser, se entregassem ao hedonismo.
Apesar de tudo, ainda preservámos o conceito do Bem em torno de algo como a compaixão, a tolerância, a concórdia…
Mas há mais…
(continua)
COMENTÁRIO
Anónimo  28.05.2019  08:27: Espero a continuação desta forma expressiva de "dizer o mal..."
Francisco G. de Amorim 28.05.2019: Melhor souberam comportar-se os cavalos filhos do vento! Os homens, simplesmente, não querem.
Adriano Lima, 28.05.2019: Sublinho neste belo texto esta passagem: "Numa sociedade laica não interessa saber se foi Buda ou Cristo que disseram aquilo; o mal foi não termos sido nós a dizê-lo e a praticá-lo". É verdade isto. Significa que não precisamos de intermediários entre o céu e a terra, quando com as nossas acções podemos ser os melhores intérpretes da mensagem divina. E isto não valerá também para as sociedades teocráticas?
Que há para discutir sobre a Europa? /premium
OBSERVADOR, 14/5/2019
O ponto mais importante destas eleições europeias é que até os principais "populistas" são hoje europeístas. Não há alternativa à UE, e portanto também não há qualquer discussão europeia.
O regime tem algumas coisas comovedoras. Uma delas é o esforço que todos fazem para disfarçar a verdadeira natureza das eleições para o parlamento europeu.  Aqui, como em outros países, não passam de uma grande sondagem de opinião em urna, num dia em que a maior parte dos eleitores tem mais que fazer. Porque é que deveria ser diferente? Trata-se de eleger uma assembleia cujo principal papel consiste em votar, de cinco em cinco anos, o executivo do que é, para todos os efeitos, uma união intergovernamental. Para dissimular isso, pede-se aos candidatos que discutam a Europa ou até mais rebuscadamente “ideias sobre a Europa”.
É um hábito sem sentido. Ficou dos anos 90, quando se preparava a integração monetária e toda a gente julgava que assistia ao parto dos Estados Unidos da Europa. Ainda talvez parecesse fazer sentido no princípio desta década, durante a crise do euro, quando, pelo contrário, muita gente achou que era chique acreditar no fim da União Europeia. Desde então, porém, não é fácil justificá-lo.
Basta olhar para os “populistas”, de que a imprensa agora abusa desesperadamente para dar algum interesse às eleições europeias. Há uns anos, a antiga Frente Nacional, em França, o Syriza, na Grécia, ou o 5 Estrelas e a Liga Norte, na Itália, ainda talvez pudessem passar por anti-europeus. Renegavam o Euro, contestavam as regras, exigiam fronteiras. Que vimos, entretanto? O Syriza, que em 2015 organizou um referendo contra a recusa dos outros europeus lhe emprestarem dinheiro sem condições,  até já é elogiado no Economist. Na Itália, o 5 Estrelas e a Liga Norte prometeram ferro e fogo contra as restrições orçamentais, para actualmente serem mais cumpridores do que Macron. Em França, Marine Le Pen trocou o  “Frexit” pelo “governo da moeda única”, como se fosse uma comissária europeia. Os grandes eurocépticos parecem hoje euroconformados. Porquê? Porque estão no governo, como o Syriza, o 5 Estrelas e a Liga Norte, ou porque ainda esperam lá chegar, como Le Pen. O mesmo se poderia dizer do nosso eurocepticismo doméstico. Há quatro anos que BE e PCP estão esquecidos das “saídas” e “rupturas” que outrora os deixavam tão excitados. A UE mudou? Não, apenas houve a geringonça.
É sabido que os europeus ficam mais europeístas quando as economias crescem, o que tem sido o caso ultimamente. Mas talvez tenham entretanto descoberto outra coisa: que nenhum país, até ver, tem meios para organizar uma saída ordenada da UE. Viu-se isso na Grécia, em 2015, quando o Syriza preferiu a humilhação de esquecer o referendo, a sofrer o drama argentino de um novo dracma. E está-se a ver isso agora no Reino Unido, onde a elite política, depois do referendo de 2016, já concordou que não sairá da UE sem ficar com um pé lá dentro: “brexit in name only”, como diz o ex-governador do Banco de Inglaterra. Na UE, não é fácil entrar, como os portugueses aprenderam durante quase dez anos de espera, mas é ainda mais difícil sair. Não porque o Tratado de Lisboa não tenha o artigo 50. Mas porque o que a UE representa — um dos maiores mercados do mundo e, para quem está no Euro sob o guarda-chuva do BCE, uma fortaleza contra os mercados de capitais — não tem alternativa. Fora da UE, a maior parte dos Estados europeus teria provavelmente de renunciar ao seu modelo social — ou aceitar a degradação dos seus níveis de vida.
É difícil imaginar mais integração europeia, e é difícil querer menos. Que há então para discutir? Talvez isto: as razões pelas quais as democracias europeias tentaram e conseguiram, através da integração internacional, colocar as suas estruturas internas para além de qualquer debate. Foi uma ideia americana no primeiro pós-guerra, em 1919, como sugere Adam Tooze em The Deluge. Não se fez então. Fez-se agora.


Outrora agora

Dois textos distintos na informação e na intenção. E no entanto reúno-os a ambos, no prazer de aliar figuras deste nosso tempo, que deixam a marca da sua honestidade intelectual, quer na escrita desempoeirada - Salles da Fonseca e João Miguel Tavares - quer na política – na referência a Pedro Passos Coelho, que o jornalista se obstina em defender, subentendendo, no emparelhamento daquele com António Costa, que ambos os políticos jogaram ou jogam para bem da Nação - o actual ministro, embora, por caminhos ínvios, de menor clareza, irmanando-se com Passos, todavia, em igual necessidade de salvação nacional. Pesem embora as desavenças e rivalidades entre ambos, sobretudo de António Costa, na sua avidez à prova de fogo.
O texto de Salles da Fonseca explora as situações de abertura e esperança, após a tragédia da 2ª Guerra, das gerações dos filhos dessa segunda guerra - (grupo a que ele pertenceu) - nas suas perspectivas de felicidade e paz, logo ensombradas pelos crimes a leste, em nome de doutrinas que aparentemente defendiam desígnios humanistas desde os tempos de Lenine, e mais não mostraram do que interesses do partido, liquidando os que se lhes opunham, ou condenando-os aos gulags dos novos ostracismos que Salles da Fonseca indica. Contudo, muitos desses jovens transmissores das ideias novas, que os faziam destacar-se, na vaidade do seu saber e no desprezo pelos ingénuos colegas cumpridores do sistema seguido, fingiam, certamente, ignorar o que de cruel e desumano esses princípios marxistas instituíram no mundo, quer por ambição própria, de governar, quer por desejo arrogante de invadir e alargar os espaços da sua prepotência de URSS que um muro fechou em Berlim, até à sua queda em 1989, muito depois das mudanças por cá, as quais se traduziram numa modernização expressiva, mas com dinheiros alheios, que exigiram, nestes tempos próximos, intervenções como a de Passos Coelho e, por exclusão dele, de António Costa, os heróis recentes do relato de João Miguel Tavares.
Geração enganada, a de Salles da Fonseca, dos “ventos cálidos”, que uma burguesia, então ainda aceite, favorecia. Mais enganada a nossa nova geração, que ventos traiçoeiros conduzem num caminho de corrupção e desonestidade, onde a probidade – própria ou forçada – dos governantes referidos, deseja, por vezes,  suster na derrocada – económica, moral. Na desesperança, todavia, e no farfalhudo de um ruído incontinente.
Mas ainda bem que chefes responsáveis contêm (o “contiveram”, por ora, excluído) - a energia necessária para ir atamancando este país menor. Até ver.

HENRIQUE SALLES DA FONSECA  -  A BEM DA NAÇÃO27.05.19
Se Graham Greene intitulou de «O Poder e a Glória» a sua história de um Padre em fuga pelas serras mexicanas até ao martírio às mãos dos jacobinos, como haveremos nós, os filhos dos ventos cálidos, de ser chamados se nascemos na paz e fomos criados no sonho?
Nós, quem? A geração de 1945 e suas redondezas. Onde? Um pouco por toda a parte, tanto em cenários poupados como nos martirizados até então. Porque mesmo nos poupados, as sequelas se fizeram sentir, os nossos pais também sentiram incómodos. E quando estes deram sinais de acalmia, puderam respirar de alívio e nós nascemos. Sim, nós nascemos porque eles acharam que o mundo ia passar a ser um local aprazível em que o sonho voltaria a ser possível. Foi nessa certeza de um mundo benigno que fomos educados. Ou enganados? Ruiu o sonho ou foi este que assumiu outros figurinos?
Os nossos pais tinham assistido ao conflito duma “raça superior” contra os “energúmenos” numa luta “de cima para baixo” que não hesitou em esmagar, sufocar e cremar os outros em defesa da “pureza” da sua própria identidade – política hedionda que teve o apropriado castigo militar. Castigo este que em Nuremberg abriu as portas à esperança.
Mas… (e lá vem o tal «mas» que nunca se fica a rir sozinho) … mas logo foi substituída por outra mentira tão hedionda quanto a anterior, a luta “de baixo para cima” em nome dos mais fracos mas que rapidamente se perdeu em chacinas por esses goulags Sibérias além… foi em seu nome que o Inferno regressou mascarado da propagada necessária à mistificação das maiores falsidades e vilanias.
E assim foi que em nome do “quero tudo e já” que todos foram imediatamente esbulhados de tudo e passaram a um regime de trabalho forçado, frustrante e tantas vezes inútil se não mesmo perverso que só se poderia equiparar a escravatura. E foi quase metade da Humanidade a ficar-lhe sujeita.
O problema da minha geração foi ode ter sido parcialmente vítima dessa vilania.
(continua)
Maio de 2019  Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIOS
Adriano Lima 27.05.2019: Sim, Dr. Salles, fomos vítimas dessa vilania, mas, infelizmente, agora os tempos não são de tranquilidade mas de inquieta expectativa. Um desses credos, o dos gulags, foi desacreditado e ruiu por si próprio. O outro, o dos nacionalismos demenciais, o da botas cardadas a bater ruidosamente no chão, parece que não foi julgado com toda a severidade e esconjurado das pátrias europeias. Por essa Europa não faltam evidências do seu reerguer da cabeça. Não sei se a França é o melhor barómetro ou não, mas olhe-se para a vitória de ontem do partido de Le Pen.
Anónimo 27.05.2019: É bom recordar!
Henrique Salles da Fonseca, 27.05.2019, Gostei. Francisco Gomes de Amorim

II - OPINIÃO: O capital político de Pedro Passos Coelho
Mesmo que tenhamos tendência para o pessimismo, a verdade é que Passos Coelho e António Costa foram o melhor que politicamente nos aconteceu no último quarto de século.
JOÃO MIGUEL TAVARES   -  PÚBLICO, 23 de Maio de 2019
Pode parecer surpreendente o entusiasmo com que foi acolhida a participação de Passos Coelho na campanha para as europeias. Afinal, há quem nos queira convencer de que ele é o “cúmplice da troika” e o homem que a esquerda ama odiar. Mas não há qualquer surpresa naquela recepção, nem nos ataques que fez ao Governo. É necessário recuar até 1995 e à derrota do PSD após duas maiorias absolutas de Cavaco Silva para encontrar outro primeiro-ministro que tenha terminado uma legislatura com o capital político de Pedro Passos Coelho.
Na era pós-Cavaco, o que tivemos foi isto: António Guterres, que se afundou no “pântano”; Durão Barroso, que fugiu para Bruxelas; Pedro Santana Lopes, que se despenhou da incubadora; e José Sócrates, que foi preso ao regressar de Paris. Entre desistentes, incompetentes e prováveis delinquentes, não sobra quase nada. Mesmo que tenhamos tendência para o pessimismo, a verdade é que Passos Coelho e António Costa foram o melhor que politicamente nos aconteceu no último quarto de século. Sei que a esquerda não concorda com esta frase (por causa de Passos Coelho), e a direita também não (por causa de António Costa), mas ela parece-me bastante evidente.
E o que é que Passos Coelho e António Costa tiveram em comum? Simples: o cumprimento religioso das regras orçamentais impostas por Bruxelas. E o que é que Passos Coelho e António Costa tiveram de diferente? Igualmente simples: a forma como geriram a necessidade de impor uma forte austeridade no país. Na prática, ambos fizeram o que tinham a fazer; em teoria, fizeram-no com atitudes opostas. A dupla Gaspar-Passos disse sempre ao que vinha. A dupla Centeno-Costa não só não disse como desdisse. Os primeiros optaram pela frontalidade (por vezes a roçar a ingenuidade política). Os segundos optaram pela dissimulação. É uma grande diferença.
Mas essa diferença tem a vantagem de distribuir dividendos com o passar do tempo. Aproveitando a presença de Passos Coelho na campanha, Paulo Rangel não perdeu a oportunidade de enfiar mais uma canelada ao PS: “Não somos os socialistas, não precisamos de esconder os nossos antigos líderes”, disse ele. Na verdade, até precisam: Durão Barroso está no seu exílio dourado na Goldman Sachs, e Santana Lopes decidiu mudar de partido. Ainda que por razões distintas, nenhum deles é especialmente recomendável, nem o PSD os anda a exibir na lapela. Já o estatuto de Passos é outro. Ele acabou por afastar-se da liderança do PSD tarde e desgastado, mas saiu pela porta grande, com um imenso prestígio acumulado no partido, que reconhece o seu esforço e sacrifício nos anos de chumbo 2011-2014, e a vitória nas eleições legislativas de 2015, que tinham tudo para correr mal.
Jerónimo de Sousa, em registo marxista-leninista, veio logo a correr afirmar que Passos Coelho “tem pouco com que se gabar, tendo em conta o que fez ao nosso povo”. A saber: “Infernizou a vida a milhões de portugueses, com as sequelas de desemprego, emigração, injustiça e empobrecimento.” Nós conhecemos a cassete. Mas não somos parvos. Toda a gente sabe que quem nos empurrou para esse inferno foi o Governo socialista de José Sócrates, e que Passos Coelho, mesmo cometendo muitos erros, fez o mais importante (a saída limpa), deu mostras de uma enorme coragem (a queda do BES) e nunca perdeu o sentido de Estado (a crise do “irrevogável”). Estas não são qualidades que se encontrem facilmente por aí — e muitos portugueses sabem-no muito bem.


COMENTÁRIOS:
francisco tavares, 25.05.2019: Em tempos de crise e recessão aconselha-se investimento, mesmo à custa do défice. É o conselho dos keynesianos, os EUA praticaram-no a partir de 1936, exactamente para combater a recessão e com sucesso. O valor do défice é sempre uma questão relativa. Supondo que esse aumento de despesa corresponderia ao investimento num novo aeroporto de Lisboa. Então esse aumento de despesa era virtuoso. O aeroporto da Portela estava já nessa altura a aproximar-se da saturação, era aconselhável começar os trabalhos para um novo. Agora anda-se à pressa para construir o do Montijo.
OldVic, Música do dia: "Dale una luz" (Duo Guardabarranco) Liberdade para a Venezuela!: O que os keynesianos dizem é que em épocas de vacas gordas se devem constituir reservas para gastar em épocas de vacas magras. O que nós fizemos foi gastar em épocas de vacas gordas e gastar em época de vacas magras, com os resultados que se conhecem.
C. Santos. C. PIEDADE ALMADA 23.05.2019Sim, há alguns portugueses que gastam muito dinheiro JMT: os banqueiros, os grandes gestores, os comendadores, etc,, etc,...E cerca de 22% de portugueses pobres mais 1 milhão a ganhar o ordenado mínimo, ...
OldVic, Música do dia: "Dale una luz" (Duo Guardabarranco) Liberdade para a Venezuela!24.05.2019 : A outra face do que diz é a seguinte, da notícia "Mais ricos pagam tanto quanto 1 milhão de pobres" do "Observador": "São cerca de três mil contribuintes que pagaram 630 milhões de imposto no ano passado, um valor semelhante ao que é pago pelas mais de 900 mil famílias com os rendimentos mais baixos do país". Essa realidade também não deve ser esquecida. Para que conste, não estou nesses pouco mais de 3000 mais ricos, nem sequer lá perto.

nelsonfari, Portela-Loures 23.05.2019: JMT: nem tudo é negro. Concentre-se na visita de Marcelo à China. A imprensa internacional começa a identificar Portugal como o canivete suíço para entrar em Angola, Moçambique e Brasil, após a arrancada inicial com a EDP e bem como outras incursões na Saúde e nos Seguros. Um país distante do centro da Europa deve aproveitar o que se nos apresenta. É de aproveitar assim como Tsipras, na Grécia, as conversações com Putin. Estar condenado a permanecer na UE e no Euro para estar a servir os interesses de Berlim é pouco para um país que em 1383 e 1640 demonstrou pensar pela sua cabeça e defender com unhas e dentes o seu quintal. Deixe lá o Passos e prepare lá o que vai dizer em 10 de Junho próximo. Não faça como o Barreto há alguns anos que começou a clamar pela Pátria e assustou toda a gente.



segunda-feira, 27 de maio de 2019

Soluções eleitorais passageiras



Mais um texto de Teresa de Sousa construído com muito saber e reflexão, a partir de leituras que a maioria desconhece, por falta de apoio mediático, em análises objectivas, as quais se encontram mais facilmente em canais televisivos estrangeiros. Um texto que serve de referência para releitura cuidadosa, para melhor informação acerca dos cenários que as eleições de ontem estabeleceram, nesta velha Europa tantas vezes mexida e palco de ambiciosas incursões, momentaneamente extintas, em projecto unionista de generosa fraternidade, mas que os “tribalismos ideológicos” e ambições de partilha, logo esfarelam, sob a aparência de virtudes de protecção ambiental e outras. Mas a desesperança na reparação dos desgastes sobre a Terra, que o capital cada vez mais ajuda a destruir e a desumanizar, vai-se avolumando no medo pelo que espera esta Terra, que se vinga cada vez mais assustadoramente.
ANÁLISE
Haverá ondas de choque. Espera-se que sirvam para alguma coisa
Os próximos dias voltam a ser fundamentais. Mais do que a força dos nacionalismos, é a fraqueza do centro político que fica em evidência nestas eleições.
TERESA DE SOUSA          PÚBLICO, 26 de Maio de 2019
1- Não haverá grandes surpresas logo à noite, quando finalmente foram conhecidos os resultados das eleições para o Parlamento Europeu. A abstenção foi certamente elevada – são eleições de segunda ordem nas quais os governos nacionais não estão directamente em causa. O universo de eleitores é, apesar de tudo, impressionante – 460 milhões.
O que já sabemos mesmo antes de fecharem as urnas é que as forças políticas nacionalistas e populistas vão ganhar ainda mais terreno relativamente às eleições de 2014. Nessa altura, conseguiram em conjunto um quarto dos lugares no PE. Hoje, as previsões apontam para um terço. Com outra diferença significativa. Os partidos da direita nacionalista fizeram um esforço notável para se apresentarem numa frente unida, certamente mais coesa do que em 2014, o que faz prever que a sua presença no hemiciclo de Bruxelas tenha mais influência no debate político e na própria agenda europeia. Foi essa a grande aposta de Matteo Salvini, o novo rosto da direita nacionalista europeia. O resultado que pode obter logo à noite (as urnas só fecham na Itália às 23h locais, 22h em Lisboa) dar-lhe-á uma legitimidade acrescida. A Liga deverá vencer as eleições com 30% dos votos, deixando muito atrás o Cinco Estrelas (que venceu as legislativas de Março do ano passado) e ainda mais longe os Democratas de Matteo Renzi e a Força Itália de Berlusconi. O que fará com esta vitória? Talvez não resista a conquistar o seu lugar na mesa do Conselho Europeu, onde se decide praticamente tudo o que é essencial.
2. É fácil argumentar que, pela sua própria natureza, os nacionalismos dificilmente se entendem uns com os outros. Há diferenças significativas entre os que, como Salvini e Marine Le Pen, se dão bem com Putin e aqueles que nem podem ouvir falar do Presidente russo, como os nacionalistas polacos ou até os populistas suecos e finlandeses. A Rússia está demasiado perto das suas fronteiras. Há divergências na forma como olham para a economia – os nórdicos são mais liberais e gostam de contas públicas em ordem; na França e na Itália têm uma visão bastante mais intervencionista da política económica e uma particular aversão pelas regras de Bruxelas. Salvini queixa-se da Hungria ou da Polónia porque se recusam a receber a sua quota-parte de imigrantes e refugiados, chegados às centenas de milhares à costa italiana. Tudo isto é verdade, mas não vale a pena tentar minimizar a importância política deste novo avanço das forças nacionalistas e populistas, como há cinco anos – os sinais estavam lá todos, pouca gente quis prestar atenção.
3. Alguns resultados merecem particular atenção. Na França, Macron e Le Pen estavam taco a taco nas últimas sondagens. Se a União Nacional conseguir vencer o Em Marcha do Presidente francês, não tenhamos dúvidas: será um péssimo sinal para a Europa. Macron continuará no Eliseu, mesmo que mais enfraquecido. A França viverá mais um choque politico, com repercussões muito para lá das suas fronteiras.
Na Holanda, que já votou na quinta-feira passada, as sondagens à boca das urnas pareciam afastar outro cenário de pesadelo: não foi o novíssimo partido nacionalista “Fórum para a Democracia” a ganhá-las, como tudo parecia indicar. A grande surpresa terá vindo dos Trabalhistas, arredados do poder e quase desaparecidos nas sondagens, que terão ficado em primeiro lugar. Os liberais de Mark Rutte aguentaram. Tinham perdido o Senado para o novo partido de Thierry Baudet nas regionais de Março passado. Baudet é um Geert Wilders mais sofisticado, embora defenda as mesmas ideias – contra a imigração, contra a Europa, contra os “fundamentalistas” das alterações climáticas, conta os “exageros” da igualdade de género e por aí adiante. Chegou a defender o “Nexit”, propondo um referendo como o britânico. Atenuou a mensagem nos últimos dias. De um modo geral, para a direita nacionalista, de Salvini a Le Pen, a estratégia mudou: já não quer acabar com a União, quer “mudá-la” por dentro. Tem condições para alterar os termos do debate europeu.
O primeiro-ministro húngaro vai voltar a vencer com mais de 50% dos votos – a sua “democracia iliberal” recomenda-se. A dúvida é saber se sai de livre vontade do PPE – do qual foi suspenso – para se juntar à nova aliança que Salvini quer constituir no PE. Mas o sinal mais preocupante que vem dos países da Europa Central e de Leste é, porventura, a sua total indiferença pelo destino de uma Europa à qual, há 30 anos, todos queriam “regressar” e que, há apenas 15, ainda os fazia sonhar. Há países em que o nível de abstenção pode ultrapassar os 80%.
A Polónia é um caso à parte. O destino da Europa também se joga no maior país do alargamento de 2004, que sonhou vir a juntar-se ao grupo dos “grandes”. Se as eleições provarem que a alternância continuará a ser possível, nada estará perdido. O PiS, que governa em Varsóvia desde 2014, continuava ligeiramente à frente da “Coligação Europeia”, que reúne vários partidos de centro-direita e de centro-esquerda, democráticos e pró-europeus. A sua vitória teria um efeito positivo nos países de Visegrado e abriria novas possibilidades para as legislativas de Setembro.
4. A Áustria tornou-se, entretanto, um caso exemplar. O FPO do ex-vice-chanceler Heinz-Christian Strache terá um resultado mais modesto do que se previa há uma semana, antes do escândalo sórdido em que se envolveu e que o obrigou à demissão. Sebastian Kurz, o chanceler da Áustria (conservador), viu-se obrigado a convocar novas eleições. Mas as europeias serão o primeiro retrato do país depois de um escândalo que tem todos os ingredientes para desaconselhar alianças com a extrema-direita – desde as consequências da “amizade” com Moscovo até à tentação irresistível de interferir na independência dos media, dos tribunais ou das polícias. “Dá-se-lhes um cheiro de poder e eles não resistem a tentar controlar a polícia, os serviços secretos, os tribunais ou desvirtuar os sistemas eleitorais a seu favor”, escreve o editor-chefe do Financial Times, Tony Barber. Kurz deu-lhes o Interior, os Negócios Estrangeiros e a Defesa. “Ou esta lição é aprendida, ou aproximam-se tempos perigosos para a Europa.”
De resto, o que a noite eleitoral provará com toda a certeza é que as forças nacionalistas e populistas vieram para ficar. Nos nórdicos, manter-se-ão provavelmente como a segunda ou terceira força.
5. Nenhum governo cairá na noite das eleições, para além do britânico. Theresa May não esperou sequer pelos resultados para se demitir. O resultado das eleições, a crer nas sondagens, traduz a profunda crise política que o país atravessa. Farage volta a ser o grande vencedor – ainda mais do que nas eleições europeias de 2014, de cuja vitória partiu para impor o referendo ao Governo de Cameron. A derrota dos conservadores pode ser catastrófica. O Labour pode não se ficar a rir – deverá ser duramente castigado pelo eleitorado porque o seu líder, que defende o “Brexit” ao contrário da maioria dos seus militantes, preferiu manter a ambiguidade até ao fim. Abriu espaço para o renascimento dos liberais-democratas, remetidos para o deserto desde que se aliaram aos Conservadores de Cameron em 2010, mas que sempre defenderam com convicção a permanência na Europa. As sondagens dão-lhe o segundo lugar, à frente do Labour, algo de absolutamente impensável há 15 dias.
Os próximos dias voltam a ser fundamentais. Mais do que a força dos nacionalismos, é a fraqueza do centro político que fica em evidência nestas eleições. Saberão os líderes europeus tirar as lições dos resultados ou continuarão, como sonâmbulos, a seguir em frente?
P.S.: Como o leitor reparou, abstive-me de falar das eleições em Portugal. Uma lei anacrónica impede-me de o fazer, embora não me impeça de falar sobre as eleições nos outros 27 países da União.
TP, Leiria: Até agora os países que já votaram foram surpresas positivas e pro UE. Se os resultados se confirmarem, Holanda votou pelos liberais e sociais-democratas, Eslováquia votou pelos liberais, Letónia votou pelos liberais, Irlanda votou pelos verdes e centristas. E esqueci-me que a Republica Checa votou pelos Liberais e Verdes!
José Amaral: Seriedade intelectual, conhecimento, cultura, serviço público. Os meus cumprimentos à Srª Teresa de Sousa.