sábado, 1 de junho de 2019

“In illo tempore”



No tempo em que eu também andei em Coimbra, sabia que havia uma Associação Académica onde se discutia o regime. Como eu fora para Coimbra para tirar um curso, ida de África, sentindo que esse encargo de me educarem pesava na bolsa dos meus pais, (apesar da breve bolsa estatal e da isenção das propinas que as condições do ensino então me proporcionaram, como razoável estudante ultramarina, no caso), nunca me interessei pela tal Associação, preferindo envolver-me com os livros que os meus prazeres ansiavam, sobretudo os clássicos, que as bem abastecidas bibliotecas da Faculdade de Letras ou dos Gerais proporcionavam. Por isso achei graça às referências desfeiteadoras de Salles da Fonseca ao ensino universitário português, e ao seu conhecimento sobre o que se passava nos vários ramos de Ensino e Faculdades, tendo eu seguido livremente “os meus próprios passos, como, no seu “Cântico Negro”, disse José Régio que fez. Não, nunca fui “por ali”, não frequentei a Associação, limitei-me a cumprir as minhas funções na vida, sem medos de maior. Nunca esqueci, no entanto, que um dia fui interpelada por um colega que me viu levar para uma aula a “História da Literatura Portuguesa” de António José Saraiva e Óscar Lopes, por ser livro proibido então, apesar da qualidade de reflexão e estudo analítico que o superiorizavam e que desejei revelar aos alunos. Sim, eu sabia do anquilosamento e marasmo político em que vivíamos, mas íamos cumprindo e íamos vivendo, dizia-se que em santa pasmaceira, o que não era totalmente verdade. Mesmo hoje, que vivemos abertos a outros ventos menos cálidos, de participação e luta por direitos, julgo bem que a pasmaceira não é menor. Porque o direito se sobrepôs ao dever, e esta nossa sociedade da tal Ofiuza aprendeu a exigir, mais do que a praticar, para merecer. E isso é feio.
Mas esperemos pela continuação dos “Filhos dos ventos cálidos”, para nos apercebermos melhor do pensamento e da sabedoria de Salles da Fonseca, felizmente, parece-nos, em plena forma física, como, do coração, lhe desejamos.

HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 01.06.19
Continuamos em Ofiuza (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ofi%C3%BAssa), suas adjacências e descendências mas sempre “a terra da serpente”, o símbolo da sabedoria, como lhe chamavam os gregos mais antigos. E eles, gregos sábios, sabiam por que é que nós já então tínhamos tanta sabedoria. Sim, eles bem sabiam… Nós, ainda hoje duvidamos da plena validade do epíteto.
Feito o liceu, lá nos encaminhámos praticamente todos para as Universidades em busca do saber, não ainda da sabedoria. E fomos muitos que, em Lisboa, procurámos a Universidade Técnica, não mais a Clássica, a bafienta e anquilosada pela endogamia corporativa das togas medievais de tradição fabricada à pressa depois da implantação da República à imagem e semelhança da então bem retrógrada Academia de Coimbra. Ou seja, se a Universidade de Lisboa (a dita “Clássica”) poderia ter sido uma chicotada no marasmo científico e formativo nacional, quase se limitou a fazer mais do mesmo que já existia. Com a do Porto, instituída pela República também, aumentou-se a cobertura nacional pelo ensino superior, mas em qualidade tudo se manteve quase na mesma. Coimbra fazia então algum humor com piadas ao estilo de que era ela que tinha a verdadeira Faculdade de Direito e que Lisboa se limitava a ter uma Escola Superior de Leis. E foi nestas confabulações histórico-universitárias que me lembrei daquele episódio em que o Rei D. João V teve que impor à Universidade de Coimbra a defesa do dogma da Imaculada Concepção de Maria, tema em que a Academia parecia não se mover nos conformes da Doutrina...
Mas voltemos a terra firme.
Foi, portanto, a Universidade Técnica de Lisboa que trouxe algum dinamismo ao ensino superior em Portugal e foi a ela que muitos da minha geração acorremos. Sem desprimor para outras Escolas que agora me escapem, refiro-me especialmente ao Instituto Superior Técnico (engenharias), a Económicas, a Agronomia e a Veterinária.
E assim foi que, uns por aqui e outros por ali, nos fomos licenciando e fazendo à vida. Com uma particularidade: nós, os homens, tínhamos o Serviço Militar Obrigatório (SMO) que nos ocuparia nada menos de 3 ou 4 anos, logo à saída da Universidade donde resultava que, quando regressávamos à vida civil e entrávamos mesmo na actividade profissional por que optáramos, as nossas colegas, Senhoras, já levavam esses 3 ou 4 anos de avanço profissional. Muito possivelmente, passariam a ser as nossas chefas, as matriarcas profissionais. Nada disso aconteceu comigo e nunca tive o gosto de trabalhar com colegas do mesmo ano de licenciatura.
Cosmopolitismo alargado aos sertões africanos e às cidades tropicais por que passáramos, alguns fomos os que nos apaixonámos por essas paragens e para lá voltámos uma vez regressados à vida civil. Era o tempo da guerra ganha, da corrida do desenvolvimento, da alegria de viver.
Éramos jovens adultos quando, nas nossas costas, as colónias portuguesas foram passadas para a esfera soviética, assumiu foros de verdade o que até então era falso, a paz foi substituída pelas guerras civis[i], os povos – todos os povos – se sentiram desnorteados, apenas as nomenklaturas dos Partidos controlados por Moscovo se sentiram donos e senhores das situações locais.
Ruía assim mais um sonho, o das independências harmónicas numa linha de continuidade entre o colonialismo anacrónico e a subida ao poder das elites genuinamente autóctones, preparadas para a governação sem atropelos nem tropelias. E, sobretudo, sem mais guerras e suseranias neo-colonialistas abjectas.
Assim foi que Portugal regressou ao território estaminal, o anterior à conquista de Ceuta em 1415. Seria nesse espaço que deveríamos viver. Era o tempo da sabedoria…
(continua)
Maio de 2019
Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIO
 Francisco G. de Amorim  01.06.2019: Gostei da análise

Mas está lançado



Digo, Francisco Guerreiro, o novo herói de um novo partido de reivindicadores da caridadezinha, naturalmente desestabilizadora, sob a sua capa virtuosa, de fraternidade universal que nos encaminha, uma vez mais, para lutas grevistas e outras que tais - não em louvor de Deus, como definiu S. Francisco de Assis no seu “Cantico delle Creature” (Séc. XIII), de afecto real por tudo o que existe, como presentes divinos – mas em “furo” oportunista de luta por um lugar ao sol da realização pessoal.
Uma crónica dos nossos tempos, de Alberto Gonçalves, que é o máximo em termos de realização satírica, de ler e reler, com riso sim. Com lágrimas também. Bem sublinhada pelos seus comentadores admiradores.
Como contraste, e descanso aprazível, releiamos o tal “Cantico delle Creature”, que a “sora Internet” nos fornece – com uma bondade a que seremos sempre gratos - a limpar-nos um pouco destes ares poluídos dos nossos tempos de multiplicidade de diversões e escolhas, tantas vezes descontroladas.

A natureza do PAN/premium
OBSERVADOR, 1/6/19
“Dono de dois gatos e um coelho, quer pôr as alterações climáticas no centro do debate.” Que significa isto? Que se fosse dono de duas osgas e um periquito o Francisco daria atenção ao Médio Oriente?
Até Domingo passado, eu nunca prestara atenção ao PAN, que tomei por um epifenómeno idêntico àquele sr. Sérgio dos reformados e às pulseiras do António Sala. Pelos vistos, 5,1% dos eleitores prestaram a atenção suficiente para votar no partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza (na verdade, descontados os votos nulos, os votos em branco e a abstenção, nem sequer 1,3% das pessoas – dos animais e da natureza não sei – escolheram o PAN, do mesmo modo que a “grande vitória” do PS se deveu a 8,2% do eleitorado, a “direita” do costume rondou os 7% e o imparável BE parou nos 2,4%, mas esse é outro assunto).
Sempre ávido de participar nas últimas tendências, comprei um pólo verde acinzentado e li detalhados artigos sobre o eurodeputado do PAN e sobre o PAN. O eurodeputado chama-se (um momento, que estou a procurar o nome… Andava algures… Cá está!) Francisco Guerreiro, é vegan e tem dois gatos e um coelho. Aliás, “O eurodeputado vegan tem dois gatos e um coelho” é exactamente o título do artigo que o “Expresso” dedica ao rapaz. Não é um título particularmente informativo, a menos que consideremos informativos os títulos “O vereador sportinguista tem uma espondilose e quatro sobrinhos”, ou “O anestesista marreco tem um ‘time-sharing’ e o bacalhau de molho”. Enfim, jornalismo moderno.
E a modernidade jornalística prossegue quando se tenta explicar o impacto da fauna (a propósito, é coerente que um defensor dos animais e da natureza detenha a propriedade de bichos – e de arbustos, já agora?) do Francisco nas respectivas convicções: Dono de dois gatos e um coelho, quer pôr as alterações climáticas no centro do debate.O que significa isto? Que se fosse dono de cinco percevejos e três rinocerontes, as aflições do Francisco divergiriam para o conflito no Médio Oriente? E que se mantivesse em cativeiro duas osgas e um periquito o Francisco perderia o sono a pensar no drama da Huawei?
O retrato do Francisco não termina aqui. O Francisco é coerente. O Francisco tem um carro que só usa “quando não tem alternativa”, leia-se para “ir buscar a filha à escola” ou “calcorrear o país”, leia-se sempre que lhe dá jeito, leia-se à semelhança de toda a gente: eu também dispenso o carro para atravessar a rua – sou ambientalista e não sabia. O Francisco, que “tentará pagar um extra para compensar a pegada ecológica”, viajará de avião de e para Bruxelas “quase todas as semanas”, leia-se porque deixa cá a família para, cito, não a prejudicar, leia-se agirá de acordo com as suas conveniências, leia-se à semelhança de toda a gente: excepto os bandalhos que não “tentam” pagar “um extra” para “compensar” a “pegada ecológica”. O Francisco procura comprar roupa “apenas quando precisa”, “e geralmente em segunda mão”. O Francisco “recolhe lixo nos tempos livres”. O Francisco é uma jóia de moço, ou no mínimo convenceu-se disso. E esse é o problema.
Não há mal nenhum em que o Francisco se vista com roupa usada, apanhe lixo, coma relva, acarinhe chinchilas, utilize hipocritamente os transportes poluentes e, se assim o entender, saia à varanda em cuecas (herdadas do avô) para acumular água da chuva em tigelinhas recicláveis. O mal é o Francisco julgar que o seu comportamento é tão espectacular que constitui um exemplo a seguir pela humanidade em peso. Antes do PAN, o dilúvio. Depois do PAN, um cartaz da campanha traduz a modéstia do candidato e da candidatura: “Vamos sentar o planeta no Parlamento Europeu”. Do alto dos inúmeros delírios, o Francisco imagina mesmo que representa a Terra e não 168 mil alminhas.
E quem diz o Francisco diz o PAN em geral, cujas crenças, no sentido religioso do termo, não mereceriam comentário se assumidamente se limitassem aos membros e simpatizantes da seita. Sucede que não limitam. O PAN é livre de abominar os transgénicos e os respectivos benefícios. O PAN é livre de presumir que as “medicinas alternativas” são uma coisa autêntica e não uma impostura do gabarito da tarologia. O PAN é livre de preferir curar a enxaqueca com camomila no lugar de Zomig. O PAN é livre de trocar proteínas animais por alcachofras e tofu. O PAN é livre de não apreciar sacos de plástico e carregar as compras na cabeça. O PAN é livre de sentir cócegas com os combustíveis fósseis. O PAN é livre de acreditar nos méritos, e na viabilidade, de providenciar um salário aos que recusam trabalhar. O PAN é livre de ponderar a saída do euro. O PAN é livre de sonhar com o indicador da Felicidade Interna Bruta. O PAN é livre de, sob o verniz “urbano” e fofinho, ser bruto como as casas.
A chatice, e o perigo, é que o PAN não se satisfaz em passear ignorância sem um remoto vínculo à realidade. O PAN, que é para a ciência (e para a economia) o que o BE é para a economia (e para a ciência) quer, e aos poucos tem ajudado a conseguir, que a ignorância, a crendice e a superstição cheguem à lei. O PAN devia ser livre de tudo, não devia ser livre de interferir na liberdade alheia através de alucinações. A última palavra ao Francisco: “O nosso caderno de encargos é muito exigente”. De facto, exige uma imensa propensão para o atraso de vida.

COMENTÁRIOS
Cipião Numantino: Hoje ao AG deu-lhe para isto. E palavra de honra que quando desatou a falar no Francisco eu até pensei estar ao referir-se ao outro. Estão a ver aquele protector de algumas seitas, comunistas de preferência, falando-lhe do alto da sua sapiência outorgada pelo divino de que os Papas se julgam mensageiros na Terra? Mas não, era um outro Chico. Provavelmente ainda mais convencido e místico do que aquele. Um tenta salvar as almas, o outro, primando ainda mais por uma basófia alucinada, é mais imodesto e pasmem pretende mesmo salvar o Mundo!
Isto vai de mal a pior, meus caros. E desconfio que fui teletransportado, sem me dar conta, para um mundo paralelo onde o ridículo campeia, a alucinação faz competente escol e algumas gentes que me rodeiam parecem haver sido trepanadas convolando-as em permanentes émulos psicológicos de um qualquer Frankenstein.
Já nada me parece fazer sentido. E piamente acredito que a tendência será para piorar.
Conheço algumas fundamentalistas (eu ia a dizer maluquinhas) desta tara psicológica que se dizem protectoras dos animais. Ambas licenciadas (uma delas tem a faculdade de nos pôr a ver o sol aos quadradinhos), ambas exclusivamente comedoras de alfaces e afins e, finalmente, ambas certamente urbano-depressivas como magistralmente catalogou os prosélitos da seita, o controverso Miguel Sousa Tavares. O seu hobby nos fins de semana é irem limpar canis municipais, num fetiche mais que mórbido e difícil de entender. Uma não sei, mas a outra é uma inveterada comuna o que indiciará que muita da proselitagem do PAN beberá ideologicamente do caldo marxista. Entradotas já na idade, desconfio que ambas ficarão para tias já que socialmente entenderão que se sentem melhor a lidar com cães e gatos e terão provavelmente horror a crianças ou mesmo a elementos da peste grisalha.
Certamente que nem todas as pessoas que votaram PAN serão como estas. E haverá seguramente quem vote por compaixão para com o sofrimento real que incide sobre muitos animais. Mas também não posso esquecer que alguns destes votantes exclamarão por aí que confiam mais nos animais do que em pessoas, num sentimento anti-social que além de censurável revelará uma psicopatologia agravada que tornará estas pessoas mais conformes a estagiarem ad eternum num qualquer hospício psiquiátrico.
Há muita gente doente por aí. E maluca, também.
Já não nos bastava a comunada para virar esta poorra de país de pernas para o ar e ainda nos toca em sorte gente de tal calibre fundamentalista que ainda aqui há um par de anos violavam direitos de cidadania, assaltavam propriedades e deitavam mão a bens alheios no efeito e na forma de roubo e sequestro de animais domésticos. Refiro-me obviamente aos Rambos encapuçados do acrónimo IRA, dignos continuadores dos métodos odiosos e asquerosos do Ku-Klux-Klan!
Deus nos livre de tais maluquinhos. E das suas mais que evidentes taradices e maluqueiras!...
Tiago Queirós: Ora... um deleite. A PANdilha exposta para todo o mundo ver.
Liberal Impenitente: Estão na moda em política, as alucinações. Elas são a norma noutro domínio, o das religiões, e até podem ser postas por vezes a bom uso. Já um Estado cujo 'élan' transformador se baseia em alucinações só pode ser visto como um pesadelo. Pouco importa se são as alucinações de um "querido dirigente" ou de uma turba de "salvadores do planeta".

Il Cantico delle Creature o “Cantico di Frate Sole”
San Francesco d’Assisi
(Adaptado ao italiano moderno)
«Altissimo, Onnipotente Buon Signore, tue sono le lodi, la gloria, l'onore e ogni benedizione.
A te solo, Altissimo, si addicono e nessun uomo è degno di menzionarti.
Lodato sii, mio Signore, insieme a tutte le creature, specialmente il fratello sole, il quale è la luce del giorno, e tu tramite lui ci illumini. E lui è bello e raggiante con un grande splendore: simboleggia Altissimo la tua importanza.
Lodato sii o mio Signore, per sorella luna e le stelle: in cielo le hai formate, chiare preziose e belle.
Lodato sii, mio Signore, per fratello vento, e per l'aria e per il cielo; quello nuvoloso e quello sereno, ogni tempo tramite il quale alle creature dai sostentamento.
Lodato sii mio Signore, per sorella acqua, la quale è molto utile e umile, preziosa e pura.
Lodato sii mio Signore, per fratello fuoco, attraverso il quale illumini la notte. È bello, giocondo, robusto e forte.
Lodato sii mio Signore, per nostra sorella madre terra, la quale ci dà nutrimento e ci mantiene: produce diversi frutti variopinti, con fiori ed erba.
Lodato sii mio Signore, per quelli che perdonano in nome del tuo amore, e sopportano malattie e sofferenze.
Beati quelli che sopporteranno ciò serenamente, perché dall'Altissimo saranno premiati.
Lodato sii mio Signore per la nostra sorella morte corporale, dalla quale nessun essere umano può scappare, guai a quelli che moriranno mentre sono in situazione di peccato mortale.
Beati quelli che la troveranno mentre stanno rispettando le tue volontà. La seconda morte, non farà loro alcun male.
Lodate e benedite il mio Signore, ringraziatelo e servitelo con grande umiltà.»



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A propósito ainda do protesto de Nuno Pacheco contra um artigo sobre o AO, de Henrique Monteiro, saído no Expresso de 17/5, e que incluí no nº 4 de “OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS” de Salles da Fonseca, do texto precedente deste Blog, encontro, na Ípsilon do Público de 24/5/19, em “Livro de recitações”, de António Guerreiro, a transcrição de uma deprimente frase do mesmo Henrique Monteiro, a respeito da radicalização do tal AO, por cá, seguida do comentário indignado do mesmo António Guerreiro (em destaque à sua Crónica “Zona de Catástrofe” (“Acção Paralela”) de que não pude deixar de transcrever também um excerto, mais alguns comentários brilhantes, dada a pertinência do tema, no enquadramento – pela negativa – no tema da liberdade consciente, que SF atribui à educação segundo os parâmetros de um liceu francês que a sua família prezou, mas que não foi só apanágio desse, porque muitos outros portugueses se revelaram e revelam seres saudavelmente críticos e responsáveis, apesar de tudo, embora sem resultados práticos, neste “País a arder”. Mas, de facto, estes que fizeram o AO, não se enquadram no grupo dos que Salles da Fonseca descreve como respeitando valores, porque educados dentro de princípios éticos…
HENRIQUE SALLES DA FONSECA            A BEM DA NAÇÃO, 31.05.19
Axioma – afirmação que, por evidente, não carece de demonstração. * * *
“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”
Artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU, Dezembro de 1948  * * *
Eis o que para nós, os filhos dos ventos cálidos, é um axioma mas que só foi aprovado já eu tinha 3 anos de idade.
E tanta tropelia sofreu a Humanidade às mãos dos algozes para, afinal, chegar a algo tão evidente que até Portugal, tão conservador, o ratificou ab initio. Sem dúvida, os meus pais estavam no caminho da História da Humanidade e o Governo Português, convicto ou para agradar ao mundo, concordou.
Estou convencido de que os meus colegas de liceu se enquadravam em parâmetros iguais ou, pelo menos, muito semelhantes aos meus. Mas, assim como na minha família nos pautávamos por uma clara moderação, outros haveria que “navegavam” por águas mais agitadas.
Território francês, o “Charles Lepierre” era refúgio para quem se sentia incomodado pela figura tutelar do Regime, para quem se situava no fio da navalha da vigilância política, para os professores que não tinham jurado fidelidade a Salazar. Cenário certamente diferente dos que vigorariam no “St. Julian’s”, o colégio inglês em Carcavelos ou na “Deutsche Schule” na Rua do Passadiço.
Todos estrangeirados? Uns sim, outros seriam apenas refugiados em terra própria, outros ainda só eram ricos cujos pais achavam chique ter os filhos a estudar no estrangeiro cá dentro. Mas ricos, menos ricos ou apenas remediados, nós criámos um ambiente de pluralidade, de claro cosmopolitismo, algo inédito até então. O contrário do monolitismo do figurino oficial do ensino do Estado Novo destinado a formar cidadãos mansos, o que nós não fomos e ainda hoje não somos.
(continua)
 Maio de 2019     Henrique Salles da Fonseca
COMENTÁRIOS:
Adriano Lima 31.05.2019: Tem razão, Dr. Salles. Não somos "cidadãos mansos", daquela mansidão que o Estado Novo quis impor. Mas acho que ainda subsiste alguma dessa mansidão, feita de pacatez e resignação, em alguns sectores do nosso povo. O progresso social só se consegue com uma atitude crítica e participativa, e num estado de direito democrático isso é exigível.
Henrique Salles da Fonseca, 31.05.2019: Eu estudei (?) um ano em Santo Tirso e tão ajuizado era que não me quiseram lá no ano seguinte. De resto, sempre em escolas oficiais. E não fiquei um « cara manso » !
Ainda hoje, como sabe, não sou ! Um abração
Francisco Gomes de Amorim
Henrique Salles da Fonseca 31.05.2019: Mihi dicendi modum. Grande abraço, Henrique

II - De Ipsilon, (PÚBLICO), 24 de Maio 2019
ANTÓNIO GUERREIRO
2º: LIVRO DE RECITAÇÕES:
«Penso que, a bem do país e da Índia, o Parlamento manterá o essencial do ACORDO, para desespero dos versados em dizer mal de algo que não passa de uma representação da língua”, Henrique Monteiro in Expresso, 17/5/2019
Os defensores do novo Acordo Ortográfico desataram há algum tempo a queixar-se de que lhes estão a maltratar, a difamar e a roubar o seu brinquedo, que lhes foi dado sob a exclusiva protecção de um poder político dado a brincadeiras pouco inocentes para crianças e adultos. Mas, perante a engenhoca que está a ruir por todos os lados e se revelou um desastre político-ortográfico, qualquer dia estes heróis da resistência passam à clandestinidade, declaram-se uma vanguarda minoritária e vêm dizer que a luta deles é por uma causa mais elevada porque “a ortografia não passa de uma representação da língua”. A ortografia como “representação da língua”? Estes combatentes revolucionários têm mesmo umas ideias estapafúrdias sobre o que é a ortografia e a língua. Será por isso que os resultados da engenhoca AO90 são tão belos de se ver? (António Guerreiro)

1º - ZONA DE CATÁSTROFE
Se olharmos para as cidades turísticas (como são hoje Lisboa e o Porto) no seu devir extremo, levando às últimas consequências a lógica que as anima, elas tendem para a transformação integral do centro em “zona”. De tal modo que alguns lugares que ainda há pouco eram uma periferia suburbana começam hoje a ser o centro e a ter uma vida urbana que desapareceu completamente do antigo centro. Entre a cidade onde se assiste à catástrofe e o campo que não tem nada de idílico, estende-se a “zona” em estado de emergência. 
Na semana passada, soube através de uma reportagem neste jornal (em boa verdade, já sabia antes porque também frequento esta “zona” e tenho interesses privados nela) que as populações de Cuba, Vidigueira, Beja, Serpa e Mértola, submetidas ao ambiente poluído pelos lagares de azeite industriais instalados em Alvito e Ferreira do Alentejo (que fazem parte da cadeia poluente e ecologicamente criminosa que começa nos olivais intensivos plantados na planície), receberam esta  resposta do vice-presidente da Direcção Regional da Agricultura e Pescas do Alentejo, José Velez: O desenvolvimento tem os seus custos e as suas facturas”, uma vez que “o ambiente é fundamental, mas o desenvolvimento é crucial”.
Também aqui, no campo, se deu uma inversão cada vez mais notória: enquanto antes tínhamos a ideia de que a devastação, o desequilíbrio e as ameaças de carácter ecológico tinham o seu posto de observação privilegiado nas grandes cidades e ir para o campo era uma fuga a tudo isso, hoje o campo é onde mais estamos expostos aos males da civilização, encarnados humanamente por estes presidentes e directores do “desenvolvimento" que cobram custos e facturas pelo bem que exercem a uma população ingrata (e ignara, acham eles). O único campo habitável, hoje, é aquele que é construído como um lugar de privilégio e de luxo, erguido como uma fortaleza. Fora dele, só há vida em extinção, tudo está a ser perdido, a ruína e o deserto crescem, num clima que é uma variante do western americano. É como se a lógica a que foi submetido o centro das cidades tivesse sido transferida para o campo. A “zona” está por todo o lado. Como no filme de Tarkovsky , não se consegue perceber os seus confins.
COMENTÁRIOS
Carlos Félix, Oeiras / Beja 24.05.2019: “A “zona” está por todo o lado. Como no filme de Tarkovsky , não se consegue perceber os seus confins.”. A vida não é um eterno jogo de estratégia e em beco-sem-saída terá de se recuar sem glória e nem com a melhor convicção, a existir, apoiada por inúmeros convivas e loas mediáticas se resgatará o carisma dos melhores dias. A “zona” não seria assim exclusiva do território rugoso, tão-só projecção da nossa progressiva incompletude.
José Manuel Martins, évora 24.05.2019: por (mais) uma vez (a segunda), absolutamente de acordo com tudo.
viana, Porto 24.05.2019: Excelente. Certeiro como (quase) sempre. Portugal está entre os países com maior fracção da sua área territorial sujeita à lógica extractivista. Onde o objectivo é o lucro, quanto maior e mais imediato melhor, cego às condições ambientais geradas pela actividade, no presente e no futuro. Foi assim quando se disponibilizou todo o território para a plantação desenfreada de eucaliptos, com as consequências conhecidas, quando se semeou o território de pedreiras a céu aberto, agora minas de lítio, e quando se permite e incentiva a agro-pecuária super-intensiva. O resultado já está à vista, e pior ficará: fogos, seca (também pelo desaparecimento de lençóis freáticos), perda de biodiversidade, poluição de solos, aquática e do ar, problemas de saúde, degradação acelerada dos solos.