quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Uma pequena obra-prima de crónica



A merecer inúmeros comentários irónicos negativos - creio que invejosos também – dos acomodados - que, naturalmente, omito. Extraordinária análise esta, de Paulo Rangel: Boris Costa” em Lisboa
OPINIÃO: Greve: “Boris Costa” em Lisboa
Quando muitos afirmam que felizmente o populismo não atingiu ainda Portugal, ele entra, com furor e honras de Estado, pela porta escancarada do Governo.
PAULO RANGEL   PÚBLICO, 13 de Agosto de 2019
1. Quem esteve atento ao fim-de-semana político no Reino Unido não pode deixar de estar preocupado pelos avanços do populismo no mais moderado dos regimes democráticos. Boris Johnson dedicou-se a mais umas jornadas de governo em campanha e campanha em governo, desta feita sobre o terceiro mote da sua epopeia: “lei e ordem” (o primeiro é o “Brexit” e o segundo é o serviço nacional de saúde). Lei e ordem: garantir mais 20.000 polícias, endurecer as penas para os crimes mais violentos, assegurar que os presos cumprem períodos cada vez mais longos da sua pena (sem acesso à liberdade condicional). Tudo num estilo omnipresente, feito de aparições cirúrgicas ao longo de cada dia, em diversos contextos e sempre num modo altamente visível. Boris Johnson, desde que ascendeu à posição de primeiro-ministro, ainda não parou de fazer campanha eleitoral. Uma campanha totalmente focada na sua pessoa e nas suas façanhas. Marcada pelo discurso enfático, pelos gestos simbólicos, pela ocupação molecular do espaço mediático
2. Por Londres e arredores, Boris Johnson fazia o seu acto de fé na lei e na ordem. No mesmo fim-de-semana, por Lisboa e arrabaldes, António Costa envergava as vestes do grande zelador da ordem e da lei. Investido da energia de Boris, faz-se aparecer a cada duas horas. Ora em reuniões de um gabinete ministerial de emergência, copiosamente fotografadas e filmadas. Ora em visitas à protecção civil, cheias de legendas incandescentes de “última hora”. Ora em reuniões com os responsáveis da segurança interna, com um digno contexto policial e militar. Ora em prudentes e pacatos avisos à população, com tom e tiques que evocam as conversas em família. Ora em sérias admoestações e ameaças aos possíveis prevaricadores, que fazem lembrar as prédicas do seu amigo Orbán. Ora em pose de supremo garante de toda a autoridade, no decretamento electrónico e solene de requisição civil. A toda a hora, a todo o minuto, a todo o instante, a palavra, o gesto, a supina imagem paternal e patronal de António Costa. Os meios de comunicação social, à míngua de assuntos e de incêndios, reproduzem a cada meia hora as palavras do magno conservador da ordem social e da tranquilidade pública. Transmitem, com o grau de alarme adequado, a mensagem ordeira do grande velador.
3. Na resposta política à greve dos camionistas, como na resposta política à crise dos professores, Costa não resistiu ao ar do tempo e enveredou pelo mais puro populismo. O populismo é seguramente o mais preocupante desenvolvimento da vida política nas democracias actuais. Tem tido, todavia, assinalável sucesso, ante a gravíssima crise da democracia representativa. Costa, hábil e inteligente, oportuno e oportunista, sabe disso. Há derivas populistas que não servem para aqui, por nada terem que ver com a realidade que precisamente aqui se denuncia: a Itália de Salvini – em que este acaba de chegar ao perigosíssimo extremo de pedir “plenos poderes” – ou a Hungria de Orbán – em que há uma sistemática debilitação das instituições independentes e de controlo.
Mas há exemplos que colhem, em que Costa se inspira ou dos quais comunga. O caso de Boris Johnson é um bom exemplo. A simplificação da mensagem que leva à diabolização dos adversários, que tanto podem ser os “europeus” como o “establishment” político. A concentração metódica na imagem do líder. A promessa de resultados que são inatingíveis ou que já estão atingidos (porque os perigos agitados simplesmente não existem). Para Costa, os adversários são os “camionistas”, os “professores” ou os “enfermeiros”, classes profissionais maquiavelicamente empenhadas em prejudicar o interesse geral. O tal que “nunca vai de férias”. Mas a diabolização é mais eficaz, se tiver um rosto e, por isso, a acção maligna das classes profissionais está sempre personificada num vilão (um “Pardal Henriques”, um “Mário Nogueira” ou uma “malfadada bastonária”), que serve de antagonista de Costa e que, por não ser político, simplesmente “despolitiza” a oposição. À simplificação da mensagem e ostracização dos “culpados” soma-se, à maneira de Boris, a omnipresença mediática com discursos, conferências de imprensa, declarações, visitas, gestos simbólicos, reuniões institucionais. Sozinho, Costa suga o pretexto, reinventa a crise, gere a crise reinventada e devora a crise que ele próprio se empenhou em amplificar.
4. Quando muitos afirmam que felizmente o populismo não atingiu ainda Portugal, ele entra, com furor e honras de Estado, pela porta escancarada do Governo. Ele aí está em todo o seu esplendor, pela mão, pela boca e pela pose do chefe do executivo. São muitos os anestesiados, são muitos os desencantados, são muitos os acomodados, que não dão nem querem dar conta da deriva em curso. Mas quando um governo usa de toda a retórica e parafernália populista, deviam soar alertas e alarmes. Esta manipulação política e mediática, feita meticulosamente em véspera de eleições, é um sintoma e um factor de séria degradação da nossa condição democrática.
O populismo – ou, na classificação tradicional dos regimes políticos, a demagogia – não tem nada de visceralmente novo. Desde os alvores gregos da filosofia política que a demagogia está devidamente identificada: é a forma pervertida da democracia, é a forma maligna de a exercer. A quase totalidade dos autores clássicos – aí incluídos os mentores dos regimes moderados, com Aristóteles à cabeça – sempre desconfiou da democracia, por temer a derrapagem praticamente inevitável das democracias para o populismo. Mas eles pensavam apenas na democracia directa (do modelo ateniense), desconhecendo a nossa forma moderna de democracia representativa (com os seus mecanismos de controlo do poder). Sucede, no entanto, que a sociedade das redes sociais tem enormes similitudes com a sociedade que erigiu a democracia directa. A sociedade das redes sociais é presa fácil do populismo. Eis os Boris, eis os Costas.
SIM e NÃO
NÃO. Matteo Salvini. O apelo a que os italianos lhe dêem plenos poderes é um dos mais preocupantes desenvolvimentos da política italiana e europeia. Deve mesmo ser tomado “à letra”.
NÃO. Donald Trump. A política de separação de famílias no quadro migratório é deplorável; a insistência na defesa do acesso livre a armas por parte dos cidadãos não pára de fazer vítimas.
COMENTÁRIOS:
FS, 14.08.2019: Em geral, ao Rangel, salta-lhe o pé para a chinela, mas desta vez escreveu um bom artigo.
José Carvalho, 13.08.2019:  Mas que bela prosa.... Costa tinha que fazer o que tem feito e ninguém gostaria de ter um PM que não fosse xico esperto. Ora Costa é um xico esperto que tenta destruir assim de mansinho o sindicalismo em portugal, perseguindo quem tenta pela via sindical fazer-lhe frente e que não pertença às domesticadas UGT e CGTP. Assim sim, com este Costa xico esperto a populaça está contente. Em contrapartida esse inútil Rangel não sabe domesticar os ditadores da Europa e expulsa-los da UE. É um incompetente! Já Costa é uma máquina, porque nada tem a ver com isso, mesmo que se sente ao lado desses mesmos ditadores nos diversos conselhos europeus. E se a burrice pagasse importo?! Como seria??!!
R Figueiredo Jacinto, 13.08.2019: Isto sim, é oposição objectiva, é realçar o essencial deixando os tricks de lado. Rangel sabe onde estão os podres de Costa e não se coíbe de os apontar. Mas perante a liderança de desnorte de Rui Rio, e para tranquilidade de uma vasta camada de Portugueses que não se revêem na política de sovietização do camarada Kosta, não será altura de Rangel trocar a ostentação de Bruxelas pelo incómodo de servir Portugal? O que quer que Rangel faça em Bruxelas, será muito pouco comparativamente ao que pode fazer aqui. Por cada dia que passa maiores os danos causados por Kosta ao bem-estar dos Portugueses. Os Socialistas são assim, enquanto há dinheiro ou folga nos impostos "parece" porem todos bem, o pior é depois, quando é preciso pagar a factura, é preciso outro Passos para vestir a pele do lobo.
Ceratioidei, 13.08.2019: Não a Salvini, não a Trump, não ao populismo. Sem dúvida. Como sempre, o que conta são os actos. Palavras, leva-as o vento.
ANTÓNIO MARIA SILVA, 13.08.2019: PR só diz verdades, mas os xuxalistas não gostam de as ouvir e vai daí...insultam.!!
P Galvao, 13.08.2019: Quando Passos Coelho lançou suspeitas sobre os juízos, e os juízes do Tribunal Constitucional, não foi essa a primeira manifestação de um populismo assumido em Portugal? E este Paulo Rangel não se coibiu de fazer uma triste figura em Bruxelas, só para agradar ao “chefe”. Não devemos desvalorizar a enorme disponibilidade deste governo para montar um circo que abafasse as recentes polémicas com contratos e dinheiros públicos mal explicados, mas é fundamental não nos deixarmos levar por esta conversa mole, e pateta de gente que só pensa no seu próprio destino.
ALRB, 13.08.2019:  Costa, que só precisou de uma contabilidade sobre incompatibilidades parlamentares para chegar ao poder, faz agora uma contabilidade sobre votos para manter esse poder. Age exclusivamente em função do que lhe dá votos e não quer saber de princípios. A greve em curso é extremamente impopular e Costa aproveita-a para fazer um show off e arrecadar votos. E fá-lo de forma tão brilhante que depois de ter deixado a sua direita ligada às máquinas deixa agora os seus parceiros da esquerda em estado cataléptico.
José Carvalho, 13.08.2019: Xico espiritismo. Ao nível do que se passa hoje em Inglaterra, Itália, EUA ou Brasil.... Só numa sociedade completamente desorientada é que estas figurinhas conseguem popularidade. Não, não excluamos Costa deste clube. Tivesse a nossa sociedade um momento de lucidez, sentido adulto e civilizacional e Costa seria varrido do poder no próximo acto eleitoral. Sê-lo-á quando o cheiro for nauseabundo... Até lá vai utilizando o xico espertismo e a burrice da populaça.


Será sem febre?


Salles da Fonseca preocupa-se, como qualquer cidadão de bom senso, com o estado das economias nacionais, que atribui a baixa de preços na restauração e à redução do IVA, esta como medida de eficácia eleitoralista, pois que A. Costa não perde pitada no processo de se alcandorar novamente no poder, e nem se importa de gastar milhões para sua promoção, no que, de resto, é seguido, com maior ou menor moderação, pelos demais partidos. Eu gabo a coragem dos componentes partidários nestes percursos eleitoralistas, que o que tem as rédeas do poder efectua com maior firmeza de convicções, nos calores de Agosto que se vai extinguindo, mas Setembro e Outubro não deixarão de continuar a ofertar-nos os espectáculos destas caravanas de sucesso a que a democracia nos habituou. Julgo que os programas turísticos que a RTP, sobretudo, tem efectuado, por esse país fora, mostrando as características das terras, merecem também referência, não só quanto ao bom desempenho dos vários protagonistas da cena, animadores da RTP, como aos seus convidados, que vêm mostrar facetas das terras do nosso país, apelativos, julgo, de desenvolvimento turístico gerador de receitas também, além de conhecimentos topográficos que transmitem e de outros sabores também..
Salles da Fonseca, ao debruçar-se sobre o estado das finanças no nosso país, tenta, apesar de tudo, transmitir-nos um certo optimismo e esperança. Oxalá tenha razão.

HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 28.08.19
(estado de quem não tem febre)
De acordo com a informação oficial, em Julho de 2019, o índice de preços no consumidor em Portugal desceu 0,3% em relação ao período homólogo (Julho de 2018). Diz o INE que o fenómeno se ficou a dever à baixa nos preços praticados na restauração e na hotelaria bem como à redução do IVA no gás e na electricidade.
A ser assim, dá para ficarmos mais tranquilos do que ficaríamos se a baixa dos preços resultasse de causas mais profundas, nomeadamente de políticas públicas activas.
Efectivamente, a euforia que reinava na hotelaria e na restauração tinha que abrandar sob pena de levar os turistas para outras paragens e, de repente, ficarmos todos a chuchar no dedo por termos partido a «corda» de tanto dela abusarmos. Se os empresários do sector se decidiram pôr alguma moderação, só demonstraram sensatez. O caminho por que vinham trilhando era favorável ao Norte de África como destino turístico, apesar de alguns perigos que sempre se perfilam por aqueles azimutes.
Relativamente à redução do IVA, trata-se de uma medida administrativa de cariz pré-eleitoral sem qualquer relevância na análise económica ou da conjuntura financeira global. Não quer isto, contudo, dizer que a medida não tenha consequências na problemática orçamental, no equilíbrio das contas públicas e na redução do stock da dívida. Mas isto é futuro e o que por agora interessa é o passado.
O perigo seria que a deflação resultasse das restrições orçamentais em curso pela via das cativações mas, pelos vistos, quem está na posse dos números (INE), não assesta armas nesse sentido como acima refiro e eu fico muito tranquilo. Mais: respiro mesmo de alívio ao constatar que a presente deflação resulta da correcção de exageros e não de sangria de fundos que fizessem efectiva falta à economia, que a política em curso de anulação do défice público não encontrou aqui qualquer obstáculo e que a eleitoralista redução do IVA deixa adivinhar que existe alguma almofada por aí escondida onde possamos descarregar o peso de alguns actos de manipulação polítiqueira.
Perigoso seria que os preços tivessem baixado como reacção a uma quebra involuntária da procura e isso, sim, seria escandaloso quando o modelo socialista de desenvolvimento tem no consumo um motor que considera importante. Mas não, o consumo interno continua pujante, a balança de bens até já voltou aos défices, o endividamento sobre o exterior está impante, o crédito às famílias a retomar tempos anteriores à troika, a bolha da habitação a dizer que há muita gente que não aprendeu nada.
Sim, ensandecidos mas em apirexia.
Agosto de 2019
Henrique Salles da Fonseca
2 COMENTÁRIOS
Anónimo, 29.08.2019:  Apirexia não tem tratamento. Só a selecção manipulada por homens... o que seria ainda pior!
 Anónimo  29.08.2019:_Henrique, estou-te grato pela diversidade de temas que tratas e por me haveres ensinado a existência da palavra “apirexia”. Gentilmente, dás logo o seu conceito a pensar em pessoas como eu, mas não me fiquei pela tua caracterização e fui consultar (em má hora, diga-se) um dicionário de termos médicos e encontrei a seguinte definição para a dita palavra: “falta de febre ou período sem febre numa doença febril”. Perante este conceito, interroguei-me em qual das duas hipóteses o meu Amigo teria posto o momento que Portugal vive e, após alguma reflexão, concluí que só poderia ser na segunda – período sem febre numa doença febril. Com efeito, continuamos confrontados com uma elevada expressão da dívida externa, quer em valor absoluto quer relativo ao PIB, assim como com o fraco crescimento económico que, embora superior à média europeia (condição necessária), não é suficiente por estar abaixo de outros países com os quais nos comparamos, pelo que corremos sério risco de virmos a ser a lanterna vermelha europeia. Tudo isto conjuga para que padeçamos ainda de doença febril. Verdade deve ser dita que o anterior e o actual Governo esforçaram-se para debelar a doença, ouvindo-se frequentemente que o Governo Costa/Centeno (O Governo será todo Centeno?) não teria tido sucesso se não tivesse havido o saneamento macroeconómico feito pelo anterior. A isso respondo que os Governos de Cavaco Silva (1985/95) também não teriam feito o brilharete que fizeram se não fossem as dolorosas acções tomadas pelo governo Mário Soares/Ernâni Lopes (1983/85). É a vida política!... Aspecto que também me suscita, tal como a ti, atenção é o voltar ao défice da balança de bens. Diziam-me um amigo e governante da área das Finanças, infelizmente já falecido, que quando a política fiscal permitia algum aumento do rendimento disponível das famílias, isso reflectia-se logo negativamente na balança comercial, tal a elasticidade desta. É claro que esse défice pode ser virtuoso se as importações de bens de equipamento forem as responsáveis. Mas então é preciso que nos digam qual é a parte das importações respeitante a automóveis da parte relativa a tractores e autocarros, para podermos ajuizar de quão virtuoso é o défice daquela balança. Por razões deontológicas, não aprofundo a tua última frase, mas nada me impede de fazer duas considerações, a saber: 1) fiquei admirado de que o Banco de Portugal tivesse tido a necessidade de impor aos bancos determinados parâmetros na concessão de crédito à habitação, parâmetros esses que são de uma razoabilidade meridiana e que todos deveriam ter seguido voluntariamente e 2) subscrever o teu sentimento que parece (tu és mais categórico) que há muita gente que não aprendeu nada. Não gostaria de terminar este comentário, apesar já da sua extensão (não consigo fazê-los mais curtos), com uma afirmação tão angustiante, pelo que, com a tua permissão, cito um episódio brasileiro humorístico real que o tema da inflação/deflação e a frase que utilizaste “chuchar no dedo” me fizeram recordar. Passou-se no Brasil (o País está na moda), nos anos 60, na ditadura militara. Ora, nesses tempos, no cabaz de produtos que servia de base ao índice de preços do consumidor, constava um legume, rico em propriedades, denominado “chuchu”, cujo peso, no cabaz, era, obviamente, mínimo. Por razões que já não me recordo, talvez por motivos climatéricos conjunturais, houve rarefacção na oferta do chuchu e o preço subiu bastante, continuando, claro, o legume a ter uma importância reduzidíssima no índice. Mas a ditadura queria encontrar um responsável para a subida da inflação, e logo apontou o chuchu. Cobriram-se de ridículo e o cantor Juca Chaves atirou-lhes uma balada certeira. Foi caso para dizer que o pobre do brasileiro ficou a chuchar não no dedo mas sim no chuchu. Abraço. Carlos Traguelho
Adriano Lima, 29.08.2019: Li com atenção e muito proveito tanto este artigo como a intervenção de Carlos Traguelho. São dois importantes contributos para o debate sobre a situação económica e financeira do país.




quarta-feira, 28 de agosto de 2019

“Bonjour, Tristesse”



Um livro pequeno, uma curta novela, que deu escândalo, se bem me lembro, aquando da sua publicação, nos idos de 50, andava eu em Coimbra, falava-se muito de precocidade, a respeito de F. Sagan, tal como se falou também então da autora de “Sibila”, um génio por cá, mas mais “encorpado”. O certo é que só o comprei mais tarde, mas fiquei logo presa do encanto de uma prosa explorando levemente a temática existencialista, em torno de duas figuras – pai e filha – gozando superficialmente os prazeres da existência, ricos, saudáveis, livres de preconceito e de afeições duradoiras. Excepto, é claro, a que une pai e filha, esta órfã de mãe, e avessa a programas de vida de maior responsabilidade, como a que queria incutir-lhe uma amiga da mãe, Anne, também convidada do pai, para as férias na “Côte d’Azur”, daquele ano fatídico dos dezassete anos de Cécile. Uma trama, verdadeiramente maligna, engendrada por esta, levam Anne ao desespero do ciúme e do espanto, e à sua fuga e morte por desastre. A vida do pai e da filha retomarão a ligeireza anterior, sem preconceito, nem obrigação, mas impregnada, agora, na jovem de 17 anos, de uma tristeza de má consciência. É este o livro sobre que se debruça Pedro Mexia, com a qualidade crítica de sempre, na mesma revista E, de que copiei o texto de CFA. Não resisto a transcrever dela, igualmente, a perfeita análise dessa obra perfeita, na precocidade literária da sua autora tão jovem então, e que permaneceria para mim uma escritora de elegância e requinte que sempre me prendeu, pelos espaços físicos e morais que criou, como escritora, desarticulados do vulgar, embora não do sofrimento e do Mal:

UM VERÃO ETERNO
PEDRO MEXIA
E, 3/8/19
EM 1954, “BOM DIA, TRISTEZA”, ALCANÇOU ENORMÍSSIMO SUCESSO POR CAUSA DA FRANQUEZA DE SAGAN E DAS MAQUINAÇÕES DE CÉCILE.
Apercebi-me de que nunca tinha lido “Bom Dia, Tristeza”, tirei o romance da estante e, por assim dizer, inaugurei o Verão. Lembro-me mal da adaptação cinematográfica de Otto Preminger, ficou-me apenas a imagem de uma Jean Seberg agridoce e de uma elegância trouble, mas há dias encontrei uma referência hostil de Sartre a Sagan, e achei graça, até porque ela citava Sartre, e em especial o romance “L’Âge de Raison”, como uma influência decisiva. Talvez tivesse razão o crítico Gaëtan Picon quando, mordaz, chamou a Françoise Saganuma existencialista para leitores do “Paris Match”.
“Bom Dia, Tristeza” saiu em 1954. A autora tinha apenas 18 anos e usava um pseudónimo proustiano (a Princesa Sagan). O romance, breve, comprazia-se em ambientes de decadência moral, lassidão hedonista, narcisismo desencantado. Era um retrato, em esboço, da alta burguesia francesa do pós guerra, fútil, desenvolta, libertina. E notavam-se afinidades com a geração dos “hussardos”, os anar-co-direitistas anti-Sartre, gente dada ao prazer e ao desaforo. Mas o romance também lembra as ousadias de Colette e a tristeza faustosa de Fitzgerald, embora com menos intensidade poética e um sentido do trágico bastante débil.
Cécile tem 17 anos, estudou num colégio de freiras, é órfã de mãe e vive com o pai. A acção de “Bom dia, Tristeza” (o título vem de um verso de Éluard”) passa-se no Verão, mas é como se Cécile e o pai habitassem um Verão eterno. Bem parecidos, endinheirados e levianos, pai e filha cultivam, com uma cumplicidade quase incestuosa, uma “admiração apaixonada” um pelo outro, bem como um notável gosto pela felicidade, que lhes é facilmente acessível. Inconstantes, entusiasmam-se com a excitação e a intensidade, e temem o tédio e a tranquilidade. Os seus dias e noites na Riviera passam-se em movimento seguido de stasis. Boémia, boîtes, veleiros, descapotáveis, festas, casinos, multidões e depois sonolência, embriaguez, languidez, atordoamento, descontracção, suavidade.
Em vez de estudar Pascal e Bergson, como lhe competia, a adolescente vive num mundo sem inquietações nem “angústias de introspecção”. Ou então é uma introspecção a fazer de conta, uma cabeça no ar alegre a dar-se ares, uma inteligência viva a tentar sem jeito imitar a maturidade. A verdade é que a única filosofia que Cécile aceita é a filosofia das superfícies: “Sem partilhar a aversão que o meu pai demonstrava pela fealdade, que muitas vezes nos levava a conviver com gente estúpida, experimentava, junto de pessoas destituídas de atractivos físicos, uma espécie de constrangimento, de ausência, e a sua resignação perante a falta de encanto afigurava-se-me como que uma enfermidade indecente. Na verdade, que procurávamos nós senão agradar?” (tradução Isabel St. Aubyn, edição “A Casa dos Ceifeiros”).
O pai de Cécile é um bon vivant a quem não interessam a felicidade, a gravidade e o compromisso. E ela orgulha-se disso: “eu e ele éramos da mesma raça”. Cada um a seu modo, seguem o mandamento dos jovens, que é também o mandamento do Verão: “agradar”. E vivem o amor como uma “sucessão de sensações independentes umas das outras”. ainda que isso conduza talvez a um “cinismo desiludido”. E não deixa de ser insólito que um romance recebido, à época, como “escandaloso”, chegasse a uma velha conclusão conservadora: que os estímulos fugazes conduzem à decepção e à amargura.
Em 1954, “Bom Dia, Tristeza” alcançou enormíssimo sucesso por causa da franqueza de Sagan e das maquinações de Cécile. Lido hoje, não sei bem a que aplicar a sua insistente má consciência. À burguesia de 1954? À família liberal? À leviandade erótica? Às ilusões da juventude? Ao Verão e ao que ele nos faz?