segunda-feira, 2 de setembro de 2019

“Não havia necessidade”



A probidade intelectual de Salles da Fonseca leva-o a pesquisar dados económicos em fontes escritas onde a nossa preguiça mental dificilmente nos levaria a procurar, mas a sua exposição sintética dos dados pôs-nos de lápis em punho a fazer somas dos dados fornecidos, para mais facilmente entendermos as deduções do foro económico, de SF, referentes ao nosso consumismo de calibre superior e à nossa apetência, de calibre inferior, para um trabalho rentável, originador de exportações, como as que vemos em programas estrangeiros, na televisão, de gente que trabalha e produz com a eficiência e o empenho exigíveis a todo o humano saudável que se preze de o ser.
Mas escusa Salles da Fonseca de preocupar-se. A. Costa vai conquistar a maioria absoluta que faz questão em arrebanhar e o seu poder irá de vento em popa, com os seus laivos de pressão sobre os recalcitrantes, como se vai vendo em outros países e cidades quase estado, tais Hong-Kong e países da Ásia, Américas e mesmo da África. E admire-se, mesmo sem estranharmos. A. Costa já anda a ensaiar, com a sua voz tonitruante, até já foi à Madeira, e mostrou as suas aspirações, que se ficarão por este segundo mandato de PM, talvez até 2023 ou 2024, já não me lembro bem do que ele disse. Lá PR é que ele não quer ser, embora também aprecie selfies. Julgo que é para não fazer concorrência ao nosso Tino de Rans, o que demonstra uma virtude de humildade de tanto impacto por cá. Não, não havia necessidade, z, z…

Henrique Salles da Fonseca
  A BEM DA NAÇÃO1.08.19
Pese embora a tradição, hoje começo por identificar as fontes de que me servi para o texto que se seguirá.
BIBLIOGRAFIA:
Economia ao Minu; Expresso; Jornal de Negócios; Jornal Económico * * *
Dados relativos a 2019 medidos sobre os períodos homólogos do ano anterior:
Δ do PIB no 2º Trim => 1,8%
Δ preços Agosto => - 0,1%
Δ FBCF 1º Trim => 11,8%
Δ FBCF 2º Trim => 6,9%
Δ Consumo bens duradouros 1º Trim => 3,1%
Δ Consumo bens duradouros 2º Trim => 0,2%
Δ Cons. bens não duradouros 1º Trim => 2,3%
Δ Cons. bens não duradouros 2º Trim => 2,2%
Δ Consumo privado 1º Trim => 2,3%
Δ Consumo privado 2º Trim => 1,9%
Δ Importações 1º Trim => 8,1%
Δ Importações 2º Trim => 3,1%
Δ Exportações 1º Trim => 3,7%
Δ Exportações 2º Trim => 2,0%
Δ Exportações de serviços (c/ Turismo) 1º Trim => 4,6%
Δ Exportações de serviços (c/ Turismo) 2º Trim => o,8%
Δ Exportações de bens 1º Trim => 3,4%
Δ Exportações de bens 2º Trim => 2,4%
* * *
A primeira observação que me ocorre é o crescimento das importações ser sempre superior ao das exportações em que estas, virtuosas, devem ser confrontadas com aquelas que, muito frequentemente, correspondem ao esbanjamento de meios de pagamento sobre o exterior na compra de quinquilharia, o que ligo ao pujante consumo de bens não duradouros. Adivinho o quase certo aumento galopante do endividamento dos bancos portugueses sobre os homólogos estrangeiros.
A segunda observação tem a ver com o Investimento (FBCF) que, segundo a Católica Lisbon Forescasting (in Jornal Económico), se degradou pela redução da aquisição de máquinas e equipamentos - ou seja, pela redução da renovação tecnológica ou pela redução do aumento da capacidade produtiva. Não disponho, contudo, de elementos que me permitam perceber qual a importância que os equipamentos necessários ao enchimento de nova bolha no mercado de novas habitações assumem nesta redução do investimento.
A terceira observação está relacionada com a elasticidade do consumo de bens duradouros e a rigidez do consumo da quinquilharia chinesa e quejanda. De qualquer modo, apesar desta constatação, vemos por aí pulularem empresas que se dedicam à concessão de crédito ao consumo e, obviamente, de bens duradouros, não de bugigangas. Seria interessante dispormos de um barómetro do endividamento das famílias mas há muito tempo que não ouço o Banco dePortugal prestar essa importante informação. Não quero crer que esse silêncio tenha algo a ver com a aproximação do 6 de Outubro, com algum apavoramento dos eleitores e, quiçá, com desvio de votos. Pois, não quero crer mas adivinho que as famílias estão novamente super endividadas e que nova borrasca se aproxima.
Quase no fim, registo a informação do INE relativa à deflação de 0,1% em Agosto devido a uma quebra nos preços dos combustíveis. A ser mesmo essa a causa, pois então que continue a deflação por muitos e bons anos.
Finalmente, uma questão semântica: se a uma economia estagnada (ou mesmo em recessão) mas com os preços a subir se diz estar em estagflação, como se diz duma economia em crescimento (Δ do PIB no 2º Trim => 1,8%) e em deflação? Será apenas uma história mal contada?
Agosto de 2019
Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIOS:
Anónimo 01.09.2019 :  Henrique, agradeço teres aceitado o meu desafio, expresso, em 30 de Agosto, em comentário ao teu artigo anterior intitulado " Apirexia", para actualizares as tuas considerações, tendo em conta os dados do 2º trimestre divulgados pelo INE, nesse mesmo dia. Rápido como o relâmpago, aqui está obra tua, datada ainda desse mês, com profusão de dados e conclusões sintéticas. O leitor tire também as suas conclusões. Os meios de comunicação social referiram-se muito (e bem) à feliz manutenção do crescimento em 1,8%, mas muito pouco aos sinais de alerta, salvo a entidade que mencionas. A alteração profunda das varáveis macroeconómicas que contribuíram para idêntico crescimento do PIB deve ter passado despercebida ao leitor/telespectador. Para terminar, menciono que a manchete do Expresso on-line de hoje (1/9) é a seguinte "Já há sinais de crise na economia portuguesa". E prossegue: "A economia portuguesa continua a crescer, mas as exportações, a preocupação dos consumidores com o futuro e o crédito bancário dão sinais de alerta". Não sei responder às tuas perguntas finais. Abraço. Carlos Traguelho

domingo, 1 de setembro de 2019

Tempos reavivados com uma palestra



Só agora encontrei este texto que guardo com apreço, Fernando Gil tendo sido companheiro, na turma das Letras do novo Liceu Salazar, naquele ano de 52-53, em Lourenço Marques, em que esteve preso pela Pide, e quando apareceu na sala e exclamámos, felizes, “Olha o Gil!” - pois vivêramos com susto a sua prisão - ele se comoveu, por ver quanto era estimado e admirado, pelo seu saber. Reencontrei-o aquando da morte da mãe, Irene Gil, cá, mas a afabilidade, reforçada eventualmente em anos de estudo cá, foi recebida com ar distante e trocista de espírito superior, que a apresentação biográfica que segue, feita pelo colega e amigo Manuel Villaverde Cabral, plenamente justifica, vejo-o agora, tão grande o preciosismo de complexidade da obra que refere, nos títulos que cita, da sua autoria, a racionalizar a incompreensão dos leigos.

FERNANDO GIL: UMA EVOCAÇÃO
MANUEL VILLAVERDE CABRAL ….OBSERVADOR, 22 de Abril de 2018
Manuel Villaverde Cabral recorda o legado do filósofo para a actualização, racionalização e modernização da sociedade portuguesa, uma personalidade tinha ainda tudo a dar à cultura e à filosofia.
Texto lido na sessão de atribuição do Prémio Internacional Fernando Gil em Filosofia da Ciência, Fundação Calouste Gulbenkian, 9 de Abril de 2018
Foi com grande emoção que acompanhei a doença e o falecimento de Fernando Gil (1937-2006) fez há pouco doze anos. Se é certo que ele viveu a vida plenamente e se deixa a marca indelével da sua obra, a verdade é que a sua energia intelectual e a sua personalidade intensa tinham ainda tudo a dar à cultura e à filosofia, e bem entendido à família e aos amigos. Por isso, se o legado é imenso, nem por isso deixou de ser uma perda enorme para o pensamento e para a sociedade portuguesa, para cuja actualização, racionalização e modernização ele contribuiu sem descanso.
Conheci Fernando Gil no final dos anos Sessenta em Paris, onde ambos vivíamos e onde ele acabaria por fixar a sua residência principal, sem nunca deixar de trabalhar em Portugal depois do fim da ditadura. O seu expatriamento, a seguir à publicação do primeiro livro (Aproximação antropológica, 1961), tinha tudo a ver com a situação política portuguesa e com a guerra colonial, que acabara de começar e o tocava de muito perto, tendo nascido e vivido em Moçambique até vir para Lisboa fazer Direito. Ao mesmo tempo, porém, o expatriamento correspondia também à busca de um percurso que já então se pusera em movimento dentro dele.
Ficámos amigos praticamente desde o primeiro encontro até à memória permanente que hoje tenho dele. Entretanto, em Paris o Fernando terminava a tese de doutoramento (La logique du nom, 1971) e iniciava uma sucessão ininterrupta de projectos que a sua inesgotável criatividade alimentaria até ao fim. Um dos poucos projectos que nunca teve oportunidade de terminar e permanecia até há pouco desconhecido da maioria dos seus leitores foi o de um Cahier de l’Herne dedicado a Fernando Pessoa, que constituiu a nossa primeira colaboração no início dos anos 70. Esse projecto foi agora recordado pelo seu antigo colega do curso de Direito, o jurista e filósofo João Lopes Alves, num artigo publicado em sua memória com as longas e reflexivas cartas que Fernando Gil então lhe enviou sobre o seu projecto pessoano, onde chega a escrever: “Estou desde há uma semana numa sobre-excitação fernandina (aí umas 10h por dia)! Tenho de romper o «charme» pois há outras coisas para fazer!” Em Setembro de ’72, ele escrevia a última carta sobre o projecto Pessoa, onde dizia: “Não sei se chegará a fim. Não sei bem porquê…”.  E eu também nunca soube.
Com o fim da ditadura, o 25 de Abril abriu-lhe, como aos outros exilados e expatriados, a chance de trabalhar em liberdade com aquele mínimo de condições que a universidade portuguesa em reconstrução nos concedeu. Em contrapartida, bem mais tarde, o seu interesse pelos regimes de relação entre “crença” e “convicção”, “ideologia e verdade”, para citar o estudo precioso que o seu orientando – hoje filósofo – Paulo Tunhas lhe dedicou, levaram Fernando Gil de novo à literatura e ao estudo – este publicado – sobre “o efeito-Lusíadas” (As Viagens do Olhar, com Helder Macedo, 1998). Interesses simultaneamente estéticos e filosóficos que se estenderam também à música (A quatro mãos, com Mário Vieira de Carvalho, 2005) e à pintura com vários textos sobre a obra de artistas portugueses (in Modos da Evidência, 1998)!
Com o fim da ditadura, o 25 de Abril abriu-lhe, como aos outros exilados e expatriados, a chance de trabalhar em liberdade com aquele mínimo de condições que a universidade portuguesa em reconstrução nos concedeu. Entre Lisboa e Paris, dedicou então parte da sua energia criadora a essas novas enciclopédias “problemáticas e críticas”, como lhes chamou, que são a Encyclopédie Universalis (Paris, 1968-1975) e a Enciclopedia Einaudi (Turim, 1977-1984; traduzida em português pela Imprensa Nacional de Lisboa), nas quais também me deu oportunidade de colaborar.
Ao mesmo tempo, introduzia perspectivas inéditas no ensino da filosofia em Portugal; lançava a primeira das suas revistas, Filosofia e Epistemologia (Lisboa, 1978-), e reunia boa parte dos textos então produzidos em Mimésis e Negação (1984), o que lhe trouxe o reconhecimento geral como o mais original e actualizado pensador português, nomeadamente no campo da epistemologia e da filosofia das ciências, que desde sempre o atraiu pelo lugar central que esse campo ocupa nos sistemas de pensamento e conhecimento modernos.
Mais tarde, foi o lançamento da revista Análise (1984-2005) e a fundação do Gabinete de Filosofia do Conhecimento, com sede na Biblioteca Nacional, quando eu era director (1985-1990), sendo-me então possível apoiar logisticamente esse grupo cujos motores eram a heterogeneidade e a vontade sabiamente orientadas pelo Fernando; e depois a publicação das suas Provas em 1986 (traduzidas em Francês em 1988), que constituíram, ao mesmo tempo, a sua prova de agregação universitária e o estudo das práticas da prova e da controvérsia.
Entretanto, Fernando Gil havia, precisamente, coordenado um grande colóquio internacional em Évora sobre as Controvérsias científicas e filosóficas (1985), ao qual se seguiu aquele que organizou em Paris em 1988 sobre Wiittgenstein (Acta publicada pelo Collège International de Philosophie em 1990); outro colóquio, desta vez não publicado, foi o organizado por ele, Vasco Graça Moura, então director da Imprensa Nacional, e eu próprio, sobre as “Enciclopédias e Bibliotecas” enquanto lugares de organização e produção do conhecimento. Por fim, a conquista do seu lugar no campo filosófico internacional, com a escolha de Fernando Gil pelos seus pares para “Directeurd’études” da Ecole dês Hautes Etudes en Sciences Socialesde Paris. Foi, talvez, a época mais fértil da nossa colaboração e o cimento inquebrável da nossa amizade.
Em 1993, o Prémio Pessoa assinalou o reconhecimento público e a plenitude pessoal de Fernando Gil. Com a publicação das obras de maturidade (Le Traité de l’Évidence, 1992, e La conviction, 2000), ele acercou-se enfim à possibilidade de uma síntese, onde fica unida a sua dupla capacidade para a abrangência temática e para a profundidade analítica. Entretanto, em Português ou em Francês, frequentemente em ambas as línguas, Fernando Gil havia de publicar um conjunto vastíssimo de tratados, livros, colectâneas, artigos, colaborações, textos para enciclopédias e para catálogos de arte, etc. O Fernando estava, creio eu, a fazer o seu ajuste de contas com o "militantismo", que nunca terá sido a sua primeira escolha, apesar de haver participado no importante grupo de exilados anti-fascistas contra a guerra colonial – o MAR, Movimento de Acção Revolucionária.
De modo tal que, apesar dos meus esforços, não logrei localizar uma bibliografia completa dos seus títulos desde 1961 a 2006 – 45 anos de expressão da sua enorme criatividade e da sua inesgotável energia – que importa fazer título a título, edição a edição. Enfim, “mors certa hora incerta”, como ele próprio recordou filosoficamente no último capítulo daquele que viria a ser o seu derradeiro livro (Acentos, 2006); a sua morte, porém, chegou cedo demais; hoje, é Fernando Gil quem dá o nome, merecidamente, ao Prémio Internacional de Filosofia das Ciências atribuído pelo Estado português e pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Resta-me evocar algo de, simultaneamente, mais pessoal e mais teórico. Na primeira reunião em casa do Fernando, há quase 50 anos, o tópico geral era a política depois de Maio de ’68, e a minha presença – sugerida pelo irmão dele, o também filósofo José Gil, igualmente presente nessa reunião depois de haver colaborado com o grupo dos Cadernos de Circunstância (Paris, 1967-1970) – devia-se à minha condição de animador daquele grupo e de “militante” político. O Fernando estava, creio eu, a fazer o seu ajuste de contas com o “militantismo”, que nunca terá sido a sua primeira escolha, apesar de haver participado no importante grupo de exilados anti-fascistas contra a guerra colonial – o MAR, Movimento de Acção Revolucionária – juntamente com o meu futuro colega há pouco falecido, o seu amigo e grande intérprete do regime salazarista Manuel de Lucena, que esteve connosco no funeral do Fernando nos Pirinéus!
O motivo imediato do encontro do “loft” da Bastilha onde Fernando Gil vivia era discutir um ensaio que ele estava a escrever sobre a hipotética renovação do marxismo então proposta por Louis Althusser. O ensaio foi publicado na revista Ruedo Ibérico e a sua resposta à pergunta sobre a eventual renovação althusseriana do marxismo era negativa. E apenas uma vez terá conferido, alguns anos depois, um enquadramento político à sua reflexão filosófica num extenso texto publicado no Brasil em 1974, por um cientista português igualmente exilado, o físico teórico Jorge Dias de Deus, onde se pode reconhecer uma influência mais metafórica do que ideológica do obreirismo neo-marxista italiano de então: “O Plano da Ciência”.
"A contribuição filosófica mais decisiva de Fernando Gil para o entendimento do político e do seu princípio de razão encontra-se em 'La Conviction' (2000), nomeadamente na 2.ª parte do livro, dedicada ao “pensamento soberano”, onde fornece ainda uma passagem para o conhecimento local da política." Só muito mais tarde, já no século XXI, Fernando Gil voltaria à política do dia. Dito isto, a presença do político – diversamente da política – atravessa de forma latente todo o pensamento de Fernando Gil, como afirma Paulo Tunhas. É que ele pensava o político e o científico, assim como o estético e o religioso, implicados uns nos outros e não se deixando reduzir ao exclusivo funcionamento interno de cada campo, em especial o da política. Na realidade, todos esses campos autónomos nas suas manifestações fenomenológicas passariam por pré-construções cognitivas e intelectuais – em suma, na linguagem de Fernando Gil, por evidências e convicções – através das quais mergulhariam num solo comum. Como para Leibniz, que usou para escrever um texto luminoso intitulado “O Lugar do Outro” (Passé Présent, 1984; publicado em português na revista Risco publicada pelo Clube da Esquerda Liberal (1984-1987), também para Fernando Gil “não existe o político puro”. Um exemplo precoce de exploração desse grund comum entre o político e o científico é o referido “Plano da Ciência”, que voltou a publicar nas Mediações em 2001. Em Fernando Gil, o político – mais do que nas ideologias e os seus agentes, que até ao 11 de Setembro de 2001 não lhe tinham despertado particular interesse – circula antes entre o direito e a ética, acerca dos quais dialogou não só com os clássicos, desde Hobbes e Spinoza a Rousseau e Kant, mas também com os contemporâneos, ora com Karl Schmitt e Kelsen, ora ainda com Habermas e Rawls. Foi em discussão com os dois últimos que produziu um belo artigo sobre deveres e direitos que ilumina os fundamentos do welfare state, tema ao qual regressou no último texto que publicou, onde evoca comovido a ética de serviço público reinante no hospital público de Paris onde viria a falecer.
Porém, a contribuição filosófica mais decisiva de Fernando Gil para o entendimento do político e do seu princípio de razão encontra-se em La Conviction (2000), nomeadamente na 2.ª parte do livro, dedicada ao “pensamento soberano”, onde fornece ainda uma passagem para o conhecimento local da política, através do “duplo estatuto do cidadão, sujeito individual e soberano”. O mais importante a reter, na leitura da soberania feita por ele, é que “a revolução operada por Jean Bodin [século XII] consiste em extrair o fundamento do poder do próprio político”, transformando este último numa “transcendência na imanência”, em suma, numa vontade ilimitada, conflitual e violenta, cuja “liberdade selvagem coloca permanentemente em perigo a ordem jurídica”. É este risco, que Karl Schmitt exaltava mas que, pelo contrário, “o Estado de direito moderno e democrático pretende controlar, definindo antecipadamente as situações que autorizam a derrogação da ordem jurídica normal”, domesticando, por assim dizer, tanto a “tirania” como o “poder constituinte”.
As implicações extraídas por Fernando Gil deste encadeado de “convicções” passam pela crítica das ficções constitucionalistas, mas também pela admissão kantiana de que todo o pensamento tem a vocação de tomar a intuição por finalidade, a fim de chegar aos “princípios da ciência” e à sua “causalidade autárcica” homóloga da soberania política, através da qual Gil tece o fio de uma comunalidade geral da convicção em torno de todo o espaço mundano, do político ao científico.
Quanto à política – enquanto segmento da vida mundana – vê-se assim reduzida à sua mecânica interna. E como tal, com a excepção relevante dos Impasses (2004), que escreveu com Danièle Cohn e Paulo Tunhas, e da secção final – significativamente intitulada “Medos” – da última recolha de ensaios que ainda pôde editar (Acentos, 2005), Fernando Gil acabou por ocupar-se talvez menos da política como filósofo do que como cidadão, enquanto jovem militante anti-colonialista que foi em Moçambique onde nasceu e viveu até aos 18 anos, o que chegou a valer-lhe a prisão; enquanto adversário permanente da ditadura e, finalmente, enquanto adversário da deriva esquerdizante de 1974-75 em Portugal.
E foi mesmo político, no melhor sentido da palavra, enquanto pensador de “os saberes e a cidade” (Acentos, pp. 181-251), em prol da política científica promovida pelo precocemente falecido José Mariano Gago, nosso companheiro do Gabinete de Filosofia do Conhecimento e ministro socialista da Ciência durante 12 anos; ou ainda enquanto impulsionador do programa de investigação do Gabinete de Filosofia do Conhecimento que culminou no número da revista Análise sobre “O Interesse Público” (1994). E, claro, enquanto organizador de conferências e colóquios da importância do Balanço do Século (1990) e A ciência como cultura (1992), realizados durante a presidência de Mário Soares.
Já com a publicação de Impasses (2003), Fernando Gil demonstra como foi profundamente interpelado pela violência inaudita do 11 de Setembro de 2001 e pela fractura que o terrorismo e o fundamentalismo islâmicos abriram nas próprias sociedades demoliberais. São conhecidos os conteúdos da controvérsia que se seguiu comigo e outros interlocutores, reunida em Acentos (2005), pelo que será suficiente reconhecer que as preocupações que então o mobilizaram não só tinham toda a razão de ser como estão muito longe de haver desaparecido. Nesse sentido, consola-nos que Fernando Gil tenha sido poupado à posterior «cavalgada do terror», mas isso não diminui a perda sentida pela sua família e pelos seus amigos e admiradores.

Um clássico para a História



Desta vez, VPV deixou o discurso pontilhista do comentário diário, para se lançar sobre a análise mais funda do comportamento do PS e dos seus “afins” da parceria, o que implica todo um saber sereno, na interpretação, não tendenciosa, mas de uma lucidez acutilante de estudioso, com que descodifica a actuação de cada um e sobretudo do fenómeno “jovem” do BE, que parece cair no goto ávido de um público aparentemente beneficiado pelas exigências deste junto do PS, exigências não provenientes de real afecto pelo “povo maltratado de sempre”, mas de real irresponsabilidade megalómana e chantagista, de quem pode fazer um vistão de generosidades que não implicam prestação de contas, como, criteriosamente, mas também por obrigação e cautela, o governo PS aparentemente se esforça por praticar, com a necessária ponderação, para a sua continuidade na “praça”…
Uma página de Diário, pois, a merecer a quase geral anuência dos seus Comentadores, impecável de destreza intelectual. Como dantes… E com a gratidão de quem o lê, assim sereno e lucidamente decisivo.

OPINIÃO
Diário
Vasco Pulido Valente escreve que “o Bloco, sendo um partido-espectáculo, não se distingue bem da ala esquerda do PS. Essa vizinhança, que, ainda por cima, é geracional, ameaça o equilíbrio do PS”.
VASCO PULIDO VALENTE
PÚBLICO, 31 de Agosto de 2019
O amigo do primeiro-ministro tem razão num ponto: o Bloco é mesmo um partido dos mass media. À nascença só saiu da obscuridade porque Miguel Portas e o conselheiro Louçã eram telegénicos; uma surpresa para os costumes estabelecidos. Ninguém esperava que os chefes de um partido que se dizia revolucionário fossem dois jovens manifestamente da alta classe média, que se vestiam bem e não falavam a língua-de-pau do Partido Comunista. O público gostou.
E os jornalistas gostaram ainda mais. O Bloco representava para eles a “autêntica” esquerda que eles procuravam desde o fim da “festa” de Abril ou da memória dela. O Bloco era o lugar certo para se ser radical sem responsabilidades. Uma certa franja da intelligentsia portuguesa e do eleitorado urbano que não tinha vivido nenhum período político formativo e se sentia isolada num mundo hostil seguiu o Bloco simplesmente porque não queria votar no statu quo. E, depois, as “causas fracturantes” e o “politicamente correcto” deram outra força a um partido estranhamente fundado por trotskistas e comunistas desiludidos. Mas, durante todo o tempo, a imprensa e a televisão alimentaram o BE e fizeram-no crescer.
De resto, isso continua a ser verdade. Basta pensar nos militantes e antigos militantes do Bloco e companheiros de caminho que pairam na televisão: o conselheiro Louçã, o velho Fernando Rosas, Daniel Oliveira, Ana Drago, Rui Tavares, Ricardo Paes Mamede e, acima deles, a nova grande estrela Mariana Mortágua. A própria Catarina Martins sai-se muito bem a metralhar frases feitas no telejornal. Remova-se toda esta gente dos mass media e o que fica? Fica uma organização débil e uma retórica sem objecto. O Bloco não tem um apoio social, tem uma audiência.
A julgar por um artigo rábido de Fernando Rosas, o grande medo do Bloco é que o PS chegue à maioria absoluta. E o grande medo de Costa é de se ver forçado a uma aliança mais do que efémera com o Bloco e, principalmente, de o pôr no governo.
25 de Agosto
O amigo do primeiro-ministro não tem razão a respeito do Partido Comunista, que não é um verdadeiro “partido de massas” mas, como o primeiro-ministro bem sabe, é um partido institucional com um vasto património imobiliário, os seus fiéis funcionários, algumas câmaras importantes e uma história que garante uma muito maior fiabilidade aos seus compromissos.
Além disso, o comunismo assenta numa teoria morta e num passado comprometedor. O Bloco, livre destes pesos e sendo um partido-espectáculo, não se distingue bem da ala esquerda do PS. Essa vizinhança que, ainda por cima, é geracional, ameaça o equilíbrio do PS. Se por acaso, depois de Outubro, o PS precisar de alguns votos da esquerda para governar prefere, com certeza, que esses votos venham de um partido sólido e seguro e não de um partido inconsistente e, sobretudo, imprevisível como o Bloco. O PS, aliás, com a sua monstruosa máquina, com dezenas de câmaras e com os seus adeptos no funcionalismo e na economia, é conservador e treme ter um parceiro que não respeita as conveniências. A questão da maioria absoluta, que emociona os portugueses, e os jornalistas, não passa disto.
Colunista

COMENTÁRIOS:
Fernando Costa, 31.08.2019: A realidade é sempre simples.
José Manuel Martins, 31.08.2019: santa ingenuidade: as massas são actualmente os mass media. E estes mass media permitem ao BE uma dominação maciça, massiva, de massas, sem paralelo: a esfera ideológica da cultura. Na sua estratégia neo-gramsciana de conquista dos eixos e pivots do todo social - do mesmo modo que a agenda neo-gramsciana da China à escala da dominação soft planetária, com pezinhos de lã e sem se dar por ela -, o BE marca a agenda do que se pensa, do que se diz: a agenda social total dos totems e tabus, arrastando na avalancha, precisamente, não só 'a esquerda do ps', como toda a bezerrada gelatinosa-burguesa do centro bocejante. Hoje pensamos made in Bloco, que policia as “formae mentis”. Dizia Kundera que o comunismo ganhara a batalha simbólica: o BE guinda essa vitória aos requintes da servidão voluntária.
Espectro: É bom lembrar que VPV é reformado da função pública, embora - fica politicamente sempre bem - ele aqui a diabolize. Quanto ao resto, concordo como ele, maxime, no que ao BE se refere - aquilo nada mais é que um grupo rock que em vez de música resolveu juntar-se para fazer um bocado de política-espectáculo. LOL
agany: Se o PS não obtiver maioria absoluta, no primeiro choque irredutível com o BE, teremos eleições antecipadas. O Governo pode não durar 6 meses.
Luis Morgado: Vasco Pulido Valente tem razão. De facto o PS é um partido "acolhedor", alberga um amplo leque de tendências, desde a extrema esquerda à direita. É cada vez mais uma grande União Nacional. Se o Bloco alguma vez desaparecer, os seus votantes não ficarão órfãos. Haverá sempre um canto confortável no PS para os receber. Hoje o PS é um partido que aspira a ser de direita, embora disfarçado com um folclore e uma indumentária vagamente de esquerda. Já os órfãos dessas irrelevâncias que são o PSD e o CDS devem estar há muito tempo a pensar juntar-se ao PS, não sabem é como. Deve haver uma regra na democracia portuguesa que faz com que esta seja um espelho fiel da nossa mediocridade. Distinguimo-nos na Europa e no mundo por isso mesmo, por sermos simpaticamente medíocres.
bento guerra: Tudo o que traga assentos parlamentares para a organização do Largo do Rato, é bem-vindo
A sua descrição do BE fez-me rir, não por estar errada mas por estar certa. Tire-se ao BE o acesso à espuma dos dias e o partido desaparece do mapa em 3 tempos. Quanto ao PC, as pedras também são duradouras e coerentes, mas o tempo acaba sempre por as fazer desaparecer.
FPS: Um texto de história feito na hora... feito em tempo de jornalismo. Coisa rara.
Mario Coimbra: Pois. Certeiro.