sábado, 28 de setembro de 2019

Uma descoberta muito curiosa



Para complicar mais o estudo, surgiram agora estes denisovanos! As crianças é que sofrem, com os estudos cada vez mais apurados com tanta descoberta. Desta vez, por conta dos genes. Os espantos do passado desconhecido, as preocupações do futuro a conhecer. Denisovanos! Mas eles não se reconheceriam na designação. Homo sapiens é que nos ilustra, e vamos brilhando a essa luz latina, que nem sempre condiz, é certo, com a moderna, da nossa envolvência global e difusa. Mas ainda não devemos ficar por aqui em nomenclatura genética, pois os “sapiens” são imparáveis, na antropologia como no resto.
Assim seriam os denisovanos, uma espécie de humanos já extinta
Pela primeira vez, retratou-se um grupo de humanos que se extinguiu há 30 mil anos, os denisovanos.
PÚBLICO, 19 de Setembro de 2019
Há cerca de 70 mil anos uma jovem denisovana vivia numa gruta do Sul da Sibéria. Pensa-se que se adaptava bem às elevadas altitudes e ao frio. Mas como seria este membro de uma espécie de humanos já extinta? Esta quinta-feira, a revista científica Cell divulga a primeira reconstituição anatómica do esqueleto dos denisovanos. Para podermos perceber melhor como seriam esses humanos, a equipa – que inclui cientistas de Israel e de Espanha – também retratou a jovem denisovana.
Desaparecidos há cerca de 30 mil anos, os denisovanos viveram no Norte, Leste e Sudeste da Ásia. “Não se sabe bem qual era o seu ambiente, mas alguns humanos modernos [a nossa espécie] receberam deles fragmentos de ADN que hoje os ajudam a adaptar-se a altitudes elevadas – no caso dos tibetanos – e ao frio – nomeadamente os inuítes”, realça ao PÚBLICO Liran Carmel, geneticista da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do trabalho. “Portanto, podemos supor que os denisovanos estavam adaptados a viver nessas circunstâncias.”  
Sabia-se muito pouco sobre a anatomia dos denisovanos. Até agora, tudo o que tínhamos deles eram dentes, uma falange e uma mandíbula. Os dentes e a falange foram descobertos na gruta de Denisova – que dá o nome a estes humanos –, nos montes Altai, na Sibéria. Em 2010, as análises ao ADN desses ossos reconheceram oficialmente os denisovanos como uma espécie humana. Já em Maio deste ano foi anunciada a descoberta da parte direita da mandíbula na gruta Baishiya Karst. Esta foi a primeira vez que se encontrou um fóssil de um denisovano fora da Sibéria.
Para se reconstituir a anatomia dos denisovanos, a equipa usou um processo de regulação epigenética chamado “metilação”, em que alterações químicas influenciam a actividade dos genes. Desta forma, comparou-se os padrões da metilação do ADN de denisovanos, neandertais (outros humanos já extintos) e humanos modernos e extraiu-se informação anatómica a partir dos padrões de actividade dos genes desses três grupos. Com base nesta reconstituição, os denisovanos seriam mais parecidos com os Neandertais MAAYAN HAREL
“Ao fazermos isto, conseguimos prever como é que as distintas partes do esqueleto são afectadas pela diferente regulação de cada gene – por exemplo, se um fémur é maior ou mais pequeno”, esclarece David Gokhman, também da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do artigo, num comunicado sobre o trabalho.
Antes de avançar com o resultado final, – como forma de testar este método –, a equipa também o aplicou a neandertais e chimpanzés, que têm uma anatomia já conhecida. Resultado: esta reconstituição teve uma precisão de cerca de 85%. A equipa sentiu-se então preparada para fazer a primeira reconstituição anatómica dos denisovanos.
Mais parecidos com neandertais
Retratou-se assim uma jovem denisovana que viveu há cerca de 70 mil anos na gruta de Denisova. “Esta é a primeira reconstituição da anatomia do esqueleto dos denisovanos”, frisa Liran Carmel. “Em muitas coisas os denisovanos parecem neandertais, em alguns traços também se parecem connosco, mas em muitas outras características são únicos.”
Ao todo, encontraram-se 56 características anatómicas em que os denisovanos diferem dos humanos modernos ou dos neandertais e 34 delas são no crânio. Por exemplo, o crânio dos denisovanos deveria ser mais largo do que o dos neandertais e dos humanos modernos. Também teriam uma arcada dentária mais longa, como se confirmou com a mandíbula descoberta no Tibete.
Em geral, os traços dos denisovanos assemelham-se mais aos dos neandertais do que aos nossos, o que já era expectável com base na sua filogenia [pois é uma espécie ‘irmã’ dos neandertais]”, refere Liran Carmel. Tal como os neandertais, teriam caras alongadas e pélvis largas.
Mesmo assim, este método não fornece medidas corporais exactas: “Podemos dizer [que os denisovanos tinham] dedos maiores [do que os dos humanos modernos], mas não podemos dizer que eram dois milímetros maiores”, esclarece Liran Carmel à revista Science.
No comunicado, a equipa assinala que este método pode agora ser usado para se reconstituírem características anatómicas desconhecidas de outros humanos. Também nos poderá vir a dar mais informações sobre a evolução dos hominídeos. “Pode ensinar-nos como é que grupos de humanos se adaptaram durante a evolução, quais os genes que definiram a sua morfologia e como é que as misturas genéticas afectaram os humanos modernos – isto porque hoje em dia o ADN dos denisovanos está em pessoas do Pacífico, da Austrália e do Leste da Ásia”, enumera Liran Carmel. “Definitivamente, há muito mais a ser descoberto sobre como os denisovanos moldaram os humanos modernos.”
Apesar de ter achado esta reconstituição “inteligente”, Ludovic Orlando – arqueólogo da Universidade de Copenhaga (Dinamarca) e que não fez parte do estudo – avisa que é preciso ter cautela com as generalizações baseadas na reconstituição de um único indivíduo, assinalou à Science. Por isso, Gabriel Renaud – também da Universidade de Copenhaga e que não fez parte do estudo – refere que os autores do estudo devem divulgar os métodos computacionais utilizados para que outros cientistas possam reproduzir a reconstituição dos denisovanos. A descoberta de novos fósseis também poderá confirmar (ou não) os resultados.
Neste momento, os cientistas no laboratório de Liran Carmel estão a tentar encontrar outras informações sobre diferentes grupos de humanos através da metilação do ADN.
COMENTÁRIOS
rafael.guerra.www, 20.09.2019: É mais fácil reconstituir a partir de pedaços a denisovana, que viveu há 70,000 anos, do que resolver o puzzle da educação de milhões que ainda acreditam no 3º milénio que o mundo tem 6000 anos...
Guilherme de Almeida, 19.09.2019: Magnífico.
Anjo Caído, 19.09.2019: Isto é uma notícia interessantíssima nos tempos que correm. Só há uma raça humana... ou não, quer dizer, agora só há uma, já houve outras, só que desapareceram. Mas há humanos hoje que têm genes desta outra raça de humanos (até os dedos se me enclavinham ao escrever uma coisa destas). O tema é tocado de maneira tão científica que assim toca em muitos tabus - só que ninguém repara.
Luís Miguel, 19.09.2019: Não se entusiasme. Não se trata, em rigor, de raças. O artigo fala de espécies, mas trata-se (provavelmente) de subespécies, já que a presença de ADN destes homo sapiens na subespécie sapiens sapiens (a nossa) indicia que não se ficaram (apenas) por avistamentos (cautelosos) à distância.

NOTAS DE APOIO
Para revisão dos conceitos a respeito da evolução da espécie humana.
(Da Internet)

5 etapas da evolução humana:
setembro 26th, 2011
A espécie humana, como conhecemos, foi resultado de uma longa evolução física e biológica que já dura, aproximadamente, 4 milhões de anos. À medida que se foi distanciando de seus ancestrais macacóides, os hominídeos foram utilizando ferramentas, andando de forma erecta, aumentando a massa cerebral, desenvolvendo a linguagem e adquirindo consciência.
Australopiteco
O Australopiteco é considerado o ancestral mais antigo do ser humano. Viveu na África há aproximadamente 3 milhões de anos. O volume de seu crânio era de cerca de 500 cm³, um pouco maior que o dos actuais macacos. A sua forma de linguagem não era mais elaborada do que a de um chimpanzé. Tendo aparecido pelas primeiras vezes no sul de África, as suas principais características físicas englobam a baixa altura (não ultrapassava os 1,40 metros), bipedismo, fronte baixa e maxilares bastante salientes.
Homo Habilis
O Homo Habilis inventou as primeiras ferramentas e viveu há aproximadamente 2 milhões de anos. O volume de seu crânio era de 800 cm³ – o dobro do crânio do chimpanzé. Levava uma vida nómada nas savanas do leste da África, alimentando-se de carne, obtida através da caça, além de frutos e outros vegetais. Há indícios de que tinha um tipo de linguagem rudimentar. A sua altura seria de aproximadamente 1,27 cm, com um peso de, aproximadamente 45 kg. As fêmeas podiam ser menores.
Homo Erectus
O Homo Erectus viveu há aproximadamente 1 milhão de anos. Sabia utilizar alguns instrumentos feitos de pedra e era um hábil caçador. O volume de seu crânio era de 1.100 cm³, o que equivale ao dobro do crânio dos macacos actuais. O Homo habilis e todos os Australopitecos foram encontrados somente na África, mas o Homo Erectus aparece localizado em áreas geográficas mais alargadas, como a Ásia, Europa e África. Existem provas que levam a concluir que manipulavam o fogo, apresentando de igual modo utensílios de pedra mais sofisticados.
Homo Sapiens
O Homo Sapiens viveu há aproximadamente 200 mil anos. Já era um artesão habilidoso e os seus utensílios eram melhores e mais eficientes do que todos os outros feitos anteriormente. O volume de seu crânio atingia 1.500 cm³, o mesmo volume do crânio do ser humano moderno. Através da indicação do indício fóssil, esse organismo revelou ser de baixa estatura e musculoso, com um cérebro praticamente do mesmo tamanho que o nosso, com região cerebral correspondente à fala bem desenvolvida.
Homo Sapiens Neanderthalensis
O Homo Sapiens Neanderthalensis– ou Homem de Neandertal – viveu há aproximadamente 100 mil anos . Nesta etapa, o ser humano já tinha preocupações espirituais e noção da morte. O volume de seu crânio atingia 1.700 cm³, levemente maior do que os humanos modernos. Os homens mediam em média 1,68 cm. Os ossos eram fortes e pesados, mostrando sinais de uma poderosa estrutura muscular. Foram formidáveis caçadores e há indícios de que já praticavam rituais funerários.


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Grécia revisitada



«Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera! (OS LUSÍADAS; IV, 103)

Excertos de PROMETEU AGRILHOADO de Ésquilo (< “CLÁSSICOS DO TEATRO GREGO” –Ediclube):
(Entram em cena Força e Violência arrastando o corpo de Prometeu. Hefesto segue-os coxeando)
FORÇA – Eis-nos chegados aos confins do mundo, o país dos Citas, um deserto nunca pisado. Hefesto, executa as ordens dadas por teu pai. Amarra este celerado no cimo desta rocha escarpada com cadeado diamantino que ninguém possa quebrar. Porque roubando o tesouro que era teu, o fogo fulgurante, pai de todas as artes, dele fez oferta aos mortais. Justo é que os deuses o castiguem por este crime, para aprender a resignar-se ao domínio de Zeus e assim abdicar de favorecer os homens…..
…. (Entra o Coro das Oceânidas, num carro alado)
CORO: Nada temas, pois amigo é o bando que, num bater veloz de asas chegou a este cume, após ter vencido, a custo, a relutância de um pai. Conduziram-nos os rápidos ventos, pois o ressoar de aço batido penetrou até às profundezas da nossa caverna, expulsando de nós a timidez e, descalças como estávamos, nos precipitámos neste carro alado.
PROMETEU: Ai de mim! Filhas da fecunda Tétis, filhas do Oceano, cujas marés sem repouso rodeiam toda a terra, olhai-me. Vede com que férreos laços me prendem ao cimo desta escarpa onde terei de suportar a minha terrível vigília.
CORO: Vejo-te, Prometeu, e um temor encheu de súbito os meus olhos ao contemplar o teu corpo que definha sobre essa rocha, ultrajado por grilhões inflexíveis. Novos senhores governam o Olimpo e, em nome das recentes leis, Zeus reina com tirania e aniquila hoje os fortes de outrora.
PROMETEU: Antes me tivesse lançado para as profundidades da terra, para o Hades, leito dos mortos, no imenso Tártaro, e me acorrentasse cruelmente com cadeias inquebrantáveis, de modo que nenhum deus ou ser algum rejubilasse com o meu sofrimento. Em vez disso, mísero de mim, eis-me o joguete dos ventos, sofrendo para gáudio dos meus inimigos.” …….

É certo que a cena de Greta Thunberg, nos Estados Unidos, chorosa, suplicante e ameaçadora, rodeada do seu coro de acompanhantes, me lembrou qualquer tragédia do Ésquilo, do Sófocles ou do Eurípedes, e sobretudo até das várias heroínas que um destino cruel amarrou, aos seus ódios ou amores, Fedra, Antígona, Medeia, ou mesmo o desgraçado do Édipo que o destino inflexível condenou… Mas os lamentos de Prometeu exemplificam igualmente o castigo imposto quando se desafiam os deuses, daí a escolha do excerto de Ésquilo.
Paulo Tunhas, pelo contrário, dá-nos a lição de Greta, como exemplo de fanatismo - falso porque se diz iluminado, em condenação ameaçadora, assumindo papel de vítima e de algoz. Creio que tem razão, Paulo Tunhas, gostei a valer da sua crónica, e reponho a sua frase em epígrafe, excelente síntese do que nos informa o seu texto, sobre uma cumplicidade entre jovens e adultos numa questão que leva aqueles a um ódio pouco sadio, em benefício das posições ideológicas que valorizam sinistramente esse ódio: “Esta nova exigência de unanimidade em torno de Greta Thunberg representa uma exigência de regresso à faceta mais negra do pensamento adolescente, a outra face, a lunar.”
Seja como for, não fora o fogo roubado a Zeus, pelo atrevido do Prometeu, não estaríamos nós agora em luta titânica com uma Terra vingadora, os Gregos já o sabiam…

A lição de Greta Thunberg /premium
Esta nova exigência de unanimidade em torno de Greta Thunberg representa uma exigência de regresso à faceta mais negra do pensamento adolescente, a outra face, a lunar.
PAULO TUNHAS
OBSERVADOR, 25 sep 2019
Gosto muito de ver aqueles grupos de adolescentes que, antes ou depois dos concertos dos seus ídolos nesses festivais rock que hoje em dia há em todo o lado, são entrevistadas pela televisão e cantam as músicas favoritas deles. Naquelas idades, a experiência da música é muito a experiência da repetição e, sobretudo, a experiência de uma comunidade de gosto que é quase uma exigência de unanimidade, que, de uma maneira geral, governa as amizades nessa altura. E aquele entusiasmo que se vê naquelas caras e naquelas vozes diz precisamente isso nos seus momentos felizes.
Com a idade, essa exigência de unanimidade vai-se, graças a Deus, perdendo, embora subsista sempre em nós, em matéria de gosto, uma reivindicação tácita de universalidade, que aprendemos, pelo menos na aparência, a dominar. Noutros domínios, como o político, a exigência de unanimidade é mais superficial, menos originária, e mais facilmente controlável. E, quando não o é, o feroz desejo de um acordo integral conduz a resultados que não são nunca bons, para falar delicadamente.
O meu desconhecimento da música pop contemporânea roça desgraçadamente o absoluto, embora de vez em quando faça um esforço ridículo para ganhar alguma ciência no capítulo. De qualquer maneira, isso não interessa. Li no outro dia, numa história da música soul, o excerto de uma entrevista de uma cantora gospel (gosto muito de música gospel), Cissy Houston (a mãe de Whitney Houston), onde ela dizia que “quando se fala sobre uma coisa viva – e eu acredito que a música é uma coisa viva, que respira – temos de compreender que ela avançará e mudar-se-á para sobreviver”. A música pop de hoje em dia, sobre a qual nada sei, passado há muito o transcendente saber dos meus treze anos, é certamente o resultado dessas metamorfoses necessárias à sua sobrevivência. As formas desenvolvem-se, sem que seja por qualquer necessidade própria determinável, mas a partir de invenções de profundidade variável, umas a partir das outras. O importante é que dêem prazer.
Mas voltemos ao princípio, à exigência de unanimidade. Ela é natural na idade certa e no lugar certo, que é o das miúdas de que falei no princípio. E, nesses casos, tem a graça própria ao natural. Transposta para outros contextos, há nela qualquer coisa de inquietante e de ameaçador. Ora, vivemos em tempos mediáticos de uma exigência de unanimidade como não me lembro de alguma vez ter vivido, isto é, tempos de regressão sistemática e generalizada. Na maior parte das vezes, uma exigência de unanimidade negativa, definida a partir da obrigação de detestar – e detestar integralmente, sob a forma da radical abominação – pessoas tão diferentes como Trump, Bolsonaro ou Boris Johnson. Qualquer acordo, por mais pontual que seja, com algo que tenham dito ou escrito, é anátema e faz com que passemos a “trumpistas”, etc. Não é bom viver assim.
Nos últimos tempos surgiu, no entanto, na figura de Greta Thunberg, um novo objecto de unanimidade, desta vez positiva. É muito curioso. Não por causa da questão das “alterações climáticas” em si – uma questão importante e interessante, entre outras coisas, porque toda a controvérsia é “impura”, cruzando elementos científicos e políticos numa proporção extrema –, nem sequer porque há um óbvio drama humano ali, um drama que só muito dificilmente terá um final feliz. É curioso porque esta nova exigência de unanimidade em torno de Greta Thunberg representa uma exigência de regresso à faceta mais negra do pensamento adolescente, a outra face, a lunar, da moeda do comportamento das miúdas que cantam na televisão as canções dos seus heróis musicais. E porque há um coro de adultos (excepção feita a Trump, diga-se a verdade), a começar por António Guterres, que fazem a triste figura da mais declarada inferioridade e mostram o mais acabado temor reverencial.
O discurso de Greta Thunberg na “Cimeira do Clima” foi um momento de perfeito horror. Primeiro, porque, patentemente, a “emoção” foi friamente encenada do princípio ao fim, algo que saltava aos olhos do mais distraído dos humanos. Não havia um átomo de veracidade naquela intervenção, se exceptuarmos, concedo, um ódio cego e monomaníaco. Confesso que, nunca tendo ouvido um discurso dela, a coisa me surpreendeu: a terrível simulação surpreendeu-me. Depois, porque todas as palavras transportavam ameaças de vingança divina. O natural dogmatismo da adolescência assumia ali as proporções do fanatismo e do “tudo ou nada” mais extremo. “Como se atrevem?”, diz o doce anjo da vingança, que acusa os seus passivos auditores de lhe terem “roubado a infância” com as suas “palavras vazias”. Eles que não contem jamais com o seu perdão.
Ao ouvir aquele discurso, a luz fez-se no meu espírito. O fanatismo – todos os fanatismos – não vive de nenhum sentimento absoluto da verdade do que se crê ou diz, de onde qualquer cepticismo se encontra arredado: vive do puro desejo de impor a sua crença aos outros. Por outras palavras, um fanático não precisa de se encontrar capturado por uma qualquer iluminação fantástica. Define-se sim pela necessidade de fazer crer que foi tocado por essa iluminação, como meio para a impor aos outros. É o desejo de a impor, e não qualquer efectiva expressão do seu íntimo mais profundo, que o move. Para mim, foi essa a inesperada lição de Greta Thunberg.
COMENTÁRIOS
Marie de Montparnasse: As alterações climáticas são globalmente uma realidade que toda a humanidade sente. Negar este facto não é inteligente. Por isso é urgente pôr os especialistas a falar e a apontar eventuais soluções. Não será pacífica qualquer solução que mude o estilo de vida da humanidade quer nos países desenvolvidos, quer nos em via de desenvolvimento ou nos pobres. Nada irá mudar com o choro e a revolta de Greta, os aplausos dos políticos e os seus belos discursos ou discussões e acções estéreis pelo mundo.
Antonio Fonseca > Marie de Montparnasse: As alterações climáticas são uma realidade mas por um lado o alarmismo em torno delas é muito exagerado e por outro não são, ou só numa pequeníssima parte, responsabilidade.
Isabel Martin Benito: Esta miúda tem perturbações mentais (que ela própria faz questão de exaltar...) e, talvez como consequência disso, teve uma reacção totalmente desmesurada a um documentário que viu na televisão. Assustou-te, e veio para a rua fazer barulho. Até aqui, nada de extraordinário… Um "fait divers" como qualquer outro, sem importância NENHUMA. O problema é quando se dá protagonismo a este tipo de situação, e a notícia corre o mundo inteiro, abrindo telejornais! A partir do momento em que ela passa a ter visibilidade, há imediatamente quem a "sugue", e se aproveite, nomeadamente, da falta de discernimento própria de quem só tem 16 anos…Esta é uma miúda excessivamente apavorada, sem autoridade ou conhecimentos científicos rigorosamente nenhuns, para além da lavagem cerebral a que foi submetida, e a quem gente sem escrúpulos vai alimentando o pânico mais e mais, com o objectivo de que ela consiga transmitir esse pânico a mais gente, essencialmente aos jovens facilmente "manipuláveis" como ela.Ora, o pânico e a falta de discernimento vão SEMPRE de mãos dadas (é, aliás, a razão de haver mecanismos "anti-pânico"…). Promover o pânico é, consequentemente, promover a falta de discernimento e o bloqueio do raciocínio, que é o que se está a fazer, de forma absolutamente premeditada e consciente. O que se deve fazer perante uma catástrofe iminente é tentar manter a CALMA, e controlar, precisamente, o pânico…Tendo em conta que se está a fazer precisamente o contrário no caso das alterações climáticas, é motivo para nos questionarmos…
Maria Mateus > Isabel Martin Benito: 100% de acordo. O que é triste é ver gente supostamente inteligente tratar esta atrasadinha mental como se fosse a nova Joana d’Arc ou o oráculo de Delphi. O politicamente correcto destrói.
Isabel Martin Benito > Antonio Vieira Malato: Eu gostaria de ter visto discursar na ONU, em vez da Greta, um cientista reconhecido, com 30 anos de experiência, e com estudos credíveis publicados sobre o clima. Em vez disto, temos uma adolescente, sem nenhuma autoridade científica, aos berros, a gritar: "Socorro, que me roubaram a infância e que vamos todos morrer!". Isto parece-lhe normal?! É este o meio "inteligente" para "informar" as "massas"?
fernando Simões: Greta é um caso de exploração de crianças. É descarada a manipulação de uma criança, ainda por cima com a doença de Asperger.
Ana Ferreira: Deve portanto concluir-se que, independentemente da realidade aterradora que os rodeia, os adolescentes deveriam, exclusivamente, cantar alegremente. Como é possível iludir a alma por uma ideologia!?
Isabel Martin Benit > Ana Ferreira: Não. Deve concluir-se que esta é uma adolescente em pânico, que precisa de ser acalmada e não encorajada… Que deve voltar à escola, e tratar do futuro que, efectivamente, TEM pela frente, e que não é tão curto como a fazem acreditar…O que estão a fazer com esta miúda é um abuso, e um crime, porque ela sofre realmente com aquilo de que diz. O aproveitamento é absolutamente óbvio e vergonhoso! Este aproveitamento, sim, é bem capaz de destruir o futuro dela…


Páginas de História que vivemos

Páginas de História que vivemos
Sobre Jacques Chirac, que morreu ontem. Lembramos dele o tom de imponência simpática, mas Teresa de Sousa o definiu com a precisão do conhecimento. Da Internet extraio o texto de apresentação:
Jacques René Chirac (Paris, 29 de Novembro de 1932Paris, 26 de Setembro de 2019) foi um político francês filiado à UMP. Foi prefeito de Paris, e primeiro-ministro da França, de 1974 a 1976 e de 1986 a 1988. Foi também o vigésimo segundo presidente da França, de 1995 a 2007. Como presidente, foi também co-príncipe de Andorra, por inerência.

CRÓNICA
Chirac: A mais longa cimeira europeia
Foi em Nice, no início de Dezembro de 2000, que Jacques Chirac presidiu, porventura, à sua mais difícil cimeira europeia, que ficou na história por muitas razões. Entre elas o Tratado de Nice e o projecto de Constituição Europeia, que os franceses rejeitaram em 2005.
TERESA DE SOUSA
PÚBLICO,26 de Setembro de 2019
Não tinha a panache de De Gaulle ou de Mitterrand, aquela distância do comum dos mortais de quem encarna a “grandeza da França”. Talvez porque fosse demasiado caloroso e afável - demasiado humano, escreve o Libération -, duas das características que toda a gente lhe reconhece. Partilhava com o general o mesmo sentimento ligeiramente eurocéptico, próprio do gaullismo, que ainda via a Comunidade Europeia como um instrumento ao serviço da França. Ironicamente, coube-lhe presidir ao fim de uma era em que Paris liderava a Europa, ainda ocidental, enquanto a Alemanha passava os cheques. Era assim o compromisso saído da II Guerra a que apenas a queda do Muro de Berlim viria pôr cobro, deixando emergir de novo no centro da Europa uma “grande potência” que começava lentamente a libertar-se dos constrangimentos da sua divisão durante a Guerra Fria.
Foi em Nice, no início de Dezembro de 2000, que Jacques Chirac presidiu, porventura, à sua mais difícil cimeira europeia, que ficou na história por muitas razões, entre as quais por ter sido a mais longa de sempre. Estava um tempo magnífico na bela cidade francesa do Mediterrâneo. Com a inevitabilidade do alargamento da União Europeia a Leste, era absolutamente indispensável alterar o sistema de votação no Conselhoo órgão onde estavam representados os Governos de uma União que já era de Maastricht, mas apenas a 15. Cabia à presidência francesa levar a cabo a reforma das instituições que contemplasse essa mudança.
No fundo, havia duas questões escaldantes em cima da mesa do Conselho Europeu. A primeira, como equilibrar o peso dos pequenos e médios países, cada vez mais numerosos, com o dos grandes, para que estes últimos não corressem o risco de ficar sistematicamente em minoria. A segunda, que peso atribuir a uma Alemanha unificada, que passava a ser o “maior” entre os “maiores”. Era uma questão de população. Mas era também quebrar um princípio implícito que existia desde a fundação da Comunidade: a igualdade entre Paris e Bona e, depois, Berlim. Para um Presidente da França era quase insuportável.
Gerhard Schroeder, o chanceler alemão, muito diferente de Kohl, que vivera a guerra, avisara que o seu país passaria a “defender o seu interesse nacional” como qualquer outro. O chanceler alemão não era dado a nuances, interessava-se pouco por História, era um pragmático. A Alemanha tinha de ter mais votos no Conselho. Numa conferência de imprensa verdadeiramente dramática, Jaques Chirac não hesitou em lembrar o passado da Alemanha e a sua dívida à França e aos outros países europeus, para defender a paridade. Um acordo só foi possível cinco dias e quatro noites depois. Nasceu o Tratado de Nice.
O chanceler exigiu a convocação de uma Conferência Intergovernamental para reformar de alto a baixo as instituições da União. Nasceu uma Constituição europeia. De vida curta. Os franceses, ainda com Chirac no Eliseu, chumbaram-na num referendo em 2005, desferindo-lhe um golpe fatal. A França precisava de tempo para se adaptar às novas condições geopolíticas de uma Europa alargada à dimensão do continente.
Chirac era uma personalidade complexa. Subordinava facilmente as convicções às conveniências políticas do momento. Um bulldozer quando queria atingir os seus objectivos. Mas a gente comum gostava dele e ele gostava da gente comum. Foi o primeiro Presidente a pedir perdão aos judeus de França pêlos crimes de Vichy em nome da República francesa.
COMENTÁRIO:
Vieira, 26.09.2019:
4 -No final do anos 90 são trazidos a público vários casos sobre o financiamento do partido que lidera, o RPR, que acumula com a autarquia da capital francesa. Mas como está em funções presidenciais não só tem imunidade como pode recusar, como fez, prestar declarações aos magistrados. Uma vez saído do Eliseu, em 2007, Chirac é ouvido pelos tribunais sobre o processo de empregos fictícios na Câmara de Paris, como testemunha. Mas mais tarde passou a arguido, acusado de "desvio de fundos públicos". O julgamento decorreu em 2011, ao qual não compareceu por razões de saúde. Em 15 de dezembro de 2011, Jacques Chirac foi condenado pelo Tribunal Penal de Paris a dois anos de prisão suspensa. É a primeira vez que um antigo presidente é acusado, julgado e condenado após o seu mandato.
3 - Condenado pela justiça Edwy Plenel, fundador do Mediapart, site francês de jornalismo de investigação, alertou: "Perante o dilúvio de homenagens extasiadas a Chirac, lembre-se que o antigo presidente foi considerado culpado de quebra de confiança, desvio de fundos públicos e apropriação ilegal de capitais."
2 - "Apesar de todas as divergências que pudéssemos ter tido com Jacques Chirac, ele era um grande amante do ultramar e o presidente capaz de se opor à loucura da guerra no Iraque, retomando a tradicional posição de equilíbrio e diplomacia de França", escreveu Marine Le Pen. Portanto este grande democrata era um colonialista convicto aplaudido pela extra-direita.
1 -Nascido em 1932 em Paris, Jacques Chirac testemunhou os horrores da Segunda Guerra e a ocupação nazi. Comunista nos anos 50, abandonou o que chamou de "sectarismo" do Partido Comunista e voluntariou-se, em 1956, para a guerra na Argélia e foi um fervoroso apoiante do general De Gaulle (isto quando a extrema direita participa activamente foi contra a Guerra de independência da Argélia e assassinava activistas políticos em Franca). A sua carreira política começou nos anos 60 e foi mudando de agulha ao longo dos tempos. Gaullista e eurocéptico nos anos 70, advogou o modelo liberal de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 80, antes de se tornar um defensor da coesão social nos anos 90. Alvo de fortes críticas por ter autorizado ensaios nucleares na Polinésia Francesa em 1995.