quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Paralelismos contestados



Nem sempre com muita lisura. Apenas transcrevo dois comentários. Teresa de Sousa conta os casos servindo-se das suas fontes informativas que parecem idóneas: “The Economist” e “Financial Times”. Discorda, naturalmente do que se passa  - no Reino Unido como nos EUA – preocupada, como todos nós, que vivemos o que vemos e não gostamos.
OPINIÃO: Trump e Johnson, a mesma luta
O risco é o mesmo nos dois grandes bastiões da democracia liberal: dar a vitória aos populistas.
TERESA DE SOUSA   PÚBLICO, 29 de Setembro de 2019
1  É absolutamente irresistível a última capa da Economist, mais uma daquelas que a revista britânica nos costuma oferecer e que têm o condão de contar uma história completa. Desta vez, a revista recorre a duas figuras da Alice no País das Maravilhas para sublinhar um facto tão evidente como preocupante: a similitude e o paralelismo dos acontecimentos políticos no Reino Unido e nos Estados Unidos nos últimos três anos. “Twitterdum and Twaddledee”, Trump e Johnson no papel dos dois irmãos gémeos que andam sempre juntos.
Não são boas as notícias que nos vêm do mundo anglo-saxónico, que teve uma influência decisiva na construção da ordem internacional liberal desde o pós-guerra e serviu de referência às democracias liberais. É dele que nos chegam as piores notícias sobre a vaga populista que se apoderou do mundo. Pode comparar-se Boris Johnson a Donald Trump? Pode comparar-se a crise da democracia americana à crise da democracia britânica? Há alguns meses, talvez fôssemos tentados a responder que não. Hoje, a resposta arrisca-se a ser diferente.
Voltemos à Economist. “No dia 24 de Setembro, o dia em que se encontraram em Nova Iorque, o Presidente americano e o primeiro-ministro britânico, dois expoentes do novo populismo, falharam perante as instituições dos seus países.” A coincidência é notável. Nesse dia, em Washington, Nancy Pelosi anunciava a abertura de um processo de impeachment a Donald Trump, enquanto, em Londres, o Supremo Tribunal declarava ilegal a decisão de Johnson de “suspender” o Parlamento por cinco semanas. No caso dos EUA, a decisão de Pelosi tornou-se praticamente inevitável, mesmo que a poderosa speaker da Câmara dos Representantes se tivesse oposto a ela durante muito tempo, considerando que serviria na perfeição a estratégia de radicalização e de vitimização do Presidente e que seria inútil, porque acabaria por chumbar no Senado, que tem a última palavra. O caso contra Trump “é muito mais sério do que um arrombamento [de instalações do Partido Democrata para roubar informação com o conhecimento de Nixon] ou um caso amoroso [de Clinton com uma estagiária da Casa Branca]”. Se se provarem os factos, que o Presidente nem sequer nega, isso significa que Trump “subverteu o interesse nacional para conseguir uma vendeta política”, citando ainda a revista britânica. O Presidente americano chegou a suspender sem justificação a decisão do Congresso sobre uma ajuda militar de 400 milhões de dólares a Kiev, fazendo dela moeda de troca para encontrar “munições” contra o vice-presidente de Obama que, por sinal, é o candidato democrata mais bem posicionado para derrotá-lo em 2020. “Dá-me qualquer coisa escabrosa sobre Joe [Biden] e eu dou-te em troca armas e dinheiro.” O caso ultrapassa todos os limites e é muito simples de entender, ao contrário de outros (muitos) escândalos em que Trump está envolvido, a começar pela preciosa ajuda do Kremlin para vencer as presidências de 2016.
Hoje, já se conhece com muito mais pormenor o modus operandi de Moscovo quer nos EUA, quer na Europa para influenciar a opinião pública a favor dos seus interesses (e dos políticos que melhor os podem servir), recorrendo a meios electrónicos sofisticados, nomeadamente através das redes sociais, para espalhar notícias falsas e financiando os partidos extremistas. Como a Economist ou o Financial Times ou a generalidade da imprensa de referência americana sugerem, Nancy Pelosi foi obrigada a desencadear o processo de impeachment pela razão simples de que Trump passou uma linha a partir da qual não o fazer seria aceitar o “vale tudo” na vida política americana. “Recusar um processo de impeachment a Trump abriria um precedente para futuros presidentes: qualquer coisa ao mesmo nível ou igual ao que fez o 45º Presidente passaria a ser politicamente aceitável”.
2. Pelosi disse muito simplesmente que “ninguém está acima da lei”. No mesmo dia, quase à mesma hora, Lady Brenda Hale, que preside ao Supremo Tribunal britânico, declarava ilegal (por unanimidade dos onze juízes) a decisão do primeiro-ministro de suspender por cinco semanas o funcionamento do Parlamento britânico exactamente com o mesmo argumento. A juíza Hale limitou-se aos factos e ao costume constitucional britânico, considerando que “ninguém está acima da lei” e citando uma decisão judicial de 1611: “O Rei não tem nenhuma prerrogativa, a não ser aquela que a lei do país lhe permite”. Johnson não apresentou nenhuma razão compreensível para a suspensão de cinco semanas do Parlamento (até ao dia 14 de Outubro, véspera da cimeira europeia em que tudo será decidido sobre o “Brexit”). O Parlamento foi imediatamente reaberto.
Johnson, como Trump, atacou a decisão do Supremo Tribunal, os seus fiéis acusaram-no de contrariar “a vontade do povo”. A estratégia do chefe do Governo é precisamente essa: o Parlamento, os tribunais, a imprensa, quem quer que se oponha à sua vontade de cumprir o “Brexit” no dia 31 de Outubro, com ou sem acordo, está a impedir que se cumpra a “vontade do povo”. É a mesma estratégia de Trump: a radicalização extrema da vida política, esvaziando qualquer solução de compromisso e acusando qualquer obstrução do Congresso à sua vontade – seja ela construir um muro na fronteira com o México ou recusar-se a apresentar a sua declaração de rendimentos – como uma manobra contra o povo. A democracia representativa contra a democracia referendária.
3. A imprensa de referência britânica chama a atenção para a própria linguagem adoptada por Johnson e pelos deputados conservadores mais exuberantes e mais radicais: “rendição” a Bruxelas e “traição” ao povo, são duas palavras constante no seu discurso para classificar os defensores do adiamento da data de saída para que possa haver um acordo ou quem teime em defender a permanência do Reino Unido na União Europeia. A lei que o Parlamento aprovou que obriga a adiar o “Brexit” caso não haja um acordo é a “lei da rendição”. A linguagem contundente rasando a grosseria utilizada pelo primeiro-ministro na quarta-feira passada, quando teve de se apresentar em Westminster para a habitual sessão de perguntas ao Governo, é, mais uma vez, semelhante à linguagem a que Trump já nos habituou. Esperar-se-ia que alguém que foi educado em Eton e em Oxford tivesse um comportamento diferente. A doença do populismo manifesta-se com os mesmos sintomas.
4. A semelhança entre a deriva populista nas duas mais antigas democracias do mundo infelizmente não acaba aqui. Citando mais uma vez a Economist, o programa com que o Labour se vai apresentar às eleições representa “a plataforma política mais radical de qualquer líder britânico desde Margaret Thatcher”. Em sentido contrário, naturalmente. À leva de nacionalizações das grandes empresas, Jeremy Corbyn acrescenta a semana de quatro dias, a retenção de 10 por cento do valor das acções das empresas para entregar aos trabalhadores e o fim das escolas privadas. A lei não o permitiria e o custo de integrar 600 mil alunos no ensino público seria incomportável. Precisamente quando os britânicos precisavam de um Labour moderado e responsável para derrotar a deriva populista dos conservadores, deparam-se com a mesma deriva populista em sentido contrário.
Tal como no Reino Unido, a radicalização de Trump está a ter como reflexo a radicalização dos democratas. Uma maioria dos candidatos às presidenciais vem da ala esquerda do partido. Joe Biden, o candidato moderado que tem mantido a liderança nas sondagens e que facilmente derrotaria o Presidente, pode sair desgastado do escândalo ucraniano. Trump vai dizer todos os dias que apenas queria apurar eventuais actos menos próprios de Biden ou do seu filho. O impeachment tenderá a radicalizar ainda mais o debate, dando vantagem a Elizabeth Warren, a candidata que mais se aproxima de Biden nas sondagens. O programa da senadora do Massachusetts tem a vantagem de dar particular ênfase ao combate à “corrupção” que grassa em Washington D.C., onde dominam os políticos dispostos a “vender-se aos grandes interesses económicos”, mobilizando facilmente as bases eleitorais do partido, mas talvez não o eleitorado central. Trump falava de “pântano”. O risco é o mesmo nos dois grandes bastiões da democracia liberal: dar a vitória aos populistas.
COMENTÁRIOS:
Joao, 29.09.2019: E como eu referi mais abaixo as guerras americanas e de seus aliados, com os milhões de mortos e refugiados, já existiam antes do Trump e do Boris. A desigualdade galopante em que 1% dos ricos abocanha 82% da riqueza produzida nada tem a ver com o Trump ou o Boris. A "crise" financeira que nos forçou a pagar biliões que os ricos roubaram é anterior ao Trump ou ao Boris. A Cambridge Analytica e outras já andavam a manipular eleições pelo mundo fora a mando das "democracias liberais" antes do Trump e do Boris. Etc. Mas isso a Teresa "esquece", como é sua função.
manuel.m2, 29.09.2019: Quem vive em Inglaterra e se interessa pela política assiste atónito à destruição deste país outrora conhecido como a pátria do fair play, do respeito pela tradição democrática e pelos adversários. Tudo isso acabou: Agora quem, no Parlamento ou fora dele se opõe ao Brexit, com ou sem acordo com a UE, leva o labéu de “traidor” ou “colaborador”, (como se dizia dos que colaboravam com os nazis durante a ocupação da França), e isto dito em pleno Parlamento e vindo da vociferante bancada dos Conservadores. Durante o debate no Supremo, que acabou por considerar ilegal a suspensão do Parlamento, Aidan O’Neill QC (Queen’s Council) falando pela oposição, disse de Boris aquilo que será eternamente lembrado: “A Mãe de todos os Parlamentos foi silenciada pelo Pai de todas as mentiras”.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Legumes e história



Dia Mundial do Vegetarianismo e uma lição de História que gostei de saber. Vegetarianismos … extremismos, malabarismos, fanatismos, equilibrismos…
Est modus in rebus, indeed!
PÚBLICO, 1 de Outubro de 2019
Vegetarianismo. Ou a abstenção do consumo de carne e peixe. O que muitos ainda consideram uma moda tem, na realidade, acompanhado uma grande parte da história da Humanidade e é transversal a inúmeras sociedades e culturas ao longo do tempo, remontando a épocas anteriores a Cristo, possivelmente à tradição filosófica indiana ou à Grécia antiga.
Muitos reconhecerão, certamente, o nome Pitágoras de Samos, o filósofo e matemático grego que viveu no século V a.C. e que ficou, sobretudo, conhecido pelo seu célebre Teorema de Pitágoras, aprendido por todos os petizes na escola, e que ainda hoje nos ajuda a descobrir as hipotenusas e a projectar os nossos edifícios. Mas poucos saberão que foi também ele, provavelmente, um dos primeiros proponentes do vegetarianismo clássico, enquadrado na sua visão da transmigração das almas, ou seja, na crença de que todos os seres vivos possuíam almas, que migravam de um corpo para o outro.a a publicar várias edições de uma revista designada O Veg
Até meados do séc. XIX, o nome do filósofo grego passou a estar associado a todos aqueles que optavam por não consumir carne de animais, ou seja, os “Pitagóricos” — assim passaram a ser designados. Alguns dos quais são nomes de vulto, facilmente reconhecidos, como Leonardo da Vinci, Percy Shelley, Leo Tolstoy, Alexander Pope, Henry Salt, George Bernard Shaw, entre outros.
A palavra vegetariano era inexistente no léxico popular até essa altura, sendo que alguns até utilizavam o conceito “anti-carnívoro” para designar alguém que não comia carne. Até que o termo surgiu pela primeira vez em publicações do século XIX e foi incorporado pioneiramente no vernáculo inglês. Apareceu inicialmente em formato impresso na edição de Abril de 1842 da revista The Healthian e passado pouco tempo a primeira sociedade vegetariana surgia na Inglaterra, em 1847, abrindo portas para que muitos outros colectivos e organizações despontassem um pouco por todo o mundo.
Esta terminologia era o produto da justaposição das palavras inglesas “vegetable" e “arian". O termo “vegetable" remete para o reino vegetal, como se intui facilmente, ou seja, para alimentos vegetais. Já o termo “arian” é um sufixo utilizado frequentemente para conotar com uma prática ou uma doutrina, conforme é o caso também de “proletarian”, ou seja, proletariado, ou  “librarian”, um bibliotecário.
Em Portugal, o conceito começou a popularizar-se com a criação da Sociedade Vegetariana de Portugal, fundada pelo médico Amílcar de Sousa em 1908, e que estava sediada na cidade do Porto. Esta instituição viria a publicar várias edições de uma revista designada O Vegetariano, entre 1909 e 1915, a qual continha diversificados artigos, ilustrações e receitas vegetarianas; estas edições ainda hoje podem ser encontradas em algumas bibliotecas. Impulsionado por adeptos da alimentação vegetariana e do naturismo, a associação já contava com mais de 3000 associados em 1914, atestando à popularidade crescente desta forma de alimentação.
Com o intercalar do período salazarista, a alusão ao vegetarianismo passou a ser escassa e os movimentos perderam alguma visibilidade pública. Não seria por acaso, pois Salazar considerava o vegetarianismo como uma alimentação “dos pobres”, promovendo o consumo exacerbado da carne. Existiu uma associação promotora do vegetarianismo entre as décadas de 1960 e 1980, a qual se extinguiu entretanto.
Foi necessário chegar-se ao século XXI para que resurgissem instituições ligadas com o vegetarianismo em Portugal, como a Associação Vegetariana Portuguesa, fundada em 2006, e o Centro Vegetariano, fundado em 2008. Presentemente, o conceito de vegetarianismo goza de uma grande popularidade, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo. De Pitágoras a figuras públicas actuais como Yuval Noah Harari, Leonardo Di Caprio, Moby, Lewis Hamilton, Natalie Portman e, por cá, João Manzarra ou Rita Blanco, parece que os “pitagóricos” são uma tradição que está para ficar e que a sua existência se tornará cada vez mais importante, diante dos desafios civilizacionais que nos são colocados no presente, seja ao nível da sustentabilidade, do bem-estar animal ou da saúde das populações.


Três tristes textos



Histórias do presente, do passado próximo, do antigamente … Tudo o que somos e fomos, em síntese no Público de 27/9/2019, e nas evocações em torno de um Jardim da Estrela, que também atravessei muitas vezes, quando ia à Editora Santelmo, do outro lado, em breve extinta, que se atreveu a publicar-me “Cravos Roxos” naquela altura – 1980 - de muita explosão libertária, desfavorecedora de quaisquer intuitos contestatários. Um país que prosseguiu, com muitos casos e muitas figuras da nossa tragicomédia, trazidos à baila por João Miguel Tavares, as mais recentes, por Francisco Teixeira da Mota, as mais antigas, (em referência literária), e uma conversa social, contada por Salles da Fonseca, trazendo o histórico de um Jardim, sem nada a ver com o histórico de um filme gracioso e romanesco, que tantas vezes víamos, com o encanto de quem pouco frequentava o cinema, e se deixava enlevar pela beleza e a graça dos filmes portugueses dos primórdios. E a picardia habitual de SF, nos seus remoques de economista, na trivialidade de um encontro evocativo, lembrando tempos que foram, no sentimento triste da mudança…

I -A campanha está chata. O que é óptimo. E péssimo
Tenho a triste sensação de que nada do que é realmente importante tem sido discutido (vamos ser optimistas: até agora) nesta campanha eleitoral, nem mesmo quando as coisas realmente importantes vêm esbarrar com ela.
JOÃO MIGUEL TAVARES
PÚBLICO, 27 de Setembro de 2019
Que tal está a correr a campanha eleitoral até ao momento? De forma extremamente civilizada – o que seria uma coisa extremamente aborrecida de se dizer, não fosse vivermos num planeta político onde a gritaria impera. Muito em breve, iremos votar em candidatos que falam com bons modos e dispensam energizar as bases com declarações desvairadas. Eis um facto que não pode ser menorizado, por mais que me custe.
E porque é que custa? Porque a modorra política nacional também não é solução para coisa alguma. Sim, é óptimo não termos Donald Trump em São Bento; sim, é excelente que o maior admirador de Jair Bolsonaro não passe de André Ventura; sim, é magnífico que a extrema-esquerda tenha passado a ser social-democrata; sim, é extraordinário que o líder do Partido Comunista seja um avozinho a quem apetece dar abraços. Tudo isto é supimpa e mereceria celebração efusiva, não fosse o reverso da medalha ser uma profunda falta de debate e de reflexão sobre os problemas mais graves do país.
Tenho a triste sensação de que nada do que é realmente importante tem sido discutido (vamos ser optimistas: até agora) nesta campanha eleitoral, nem mesmo quando as coisas realmente importantes vêm esbarrar com ela. Apenas dois exemplos: o caso das golas e o caso de Tancos. O caso das golas veio denunciar aquilo que são estruturas de corrupção instaladas no Estado, envolvendo empresas amigas e o mundo autárquico, com as suas ligações ao governo central. O que disse Rui Rio sobre isso? “Não seria ajustado chamar o caso das golas à campanha.” O caso de Tancos denuncia as fragilidades institucionais de um Estado depauperado e incompetente, em que qualquer pilha-galinhas consegue roubar material de guerra e negociar a sua entrega, perante a total ausência de sentido de Estado por parte de altos funcionários civis e militares. O que disse Catarina Martins sobre isso? “Não ajuda a ninguém que o caso Tancos seja usado na campanha.”
Não ajuda a ninguém? Peço desculpa, a mim ajudava. Os políticos da colheita 2019 são tão pachorrentos e delicados que fogem a qualquer polémica que vá além de números do INE, seja por acharem que os eleitores não gostam de confusão, seja porque temem os seus próprios telhados de vidro. É uma triste forma de embalar o país, que nunca chega a acordar para falar dos seus problemas mais fundos e mais graves. Se nem em campanha eleitoral há vontade de falar do que mais importa, quando é que vai haver? Esta é fácil: nunca.

II - OPINIÃO: A corrupção em Portugal de A a Z
O livro Corrupção – Breve história de um crime que nunca existiu, do jornalista Eduardo Dâmaso, dá-nos uma radiografia que chega a ser dolorosa.
FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA
PÚBLICO, 27 de Setembro de 2019
Esta citação do recém-publicado livro Corrupção – Breve história de um crime que nunca existiu, do jornalista Eduardo Dâmaso, introduz-nos à fantástica história (jornalística) dos últimos 40 anos de Portugal no campo da corrupção, terminando com um Glossário dos casos que foram abalando o regime que tem como primeira entrada “Aviões Airbus”, a que se segue “BPN” e termina com “Portucale”, sendo a penúltima entrada “Operação Furacão”.
A descrição da forma como, ao longo das já quatro décadas do regime democrático, o combate (ou a falta dele) à corrupção evoluiu, o poder político, partidário e económico se foi relacionando com o mundo da Justiça e as investigações criminais foram vingando ou, sobretudo, soçobrando, é recheada de nomes, casos e exemplos que vale a pena recordar. Para o autor do livro, são cinco as “expressões mágicas” para compreender a corrupção no nosso país: “fundos comunitários, perdões fiscais, facturas falsas, obras públicas e prescrições judiciais”. É certo que é uma radiografia, às vezes, dolorosa: “(Durante três décadas) funcionava assim: faziam-se buscas para recolher informação, a documentação amontoava-se e os processos ficavam parados, por vezes uma década, na fase da investigação, acabando por prescrever. A Polícia Judiciária e o Ministério Público não dispunham de meios técnicos nem humanos, nem de leis apropriadas, e limitavam-se a desenvolver uma linha de investigação arqueológica, uma autópsia judicial.”
O livro enquadra, com pormenores, as grandezas e misérias de todos os nossos casos investigados e mediatizados de corrupção e das suas ligações com a política das últimas décadas: “O comportamento político de Portas na negociação dos submarinos é fortemente criticado no despacho de arquivamento do Ministério Público. Nomeadamente, a questão do preço, que, tendo sido decidido em Conselho de Ministros, não era final. E que, não sendo final, tinha o tal mecanismo contratual que previa uma actualização diária”; ou “No processo Face Oculta, ficou igualmente bem vincada para a história a já referida omissão da Justiça aos níveis mais elevados. Uma omissão que tem a assinatura do então procurador-geral da República, Pinto Monteiro, do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento. Pelo punho destes dois magistrados foi impedida, pura e simplesmente, a investigação do negócio PT/TVI, pelo qual passava a compra da TVI e o controlo da esmagadora maioria dos títulos da imprensa português. Sócrates queria ter tudo na mão”.
Os capítulos e as histórias aí narradas, algumas bem recentes, sucedem-se ao longo das 342 páginas: “O BPN foi, também, o primeiro símbolo trágico da incapacidade de o Banco de Portugal de fazer uma verdadeira supervisão bancária que, pela fiscalização preventiva, evitasse desastres maiores, como os que vieram a verificar-se mais tarde com o BES e quase todo o sistema financeiro”; ou, mais à frente, “quando Joe Berardo vai a uma comissão de inquérito do Parlamento gozar com os deputados e dizer que não tem dívidas (...), isso não é um episódio caricato. Berardo sabe que pode dizer o que quiser. O seu seguro de vida está nos segredos na cumplicidade, no que conhece sobre todos os outros – políticos, banqueiros, empresários – com quem partilhou a estratégia de ataque à Cimpor, à PT e, em particular, ao BCP, que deu início ao maior ciclo de politização da banca portuguesa de sempre, entre 2005 e 2011. Isso chama-se o poder da chantagem”.
Por último, nesta obra, cuja leitura naturalmente se recomenda, a aversão dos portugueses às maiorias absolutas encontra aqui uma explicação simples: “As maiorias absolutas de Cavaco Silva e de José Sócrates (...) são mesmo casos brutais, no que comportam de evidência sobre formas delinquentes de gestão do poder político.

HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO30.09.19
A cena passa-se numa das esplanadas do Jardim da Estrela, em Lisboa, onde eu estava com a minha mulher. Lanchávamos…
Isabel – Olá Henrique! Gosto muito de te ver ao fim de tantos anos.
Eu Olá Isabel! Também gosto muito de te ver. Apresento-te a minha mulher, a Graça. E a si, Graça, apresento-lhe a minha antiga colega de Liceu, a Isabel que era conhecida por «Isabel II» já que havia outra que era mais alta e era conhecida por «Isabel I». Senta-te aqui connosco. Que vais tomar?
Isabel, doravante a II Posso tomar um café.
Graça – Só um café? Mande vir mais alguma coisa, uma torrada, um bolo…
Isabel II – Muito obrigada, Graça, mas fico-me só pelo café que é para que a balança não se queixe muito.
Pedido o café, expliquei à Graça…
Eu – A «Isabel II» também é economista. A «I» não acabou o curso; e Você conhece-a porque ela é sua prima.
Graça – Ah, sim! Pela descrição, Liceu, alta e prima, já sei perfeitamente de quem se trata.
Isabel II – E foi a outra Isabel que vos apresentou, sendo sua prima?
Graça   Não, até já estávamos casados quando descobrimos que o Henrique a conhecia do Liceu.
Eu – E tu costumas vir aqui ao Jardim da Estrela?
Isabel II Muito raramente. Só passo por aqui quando venho a casa duma amiga que mora ali daquele lado e quando estaciono o carro do lado contrário do Jardim. Assim, atravesso por aqui, faço um pouco de horas para chegar a casa da minha amiga e sempre é um bom pretexto para ver duas coisas que acho lindíssimas: o coreto e aquele antigo pavilhão de chá que agora é um infantário da Misericórdia.
Graça – Sim, também gosto muito dessas construções. Não sabia que o pavilhão tinha sido casa de chá.
Isabel II – Foi o que me disseram mas eu não fui verificar. Na Internet deve haver informação. Chegando a casa vou procurar.
Eu Eu ouvi dizer ou li algures que era o chamado «pavilhão chinês». O que é que isso queria dizer…? Admito perfeitamente que fosse um salão de chá. E lembram-se do «Leão da Estrela»?
Graça – Isso foi um filme com o António Silva…
Isabel II - … e com o Vasco Santana…
Eu Sim, também. Mas o que deu o nome ao filme foi uma história que li há pouco tempo sobre um tal Paiva Raposo que terá tido alguma actividade na exploração africana e que trouxe um leão que ofereceu ao Jardim. Tudo isto se passou em pleno séc. XIX e eu julgo que ainda não existia o «Jardim Zoológico de Lisboa». Então, este leão era uma enorme atracção e assim foi desde que aqui chegou até que se finou. Não consegui saber se morreu de velho, de gordo ou de neura. Pobre bicho – enjaulado toda a vida e vítima dos votos de celibato que alguém fez por ele…
Graça Está então visto que o nome do filme nada tinha a ver com esse leão e devia ser um sportinguista que morava por aqui, na Estrela….
Isabel II - … e que queria ir ao Porto ver um jogo. Já não sei mais nada da história a não ser que o motorista era o Artur Agostinho
Eu – Quando éramos miúdos, achávamos esses filmes muito maus, só gostávamos dos estrangeiros mas hoje achamos tudo isso muito giro. E outra coisa que li há dias foi que um Visconde qualquer que deu quatro Contos para os acabamentos deste jardim, foi promovido a Conde pela Rainha D. Maria II.
Isabel IIQuatro Contos para acabar o jardim e com direito a promoção a Conde. Fantástico! O que é o valor do dinheiro…
Eu – Isabel: sobre essa matéria sabes tanto ou mais do que eu. Que políticas monetárias foram seguidas desde o tempo de D. Maria II? E os Orçamentos do Estado? Havía-os a sério ou à força da espadeirada? Quantas vezes foi a Fazenda à glória desde essa época, quantas «troikas» tivemos?
Isabel II – Julgo que qualquer historiador económico, no fim do trabalho, terá que passar por um psicólogo ou mesmo por um psiquiatra que o reponha com alguma normalidade. Felizmente, não foi a isso que me dediquei; andei pela Cooperação. Mas agora, meus queridos, são horas de ir andando.
Feitas as despedidas, ficámos os dois a ouvir a passarada a regressar aos ninhos, antes do pôr do Sol. Posto este, pagámos a conta por muito mais dinheiro que o necessário para acabar o jardim no tempo da Rainha e não fomos promovidos a Condes.
Setembro de 2019
COMENTÁRIO:
Adriano Lima 30.09.2019: Li este diálogo com muito gosto. Assim como quem não quer a coisa, aflorou aspectos curiosos das vivências pessoais e até deu uma bicada na história.
Deixei de passar pelo Jardim da Estrela desde que desactivaram o Hospital Militar Principal que funcionava naquele vetusto edifício.