Ana Sá Lopes, no Editorial
de 20/8, e na linha de muitos oposicionistas a uma política de resgate de
contas, preferindo continuar a mamar devagarinho do auxílio alheio, condena o
facto, tal como deveria ter condenado Passos
Coelho, em 2015. Centeno, pelo
contrário rejubila com a saída da Grécia da pata europeia financeira, e não
posso deixar de citar a referência do Público
a António
Costa, do mesmo critério de honestidade, naturalmente com o sacrifício
das gentes e a condenação dos Varoufakis
motards da diversão sem preconceitos: «O primeiro-ministro português, António Costa, felicitou esta
segunda-feira o seu homólogo grego pelo fim dos programas de assistência à
Grécia, defendendo a reforma da zona euro como a "única via sustentável"
para evitar futuras crises económicas: «A Grécia, o país europeu
mais atingido pela crise económica e financeira, foi o primeiro e último a
pedir assistência financeira – e o único "reincidente" –, e a
conclusão do seu terceiro programa assinala também o fim do ciclo de resgates a
países do euro iniciado em 2010, e que abrangeu também Portugal (2011-2014),
Irlanda, Espanha e Chipre.Face
às características únicas da (tripla) assistência prestada ao país, e às
fragilidades que a sua economia ainda revela, a Grécia será agora alvo de uma
"vigilância pós-programa reforçada", com missões de três em três
meses, para garantir que Atenas prossegue, nesta nova era pós-resgates, uma
"política orçamental prudente".»
Ana Sá Lopes prefere desfazer na teia de Penélope,
motivada esta pela crença no regresso do seu Ulisses, preferindo a
editorialista, ao que parece, o empanturramento dos pretendentes da fiel
esposa, que lhe iam destruindo os bens do seu homem, ASL pouco exigente nas
questões de empanturramento, ao que parece, mesmo que seja à custa do trabalho
alheio. Um ponto de vista diverso, certamente, do de outros editorialistas que
a precederam, mais cordatos na questão do ressarcimento de dívidas, pese
embora, a perda de identidade partidária, como é o caso de Aléxis
Tsípras, forçado a seguir o programa imposto pela Troika. Como cá.
Mas prefiro transcrever pontos de vista de vários comentaristas mais amplos de pormenor.
EDITORIAL
Crise grega, um tear de Penélope
maldito
Esta segunda-feira, a Grécia sai finalmente do
programa da troika, mas não há nada para festejar. ANA SÁ LOPES PÚBLICO, 20 de Agosto de 2018,
Quando a crise financeira chegou à Grécia, o chefe do governo em 2010,
o socialista George Papandreou, anunciou ao mundo que o que estava para vir
seria uma odisseia.Foi. Natrágica odisseia, a Grécia sofreu feridas que
vão demorar anos a sarar e o sistema político desabou: desapareceu o partido
que fez de Papandreou primeiro-ministro, rosto do pedido de resgate — o PASOK.
E o Syriza, que ganhou as eleições afrontando o statu quo e o programa da troika, transmutou-se num partido
social-democrata mais ou menos igual aos outros, tornando-se o maior incómodo e
a maior derrota ideológica da família da esquerda europeia, de que ainda faz
parte.
Esta segunda-feira, a Grécia sai finalmente do
programa da troika,
mas não há nada para festejar. A chamada “saída limpa” obriga os gregos a superavits orçamentais que
poucos economistas consideram possíveis de atingir sem afundar ainda mais o
país, onde a taxa de desemprego está nos 20,1% — uma melhoria face ao máximo
histórico de 28% atingido em 2014, mas ainda assim uma situação de choque e
pavor.
Revistas
liberais como The
Economist esperam o pior para a economia grega das imposições
pós-troika das
instituições europeias —nomeadamente o Eurogrupo, presidido por um ministro, Mário
Centeno, que procede de um Governo apoiado por partidos da esquerda europeia,
primos-irmãos do Syriza mas sem responsabilidades governamentais.Curiosamente,
um ex-ministro de Passos Coelho, Miguel Poiares Maduro, assinou, em conjunto
com outros académicos, um texto intitulado “Como resolver o problema da dívida
grega”, em que se afirma que as medidas propostas pelo Eurogrupo para o período
pós-troika não
serão capazes de resolver o problema da sustentabilidade da dívida grega,
defendendo a sua reestruturação — ou “alívio”, numa linguagem mais agradável —
em determinadas condições.Oito anos depois do rebentar da
crise, a Grécia é um tear de Penélope maldito. Na Odisseia, Penélope desfazia o que tinha previamente
tecido para evitar o segundo casamento, acreditando no regresso de Ulisses.
Aqui, as instituições europeias insistem em desfazer um país em nome de uma
purificação quase mitológica, ainda que a tecelagem das medidas da troika tenha sido cumprida
por aqueles que juraram nunca o fazer. A troika sai da Grécia, mas a festa é nenhuma.
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