“Os passos imprime e traçana brancura do caminho…” É o caso destes textos de Salles da Fonseca, contando-nos coisas,
suavemente, mas com técnica certeira, como a neve que cai na tal balada do Augusto Gil, insistente e proporcionando vinco. Coisas que gostamos de saber, que
levam o traço suave do ensinamento e da filosofia de vida e de sociedade, com o
seu quê de leve ironia e muito aprazível para nós, hoje.
Que
Nietzsche se dedicava à música era tema meu desconhecido até ter começado a ler
a biografia escrita por Sue Prideaux com edição portuguesa do Círculo de Leitores, Abril de 2019. Pelos vistos, sentava-se ao
piano e lia à primeira vista qualquer partitura que lhe pusessem à frente e era
também reconhecido nos meios estudantis como um grande improvisador.
Estando
já na Suíça a dar aulas de Filologia Clássica na Universidade de Basileia, teve
também oportunidade de se dedicar à composição. A amizade próxima que o ligava
ao casal Wagner também o incentivaria nesse sentido.
E
porque queria saber o que o Mestre pensava da sua obra, decidiu certo Natal
oferecer uma composição a Cosima, mulher de Wagner e filha de Liszt, que
se prontificou a tocá-la em conjunto com Hans Richter pois que se tratava duma
peça a quatro mãos.
Mas
as relações de Wagner e Nietzsche vinham azedando pois o compositor era
totalmente germanófilo e o filósofo era a favor da Cultura Universal cuja sede
era então em Paris. Mas, para além desta questão político-cultural, havia outro
motivo de azedamento das relações entre os dois homens: querendo Nietzsche
publicar o seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, enviou o manuscrito ao editor de Wagner sem nada lhe dizer, o
que levou o compositor a uma enorme irritação. E esta, sim, mais do que a
discórdia política, foi a razão do muito mau feitio de Wagner para com
Nietzsche naquela época. Mas, mesmo assim, o filósofo foi convidado para
passar o Natal com os Wagner e, pelos vistos, também com o maestro Richter.
Retomando
o fio, transcrevo da pág. 123 e seg. da obra citada:
«Nietzsche
considerava-se um compositor com algum talento e sentia-se exultante com a
expectativa da admiração de Wagner. Quando Hans Richter e Cosima Wagner se
sentaram finalmente ao piano de Tribschen para tocar o dueto para Wagner, o Mestre deu sinais de impaciência durante
os vinte minutos que demorou a execução. A peça era típica das composições
de Nietzsche neste período, um «pot pourri» de Bach, Schubert, Liszt e
Wagner. Desconexas, demasiado
emotivas e curtas no desenvolvimento, as suas composições despertam
invariavelmente a ideia de que, caso tivesse vivido até mais tarde, talvez
pudesse ter conhecido o êxito como compositor de música de cena para o cinema
mudo. No entanto, por muito que rissem em privado, Wagner e Cosima calavam
a fraca opinião que tinham da peça. Ela
agradeceu-lhe a «bela carta» que acompanhava a prenda, mas não fez qualquer
referência à música em si.»
Posto o que a filosofia ficou
com mais tempo na vida de Nietzsche.
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